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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sábado, 6 de novembro de 2010

Devastadores e melancias fazem nova investida contra o Código Florestal



A nova investida do agronegócio contra o Código Florestal conta com a inestimável e operosa ajuda do deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP), hoje um reconhecido agroboy-melancia (o verde na fina superfície e o vermelho do stalinismo por dentro).

Frente Parlamentar da Agropecuária (bancada do agronegócio) não perdeu tempo e, apenas três dias após o segundo turno das eleições, traçou estratégias para votar, ainda neste mês, o projeto que modifica o Código Florestal (PL 1876/99). A proposta foi aprovada por comissão especial em julho último.
Reunidos na última quarta-feira (3) em um restaurante de Brasília, parlamentares ruralistas definiram que iriam conversar com as lideranças partidárias para que a proposta seja incluída na pauta do Plenário. Integrante da frente, o deputado Luís Carlos Heinze (PP-RS) diz que o objetivo é aprovar, sem modificações, o texto do relator na comissão especial, deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP).

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Duas versões da mesma música: escolha a sua



A composição é Going Back To My Roots, nesta versão com o trio Odyssey, que fez um brevíssimo sucesso no tempo da disco music, início dos '80.



A mesma música com o grande Richie Havens na sua conhecida batida soul, muito mais inspirada e bonita. Vejam como se pode melhorar uma música com um simples toque de talento e alma.

Observem que a qualidade sonora da gravação anterior é infinitamente melhor que esta, mas Richie Havens e seus parceiros são imbatíveis.

O príncipe-e-farol que lambe chocolate para não dividir com ninguém


Fernando Henrique Cardoso, o professor Cardoso, o príncipe dos sociólogos, o Farol de Alexandria, o sujeito mais vaidoso que caminha sob o sol, o grande parlapatão brasileiro (o senador Pedro Simon é um mero parlapatinho). Um cara que lambia o chocolate para não ter que dividí-lo com os próprios filhos e a mulher Ruth, segundo ele mesmo admitiu, entre o jocoso e o tolinho.

Pois, o professor Cardoso acaba de ser derrotado pela terceira e consecutiva volta, talvez, quarta, se computarmos o índice de popularidade com o qual se despediu do poder planaltino em janeiro de 2003, nada além de 23%, nível inferior à popularidade da governadora Yeda no Rio Grande do Sul, para vocês terem uma pálida ideia do rechaço popular ao Farol.

O jornalista João Moreira Sales fez uma reportagem com o príncipe, quando dona Ruth ainda era viva. O texto memorável foi publicado na revista Piauí (edição nº 11, de agosto/2007), e pode ser lido aqui. Vale a pena a leitura atenta. A seguir transcrevo o trecho final da reportagem com o grande parlapatão:

[...] À noite, amigos convidam a família Cardoso para um show de flamenco. A mesa é colada ao palco. A cada arranco do dançarino, que bate furiosamente os pés no chão, o presidente recua na cadeira, assustado.

Para o último jantar de FHC em Madri, no dia seguinte, ele, dona Ruth, Julia e um casal de amigos vão a um restaurante simplíssimo, quase um botequim. Oito mesas, se tanto. O ex-presidente vai direto para a cozinha e volta feliz: "Ganhei quatro votos", anuncia. As paredes são cobertas de fotografias - toureiros, políticos, o príncipe das Astúrias. "Vou ver as fotos", diz, e levanta de novo. Chegam croquetes, morcela, aspargos, queijo. Ele se farta. "A Ruth tinha essa educação comunista com os filhos, essa história de dividir tudo, inclusive a comida boa que de vez em quando eu trazia pra casa. Depois de um tempo, passei a lamber o chocolate na frente deles, pra ninguém meter a mão." "O camembert ele escondia no armário", confirma Ruth Cardoso. De sobremesa, Fernando Henrique derruba um prato de arroz-doce e se encanta quando descobre que ali servem rabanada também. Come rabanada a valer. Ao saber quem é o cliente, dono e funcionários do restaurante pedem fotos. FHC volta à minúscula cozinha e, junto do forno, posa com quatro empregados, todos com cara de mexicano. "Pronto, agora consolidei o voto", comemora. Alguém comenta: "Consolidou. No México".

Ruth Cardoso registra tudo, sem dar muita atenção. Se há alguém que não cai nos números do marido, é ela. Conta de uma viagem a Buenos Aires, quando passeavam pelo bairro da Recoleta e foram reconhecidos por um ônibus de turistas brasileiros. Confusão instalada, desceram todos e começaram a bater fotos. O sorriso de FHC se abre feito uma cortina. "Olha só pra ele", alfineta Ruth Cardoso. "Deviam ser todos petistas, Fernando, e você não passava de atração turística." Ele não se dá por vencido: "Em restaurantes de Buenos Aires eu sou aplaudido quando entro. É que eu traí os interesses da pátria, então lá eles me adoram". A neta Julia balança a cabeça: "Como é que ele diz essas barbaridades...".

Fotografia de Zeca Wittner/AE, pescada na revista CartaCapital desta semana, onde ilustra muito bem um artigo demolidor de Mino Carta contra o príncipe-e-farol.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O puro cálculo de márquetim do governador eleito


A contabilidade eleitoral sustenta somente o cálculo puramente pessoal, mas desconsidera a política do real

Domingo pela manhã, estando longe de casa, vim de carro para Porto Alegre, com o objetivo de exercer meu dever cívico e votar faceiro na candidata Dilma Rousseff, amiga de três décadas. Rádio ligado, ouço o prefeito de São Leopoldo e coordenador estadual da campanha de Dilma, o petista Ary Vanazzi. Descendente de imigrantes italianos de quarta ou quinta geração, sei lá, Vanazzi não perde o forte sotaque peninsular, que lhe empresta um charme extra junto à comunidade oriundi e muitos votos nos pleitos que disputa. Cada um faz a persona que mais lhe agrada na dramaturgia da vida, ora.

Dizia, o coordenador eleitoral: "A campanha de Dilma cresceu muito neste segundo turno, cresceu tanto que já não conseguimos controlar seu crescimento... acho que já passa dos 60% das preferencias eleitorais dos gaúchos...".

O prefeito/coordenador (e controlador de crescimento eleitoral, como confessou) errou feio. Dilma, no RS, não fez "mais de 60% dos votos". Reuniu 49,06% das preferências sul-rio-grandenses. Perdeu para Serra, que logrou conquistar 50,94%.

Essa contabilidade eleitoral no Rio Grande do Sul está em aberto. As contas das urnas não fecham, não há conciliação com a política. Algo está solto, sem aderência com o real. Como explicar a vitória do candidato petista no primeiro turno, a vitória de Dilma, igualmente no primeiro turno no RS, e a derrota de Dilma na cidade de Porto Alegre? Como entender que Dilma ganhou com uma vantagem de 400 mil votos no primeiro turno, e tenha feito 118 mil votos a menos que Serra no segundo turno? Como explicar que em Porto Alegre Dilma tenha perdido no primeiro turno por cerca de 10 mil votos, e perdido no segundo, desta vez por inquietantes 93 mil votos?

Não se escutou nenhuma avaliação do coordenador Vanazzi, nem do governador eleito, Tarso Genro. Ao contrário, dias antes da votação do segundo turno, o prefeito de São Leopoldo estava plantando nota numa conhecida coluna melífera de Porto Alegre, onde - de forma despreocupada e voluntarista - se lançava a ocupar cargo na esfera federal. Já o governador eleito, contrariando acerto prévio com partidários e aliados, anunciava nomes de titulares de secretarias estaduais em sua futura administração. Ora, quem dedica tempo e energia para projetar seu próprio nome às especulações ministeriais, e quem promove negociações legítimas, mas intempestivas sobre futuros auxiliares de gestão não pode - de fato - conquistar votos para a sua candidata presidencial. Ou se faz campanha eleitoral para valer, em tempo integral, ou se antecipa o calendário e se constrange a todos com uma agenda impertinente porque descabida para o momento.

Em ambos os casos, seja do coordenador eleitoral, seja do governador eleito, sobressai a solar preferência pelo cálculo do márquetim pessoal, acima de tudo.

Ao coordenador-prefeito-controlador-de-crescimento-eleitoral o que importa é o brilho do nomezinho na lista especulativa do jornalismo de bombachas.

Para o governador eleito - às favas com a eleição presidencial - o que vale é a agenda da pequena pátria guasca, deslizar na onda conjuntural enquanto esta lhe favorece, soltar pequenos factóides a cada par de dias, liberar nomes como quem alimenta peixinhos de aquário. Mal se dá conta, que agindo assim está tão-somente aceitando - pavlovianamente - a pauta do jornalismo ficcional.

Mais: os senhores Ary e Tarso organizaram um grande ato eleitoral no centro de eventos do hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre, a 14 de outubro último, uma quinta-feira de primavera. O ato foi um frentão, onde discursaram líderes do PMDB, o senador Zambiasi, líderes do PDT e o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, bem como líderes de diversas igrejas evangélicas.

Observem, se no primeiro turno, Dilma ganhou com 400 mil votos de diferença, no segundo turno, depois da constituição deste referido frentão eleitoral, perdeu-se a disputa regional por quase 120 mil votos. Ou seja, mais de meio milhão de votos migraram para a direita, em franca desobediência às "fulgurantes" lideranças do frentão ary-tarsista de (maus) resultados.

Pois, é na linha objetiva deste malogrado frentão de 14 de outubro é que o futuro governador está montando a sua nominata de auxiliares para governar o Rio Grande. Tarso Genro quer que a árvore do fracasso lhe renda bons frutos. Impossível.

Pode ser prematuro, mas continuo achando que a contabilidade eleitoral não está sendo conciliada com a velha e boa política. O fracasso (conjuntural) de uma não pode querer aconselhar a construção (inteligente) da outra.

Era um homem de luta, não de transações


O legado de Néstor Kirchner

[...] Quero recordar três aspectos de sua obra e de sua mensagem. O primeiro é que foi um dos democratas mais radicais que a Argentina produziu em anos recentes. Nunca tentou impor uma vontade burocrática, mas que sempre buscou nas mobilizações espontâneas dos grupos de base os aliados naturais através dos quais podia pensar, repensar e matizar seu projeto. O segundo é que nunca fez interpelações fáceis à massas desorganizadas, mas sim que compreendeu que, nas complexas sociedades contemporâneas, qualquer projeto de mudança tem que passar pela transformação interna das instituições.

Não sei se Néstor haverá lido Gramsci, mas em todo o caso sua ação política mostra algo de profundamenta gramsciano: a compreensão de que, nas sociedades contemporâneas, não há populismo fácil; que, sem a mediação institucional, não há projeto político coerente. Neste sentido ele mostrou, através da sua ação política, algo que sempre pensei: que entre institucionalismo e populismo sempre há uma complexa negociação, os resultados das quais apresentarão matizes distintos em diferentes sociedades.

Há, finalmente, uma terceira dimensão que é decisiva para entender o legado de Kirchner: sua firmeza de aço, seu compromisso total com as causas que abraçava.

Era um homem de luta, não de transações. Isto é que indignava a seus detratores e o que denominavam de tendencia "a dobrar a aposta". Creio que se tratava de algo mais importante que isso. Ele tinha perfeita consciência da natureza das forças que enfrentava, e sabia que somente uma força inquebrantável seria capaz de confrontá-las.

Que nos resta por fazer daqui para a frente, depois de Néstor? A resposta é clara: prosseguir a sua obra e completar a sua tarefa. Ele nos legou objetivos que são maiores que a sua e a nossa vida, e que incluem todo o nosso continente. [...]

Trecho de artigo do intelectual argentino Ernesto Laclau, professor de Teoria Política da Universidade de Essex, Inglaterra. Publicado hoje (4) no jornal portenho Página/12

Leia-o aqui, na íntegra (em espanhol).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

José Dirceu esmagou os picaretas


Por dever de ofício e estar gozando de ótima disposição naquele momento, assisti a entrevista de José Dirceu no programa Roda Viva, da TV Cultura/SP, segunda-feira passada.

Este blog, em abril próximo, completará cinco anos de postagens diárias. Neste período, jamais eu deixei de criticar o ex-presidente petista José Dirceu, a meu ver, responsável maior pela desqualificação orgânica do PT, pelo rechaço à militância ativa, pela hipertrofiada institucionalização partidária, pela política de alianças a qualquer custo, pela natureza exclusivamente cartorial assumida pelo PT, e por outras lacunas e falhas de ordem ideológica e política. José Dirceu, para mim, é um desbundado. Ponto. No entanto, este blog nunca compartilhou da crítica pela direita levada a efeito pelos jornalistas amestrados da mídia de ficção, especialmente aquelas relativas ao denominado "mensalão", causador da saída intempestiva de Dirceu do governo Lula, em 2005.

Isto posto, fico à vontade para dizer que Dirceu esmagou os jornalistas que o entrevistaram no Roda Viva, especialmente Marília Gabriela, Augusto Nunes, Guilherme Fiúza e um gordote de cabelo ye-ye-yê tardio, cujo nome esqueço, por irrelevância.

A estupidez, o primarismo e o despreparo destes jornalistas fizeram - por contraste - uma exaltação à Dirceu. Na presença das hienas midiáticas, Dirceu virou quase um intelectual respeitado, algo que jamais experimentou ser, nem em fantasia. Não foi uma entrevista, foi um interrogatório sem pau-de-arara nem choque elétrico. Augusto Nunes - ex-editor-chefe do jornal Zero Hora - perguntava, respondia e contestava furibundo o que era dito por Dirceu. Um pinga-fogo desrespeitoso e covarde, o tempo inteiro.

Vale a pena assistir a entrevista, dura um pouco mais de 60 minutos, e pode ser acessado aqui.

Brasil: esse coqueiro que dá côco



Coral esloveno Perpetuum Jazzile acompanhado do grupo vocal brasileiro BR6, em apresentação de outubro de 2008. A imortal composição é de Ary Barroso, de 1939, em plena era Vargas.



Os canadenses da ótima banda Arcade Fire também gravaram Aquarela do Brasil em 2005. A interpretação, a meu juízo, ficou meio gótica, mas ainda belíssima, perdendo um pouco o tom multicolorido, ensolarado mesmo da aquarela brasileira, "onde a lua vem brincar"...  

Uma homenagem aos 55 milhões de brasileiros conscientes, que entendem o País, e votaram em Dilma, apesar das muitas contradições que a cercam.

Olha quem foi derrotado junto com Serra


A partir de hoje, talvez, não diariamente, vamos divulgar aqui os derrotados das eleições 2010. O mais notório e evidente é o PSDB, incluindo José Serra e o professor Cardoso (aliás, onde anda essa peça rara?).  Muitos outros e outras também levaram um cala-boca do povo brasileiro. A extrema-direita, que andava quieta e acuada nos seus serpentários de sempre, veio à luz do dia mostrar suas forças e aspirações, todas de cunho fascista edulcorado pelo açúcar da religião, da moral e do figurino Torquemada. O curioso é que uma das vozes mais altissonantes deste coro grego de horrores tenha sido a própria senhora Serra, Mônica. 

Vejam essa comunidade do Orkut (acima) que se autodenomina "Eu odeio o Nordeste!". Observem a descrição dessa gente deformada, oriunda de São Paulo. Pois esses racistas foram barulhentos ativistas na web em favor da candidatura Serra, ajudaram a divulgar mentiras, calúnias e demais baixarias contra Dilma Rousseff no sentido de destruí-la como candidata e pulverizá-la como ser humano. Esses também foram derrotados nas eleições 2010. Mas tem mais...

A propósito da evidente cruzada regressista - um fenômeno mundial, hoje - leia o excelente artigo do poeta Juan Gelman (80 anos) publicado hoje no ótimo diário portenho Página/12. Leia aqui "La hora del Tea".        

O cara que rompeu com o neoliberalismo na Argentina



Nas imagens produzidas pela Casa Rosada, emociona a multidão que acompanhou o esquife com o corpo de Néstor Kirchner até o aeroparque Jorge Newbery (próximo à zona portuária de Buenos Aires), no dia 28 de outubro último. Para acentuar o drama do luto nacional, especialmente das classes populares, chovia sobre Buenos Aires, naqueles momentos.

Néstor Kirchner foi o sujeito que corta o laço (carnal) com o neoliberalismo na Argentina, depois dos assassinatos, desaparecimentos, torturas, saques contra o Estado, roubos institucionais e toda a sorte de desmonte do Estado e sua capacidade de impor políticas públicas que promovam condições menos desiguais de existência. Sem entrar no mérito das condições objetivas de poder do casal K, suas insuficiências, debilidades e corrupção mesmo, o fato é que Néstor Kirchner logrou romper com as oligarquias, enfrentou-as e preparou uma ordem democrática que não esqueceu de acertar contas com o passado do terrorismo de Estado, protagonizado pela terrível aliança entre os militares e as elites brancas conservadoras e regressistas.

A morte de Kirchner, não à toa, foi pouco comentada no Brasil. A corrida eleitoral ajudou a turvar o já permanente boicote da mídia brasileira à realidade da América Latina, especialmente se esta realidade estiver acontecendo no contrapelo dos interesses destas mesmas elites brancas. Nós mesmos, aqui no blog, não pudemos tratar do fato como gostaríamos. Por isso, esse pequeno, mas importante, resgate do fato relevante ocorrido nestas últimas semanas.

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