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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O mistério do tiroteio na Fabico


Ser pusilânime virou uma regra de conduta?

Recebo um e-mail me informando sobre um fato ocorrido na última segunda-feira no prédio da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), no bairro Santana, em Porto Alegre.

O mesmo fato foi objeto de notícia na edição de terça-feira (10) do jornal Zero Hora (leia aqui). O diário da RBS, entretanto, como é do seu feitio, contou da missa a metade, e a outra metade é ficcional.

Mas vamos ao relato de Maria (nome fictício da pessoa que me mandou a mensagem):

[...] Escrevo para o blog por que sei que o senhor ficará indignado com o que vem ocorrendo na Fabico, onde trabalho junto com várias outras mulheres. Somos profissionais de higiene e limpeza, trabalhamos para uma empresa especializada que presta serviços para a Ufrgs. [...]

Acontece que as mulheres que trabalham comigo estavam sendo assediadas por um guarda da segurança da Fabico, que pertence também a uma empresa contratada da faculdade. Esse guarda dava cantadas em todas as minhas colegas. Segunda-feira passada o marido de uma delas foi cedo da manhã dar um susto no guarda, porque ele estava sendo ousado com a mulher dele. O marido foi a faculdade e deu tres tiros no guarda, mas não acertou e acho que ele queria isso mesmo. Depois, o marido fugiu numa moto e o guarda deu dois tiros nele na rua Ramiro onde tinham muitos carros na sinaleira com a avenida Ipiranga. Foi um horror, todo mundo gritando sem saber o que estava acontecendo na real.

Estou escrevendo para o senhor saber da verdade. [...] No jornal saiu que era um assalto que tinha um mistério no caso, mas na verdade eu quero denunciar que enquanto as mulheres eram assediadas pelo guarda ninguém na faculdade foi capaz de tomar providências para punir aquele guarda e denunciar a safadeza dele. Ninguém, nem os alunos, nem os professores, nem a direção da faculdade. Muitos sabiam o que estava acontecendo, mas ninguém se colocou no nosso lugar de estar sendo humilhada por um cara que queria abusar das mulheres, usando a sua condição de guarda armado. [...]

Fiquei sabendo que só o professor Ongareti falou em aula sobre o abuso que estava acontecendo. O resto ficou em silêncio como se isso estivesse acontecendo em Marte. Gostaria que o senhor divulgasse esse nosso problema e alertasse para o descaso de gente que poderia ter nos ajudado a tempo. [...]


Obrigado,
Maria

.................................

São os "fascismozinhos ordinários" que referimos aqui por ocasião do comentário sobre os rapazes misóginos da Uniban (ver post mais abaixo).

Um guarda armado comete assédio sexual em série, dentro da Fabico, próximo a alunos, alunas, professores, professoras, e da direção da Faculdade e nada acontece. Um marido enfurecido comete um quase desatino e foge, tiroteio na via pública, pânico nos transeuntes, alunos e população do entorno. Jornal publica o fato de forma fantasiosa e inverídica emprestando um tom de mistério à notícia.

Que comentário se pode fazer?

Que existe um acanalhamento geral no ar. Ser pusilânime - para muitos - é quase uma regra de conduta. Como explicar que professores da Fabico, alunos da Fabico, direção da Fabico, sabedores desse assédio continuado de um guarda boçal não tomaram providências a tempo?

Isso sim que é um mistério!

PS: O "professor Ongareti", referido por Maria, a rigor, é o professor da Fabico, Wladimir Ungaretti, jornalista, fotógrafo e blogueiro.

27 comentários:

Francisco Goulart disse...

A Fabico é a Uniban gaúcha?

Anônimo disse...

Eis o "x" da questão, o comportamento individual frente ao coletivo importa.
O marxismo, a confiar pela verve de alguns, se arvora como "teoria de tudo", e tudo melhoraria se seus conceitos e práticas, conforme interpretação (de quem ?) estivesse no comando.
Mas e o indivíduo de ética gris, de pouca honra, o puro oportunista social, esse mesmo indivíduo que não se filia, não participa, não se posiciona, acoberta, silencia, não se intromete, e tendo chance, trai e rouba junto; esse tipo de indivíduo é numeroso e suas ações pesam na sociedade.
Enfim: os nossos Homers.
O Homer deputado, o Homer jornalista, o Homer professor, o Homer supervisor, o Homer colega, o Homer empregado, o Homer desembargador, o Homer chefete, o Homer sindicalista, o Homer aposentado.
Como um grupo que busca uma sociedade pautada pela democracia direta escreve o script social que orienta a conduta dessa gente em um mundo renovado ?
Ou por outra: o que colocaremos no lugar da religião e do código de conduta antigo ?

Juarez Prieb disse...

Não entendi a sua arenga, anônimo das 11:09.

O que o marxismo tem a ver com isso?

Se as pessoas se acovardam e agem como animais assustados em vez de agirem e fazerem valer a sua cidadania especialmente os "intelectuais" da Fabico, o que o Marxismo tem a ver com o cós da calça?

Rubens disse...

Caro Feil

Acho que este episódio é um dos tantos episódios recorrentes envolvendo universidades - tanto particulares quanto públicas - que geram questionamentos a respeito do do ensino superior e da educação em geral no Brasil (que não é culpa apenas de um governo).

Há menos de uma ano, estudantes de medicina da faculdade estadual de Londrina invadiram um hospital com sprays de espuma, bebidas alcoólicas e rojões, que foram disparados dentro do prédio. Em um Hospital!!!
E por futuros médicos!!!

São recorrentes as denúncias de trotes violentos em diversas faculdades envolvendo até coação para atos sexuais.

Este episódio da Uniban, para mim, é um sinal que esta crise na(de) educação está solidificada. E digo isso não apenas pelo fato em si, mas pela tentativa de muitas pessoas em justificar os atos bárbaro cometido pelos alunos.

Eu questiono: O que anda passando na cabeça de nossos estudantes universitários? O que aconteceu com nossas faculdades? O que aconteceu com o ensino em geral, tanto básico, como superior?

Me parece que estamos vivendo uma época de burrice, alienação e banalização da violência.

É uma crise de formação de valores, e não digo valores cristãos, religiosos, e sim éticos e morais.

O que podemos esperar dos profissionais formados por estas universidades daqui por diante?

Não são casos isolados. Tantos os atos quanto suas justificativas. E isso me preocupa, e muito.

elektrofossile disse...

Esqueceu do Homer anônimo.

Ê moral de cueca, hein.
Fica cagando ética mas se esconde.
Aí deixa de se ética, né?

O anonimato neste caso não é
oportunista?

Vai estudar ortografia e redação e só depois volta, tá

Cazé disse...

eu já vejo outro problema aí, esses guardinhas que hoje estão em toda a parte, muitas vezes pessoas muito gordas, alguns idosos e portam armas pesadas de grosso calibre, como isso é possível?
qualquer milico ou brigadiano aposentado bota uma empresa de segurança e sai contratando vigilante armado. quem controla isso? esses idosos não estão preparados para o exercício da função, são explorados e mal pagos. acho até que tem uma máfia por trás disso.

Anônimo disse...

Vamos então fazer outra pergunta: porque tanta gente boa foi para a luta armada, lutar contra um regime injusto, ditatorial e ilegal e esse povo ficou falando e lutando sozinho e se ferrou?
Porque os Homers, que decerto tem tudo a ganhar em uma sociedade pós-burguesa mais igualitária, onde houvesse saúde, educação garantidas e dignas, deixaram os guerrilheiros, que em tese lutavam por algo digno e que beneficiaria a todos, se ferrar ?
O que fizeram com essas mulheres foi o mesmo que fizeram com a esquerda nos anos 70 e o mesmo que ocorreu com o PT nos últimos 8 anos: foram abandonados, pois não foram visto pelos demais como digno de ser defendido, fortalecido ou de se participar dele.

Anônimo disse...

Há um outro aspecto aí que precisa ser ressaltado: mais um dos "efeitos colaterais" da famigerada "terceirização". Provavelmente tanto o assediador quanto as assediadas são trabalhadores terceirizados. Fossem todos eles funcionários da própria UFRGS, haveria a quem recorrer -- ao sindicato de ambos e à própria instituição (que poderia instaurar um processo disciplinar contra o cretino). Mas como devem ser todos "terceirizados", o que o sindicato dos servidores poderá fazer? E como a instituição irá punir o indivíduo? Afinal, o "chefe" do sujeito deve ser o dono da empresa terceirizada ... É mais um dos absurdos introduzidos nas relações de trabalho por essa cretinice neoliberal chamada (aqui no Brasil) de terceirização ...
Carlos

cazé disse...

pára de beber, anônimo, a bebida leva um homem para a ruína

vc não tá dizendo coisa com coisa

Marcelo disse...

Anonimo!!!! Que queixume tchê!!!! Religião atrasa a vida e velhos codigos de conduta são hipocrisia e homer é com 2 emes. Tente trabalhar com solidariedade empatia respeito responsabildade discernimento pra variar um pouco. Esquerda e direita não existem mais. Abraços

EDEMAR disse...

Sabe porque êle bebe? é para ficar na obscura, mídia arcaica, que temos no RS! Uma vergonha! A mídia está indo rápido para a ruína! Temos no governo do RS a maior rapinagem dos últimos tempos! E o que faz a Mídia?? Manipula e mal informa a nós, da verdade !! SÓ DEUS !! O RESTO É TREVAS !!

Prestes disse...

Eu estudo na Fabico há anos e nunca tinha ouvido falar de assédio nem visto nada. Não era um assunto sobre o qual se discutia nos corredores da faculdade, talvez uma que outra pessoa tenha presenciado isto.

Portanto, é irresponsável essa tua generalização, Feil. Como saber, por exemplo, se um aluno ou professor que sabia, não denunciou para a direção? Se a direção sabia, aí sim, esta pode ser responsabilizada por não ter feito nada.

Anônimo disse...

O comentarista Carlos tocou numa porção sensível do problema. Com a terceirização e precarização no serviço público, muitas vezes se contratam, à baixíssimo custo, firmas de fundo de quintal, cooperativas e afins que subcontratam pessoas, muitas vezes, sem os mínimos direitos trabalhistas.
Normalmente, o material humano tende a ser com formação profissonal e pessoal de menor qualidade.
Se tudo for como a moça relata, é incrível que a UFGRS não tenha um Serviço Social, uma Ouvidoria para encaminhar este tipo de problema.
A coisa não precisava virar uma briga de machos armados, colocando em risco quem não tem a ver com isso.

Rick

Cristóvão Feil disse...

Prestes, se tu ainda souberes fazer interpretação de texto verás que não generalizei.

Falar (escrever) no plural nem sempre é generalizar.

CF

Anônimo disse...

Precisei voltar para dar os nós que faltaram no texto, desculpa quem não entendeu o negócio dos Homers, é muita volta para pouco espaço, o modo como eles sacaneiam o proverbial "Inimigo Público" no sentido que se referiu Ibsen e o modo como a omissão coletiva se avoluma no caso das faxineiras da Fabico.
Anonimato é bom, garante um bocado de franqueza, educação idem, polidez na falta desta.
E deixo as perguntas, de algum modo conexas com o texto (descubram por favor) : democracia é possível na China ? É possível na OAB com a tigrada que a compõem?

Anônimo disse...

Se me permitem, acho que a história é verdadeira (ou perto disto), mas que quem escreveu o mail não foi a "Maria".

Alguém quer se passar por herói.

Juarez Prieb disse...

Vejam a que ponto chegamos, quando um cidadão denuncia um ofensa sofrida por alguém mais fraco é considerado "herói".
Não deveria, se todos fossem cidadãos, o que seria do "herói"?

Herói existiria só pra vender revista em quadrinhos.

Fernando disse...

Incrivel o paternalismo. Tratam (destratam) as funcionarias como se fossem seres incapazes de se defender por conta propria. Nao sei dos detalhes, mas deve haver, ou deveria haver, um canal adequado para que as incomodadas denunciassem as agressoes. Professores e alunos sao apenas mortais que mal e porcamente dao conta dos seus proprios problemas. Ate' hoje, sempre votei no Lula, por falta de coisa melhor, mas esta visao paternalista de que se tem de ser o pai dos pobres e' fogo, desculpa prezado Cristovao. Desrespeito total com as funcionarias. Saudades do Lula de esquerda, da decada de 80, que dizia que nao se tem que entregar o peixe, mas ensinar a pescar!

Clarice disse...

Não vejo mérito algum em alguém usar uma identidade falsa para denunciar uma situação que acha errada.

Se é para ser corajoso, que o seja com a cara lavada.

Qualquer repórter de meia pataca (ok, não são muitos hoje em dia, mas vá!) sabe quem está por trás desta "Maria". Basta ler o mail com cuidado.

Quanto à situação em si, também não adianta nada ficarmos aqui resmungando contra uns e outros.

Que se denuncie, é claro, mas que tb se faça algo, e que se pare de culpar os outros por não fazerem.

luís felipe disse...

conheço uma outra versão que fala em consentimento, não em assédio. A ver.

Juarez Prieb disse...

OK, Clarice, o problema do assédio não existiu e as pessoas que sabiam do assédio não fizeram denúncia porque não são "paternalistas" como disse o idiota mais acima.
O problema é a "Maria". O foco é a identidade falsa da Maria. Isso é que é importante, fundamental e essencial.
OK, vc acabou de ganhar o troféu "Cinismo 2009". Isso dá direito a passar um dia na redação de ZH aprendendo como esmerar mais essa sua técnica.

rodrigo disse...

Juarez, a tal Clarice é professora da Fabico. Tá explicadíssimo.

Prestes disse...

Cristóvão, fizeste pior que o repórter de ZH, criticado no post. O repórter foi ao local, ouviu uma versão, não apurou mais nada e deu a notícia.

Tu recebeste um emai, não apuraste mais nada e ainda saiu criticando pessoas fictícias, um suposto descaso.

Juarez Prieb disse...

Feil, repara que muitos comentaristas tem um argumento parecido com os trogloditas da Uniban, só faltam inverter e dizer que a mulheres da limpeza se ofereciam pro guardinha galã.
Tudo isso pra encobrir a covardia e a omissão, sabiam de um abuso e acharam melhor bancar o avestruz. Que jornalistas sairão daí? São os futuros Alexandre Garcia e Míriam Leitão da vida.
É ruim saber que a Fabico está mais pra Uniban do que da velha Fabico da década de 70 e 80.

Prestes disse...

Certamente, não é tirando conclusões precipitadas que se faz bom jornalismo, Juarez.

Me admira tua auto-suficiência de afirmar com veemência que houve covardia e omissão sem que ninguém sauba o que aconteceu direito.

Anônimo disse...

Sou aluna da Fabico, trabalho com vários professores e me dou bem com algumas das funcionárias da limpeza e NUNCA, nunca ouvi falar do tal do boato sobre assédio. Já ouvi muitos boatos, mas nenhum deles relacionados a um segurança armado que assedia as funcionárias. Não defendo nem guarda nem funcionárias, pois não acredito não versão de nenhum dos lados. Todos estão tentando se justificar. Vejo funcionárias da limpeza usando os computadores da Fabico, falando nos telefones da univesidadde e tomando cafezinho no horário de trabalho. E sempre vejo o guarda na portaria. Acho que o pessoal está sendo um pouco precipitado em defender um dos lados da história enquanto que nesta história ninguém é santo. Nenhum aluno ou professor foi conivente dessa história pura e simplesmente porque isso nunca foi comentado. A única coisa que me assusta nessa história e que ningué até agora comentou é que um homem armado, independente do motivo, entrou na universidade disparando no horário em que tinha uma grande quantidade de pessoas na portaria. Ninguém se preocupa com o fato de que a vida dos funcionários da fabico pos em risco a vida de muitas outras pessoas que anda tinham a ver com a história. E tem uma coisa que me chama atenção no depoimento da Maria: todas eram assediadas, menos ela?Essa história está muito mal contada...

Revista disse...

Alguém já perguntou às partes? Sei bem do que o guarda é capaz, e nunca ouvi ou vi algo do tipo. Aliás, ele é bem sisudo. E essa SENHORA, também deve ter resistido muito, não?

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