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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

segunda-feira, 29 de março de 2010

"Avatar" é um belo manifesto eco


Kitsch, por vezes primário, texto ruim, mas convincente e irrefutável

Sábado, finalmente, pude ver o filme "Avatar". Quem viu "Guerra ao Terror" (The Hurt Locker) deve necessariamente ver "Avatar" (e vice-versa). São como pares antagônicos, não só pelos temas que abordam, como pelo envolvimento conjugal anterior de seus diretores, Kathryn Bigelow e James Cameron.

"Guerra ao Terror" trata da guerra de forma esquecida e sem contexto, enxerga o soldado mas não vê o exército de ocupação imperial que vai predar o Iraque em nome, em nome, em nome do quê mesmo? Ah!, da geopolítica da ganância.

"Avatar" também trata da guerra, mas na forma de defesa do território como Natureza harmônica, de uma distópica cultura extraterrestre que não se descolou do mundo natural, que não briga com o resto da criação para fazer prevalecer valores reificados e hipertrofiados.

Pode-se dizer que "Avatar" é um filme de guerra com um olhar odara. Já foi chamado de Pocahontas-da-ficção-científica. Pode ser, não importa. O certo é que se trata de uma colagem de muitos signos, um longo trem de simbolismos puxados pela locomotiva do discurso ecológico. Usa e abusa da linguagem dos quadrinhos, da animação gráfica, das novíssimas tecnologias, de efeitos chamados especiais, de técnicas outras que fazem suporte para a velha e boa linguagem cinematográfica, que visam sobretudo causar impressões e emoções nos espectadores de qualquer idade. E consegue. Embora, o texto por vezes não seja bom. A história é banalíssima e o romance de "Avatar" é primário-açucarado. Mas, o pacote final acaba sendo satisfatório como espetáculo no contrapelo do pensamento hegemônico.

James Cameron usa o espetáculo para alertar, fazer refletir e denunciar o plano inclinado no qual resvala o mundo da mercadoria na sanha destrutiva da Natureza. Cameron mostra de forma didática que Homem-Natureza é uma coisa só, que tudo está interligado e conectado, e que corremos risco - sim - se ousarmos continuar cortando essa costura delicada de compromisso vital com o planeta que habitamos. Tem uma passagem quase poética, lembrada pela "mocinha" Na'vi, a guerreira Neytiri: "Podemos usar toda a energia que quisermos, mas um dia temos que devolvê-la à Natureza". Ponto. Não há discussão que consiga refutar esse princípio universal.

"Avatar" também pode ser lido como uma transposição futurística da invasão do Império ao Iraque e Afeganistão. Hoje, se invade na busca do domínio do petróleo, amanhã se invadirá na predação de minério raro, que vale 20 milhões de dólares o quilo, como em Pandora do filme. Cameron quer mostrar que esse ciclo burro deve ter fim, não é possível continuar fazendo as mesmas asneiras sempre, sem que nos dissolvamos na guerra de extermínio e destruição total do ambiente (seja qual for) em que vivemos.

Fui ver o filme numa sessão onde havia muitas crianças. Preconceituoso e ranzinza, achei que tinha feito um mau negócio. Ledo-ivo engano. As crianças ficaram absortas na história o tempo inteiro, estavam sideradas pelas imagens e o movimento desabalado e cativante do filme. Concluí que um filme desses vale por milhões de panfletos e militância ativa de multidões em favor de "um outro mundo possível".

A estética de "Avatar" é breguíssima. Lembra as capas dos discos-vinil da velha banda Yes, realizadas pelo artista pop Roger Dean, na linha adoçada do orgânico-cósmico, seja lá o que isso signifique de fato. Procurei sobre o cara na internet e notei que vários espectadores de "Avatar" também notaram o traço inconfundível de Dean naquelas montanhas flutuantes, nos pássaros-monstros, nas luminescências noturnas da botânica de Pandora, e no astral new age do filme. Ou seja, estética anos 70, total. Muito cafona, muito bicho-grilo, muito kitsch, mas eficaz e eficiente como manifesto eco às novíssimas gerações. Tenho certeza que "Avatar" vai marcar positivamente as crianças de forma permanente. Espero que não seja tardio. Seu subconsciente, sua imaginação já ficam inoculados com anticorpos de defesa e contra a vigarice global da mercadoria e seus agentes amestrados.

Verificando a crítica ao filme publicada na mídia brasuca, notei também que a mesma se limita a comentar sobre os aspectos negociais e mercadológicos do orçamento milionário do filme de Cameron, um orçamento na ordem de meio bilhão de dólares. Poucos comentam o filme em si, preferem falar dos aspectos "blockbuster" do empreendimento comercial-pop. Exaltam o lado "mercado" do cinema de James Cameron, mas esquecem o tema contundente e denuncista, político mesmo, do filme "Avatar". Como dizia aquele canadense: "o meio é a mensagem". Ou seja, se a "mensagem" não é boa (para os vendilhões da Natureza), vamos comentar apenas o "meio", o filme e seus muitos business derivativos.

Na saída do cinema, ouvi um adolescente sebentinho, voz anasalada, cabelo na palma da mão, comentar (mordaz) com os amigos: "Será que aquele general sequelado andou tomando o santo daime, pra detonar com os Na'vi?"

Coisas da vida.

Ouça o velho Yes, orgânico-cósmico, como se dizia. A banda foi formada em 1968, e Cameron recupera um pouco essa estética new age:

Yes - I've Seen All Good People
Found at skreemr.com


22 comentários:

José Antonio Meira da Rocha disse...

Cameron já havia retratado extra-terrestres como bonzinhos, e não como belicistas, em "Segredo do Abismo", seu cartão de visitas a Hollywood.

Katarina Peixoto disse...

Hehe, como nasci nos 70, nunca escutei essas coisas e meu amor pelos punks me fez sempre desconfiar do hippie way of nothing. Amei o filme, como já disse zil vezes. Achei as imagens mais ligadas à psicodelia, tenho certeza de que os diretores de arte e quetais já tomaram muito ácido na vida. Imageticamente a coisa é lisérgica. Isso nunca é brega, eu acho. Outra coisa: filme não é vegetariano nem pacifista. Hippies, que me consta, o são. O anti-esquematismo de Avatar, que apontas com razão ao falar de colagem, é um baita mérito. Talvez por ter um diretor blockbuster de blockbusters. Filme tem uma tese profunda sobre a relação entre conhecimento e ação e na defesa de um vínculo entre ambos se apresenta anticapitalista. Já se disse muito, que é um dança com lobos, flash gordon, o diabo. Mas é uma história de insurgência, de resistência, anti-especista - o Vaticano odiou isso, lájeco -, anti-imperialista. A música, sim, é odara e uó. Metáforas óbvias soa meio ant-intuitvo, né? Seja. George Monbiot, o maior jornalista ambiental do planeta, escreveu isto, sobre o filme. E assino embaixo: [link]http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16490[/link]

Katarina Peixoto disse...

Ah, esqueci uma coisa: para quem cresceu vendo Star Wars, eu tenho inveja da geração que cresce vendo AVATAR.

Ismael do Nílzo. disse...

Esse Camarão e mesmo de água rasa:São diretores que so conseguem filmar estas estórias pra oligofrênicos.Queria ve-los (tentar ao menos) filmar e recriar qualquer conto do E.A.Poe!Não conseguem! Tecnologia nos temos pra isso;mas quem nasceu pra ser tira-gosto em boteco não vira um Stanley Kubrick nem com auxílio de extra-terrestre!

Ismael do Nilzo disse...

Esse Camarão e mesmo de água rasa:São diretores que so conseguem filmar estas estórias pra oligofrênicos.Queria ve-los (tentar ao menos) filmar e recriar qualquer conto do E.A.Poe!Não conseguem! Tecnologia nos temos pra isso;mas quem nasceu pra ser tira-gosto em boteco não vira um Stanley Kubrick nem com auxílio de extra-terrestre!

Cazé disse...

Já vi que o Ismael da nilza não viu o filme.
Que tem a ver com Poe?
É um filme ecológico, contra a guerra, contra o capitalismo. Tem porblemas estéticos mas isso é secundário.

Udo disse...

De fato, a direita TODA não gostou do Avatar.

Por isso eu gostei.

E preparem-se vem Avatar 2, 3, 4...

Eles vão ter que nos engulir.

ETOLOGIA NO BRASIL disse...

Fui assistir desconfiado. Saí fascinado pela possibilidade de um conceito (Gaia) transmitido em forma tão didática, tão primaz, mas que chega ao destino. Concordo em quase tudo o que Feil escreveu. Se existe insconsciente coletivo, modelagem, estampagem ou seja lá o que for, em algum tipo de processamento cognitivo, a história do filme fica lá, icônica, conceitual, seminal, nas mentes dos milhões que assistiram e se deliciaram.
Vanner

Carlos Eduardo da Maia disse...

Além do lado lisérgico do Avatar - e concordo que tem muito de capa dos discos do YES -- ele mostra para as crianças que devemos sim nos preocupar com o meio ambiente, que não podemos construir uma sociedade baseada na ganância e no egoísmo e que nossa sociedade caminha para a barbárie se nos importarmos apenas com o balanço final que agrada o acionista da grande corporação. E que existe a possibilidade de construirmos um mundo melhor e possível se formos solidários.

pandora disse...

Tapou o nariz pra escrever isso não Maia?

Isso se choca com tudo com o qual tu acreditas.

Virou demagoga, gazela?

Vai ser candidato a deputada?

Omar disse...

Assino em baixo.
Omar

Carlos Eduardo da Maia disse...

Pandora, vá além, transcenda, leia outros livros de outras estantes, deixe de lado a simplorice de perceber apenas o lado maniqueísta da vida. Nada do que eu falei se choca com o que eu acredito. Hollywood gastou zilhões de dólares para criticar a forma de conduta de algumas grandes corporações, muitas das quais impõe sua força pela ganância. A força da grana, como diz o Caetano, pode sim destruir coisas boas, mas tem condições de erguer projetos notáveis e fantásticos para toda a humanidade. Menos rancor, please!

Nelson disse...

Feil. Como ainda não assisti o filme, estou vivendo de uma opinião aqui outra ali sobre o trabalho do Cameron.

Quanto à foto acima, do soldado pedindo a graça divina para cumprir sua “missão”, lembro que há poucos dias saiu foto semelhante na seção “Imagens do Dia” do sítio www.uol.com.br. Ela pode ser observada em http://noticias.uol.com.br/album/100309_album.jhtm?abrefoto=10#fotoNav=10

A acompanhar a foto, como se não houvesse qualquer contradição, mínima que seja, entre orar e iniciar as chamadas “incursões” no Afeganistão, uma singela legenda:

"Soldados da Guarda Nacional do Afeganistão e membros do Exército dos Estados Unidos, em missão no país, são flagrados durante roda de orações antes do início das incursões na província de Helmand, sul do Afeganistão".

Paulo F. Homero Jr. disse...

Percebam o tom homofóbico da crítica ao Maia...

Semana passada iria assistir Avatar, queria pela primeira vez ir a uma sessão 3D, mas já tinha saído de cartaz. A impressão que tenho por tudo que li é que é uma história extremamente piegas e mal contada, por isso não fui ver antes. Talvez eu esteja um pouco enganado.

elektrofossile disse...

Um blockbuster de Hollywood, recorde de bilheteria, ser crítico e anti-sistema? Estou para ver (para crer).
Me engana que eu gosto ...

Cezar - Poa disse...

Belo texto. Fico feliz ao ver cabeças pensantes que, mais que pensar, conseguem se expressar e passar sua visão para outras pessoas. Concordo com tudo o que tu disseste. A direita é tão ignorante que desqualificou a essência do troço e focou, como sempre, no business. Até entendo, acho que são coerentes na sua idiotice. O que eu não entendo é quando pessoas que não são ricas defendem tal postura.

Eduardo disse...

James Cameron passou pelo Brasil para apelar que não se construa uma hidroelátrica na amazônia. Creio ser a Monte Belo.
Indagado se Avatar 2 podia ser rodado na amazônia, recusou: "Avatar é feito em computadores na Nova Zelândia".
Me engana então, não existem computadores na amazônia, não tem universidades cheias de gente competente em computação gráfica capaz e que possa ser empregada no Avatar 2.
Cameron revive o roteiro do seu filme conosco, de certa forma no conteúdo intervencionista, mas ao revés na forma.
Quer que fiquemos com as paisagens intactas, mas os empregos e a capacitação ficam com os anglófonos da Nova Zelãndia.
Devemos nos sacrificar pelo sentimento de pureza dele.
Ele repete o que fizeram os humanos com os Na`avi, na medida em que vem lá dos EUA se intrometer no nosso modo de vida e palpitar sobre o que devemos fazer com nosso quinhão do planeta.
Devemos preservar o verde do mundo ao passo que ele preserva os empregos do mundo dele.

Anônimo disse...

Aiai...

A coisa fica difícil mesmo quando se tenta analisar a realidade através da fantasia com fins de netretenimento...

Que falta de criatividade, quanta superficialidade!!!

Comparações rasteiras com capas lisérgicas de PL´s dos 70' do século passado; ecoativismo implícito (veja-se, a humanidade, no futuro, não é nada além do que é hoje, essa é a mensagem dos comentários - típico de gente que não acompanha de perto a evolução tecnológica e social, a verdadeira "revolução" que está para se operar neste planeta, através do ser humano) e o retorno da tese do "bom selvagem" nos cinemas.

Ah pessoal, vamos cair na real!!!

Dou de bandeja a dica (em inglês) para quem realmente quer ficar informado sobre o futuro:

nextbigfuture.com

abraços

Marcelo Cougo disse...

Também fiquei impressionado com o visual do filme. Também achei que tem uma mensagem bacana e importante. Mas a contradição é que por ser um blockbuster, o filme faz o mesmo que critica. Por dinheiro arrasa com a produção local ao ser colocado em centenas de salas de cinema. É a colonização predatória, mesmo que seja com um discurso anti colonizante...mas é uma experiência visual única.

Dinossauro disse...

Detonar o "velho Yes" e elogiar os punks como foi feito por alguem aqui e' fazer o jogo das gravadoras, que gostam de musicas de 3 minutos e sem conteudo artistico. De preferencia repetindo um refrao 1000 vezes, ja' que o publico de hoje nao tem apreco pela concentracao e odeia pensar. Assim vende mais facil. O fim da musica. Tudo pelo dinheiro nesta era de imediatismo. Os punks foram so' uma jogada de marketing do Malcolm Mclaren. Ah, nao sou vegetariano nem bicho-grilo.

Anônimo disse...

Só imbecis para elogiar esta asneira de Roliud
feita para enriquecer os espertos às custas dos trouxas.

Anônimo disse...

Marina Silva emocionada em Garanhuns (PE)

Na cidade natal de Lula, a senadora deixou de lado as críticas para elogiar o presidente. "Quando vinha do aeroporto, pensei: 'Puxa vida, aqui nasceu o menino Lula'. Ele já foi uma criancinha e virou presidente. Para mim, é uma emoção muito grande estar aqui"

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