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segunda-feira, 22 de março de 2010

"Guerra ao Terror" é uma propaganda inteligente e perigosa


Bigelow é diabólica

No final do ano passado quando tive notícia do filme "Guerra ao Terror" (The Hurt Locker) da diretora Kathryn Bigelow pensei: "mais uma propaganda para justificar a ocupação imperial no Iraque".

Sábado passado, ao ver o filme da bela Bigelow (foto), desfiz esse preconceito em favor de uma convicção: tudo bem, não se trata de uma propaganda direta e objetiva, se trata, sim, de um bom filme, plasticamente falando, que usa a linguagem da moda no cinema, a do documentário, câmera ágil, trepidante, por vezes vazando luz, algum rock pesado ao fundo, enormes closes e um morde-assopra constante, aquelas tensões-distensões do qual são feitas todas as boas narrativas - em qualquer linguagem ou suporte expressivo - desde que os fenícios inventaram o alfabeto.

Agora dá pra adivinhar o motivo de Cameron não ter ficado casado com a Bigelow, a mulher é um perigo, bela, inteligente e diabólica. Conseguiu fazer um filme de propaganda sem usar praticamente nenhum dos sórdidos clichês da propaganda. Se o sujeito derivar na barca da fantasia de Bigelow, precipita-se no abismo de suas ilusões e sucumbe na credulidade de que o soldado dos EUA é de fato um herói atormentado que carrega nos ombros os pecados do mundo mas vai logo-logo trazer a redenção a toda a Terra.

Por isso: olho e razão.

A rigor, a Bigelow professa um belicismo envergonhado e fatalista. A guerra é uma fatalidade. Os soldados dos Estados Unidos - todos voluntários, ao contrário dos que lutaram no Vietnã, diz a bela numa entrevista - replicam o conflito que vivem nas securas do Iraque dentro de si, também. Aí a diretora (ou o roteirista) perde um pouco a mão, quando trata da subjetividade do soldado. Bigelow fica com a mãozinha de chumbo. O monólogo de James, o desmontador/viciado em bombas, olhando o pequeno filho é digno do autêntico psicologismo de botequim. E de psicologismo barato em psicologismo vulgar, Bigelow vai empurrando ao espectador as bandeirolas com as inscrições: "Viva a guerra!" "Só os soldados da América sabem enfrentar o inimigo de frente". "Nossos soldados são uns mártires". E por aí vai.

Há um esquecimento proposital dos motivos daquela guerra. A identificação do próprio local - o Iraque - fica subsumido em diálogos rápidos entre os protagonistas, nunca é informado objetivamente ao espectador o lugar onde estão, por que os Estados Unidos invadiu aquele país, como invadiu ou se invadiu ou apenas foi proporcionar-lhes modelos edificantes de "justiça" e "democracia" - valores tão abundantes na chamada América.

Bigelow é esperta.

E diabólica.

Intriga em "Guerra ao Terror" o número de crianças que aparecem em cena. Todas sempre furtivas, se esquivando como ratinhos assustados por ruas sujas e vielas escuras onde correm líquidos ameaçadores. Os iraquianos sempre aparecem ao longe, desfocados, a espreita, fantasmagóricos, sem fala e sem face ou identidade definida. É de pensar: quem sabe os iraquianos são os verdadeiros invasores? Os impostores? Os vilões? Os que não tem subjetividade nem transcendência?

Um soldado diz, já em desespero (só aos soldados estadunidenses é dado esse direito, o de expressar a dor): "Eu odeio essa terra!"

Mas ele jamais dirá "eu odeio essa guerra!"

Bigelow é um perigo.

E bela.

Aqui, o Telegrama, de Zeca Baleiro:

Zeca Baleiro - Telegrama


Found at skreemr.com

17 comentários:

Maria Alice disse...

Bárbara a tua análise, Feil.

Anônimo disse...

Dica: documentário "Filmes Ruins, Árabes Malvados: Como Hollywood transforma um povo em Vilão - Reel Bad Arabs (2007)". Vale a pena baixar e ter as sacações necessárias!
Disponível, vídeo e legenda, aqui:
http://docverdade.blogspot.com/2009/12/filmes-ruins-arabes-malvados-reel-bad.html

abs.

Láureo

Carlos Eduardo da Maia disse...

O filme mostra uma grande verdade: os americanos não são os bandidos nessa guerra inglória. Os bandidos são os terroristas. Sim eles existem e são financiados por governos que o nosso pop presidente apoia ou defende. São os terroristas que armam as bombas para o heroi do filme desmontar. E as vítimas dessas bombas não são apenas os americanos, são também e, sobretudo, os iraquianos. Bigelow não tem nada de perigosa, ela apenas mostra a verdade crua, assim como fez José Padilha no Tropa de Elite que desmonta a babaquice foucaltniana de reprimirmos nossos fascismos diários. E enquanto nos reprimimos os bandidos jogam as bombas.

Anônimo disse...

Maia, que falta te faz a leitura.
Leitura que te descortine panoramas mais variados.
Leitura como a do blogueiro gay de Bagdá, que contava no seu "Where is Raed", antes e até o primeiro ano da guerra, o dia a dia do Iraque.
Esse blog era uma fonte de primeira mão, não a releitura de uma parte interessada como a Bigelow.
Outra fonte interessante seria o "Salon", um site americano, pago, nem sei se ainda existe, mas tinha uns previews grátis interessantes.
Lá eles, os próprios americanos, não compravam esses peixes podres que tu gosta. No Salon, a pedra do que ocorreria no Iraque vinha sendo cantada lá desde 1993.
Quem foi que te soltou ?

Anônimo disse...

O Maia fez um comentário típico de um retardado mental., Pimentel.

Anônimo disse...

Jararacas e cruzeiras também são belas.
Quem não as conhece corre perigo.

giovani montagner disse...

não vi o filme, e pelo nome e toda os interesses que o cerca, acho que fiz bem.
minha certeza fiquei ainda maior após ler a opinião do michael moore sobre a justificativa da academia para lhe entregar o oscar de melhor filme, a de ser neutro.
sugiro fazermos um filme neutro sobre a escravidão, quem sabe finalmente o brasil não conquista um oscar.

Anônimo disse...

Feil, sua análise está perfeita. Só tenho que discordar do seu gosto, a mulher é feia demais. Carinha de lumbriga. Ela tem dinheiro, então fez o cabelo, comprou um vestidinho bom, mas ela tem pescoço de homem, parece um travesti. Sinto muito, mas vocês homens são fáceis de enganar.

marcio disse...

Prezado Feil,

Sou leitor assíduo de teu blog, é uma de minhas principais fontes de informação. Me permito discordar, um pouco, da tua leitura do filme.

De fato, ela falou um monte de patriotada imbecil nas entrevistas que deu ultimamente.

Mas me pareceu que o filme não mostra aquele cara como um herói, ou algo assim, mas sim como um drogado, um viciado na "droga" que é a guerra. Olhei todo o filme orientado por aquela frase do início: "A Guerra é uma droga, porque vicia."

E assim, me chamou a atenção uma dimensão da história mais relacionada a americanos viciados, chapados nessa droga que é a guerra, o militarismo, tão comuns e constituintes das visões de mundo de boa parte da juventude daquele país.

OK, ela não chega a construir algo muito denso. Não se trata, nem de longe, de um filme da família de clássicos como Nascido para Matar, Platoon ou Apocalipse Now. Mas aí já seria esperar demais da ex-mulher do James Cameron, né?

Mas, de fato, ela é uma mulher muito sutil, e talvez eu tenha caído em suas sutilezas... hehe!!

Abraço!!

flics disse...

O filme é bem fraquinho. Só é neutro para quem está do lado americano.

Honesto no filme é que mostra todos - todos, repito - iraquianos como inimigos. O que realmente são. Nisso o filme acerta bem.

Maia... volta o cadáver insepulto... Seja bem vindo, o blog ficará mais divertido.

Flics

Tupamaro disse...

O apedeuta com PHD e MBA, que aqui apresenta-se como Maia, aprendeu rápido com os sionistas das RBS, que por sua vez aprenderam com o nazista Goebbels(vejam só, quem diria que sionismo e nazismo não têm coisas em comum?):repetir uma mentira tantas e tantas vezes até que os incautos a tomem como verdade.
Os tais bandidos terroristas nada mais são, na maioria das vezes, do que agentes da CIA, Mossad e outras agências de inteligência ligadas ao governo norte-americano, que os usa descaradamente para justificar as agressões no Iraque, Afeganistão e, futuramente, Irã.
No entanto, cidadãos norte-americanos reunidos no Architecs & Engineers for 9/11 Truth (veja o site http://www.ae911truth.org/)
solicitam uma nova investigação (desta vez com mais seriedade) sobre o 11 de Setembro, pois a versão oficial está mais furada do que swiss cheese. Há sérias dúvidas sobre os verdadeiros autores do atentado, que deu origem a tal Guerra ao Terror.

Recentemente, como pode verificar-se no site citado acima, ativistas da "AE for 9/11 truth" tentaram entregar uma petição a uma funcionária do governo norte-americano e foram recebidos sabem por quem? Pela polícia... Que bela democracia! Agora sabemos em quem Yeda inspirou-se ao mandar a BM recepcionar os ativistas sociais gsúchos em suas caminhadas até o Palácio Piratini.

Enquanto isso, ZH está muito preocupada com os ativistas cubanos...

Nelson Antônio Fazenda disse...

Não assisti o filme e não sei se assistirei tão cedo. Afinal, filmes com propaganda em favor dos Estados Unidos, explícita ou bem escamoteada, e suas ações altruísticas(?), a Globo, o SBT, a Band, a Record e a Rede TV rodam todo dia. Isto sem contar aquelas enfadonhas séries em que aparecem agentes ou soldados estadunidenses como verdadeiros super-homens, resistindo a tudo e a todos, e como campeões da solidariedade e do altruísmo.

A propósito, uma notícia que foi pouco ou nada divulgada pelos nossos ógãos da mídia hegemônica e
(de)formadores de opinião. No dia 22 de fevereiro, foi assassinado o 300º professor universitário iraquiano desde o início da ocupação do Iraque pelas forças armadas dos EUA. No meio acadêmico daquele país, há forte impressão de que haja uma campanha para aniquilar por completo a identidade cultural iraquiana, afirmava, já em 2004, o jornalista inglês Robert Fisk.
O filme de Bigelow chega a mencionar essa barbárie?

Anônimo disse...

O Mala voltou!!!E que comentário mais escroto.
Leminski já dizia:
¨viver é super-difícil
o mais fundo
está sempre na superfície¨

Anônimo disse...

Sempre leio esse blog, o editor é tendencioso, mas com conteúdo, fazendo deste espaço uma das alternativas mais qualificadas do país na área a da informação.
Contudo, há muito tempo deixei de ler os comentários e hoje resolvi dar uma olhada, para ver se o nível melhorou. Putz! Cada vez pior! Não há debate de ideias, só xingamentos do mais baixo nível! Poucos, muito poucos se salvam. Vou dar mais um tempo, quem sabe a coisa melhora.
Para contribuir um pouco, recomendo um bom filme que vi recentemente: "Território Restrito". Mas, vamos debater sobre ele, por favor.

Paulo R. disse...

Curioso.O Feil ressuscitou o Maia!!!!!!!!!!

Cristóvão Feil disse...

Caro Anônimo das 07:34,

vamos recuperar o sentido exato das palavras. Tendencioso é o sujeito ou o veículo que se declara neutro e isento mas acaba "tendendo" para um dos lados do espectro político e ideológico.

Ora, este blog DG jamais afirmou que é neutro ou isento, politicamente.

Portanto, onde está a condição para ser apontado como "tendencioso"?

Este blog DG tem uma linha editorial conhecida, aberta, franca e sujeita sempre a todas as críticas. Aqui ninguém se oculta ideologicamente. Temos posição - certa ou errada - sobre os temas que tratamos. Jamais fomos neutros.

Tendenciosa é a grande mídia, que usa a cortina de fumaça da neutralidade, mas defende os interesses mais inconfessáveis e exclusivos das classes proprietárias e oligárquicas.

Vamos recuperar o sentido exato das palavras, meu caro.

CF

Anônimo disse...

Caro editor,
Quando evitas criticar a ditadura cubana, seus exilados e presos políticos, por exemplo, só porque o seu governo é de esquerda, demonstras sim ser tendencioso. Para ti, uma ditadura de direita é criticada de forma veemente. Por que não adotas a mesma postura com as ditaduras de esquerda? O terrorismo da ditadura brasileira, financiada pelos EUA, até hoje condenas. E o terrorismo de esquerda? Portanto, acho que és sim tendencioso, pois adotas posturas diversas sobre condutas igualmente violentas e desprezíveis.

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