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terça-feira, 23 de março de 2010

Hegemonia do capital financeiro pode se reforçar ainda mais no Brasil


É o que garante Carlos Lessa

O respeitado economista e doutor em Ciências Humanas, Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, concedeu entrevista ao portal IHU On-Line da Unisinos. Abaixo alguns trechos dos esclarecedores e lúcidos comentários de Lessa (foto):


Investimento público

Desenvolvimento se obtém quando se consegue combinar duas dimensões: a ampliação do mercado interno, principalmente por elevação do poder de compra das famílias, melhoria do padrão de vida da população; e quando as empresas públicas, privadas, nacionais e estrangeiras investem, ampliando a capacidade produtiva. É isso que empurra o país para frente. Só que, no Brasil, isso está mutilado porque a capacidade pública de investir está próxima a zero. O PAC é uma tentativa de restabelecer os investimentos de longo prazo, mas até agora os resultados foram certamente positivos, porém muito pouco significativos em relação ao que o país necessita.

Cervejaria AmBev

O Estado não deveria fazer nenhuma linha de apoio para isso [incentivo estatal para criação de empresas gigantes no Brasil], porque o grande apoio que ele tem é dispor do mercado brasileiro sob suas rédeas. Esses grupos tiveram um enorme apoio do Estado brasileiro para crescerem. Eu era presidente do BNDES quando a AmBev decidiu se fundir com os belgas. Fiquei muito zangado e fui verificar quantas operações o banco havia feito com o Grupo AmBev desde que ele foi fundado: dual mil operações com crédito favorecido. E a empresa sequer nos comunicou que iria fundir com os belgas. Imediatamente parei a linha de financiamento, mas, quando fui demitido, restabeleceram essas políticas de incentivo.

Um país que fez a Petrobras e construiu Brasília pode fazer coisas muito mais espantosas. O problema é que a alma brasileira está pequena. Nós podemos pensar grande porque somos grandes e temos um passado de grandes coisas feitas. A única coisa que nunca fizemos nesse país foi justiça social.

Brasileiros com conta bancária no exterior

Os argentinos avaliaram em 90 bilhões de dólares o capital argentino que estava no exterior. O Brasil deve ter um valor parecido com o da Argentina, ou muito mais. Mas se for 90 bilhões, isso já é uma porcentagem colossal do dinheiro que está por trás das operações de financiamento de dívida pública, que está em aplicação na bolsa de valores. O Brasil tem muito capital e multinacionais que vivem em Miami. Acho muito engraçado o número de brasileiros que têm apartamento em Miami. É algo assustador. Mas é mais fácil ter conta no Caribe do que apartamento no exterior.

Os financiamentos do BNDES

É difícil avaliar uma organização como o BNDES num país que não tem plano de desenvolvimento e nem tem política econômica maior. Um país que vive apenas a partir do que o Banco Central decide em torno de juros e dólar, e que os donos do pedaço privado do Brasil são, na verdade, os bancos e o mercado de capitais, é um país que navega a curto prazo. O BNDES por definição é um banco de curto prazo. Mas quem diz ao BNDES qual é o longo prazo para o Brasil? Esse é o problema.

Em alguns aspectos, o banco está “comendo mosca”. O BNDES não deveria estar financiando de maneira tão espetacular a exportação de automóveis porque essas empresas que estão sendo apoiadas pelo banco exportariam de qualquer jeito. Poderiam pegar dinheiro no exterior. Na verdade, eu não tenho muita certeza se eles não estão fazendo uma brincadeira perversa: O BNDES empresta, mas os lucros deles são reciclados para dentro do país, aplicando em operações financeiras dentro do Brasil. Suspeito que muitos fazem isso, o que não é bom.

Plano Ômega e sucessão presidencial

Então, essa história do Plano Ômega [*] é terrível, sintomaticamente, isso aparece num cenário em que está se aproximando a sucessão presidencial. Estou absolutamente convencido de que isso vai ser colocado nas discussões dos dois candidatos principais, e o candidato que apoiar o projeto terá o apoio do sistema bancário. Isso é coordenado pelo ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e, por trás dos panos, penso que o Dr. Meirelles gosta da ideia. Não posso afirmar, mas se conheço bem a cabeça dele, não tem nada contra porque ele gosta mesmo é de ver os bancos privados crescendo e o Brasil parado. Agora mesmo ele está querendo parar o Brasil e novamente os bancos continuarão crescendo porque os juros reais voltarão a subir. Esse é um jogo ligado à sucessão presidencial.

Plano Ômega reforça as piores tendências

Se essa turma que articula o plano Ômega tiver sucesso em vendê-lo, não muda rumo nenhum; reforça as piores tendências atuais. O Brasil caminha para ser uma Singapura colossal. Hong Kong da América do Sul. Vão dizer que Hong Kong tem um padrão de vida alto. Sim, tem. Mas também tem as maiores favelas da Ásia.Hong Kong é terrível. Uma grande porcentagem da população vive em barcos ancorados permanentemente na baía. É uma miséria terrível, mas tem Hong Kong e os banqueiros de Hong Kong.

Para ler a íntegra da entrevista de Lessa, clique aqui.

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[*] Plano Ômega é o que está sendo chamado a perigosa articulação entre BM&F/Bovespa, a Anbima e a Febraban no sentido de transformar São Paulo no centro financeiro da América Latina. O gerente deste plano diabólico seria o banqueiro Armínio Fraga. O projeto é transformar São Paulo no hub regional para que receba direto os investimentos estrangeiros em títulos privados e sobretudo públicos que hoje passam antes por Londres ou Nova York. Para tanto é preciso modificar a legislação cambial, dar conversibilidade ao real, acabar com o IOF de 2% sobre os investimentos estrangeiros e aperfeiçoar a regulação e a fiscalização. Como se sabe, nada disso se concretiza sem a anuência do Governo Federal, especialmente do Banco Central e o Ministério da Fazenda.

Resumo da ópera: mais poder e força à hegemonia do capital financeiro no Brasil, em detrimento de um projeto de desenvolvimento sustentável, com distribuição de renda e oportunidades para todos.

5 comentários:

valeriobrl disse...

Otimo post...Brasil é um pais aonde se fala muito pocos (no ambos os latos) das dinamica do mercado financieiro...será um "tabú"?

valeriobrl disse...

Otimo post, obrigado.

André Scherer disse...

Esse plano Ômega, se levado a cabo por completo, pode marcar a história econômica do Brasil. É algo de grande influência para o futuro do país. E o legal é que dá para fazer tudo dentro do Ministério da Fazenda e do Bacen, em articulação com o W Street e a City. Isso vem no momento em que estão em crise lá fora. Barbas de molho, se passar o boi, já viram né? O engraçado é que isso sim pode vir a quebrar um dia a banca brasileira (e o país como avalista junto), pois é muito mais pesado do que jamais ousaram.

Ismael do Nílzo. disse...

Hoje,por comodismo e homenagem,vou lembrar um verso do Ney Lisboa:..."O Mundo e dos Bancos...E os Bancos dos Mendigos!"

claudia cardoso disse...

O Armínio Fraga é sócio do Sirotsky!!! Cruzessssssssss!!!!

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