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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

domingo, 3 de agosto de 2008

Núpcias na elite branca


Angeli

À minha perna esquerda

Longe

do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do juízo.
Não há pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração

Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas
do mundo.

José Paulo Paes
(1926-1998). Um dos maiores poetas brasileiros. Fez este poema depois da amputação de uma perna, devido ao agravamento da doença que acabou levando-o à morte em 1998.

sábado, 2 de agosto de 2008

Tolerância mil


Angeli

Um fama


Uma pequena colherada

Um fama descobriu que a virtude era um micróbio redondo e cheio de patas. Na mesma hora deu uma grande colherada de virtude à sua sogra. O resultado foi horrível: esta senhora renunciou a seus comentários corrosivos, fundou um clube para a proteção de alpinistas perdidos, e em menos de dois meses se conduziu de maneira tão exemplar que os defeitos de sua filha, até então inadvertidos, passaram ao primeiro plano com grande sobressalto e estupefação do fama. Não lhe restou mais remédio que dar uma colherada de virtude à sua mulher, a qual o abandonou nesta mesma noite por achá-lo estúpido, insignificante, e no todo diferente dos arquétipos morais que flutuavam cintilante ante seus olhos.

O fama pensou bastante, e por fim tomou um frasco de virtude. Mas ainda assim segue vivendo só e triste. Quando cruza na rua com a sua sogra ou sua mulher, ambos se saúdam respeitosamente e de longe. Não se atrevem nem sequer a falar, tanto é a própria perfeição e o medo que têm de se contaminar.

Julio Cortázar (in Historias de cronopios y de famas)


“Meus parentes não são criminosos”, diz Yeda


Deu no Correio do Povo de hoje:

Governadora volta a falar na casa

A governadora Yeda Crusius disse ontem, após anunciar as mudanças no Executivo, que a 'farsa está se tornando clara', referindo-se à compra de sua casa. Perguntada sobre a possibilidade de Delaci Martini, pai do ex-secretário Délcio Martini, ser o comprador do apartamento de Capão da Canoa, Yeda não desmentiu a informação.

Disse apenas não haver nenhuma irregularidade na venda. 'Chega de intriga. Não queiram achar que porque tenho amigo, filho, neto, ou qualquer coisa que eles possam chegar a ser..., que eles sejam criminosos', afirmou.

O advogado que representa Yeda, Paulo Olímpio Gomes Souza, disse ontem à noite que na hipótese de Delaci Martini ser o comprador, a documentação entregue ao Ministério Público de Contas comprova não haver nenhuma irregularidade.

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A coisa fica cada vez mais confusa, e a governadora, mais furiosa. Alguém sabe o motivo?

Ilustração do alto da página: Hupper

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

“Subnacional”


A governadora tucana Yeda Crusius ontem usou a expressão “subnacional”, “ente subnacional”, referindo-se ao Estado do Rio Grande do Sul, como ente federado, associado em federação.

Hoje, já vi dois outros indivíduos repetindo a mesma expressão – subnacional – com o mesmo sentido, a jornalista e abelhinha Rosane de Oliveira e o ex-delegado de Polícia civil, jornalista Paulo Sant’Anna.

É de reconhecer que muitos usem esta expressão, ademais um neologismo paupérrimo, mas só os subnormais e os subliteratos.

“Onde querem chegar, ao nosso julgamento?” – desafia general de pijama


Causou revolta e indignação entre militares da ativa e da reserva a decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de instalar audiência pública para definir responsabilidades civis e criminais de agentes do Estado que mataram e praticaram torturas durante o governo militar. A informação está no Estadão, de hoje.

Para eles, isso “é puro revanchismo” e significa reabrir feridas de um problema que foi resolvido com a Lei de Anistia. Mas advertem que, se querem reabrir feridas, que reabram todas, dos dois lados, julgando também autoridades que estão hoje no governo e que praticaram, na avaliação dos militares, atos de tortura e terrorismo.

“Será que quem seqüestrou o embaixador norte-americano e o prendeu dizendo, todo dia, que ia matá-lo não cometeu ato de tortura da mesma forma, igualmente condenável?”, desabafou o presidente do Clube Militar, general-de-Exército da reserva Gilberto Barbosa de Figueiredo (foto), que marcou para o dia 7 de agosto fórum de debates semelhante ao organizado por Tarso, na sede da instituição, no Rio.

Ontem, a cúpula militar fazia perguntas sobre a atitude de Tarso e queria saber a quem interessa a polêmica. “Onde querem chegar, ao nosso julgamento?”, indagavam oficiais-generais, que ironizavam dizendo que, se entendem que é preciso “lamber as feridas, que procurem as suas também, entre os que assaltaram e mataram inocentes, seqüestraram embaixadores e outros diplomatas e praticaram atos de terrorismo matando civis”.

O presidente do Clube Militar ressaltou ainda que, ao tentar reabrir a discussão, os que estavam “do outro lado” e também praticaram crimes “vão se dar mal”. Segundo o general, quem cometeu ato de tortura certamente não deixou isso registrado em papel nenhum. “Mas os assassinatos, os assaltos a banco, os seqüestros, estão todos registrados”, disse, acentuando que os crimes praticados pelo “outro lado” foram tão abomináveis como os outros.

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Não aposto um centavo furado que o governo Lula vá prosseguir neste objetivo traçado pelo ministro Tarso Genro. No retrospecto de cinco anos e meio ocupando o Planalto, o lulismo de resultados já deu mostras de que jamais entra em bola dividida contra a direita no Brasil.

Jamais. Não é da natureza de Lula, nem do lulismo. Nos próximos dias assistiremos a um torneio de valentias edificantes de ambos os lados, mas ao cabo deste teatro, tudo restará conciliado e emudecido.


Tremendão


Ontem à noite, vi um pequeno trecho do "debate" dos prefeituráveis promovido pela TV Band de Porto Alegre.

Antes de ser expulso da sala pelo profundo tédio que me abateu, ainda pude ver que o prefeito José Fogaça (PMDB), candidato à reeleição, toda a vez que tinha que falar, tremia como vara verde.

MST pode ser despejado com violência do Incra a qualquer momento, para satisfação pessoal de um burocrata petista


Os 600 integrantes do Movimento Sem-Terra que ocupam o prédio do Incra em Porto Alegre podem ser despejados a qualquer momento. O órgão e o governo federal tiveram negados ontem dois pedidos de reintegração de posse porque os juízes entenderam que o Incra já tem poder de polícia. Ou seja, não precisa pedir reintegração de posse para despejar o MST. A informação é da Agência Chasque.

A Polícia Federal notificou, na tarde desta quinta, os sem-terra, que se negaram a deixar o local. O agravante é que, como o efetivo da PF é pequeno no Estado, ela deve contar com a ajuda da Brigada Militar, que já é conhecida pela violência que emprega nas ações policiais.

Em nota divulgada na noite de ontem, o MST afirma que o governo federal não tem vontade de fazer a reforma agrária, priorizando o agronegócio. Um dos exemplos, diz a nota, é a revisão dos índices de produtividade, que o presidente Lula deixou engavetado desde o seu primeiro mandato.

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É de registrar a lamentável entrevista concedida ao jornal Zero Hora pelo superintendente regional do Incra, Mozar Dietrich, ex-burocrata do Ministério de Desenvolvimento Agrário durante a gestão de Miguel Rossetto, com quem se identifica politicamente.

O repórter de ZH que o entrevistou praticamente pauta a fala de Mozart, este apenas concorda com as assertivas preconceituosas e ideologizadas do amestrado “foca” da RBS, como neste trecho:

ZH — O senhor historicamente apóia o movimento. Ele passou dos limites?

Dietrich — Eles passaram absolutamente dos limites. [...]

O mais grave é que o autoritário burocrata, superintendente regional do Incra, decreta que não irá mais negociar com os integrantes do MST.

Ora, essa decisão definitiva e fechada não compete a um burocrata subordinado como o superintendente regional do Incra.

O máximo que o senhor Mozar Dietrich pode fazer é chamar a Brigada Militar do Rio Grande do Sul e solicitar um efetivo policial de choque que faça o serviço sujo que ele gostaria de executar, ou seja, despejar com violência trabalhadoras e trabalhadores rurais que fazem pressão legítima para a conquista de direitos de cidadania.

É o que certamente ocorrerá ainda hoje, para gozo íntimo de Mozar Dietrich, amigo e protegido do petista Miguel Rossetto.


Aqueles que torturaram durante a ditadura devem ser punidos, diz ministro Tarso


O ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou ontem que os atos de tortura cometidos durante o período da ditadura militar no Brasil não se classificam como crimes políticos e devem ser punidos com todo rigor do Código Penal Brasileiro. Segundo ele, os agentes públicos que os cometeram são torturadores e não devem ter nenhum privilégio.


“Esse agente, que entrou em uma casa à noite cumprindo um mandato superior, que realizou uma prisão ilegal mas que a realizou dentro das normas do regime autoritário, e levou o prisioneiro para um local de interrogatório, até esse momento, estava de acordo com o regime vigente e, por esse ato, não pode ser responsabilizado. Mas, a partir do momento em que esse agente pega o prisioneiro, leva para um porão e o tortura, ele saiu da própria legalidade do regime militar.”

Ao participar de audiência pública que discute a responsabilização de crimes cometidos durante o período, ele lembra que, atualmente, qualquer agente público que cumpra um mandato precisa obedecer os limites jurídicos e, caso não o faça, será responsabilizado. “Esse raciocínio serve para o regime democrático, mas não serve para um regime ditatorial?”

Para Tarso Genro, o debate acerca da responsabilização de agentes públicos é “muito significativo” pois, durante todo o período do regime militar, não havia nenhuma norma legal que permitisse atos de tortura. A informação é da Agência Brasil.

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No presente momento, está correta a posição do ministro Tarso, os torturadores da ditadura civil-militar de 1964-1985 devem ser punidos, na forma da lei, ainda que tardiamente.

Resta saber, se o ministro permanecerá inabalável sustentando a tese.

Semanas atrás, quando o Planalto destituiu o delegado Protógenes Queirós do comando da Operação Satiagraha, Tarso Genro, que vinha tendo manifestações igualmente corretas, deu subitamente uma cambalhota no ar e passou a reformar de modo lamentável as suas convicções sobre o caso Daniel Dantas.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, é contra a punição dos torturadores da ditadura, em grande parte formados de militares e policiais civis.

Ilustração de Fernando Botero

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