A contabilidade eleitoral sustenta somente o cálculo puramente pessoal, mas desconsidera a política do real
Domingo pela manhã, estando longe de casa, vim de carro para Porto Alegre, com o objetivo de exercer meu dever cívico e votar faceiro na candidata Dilma Rousseff, amiga de três décadas. Rádio ligado, ouço o prefeito de São Leopoldo e coordenador estadual da campanha de Dilma, o petista Ary Vanazzi. Descendente de imigrantes italianos de quarta ou quinta geração, sei lá, Vanazzi não perde o forte sotaque peninsular, que lhe empresta um charme extra junto à comunidade oriundi e muitos votos nos pleitos que disputa. Cada um faz a persona que mais lhe agrada na dramaturgia da vida, ora.
Dizia, o coordenador eleitoral: "A campanha de Dilma cresceu muito neste segundo turno, cresceu tanto que já não conseguimos controlar seu crescimento... acho que já passa dos 60% das preferencias eleitorais dos gaúchos...".
O prefeito/coordenador (e controlador de crescimento eleitoral, como confessou) errou feio. Dilma, no RS, não fez "mais de 60% dos votos". Reuniu 49,06% das preferências sul-rio-grandenses. Perdeu para Serra, que logrou conquistar 50,94%.
Essa contabilidade eleitoral no Rio Grande do Sul está em aberto. As contas das urnas não fecham, não há conciliação com a política. Algo está solto, sem aderência com o real. Como explicar a vitória do candidato petista no primeiro turno, a vitória de Dilma, igualmente no primeiro turno no RS, e a derrota de Dilma na cidade de Porto Alegre? Como entender que Dilma ganhou com uma vantagem de 400 mil votos no primeiro turno, e tenha feito 118 mil votos a menos que Serra no segundo turno? Como explicar que em Porto Alegre Dilma tenha perdido no primeiro turno por cerca de 10 mil votos, e perdido no segundo, desta vez por inquietantes 93 mil votos?
Não se escutou nenhuma avaliação do coordenador Vanazzi, nem do governador eleito, Tarso Genro. Ao contrário, dias antes da votação do segundo turno, o prefeito de São Leopoldo estava plantando nota numa conhecida coluna melífera de Porto Alegre, onde - de forma despreocupada e voluntarista - se lançava a ocupar cargo na esfera federal. Já o governador eleito, contrariando acerto prévio com partidários e aliados, anunciava nomes de titulares de secretarias estaduais em sua futura administração. Ora, quem dedica tempo e energia para projetar seu próprio nome às especulações ministeriais, e quem promove negociações legítimas, mas intempestivas sobre futuros auxiliares de gestão não pode - de fato - conquistar votos para a sua candidata presidencial. Ou se faz campanha eleitoral para valer, em tempo integral, ou se antecipa o calendário e se constrange a todos com uma agenda impertinente porque descabida para o momento.
Em ambos os casos, seja do coordenador eleitoral, seja do governador eleito, sobressai a solar preferência pelo cálculo do márquetim pessoal, acima de tudo.
Ao coordenador-prefeito-controlador-de-crescimento-eleitoral o que importa é o brilho do nomezinho na lista especulativa do jornalismo de bombachas.
Para o governador eleito - às favas com a eleição presidencial - o que vale é a agenda da pequena pátria guasca, deslizar na onda conjuntural enquanto esta lhe favorece, soltar pequenos factóides a cada par de dias, liberar nomes como quem alimenta peixinhos de aquário. Mal se dá conta, que agindo assim está tão-somente aceitando - pavlovianamente - a pauta do jornalismo ficcional.
Mais: os senhores Ary e Tarso organizaram um grande ato eleitoral no centro de eventos do hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre, a 14 de outubro último, uma quinta-feira de primavera. O ato foi um frentão, onde discursaram líderes do PMDB, o senador Zambiasi, líderes do PDT e o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, bem como líderes de diversas igrejas evangélicas.
Observem, se no primeiro turno, Dilma ganhou com 400 mil votos de diferença, no segundo turno, depois da constituição deste referido frentão eleitoral, perdeu-se a disputa regional por quase 120 mil votos. Ou seja, mais de meio milhão de votos migraram para a direita, em franca desobediência às "fulgurantes" lideranças do frentão ary-tarsista de (maus) resultados.
Pois, é na linha objetiva deste malogrado frentão de 14 de outubro é que o futuro governador está montando a sua nominata de auxiliares para governar o Rio Grande. Tarso Genro quer que a árvore do fracasso lhe renda bons frutos. Impossível.
Pode ser prematuro, mas continuo achando que a contabilidade eleitoral não está sendo conciliada com a velha e boa política. O fracasso (conjuntural) de uma não pode querer aconselhar a construção (inteligente) da outra.