
segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Acho notável um certo vereador de Porto Alegre. Um artista completo. Praticamente o sir Laurence Olivier do Morro da Cruz. Intelectual inquieto a serviço da deputada Maria do Rosário - um verdadeiro lua preta. Refiro-me naturalmente, e desnecessariamente (porque vocês já pescaram), ao nobre edil Odalgir Oliboni.
Que estilo!
Sua Excelência é autor de lei municipal que fixa pontos públicos na geografia de Porto Alegre para que a população sorva a Ilex paraguariensis (a popular erva mate, tomado em cuia de porongo). Tais locais seriam denominados "chimarródromos", sempre segundo o criativo e ilustre "Jesus Cristo" do bairro Partenon.
Todos conhecem as qualidades intelectivas do vereador petista, mas desta vez ele se superou. Como diriam certos cronistas políticos: com essa performance meteórica, Oliboni asfalta o trecho para vir a ser o futuro secretário da Cultura de Porto Alegre, caso Maria do Rosário se eleja prefeita em 2008.
Notável!
À Sua Excelência, as minhas sinceras homenagens e uma imorredoura gratidão. Eu sempre tive certeza que faltava algo em Porto Alegre, mas jamais suspeitei que fosse um chimarródromo, ou centenas deles, como quer a lei olibônica.


Nelson Jobim, ministro da Defesa e artista de circo, deve explicações à população. Em menos de uma semana, aconteceram cinco graves acidentes aéreos no Brasil, todos com mortos e feridos com gravidade. Muitas vítimas sequer estavam nas aeronaves sinistradas, eram pessoas em solo firme que foram atingidas brutalmente pelos acidentes aéreos.
Estamos aguardando, doutor!
Fotos: o ministro Jobim, de fantasia militar, exibindo orgulhoso suas habilidades circenses, e a destruição deixada pela queda de avião ontem em São Paulo.
sábado, 3 de novembro de 2007

Faça como se estivesse em casa
Um esperança construiu uma casa e colocou-lhe um azulejo que dizia: Bem-vindos os que chegam a este lar.
Um fama construiu uma casa e não colocou azulejo nenhum.
Um cronópio construiu uma casa e seguindo o hábito colocou no vestíbulo diversos azulejos que comprou ou mandou fabricar. Os azulejos eram dispostos de maneira a que se pudesse lê-los
Julio Cortázar
sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Escute aqui Egberto Gismonti e o Jan Garbareck Trio.
Fotografia de Robert Doisneau, retratando o grande cineasta Jacques Tati (o genial Sr. Hulot).

Curriculum Vitae
Que é necessário fazer?
É necessário preencher um requerimento
E anexar um curriculum vitae.
Qualquer que seja a duração da vida
O C. V. deve ser sucinto.
Recomenda-se a concisão e uma boa seleção dos dados.
Transformar o que era paisagem em endereço.
E as vagas lembranças em datas fixas.
De todos os amores, basta o conjugal,
De todos os filhos, só os que nasceram.
Quem te conhece, não quem conheces.
Viagens, só ao exterior.
Filiações sem as razões.
Distinções sem menção ao mérito.
Escreva como se nem te conhecesses.
Como se te mantivesses sempre à distância de ti.
Silêncio total sobre cães, gatos, passarinhos,
Lembranças, amigos e sonhos.
Prêmios, mais que o valor.
Títulos, mais que a relevância.
Número dos sapatos, e não onde eles vão.
Anexar uma foto com orelhas bem visíveis.
É a forma delas que conta, e não o que elas ouvem.
E o que é que elas ouvem?
Barulho de máquinas de picar papel.
Wislawa Szymborska, poeta polonesa, nasceu em 1923 e ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1996.
Fotografia de Robert Doisneau (1912-1994)
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
Artigo do professor Marcio PochmannPor uma empresa pública de agroenergia
Pelo pensamento de Sérgio Buarque de Holanda, o sentido histórico da expansão econômica brasileira seguiu, em grande medida, o corolário da sucessão de "milagres" (ciclo da cana-de-açúcar, do ouro, do café). Eles "salvaram" o país da decadência, porém não desembocaram no desenvolvimento econômico e social imaginado pelo conjunto da nação. Nessa perspectiva, o desenvolvimento transformou-se no mito, conforme assevera Celso Furtado, em que o novo rompe pouco com o passado, quando não o reproduz pelo entorno da dependência externa.
Após o quarto de século de relativa decadência nacional (1980-2005) que sucedeu ao ciclo da industrialização nacional (1930 - 1980), o país sinaliza que parece se encontrar diante de um novo "milagre". Ou seja, o ciclo de expansão do agronegócio, cujo destaque maior é a agroenergia, como responsável por uma profunda reorganização da estrutura produtiva e social do país.
Não parece haver dúvidas que, com isso, o país se recoloca na Divisão Internacional do Trabalho como protagonista de uma matriz energética menos poluidora e geradora de uma nova riqueza. Essa oportunidade histórica, contudo, dificilmente se completará plenamente sem haver uma profunda alteração no papel do Estado, pois se encontra acompanhada dos vetores da concentração da riqueza e do novo dependentismo.
Do que já se observa até o momento, o país parece seguir trajetória equivalente à da grande empresa agromercantil açucareira do final do século 16, orientada e dependente das necessidades de acumulação externa. Lembre-se de que, naquela oportunidade, o ciclo da cana-de-açúcar tinha dois traços marcantes. O primeiro, destacado por Caio Prado Junior, era a importância da organização da produção do açúcar na formação das estruturas econômicas e sociais, responsáveis pela profunda concentração da propriedade da terra, da monocultura em grandes plantações, o desmatamento e o uso rebaixado da mão-de-obra que a tornava marginal na participação do consumo interno.
O segundo, percebido por Milton Santos, foi traduzido pela consagração dos dois circuitos que caracterizam a economia nacional: o superior, ocupado por grandes empreendimentos assentados na modernização tecnológica, na inserção internacional e no apoio do Estado; e o inferior, conformado pelo conjunto heterogêneo de atividades de pequena dimensão, geralmente sem maiores apoios do Estado, atrasado tecnologicamente e voltado às parcelas pobres da população.
Com o novo ciclo de exportação de commodities (carnes e couro, sucos, celulose, madeira, etanol, soja, entre outros) reorganizam-se as interfaces do restrito grupo das megacorporações transnacionais no Brasil, por meio da desnacionalização das empresas rurais, da internacionalização de parte do território, da reconcentração fundiária e da intensificação no grau de exploração dos trabalhadores. Da mesma forma que o Brasil passou de 60 para 800 engenhos de açúcar na virada do século 16 para o 17, o país deve saltar de menos de cem usinas sucroalcooleiras para próximo de 600 nessa passagem dos séculos 20 para 21, caso queira atender a 5% de todo o mercado mundial de etanol. O que significa ocupar quase 30 milhões de hectares de área plantada somente com a cana-de-açúcar.
Nessa toada, não cabe, mais uma vez, repetir o passado da grande empresa agromercantil do açúcar, dependente da extroversão econômica e da concentração da riqueza. Ainda há tempo para que o país conceda um passo urgente e decisivo na reinversão do ciclo da agroenergia.
Para isso, o Brasil precisa constituir, por exemplo, uma empresa pública de agroenergia, com o compromisso de garantir oportunidades universais de participação do circuito inferior da economia (pequenos e médios produtores rurais e de microusineiros sucroalcooleiros). Da mesma forma, caberia ainda o desenvolvimento de capacidades orientadas à centralização do comércio da energia renovável no país.
Por fim, o estabelecimento de um grande acordo em torno das relações de trabalho vinculadas à agroenergia, é necessário para interromper a difusão do padrão de emprego asiático no campo e nas cidades por onde se localiza o complexo produtivo. Em síntese, evitar a difusão do emprego associado a elevadas jornadas de trabalho, forte rotatividade e baixa remuneração.
Sem rompimento com a repetição do passado, dificilmente serão construídos os elementos portadores de futuro. Sabe-se que são necessárias medidas governamentais que podem, talvez, contrariar interesses importantes, porém inegáveis, como antídotos do novo dependentismo que se forma em torno do ciclo do agronegócio no Brasil.
Sem um programa nacional comandado pela empresa pública, as organizações das atividades de agroenergia no Brasil tendem a se integrar à estratégia internacional monopolística das grandes corporações, que as coordenam não necessariamente a serviço dos interesses do conjunto da nação.
Assim, a produção e a exportação de agroenergia, dependente exclusivamente do livre jogo das forças de mercado, podem produzir desvantagens e graves conseqüências para o plano da independência nacional. A decadência pode estar próxima do fim, porém a dependência não.
Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), professor licenciado do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas.

As estratégias da produção do consenso
A inundação diária de informações pode alagar o pensamento dos indivíduos e promover o mofo permanente das idéias e reflexões. Estamos – todos nós – sujeitos a isso, a cair nas armadilhas do turbilhão de imagens e fatos do cotidiano.
O nosso confrade do blog Agente 65 lembrou outro dia de uma pesquisa realizada por um sujeito chamado Alberto Carlos Almeida, pesquisa essa que merece ser examinada melhor e a frio. Essa “pesquisa” resultou no livro “A cabeça do brasileiro”, que pretenciosamente tenta extrair verdades científicas sobre o pensamento médio da nossa população.
O destaque são quatro números significativos, segundo Almeida:
- 54% concordam que um condenado por estupro seja estuprado na cadeia;
- 54% concordam com a polícia espancar presos para que confessem seus crimes;
- 52% concordam que policiais matem ladrões e assaltantes depois de prendê-los;
- 48% aprovam o linchamento de suspeitos de crimes muito violentos.
Aqui neste blog, eu já tinha comentado sobre essa fraude pseudo-científica do senhor Almeida. Agora, com o filme Tropa de Elite, a mídia corporativa esquenta a “pesquisa”, com a clara intenção de justificar a violência policial retratada no filme de Padilha. À luz dos resultados desses falsos pesquisadores, a brutalidade policial fica naturalizada.
Sendo assim, o trabalho de Almeida, menos que uma pesquisa, é um instrumento de ação política – pela direita, a serviço das oligarquias brancas, gordas, endinheiradas, rentistas, herdeiras do escravagismo e portadoras de flamantes relógios Rolex. Trata-se de uma estratégia de produção seriada de “opiniões públicas” visando o constructo de consensos legitimadores da ordem tradicional.
Essa retórica untuosa articulada em brochura e marketing pesado é muito velha, mais velha ainda que a Dercy Gonçalves. Ninguém desconhece que o exercício da força sempre se faz acompanhar – antes, durante e depois – de um discurso de justificação, visando legitimar a brutalidade de quem a exerce. Antigamente diziam: “Deus está conosco!” Hoje, dizem: “a opinião pública está conosco!” Não são, pois, equivalentes?
É aquilo que Bourdieu chama de “efeito de consenso”, cuja primeira operação consiste na suposição de que todo mundo tem uma opinião, e em segundo, ignorar as não-respostas, ou seja, eliminar as possibilidades de haver discrepância nos resultados. Tudo que não sustenta a minha tese, será descartado. Uma fraude da fraude.
As quatro questões acima tem uma natureza comum estritamente políticas. É inegável. Mas antes, quando apresentadas ao comum mortal, são embaladas no papel celofane da moralidade subjetivadora, escamoteada em perguntas tocantes e mobilizadoras de reações fortes e apaixonadas. Pronto, o entrevistado já caiu numa cilada irrecorrível, involuntariamente. Nessa dupla natureza das questões é que habita a fraude.
O curioso é que esses pesquisadores de araque nunca perguntam as verdadeiras questões, as decisivas:
Você acha justo que 1% dos brasileiros detenham mais de 50% das terras férteis do Brasil? Você acha justo que 80 mil brasileiros fiquem com 8% do PIB anual e 10 milhões de miseráveis fiquem com a migalha de 0,5% do PIB? Quem você acha que tem mais privilégio nas grandes cidades brasileiras: O automóvel? O ser humano? Sabendo-se que os bancos pouco pagam de impostos diante dos grandes lucros que ganham, pergunta-se: Isto é justo? Isto é injusto? Sabendo-se que os assalariados que ganham 3 mil reais pagam o mesmo imposto de renda do que aqueles que ganham 30 mil reais ao mês, pergunta-se: Isto é justo? Isto é injusto? E assim por diante.
Mas quem financiaria essa pesquisa?


As duas aves blogueiras
Foi a socióloga Agnes Heller, essa ex-aluna do velho Lukács, que melhor estudou o cotidiano, porque classificou-o como território da história, ao qual nós estamos plantados, participando e (muito mais) sendo participados. Mas esse território está crivado de armadilhas perigosas, especialmente para um blog. Depois de 19 meses com esse blog, já é possível suspeitar desses perigos iminentes. Um dos elementos mais difíceis para mim, aqui atrás dessa tela virtual, sempre foi o de descobrir o tom da escrita. Achar a afinação do instrumento. Um blog é um instrumento novo, uma mídia de múltiplas e variadas possibilidades, você pode fazer dele um diário róseo ou um repositório doentio de fel e ressentimentos, um instrumento político ou a expressão psicanalítica de neuroses e paranóias, ou nada disso, muito antes pelo contrário.
Hoje, penso que o tom é o do panfleto político, a recuperação desse instrumento histórico da esquerda, agora sob a forma eletrônica e virtual do blog.
Isto posto, é preciso evitar as armadilhas do cotidiano, sendo a maior delas – a meu ver – a de querer estampar e dar conta da avalanche de informações que são jogadas diariamente pelo mundo midiático corporativo (instrumento político privilegiado do capital financeiro e da lei do valor).
Neste sentido, o cotidiano é um pega-ratão, para o blogueiro. O que eu mais admiro no Luís Fernando Veríssimo é – entre outras – a virtude de evitar os temas candentes do cotidiano. LFV não tem mentalidade de ferreiro, que só trabalha com objetos quentes. É preciso deixar as coisas esfriarem, morrerem um pouco, para melhor decompô-las, afim de examinar-lhes as entranhas reveladoras da sua verdadeira origem e natureza.
É quase inevitável, agora, lembrar da coruja de Minerva, do velho Hegel, que só levanta vôo quando cai o dia, quando fecham-se as luzes falseadas do cotidiano. Entretanto, dialeticamente, como lembravam os alunos do velho filósofo, é preciso não esquecer do galo da madrugada, que canta alto anunciando um novo dia. Desta forma, o cotidiano fica menos desprotegido, este blog fica menos burro, com a coruja de um lado e o galo de outro. Duas aves blogueiras, por excelência.
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