Você está entrando no Diário Gauche, um blog com as janelas abertas para o mar de incertezas do século 21.
Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?
sexta-feira, 21 de março de 2014
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
'A Tartaruga' do Neruda lembra tantas coisas que foram belas, mas que se fossilizaram
A tartaruga que
andou
tanto tempo
e tanto viu
com
seus
antigos
olhos,
a tartaruga
que comeu
azeitonas
do mais profundo
mar,
a tartaruga que nadou
sete séculos
e conheceu
sete
mil
primaveras,
a tartaruga
blindada
contra
o calor
e o frio,
contra
os raios e as ondas,
a tartaruga
amarela
e prateada
com severos
lunares
ambarinos
e pés de rapina,
a tartaruga
ficou
aqui
dormindo
e não sabe
De tão velha
se foi
pondo dura,
deixou
de amar as ondas
e foi rígida
como o ferro de passar
Fechou
os olhos que
tanto
mar, céu, tempo e terra
desafiaram,
e dormiu
entre as outras
pedras.
Pablo Neruda, (1904/1973)
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Sintam a qualidade musical deste venezuelano
O nome do cara é Devendra Banhart, nascido no Texas (EUA), mas criado musicalmente na Venezuela.
Me encanta!
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Pra suportar essa festa falsa, só ouvindo o velho e bom R.E.M.
A banda foi encerrada em setembro de 2011.
Tubarões e bagrinhos, todos querem tirar proveito comercial do Natal cristão
Até o papa-defunto Lopez, com o uso do prostituído Bom Velhinho.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
O quanto a mídia se recusa a refletir sobre o que pensam os brasileiros
Pensamento brasileiro
No último domingo, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa a respeito do posicionamento ideológico dos brasileiros. Essa não foi a primeira vez que pesquisas dessa natureza foram feitas pelo instituto, mas foi a primeira vez que questões econômicas ligadas à função do Estado, às leis trabalhistas e à importância de financiar serviços públicos apareceram. O resultado foi simplesmente surpreendente.
Se você ler os cadernos de economia dos jornais e ouvir comentaristas econômicos na televisão e no rádio, encontrará necessariamente o mesmo mantra: os impostos brasileiros são insuportavelmente altos, as leis trabalhistas apenas encarecem os custos e, quanto mais o Estado se afastar da regulação da economia, melhor. Durante décadas foi praticamente só isso o que ouvimos dos ditos "analistas" econômicos deste país.
No entanto décadas de discurso único no campo econômico foram incapazes de fazer 47% dos brasileiros deixarem de acreditar que uma boa sociedade é aquela na qual o Estado tem condição de oferecer o máximo de serviços e benefícios públicos.
Da mesma forma, 54% associam leis trabalhistas mais à defesa dos trabalhadores do que aos empecilhos para as empresas crescerem, e 70% acham que o Estado deveria ser o principal responsável pelo crescimento do Brasil.
Agora, a pergunta que não quer calar é a seguinte: por que tais pessoas praticamente não têm voz na imprensa econômica deste país? Por que elas são tão sub-representadas na dita esfera pública?
A pesquisa ainda demonstra que, do ponto de vista dos costumes, os eleitores brasileiros não se diferenciam muito de um perfil conservador. O que deixa claro como suas escolhas eleitorais são eminentemente marcadas por posições ideológicas no campo econômico.
Uma razão a mais para que tais posições possam ter maior visibilidade e estar em pé de igualdade com as posições econômicas liberais hegemônicas na imprensa brasileira.
É claro que haverá os que virão com a velha explicação ressentida: o país ama o Estado devido à "herança patrimonialista ibérica" e à falta de empreendedorismo congênita de seu povo. Essa é a velha forma de travestir egoísmo social ressentido e preconceituoso com roupas de bricolagem histórica.
Na verdade, o povo brasileiro sabe muito bem a importância da solidariedade social construída por meio da fiscalidade e da tributação dos mais ricos, assim como é cônscio da importância do fortalecimento da capacidade de intervenção do Estado e da defesa do bem comum. Só quem não sabe disso são nossos analistas econômicos, com suas consultorias milionárias pagas pelo sistema financeiro.
sábado, 30 de novembro de 2013
"Jango", o documentário, na íntegra
Documentário imperdível do diretor Sílvio Tendler. Música de Milton Nascimento e Wagner Tiso.
Entenda o golpe civil-militar de 1964 e, por conseguinte, o Brasil de hoje.
Mudam os personagens e seus nomes, a luta de classes é a mesma.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
José Dirceu e o anjo de Drummond
“Ideais
audaciosos, altos sacrifícios, impulsos heróicos, tudo se dissipará
em meio à rotina trivial e monótona de fazer compras e votar”.
Perry Anderson
Depois de ser cassado,
José Dirceu desabafou de forma reveladora: “Foi como se eu
perdesse minha própria vida”.
Para além da sua falta de amizade com a boa sintaxe, José Dirceu briga não só com o pensamento de esquerda, mas sobretudo com qualquer pensamento.
A entrevista que concedeu aos jornalistas, no dia seguinte à cassação, tem a profundidade de um aipim.
Não há pensamento, só a repetição exaustiva do mantra defensivo, “não há provas contra mim”, e a hipostasia do parlamento. Como se o parlamento fosse a instituição absoluta para o exercício da democracia. Cotejar a revogação dos seus direitos políticos com a perda da própria vida é mais que um exagero, é tolice denunciadora da uma concepção aguada de política, de democracia, e de si próprio.
Para além da sua falta de amizade com a boa sintaxe, José Dirceu briga não só com o pensamento de esquerda, mas sobretudo com qualquer pensamento.
A entrevista que concedeu aos jornalistas, no dia seguinte à cassação, tem a profundidade de um aipim.
Não há pensamento, só a repetição exaustiva do mantra defensivo, “não há provas contra mim”, e a hipostasia do parlamento. Como se o parlamento fosse a instituição absoluta para o exercício da democracia. Cotejar a revogação dos seus direitos políticos com a perda da própria vida é mais que um exagero, é tolice denunciadora da uma concepção aguada de política, de democracia, e de si próprio.
Muito bem, de fato
inexistem provas contra o senhor Dirceu. Mas em caso de punição,
que caisse atirando, como bom combatente. Dissesse tudo que pensa
sobre o parlamento e o sistema representativo. Basta recolher as
análises agudas – nunca desmentidas – de Rousseau, de Marx, de
Rosa de Luxemburg, de Gramsci, de Karel Kosik, de Perry Anderson, de
István Mészaros, e tantos outros, para demonstrar a natureza
decaída do sistema político que representa (simula) a democracia
entre nós. Mas Dirceu está desarmado de pensamento. Ele que tivera
espírito de “comissário”, agora se comporta como “bela alma”,
conforme a classificação de Karel Kosik. “Comissário”, para
Kosik, é o burocrata político que, se acreditando revolucionário,
quer impor seus princípios dogmáticos e indiscutíveis aos outros.
E a “bela alma” – simetricamente oposta – é um ser retraído
pelo temor de se perverter com a ação política, o que se revela
inútil, pois sua passividade acaba por igualmente corrompê-lo face
a convivência passiva com o mal.
Na entrevista de José
Dirceu, não há um grão de crítica essencial à instituição que
acabara de baní-lo por dez anos da política chapa-branca. Nem
essencial, nem superficial.
É aí que o espírito de “comissário”
se dissolve na passividade da “bela alma”. Tem uma frase dele na
entrevista que é cristalina: “Sou apenas o Zé Dirceu. Me sinto
muito bem como Zé Dirceu”. Visivelmente, agora ele é um ser
reconciliado com a sua consciência. Viveu grande parte da vida
aturdido por uma moral bipartida: estar revolucionário ou ser
liberal. O longo processo de cassação na Câmara Federal lhe
apaziguou o espírito em conflito, a identidade liberal é a condição
harmônica da sua “bela alma”.
Um espírito ingênuo e
inconformado com o desfecho do caso José Dirceu pode ainda objetar:
“Mas o que queriam que ele dissesse, depois de cassado?”
Ora, todos sabemos que as
motivações para cassá-lo foram de natureza política e não pelo
envolvimento moral com as trapalhadas delubianas e valerianas. Foi
cassado um espectro de Dirceu, o velho Dirceu – que se presumia de
esquerda – que foi banido do País junto com dezenas de
revolucionários autênticos. A direita brasileira, os donos do
Brasil, não se conformam que “aquela gente” hoje esteja no
poder. Mesmo que “aquela gente” não seja mais a mesma
ideologicamente, e a agenda econômica seja autenticamente
neoliberal. A revista “Veja” estampa esse recalque azedo todas as
semanas, em todas as suas páginas gravadas de letras e ódio de
classe.
Então, o que o velho
Dirceu deveria dizer na sua entrevista coletiva?
Estou sendo banido de uma
instituição pré-republicana e que não representa a vontade
soberana da população brasileira. Aqui nesse parlamento a
democracia é uma simulação, onde prevalecem os interesses mais
fisiológicos e mais atrasados.
Poderia citar Rousseau
que, já no século 18, apontava a impotência do sistema
representativo para dar voz à vontade popular. Poderia citar Perry
Anderson, para quem o sistema representativo reduziu o cidadão à
anêmica condição de consumidor diário e eleitor esporádico, e
que tal cidadania é uma fraude e uma sonegação de direitos.
Poderia citar Gramsci e
suas elaboradas considerações sobre o que ele acremente denominava
de “cretinismo parlamentar” e as imposturas pseudodemocráticas
do sistema representativo-parlamentar.
Poderia reclamar pela
reforma político-eleitoral que o Congresso brasileiro malocou
sabe-se lá em que ordem de prioridade, e ao implementá-lo,
certamente, deve apresentar uma reedição das felpudas raposices
parlamentares de sempre: um corpo representativo de deputados e
senadores em si e para si, com as exceções de praxe (que no caso
presente não somam cem parlamentares). Dizer, a plenos pulmões, que
a esfera política é demasiadamente importante para ser conduzida
por uma casta parlamentar tutelada pelos donos do capital. Dizer que
o governo Lula ficou refém do fisiologismo dos congressistas por não
ter encaminhado uma reforma político-eleitoral autêntica e que,
neste sentido, é um avalista passivo da atual crise. Dirceu,
finalmente, poderia citar o velho Dirceu, o dos “ideais audaciosos,
dos altos sacrifícios, e dos impulsos heróicos”. Mas, pena,
Dirceu não é mais Dirceu. Apareceu uma versão invertida do anjo
torto de Drummond e disse-lhe:
“Vai, Dirceu, vai ser
liberal na vida!”
E ele foi. No rosto, já
sem a máscara revolucionária, estampou-se um sorriso resignado mas
feliz. Aos 59 anos, finalmente, descobriu a sua verdadeira
identidade.
Artigo
de Cristóvão Feil, publicado em Dezembro de 2005, por ocasião da
cassação do mandato parlamentar de José Dirceu.
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