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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A Pasionaria anã e a grande Rosa


Dias atrás me deparei no Twitter com alguém que se identifica como a Pasionaria. De imediato, passei a brincar com a fantasia da pessoa. Ela se dizia feminista, mas ao mesmo tempo nega essa condição ao adorar o bezerro de ouro do stalinismo espanhol, Dolores Ibarruri, uma das coveiras da revolução na terra de Cervantes.

Manuel Vazquez Montalban, escritor de esquerda dos mais prolíficos, criador do imortal detetive Pepe Carvalho, escreveu uma pequena obra sobre a velha stalinista basca chamada "A Pasionaria e os sete anõezinhos". Ele próprio relata que houve uma inflexão de ânimo no meio do trabalho de preparação e redação do livro sobre Dolores Ibarruri. Vazquez confessa que ficou chocado com trechos da história da basca. Para não magoar a filha de Dolores e demais pessoas que entrevistara, ele passou uma versão amenizada dos fatos. Nós sabemos o que Vazquez atenuou. Certamente a traição continuada à causa revolucionária, especialmente durante a luta dos republicanos contra o fascismo franquista, entre 1936 e 1939. A vida subserviente e calada diante dos horrores de Moscou, quando Stalin elimina fisicamente toda a velha guarda bolchevique em nome do triunfo ao culto à sua própria personalidade.

A Pasionaria como ícone revolucionário de esquerda (ou feminista) é uma fraude grosseira. A começar pelo codinome altissonante e pretensamente poético. Risível. Nada disso é genuíno, entretanto. Filha de um mineiro carlista - devoção católica ultramontana -, na juventude, ele fazia parte de um círculo de oração chamado La Pasión de Jesucristo. Tinha veleidades de jornalista, o que acabou se cumprindo dentro do PC espanhol, e assinava seus textos - candidamente - como La Pasionaria. Ao entrar para o PC, mantém a alcunha, mas cuida de ocultar a sua origem religiosa de extrema-direita.

A rigor, não quero tratar de uma coisa desagradável como a Pasionaria. Esse espaço aqui é curto e deve se ocupar de personagens mais relevantes e que não expressem a vilania humana mascarada pelo manto ideológico da farsa stalinista.

Acho curioso que alguém prefira chamar-se de Pasionaria em detrimento, por exemplo, de Rosa Luxemburgo, esta sim uma autêntica revolucionária e um exemplo de conduta à mulheres, homens, a feministas e a não feministas.

Hannah Arendt, outra mulher admirável (e que jamais foi marxista), prestou uma grande homenagem a Rosa. Trata-se de um pequeno texto publicado em meio a outros tantos ensaios, onde ela destaca a vida e o pensamento da revolucionária polonesa. Em pouco mais de vinte páginas, Hannah define uma grande personalidade do século 20, brutalmente assassinada em 1919, num episódio nebuloso e que contou com a anuência dos social-democratas alemães, então no poder. Rosa era um estorvo tanto para os social-democratas quanto para o PC alemão.

Depois de provocar a Pasionaria fake do Twitter, fui reler o texto de Hannah Arendt sobre Rosa Luxemburgo (foto). Recomendo. Ele faz parte da pequena obra "Homens em tempos sombrios" (Men in dark times). No posfácio da edição brasileira consta um artigo de Celso Lafer, o conhecido tucano, sobre a biografia de Hannah Arendt. Os tucanos, diga-se de passagem, tentaram, anos atrás, subsumir o pensamento rico, vigoroso e radicalmente democrático de Arendt, mas não obtiveram sucesso, haja vista a direção regressista e protofascista que adotaram nestas eleições de 2010.

Na famosa polêmica com Lênin, e que a ideologia stalinista sempre minimizou, porque aí residia uma das gêneses do problema, Rosa já vaticinava o fracasso dos bolcheviques. Na revolução russa de 1905, começaram a surgir divergências de fundo, pelo menos nos temas básicos: a questão nacional e o tema da organização como método.

Em 1916, Rosa oferecia um prognóstico severo à história do socialismo, no sombrio e lúcido panfleto A Crise da Democracia Socialista: "Enquanto existirem Estados capitalistas, enquanto, mais precisamente, a política imperialista universal determinar e moldar a vida interior e exterior dos Estados, o direito das Nações a disporem de si mesmas não passará de palavra vã, quer em tempo de guerra, quer em tempo de paz. Ainda mais: na atual conjuntura capitalista não há lugar para uma guerra nacional de defesa e qualquer política socialista que abstraia desta conjuntura histórica, que apenas se guie, no meio do turbilhão universal, pela ótica de um só país, estará desde o início destinado ao fracasso".

Rosa não fazia concessões a Lênin, aos bolcheviques e muito menos ao revisionismo menchevique. Criticava com energia a inconsistência de duas palavras de ordem, simultâneamente contraditórias: o centralismo democrático do Partido e o direito à autodeterminação das nacionalidades satélites da Rússia. Lênin, em 1914, havia lançado um panfleto intitulado Do direito das Nações a disporem de si mesmas. Rosa sustentava que havia oportunismo político na questão nacional defendida por Lênin.

Afinal, essas nações tinham interesses dominantes das burguesias locais e interesses não-dominantes do proletariado. Ela como polonesa e ativista política na Alemanha queria um processo revolucionário articulado em toda a Europa e não somente na Rússia, que era uma forma de diminuir o conteúdo da revolução, isolar e dividir o proletariado nos guetos nacionais, onde as derrotas seriam facilmente impostas pelas burguesias de cada país. Stalin, depois da morte de Lênin, seguiu à risca a política do socialismo em um só país, e a história teve o desenrolar que se lamenta. Fracasso sobre fracasso.

Aí entram os tipos e personagens que servirão de instrumento ao horror stalinista, e um destes instrumentos bisonhos foi justamente a Pasionaria basca. A derrota dos republicanos na Revolução Espanhola foi obra muito mais da traição dos comunistas espanhóis (manipulados remotamente desde Moscou) do que propriamente da vitória armada do franquismo ultramontano associado ao nazifascismo do eixo Berlim-Roma.

Estes acontecimentos não ocorreram ontem. São fatos sociais para os quais já temos análise teórica e explicação histórica. A coruja de Minerva já sobrevoou estes escombros históricos, incansáveis vezes. Quem ainda se engana ou se ilude com esse saldo histórico catastrófico é porque está enfeitiçado pela ideologia remanescente. Por esse motivo, tanto mais se justifica a estranheza que sinto ao me deparar com alguém que acenda incenso para Pasionaria e ainda desconheça a grandeza simples e autêntica de Rosa Luxemburgo - esta sim, uma feminista exemplar.

17 comentários:

Eliete disse...

Grande tributo à Luxemburgo. Concordo com você: o texto da Arendt sobre a revolucionária é admirável, assim como outros "perfis" do mesmo livro.
Só conhecia o Montalban "literário", se é que podemos dizer assim, dos livros com o Pepe Carvalho e seu incrível ajudante-cozinheiro. Esse texto sobre a Ibarruri foi publicado aqui? Qual a editora?
Abraço

Cristóvão Feil disse...

Não, Eliete, não foi publicado no Brasil.
É preciso importar da Espanha.
Abç.

CF

Rocco disse...

Enquanto isso, a Espanha segue discutindo esses personagens http://www.publico.es/espana/352792/el-pp-reconoce-que-el-nombramiento-de-carrillo-no-ha-sido-bien-acogido

Uma das características admiráveis de Montalbán é sua capacidade de rever posições, o que já fez muitas vezes. Além de ótimo autor de ficção, tem vários textos sobre política.

gustavo disse...

Vazquez esteve em Porto Alegre num dos Foruns Sociais Mundiais.

Morreu faz uns quatro anos.

gustavo disse...

ops....7 anos

JMelo disse...

So pra complicar um pouco - pasionaria- em espanhol é o nome da flor do maracujá

lidia z disse...

Grata pelo esclarecimento: uma mulher é uma mulher e outra mulher é outra mulher.pareceme que a Pasionaria é fruto da extraordinaria capacidade de mistificação dos PCs
mundo afora. Ela (a basca) poupou seu filinho da guerra civil, manténdo-le na URSS.

Anônimo disse...

Como sempre, concordamos no atacado mas discordamos no varejo. É interessante que os amantes da "revolução permanente" vira e meche voltem a revolver a história triunfante de quem diferentemente conseguia escrever um livro com o título "Minhas lutas". Procure em Lênin um "eu", um "meu" que seja. E assim reaparece Rosa, aquela que na maioria dos embates com Lênin se prestou a posar como musa do "esquerdismo, doença infantil do comunismo".
La Passionaria, a pp. Rosa, Prestes, Estaline, etc, são pessoas de seu tempo e circunstâncias. Lutaram e foram honestos e de boa fé. Escrever a história ou revistá-la olhando pelo retrovisor é comodismo e simplismo. Assim como os combatentes no século XIX tentaram assaltar os céus de Paris e fracassaram, também a revolução dos bolcheviques nasceu, cresceu e degringolou porque a reação e os esquerdistas de gabinete foram mais fortes.

armando do prado

Anônimo disse...

Complementando: esse tipo de discurso fica bem como um niilismo revolucionário à moda dos revolucionários do século XIX, como o irmão de Lênin, que aliás enviava santinhos para sua mãe até o final dos dias dela. E daí? Mudou algo na extraordinária e complexa vida do revolucionário?
Feil, na história a grosso modo tem apenas os que lutam e os que se omitem. Só. Ambas - Rosa e Passionária não se omitiram, ainda que uma atuasse de modo equivocado o tempo todo (vide os embates com Lênin).
E, finalmente, na história se aprende com erros e reconstrução, não com "se" e condicionais.

abraço, armando do prado

Rocco disse...

Armando

Engraçado, eu achei que era mais cômodo e simples não refletir, revisitar, repensar as coisas. Mas é só uma opinião... Agora, uma coisa não se discute, a única maneira de escrever história é olhando "pelo retrovisor" - ou não haveria história.
Acho saudável ver as coisas e as pessoas historicamente, mas é preciso poder fazer juízos, se não faremos o que? Jornalismo histórico "imparcial"?

Pobre Stalin, honesto e de boa fé. Hahaha, soa um pouco Tchecov teleológico.

Stalin foi um assassino, de gente e de projetos humanos.

Cristóvão Feil disse...

Um pouco antes de morrer, em janeiro de 1924, Lênin reconheceu a bravura e a justeza de Rosa. Tanto assim que recomendou que publicassem toda a sua obra na URSS.
Sabem quando que isto aconteceu? Nunca. Jamais.
O que achar de um regime personalista que censurou o próprio Marx, escondendo os Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie? Que censurou Hegel, Kant e até os gregos.
Essa história de "retrovisor" é conversa de botequim, por favor. Sejamos menos infantis.

Avelina Martinez Gallego disse...

Armando do Prado,
concordo com o seu escrito.
Qual é o desmérito de alguém ser de origem católica tradicional e ser uma líder revolucionária ( de seu tempo) que liderou a resistência franquista na Espanha?
A pendenga no Twitter com La Pasionária foi comigo, pois uso o nome La Pasionária.
Além da história oficial tenho, por conta de minhas origem espanhola, as memórias de uma família que teve vários membros assassinados pelo ditador Franco.
Querer discutir feminismo com as lentes de hoje focadas na história do início de século XX é um equívoco.
Dolores Ibarruri era de origem católica tradicional e teve uma atuação bastante revolucionária para o seu tempo e para a cultura em que foi criada.
Além disso tudo, cada um reverencia os personagens que bem lhe aprouver e ver nessa atitude reacionarismo ou uma vergonha para a causa feminista" como escreveu o companheiro no Twitter é procurar pelo em ovo, ou querer a polêmica pela polêmica.
Repito companheiro de polêmica: larga do pé da Pasionária, pois ela é um personagem que teve importância para a história da Espanha e serviu de exemplo para muitas mulheres espanholas.
patrulhadores ideológicos e homens que se julgam mais feministas que as mulheres "NO PASÁRAN!"
Saludos
La Pasionária.

Cristóvão Feil disse...

Dolores Ibarruri foi uma pilantra, oportunista e traidora da esquerda. Tudo nela foi fake. A frase "No pasarán!" foi plagiada do general Petáin que a usou na Batalha de Verdun, durante a Primeira Guerra. Depois, Petáin virou colaboracionista com os nazi e dirigiu o governo de Vichy.
Petáin e Ibarruri - tudo a ver.

beatriz disse...

Daqui a alguns anos, os revisionistas se encarregarão de colar o rótulo de traidor em Luis Ináci Lula da Silva.
Haja paciência e maturidade política.

Anônimo disse...

Graaaande texto Feil!!! Justa homenagem à grande Rosa Luxemburgo!!!

Um abração meu velho!!!

E parabéns pelo trabalho nesse ótimo blog!!!

Anônimo disse...

na linha de Jmelo ali em cima: só pra complicar um pouco: não é que vanderley luxsenbourg em duas carteiras de identidade (uma delas, pelo menos, possivelmente falsa) ostenta como nome de sua mãe: rosa luxemburgo? Cadê o jornalismo investigativo para dar conta desse mistério? quanto aos heróis do stalinismo, "cavaleiro da esperança" é coisa pouca.

Anônimo disse...

só pra complicar ainda mais: as duas carteiras de luxcsenbourg são da época da ditadura miitar, não era assim tão comum mas tinha gente que tinha duas, com o mesmo nome era mais raro...
Não sei se o espírito de natal (ou das renas)ataca nesse momento, mas o barão de itararé e stanislaw ponte preta iriam atrás da rosa mãe para fazer uma baita entrevista...

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