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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

65 anos do massacre de Dresden



Inexprimível


Em 1968, o ano em que escrevi Matadouro 5, finalmente estava maduro o suficiente para escrever sobre o bombardeio de Dresden. Foi o maior massacre na história européia. Eu, naturalmente, sei sobre Auschwitz, mas um massacre é algo súbito, que num tempo muito curto promove a matança de uma enorme quantidade de pessoas. Em Dresden, em 13 de fevereiro de 1945, cerca de 135.000 pessoas foram mortas por bombardeios britânicos em uma noite.

Foi pura insânia, destruição sem sentido. Toda a cidade foi arrasada e queimada e foi uma atrocidade britânica, não americana. Mandaram bombardeiros noturnos que chegaram e puseram toda a cidade em chamas com um novo tipo de bomba incendiária. E assim tudo que era orgânico, exceto meu pequeno grupo de prisioneiros de guerra, foi consumido pelo fogo. Foi uma experiência militar para descobrir se era possível queimar uma cidade inteira espalhando bombas incendiárias sobre ela.

É claro que, como prisioneiros de guerra, nós metemos a mão à procura de alemães mortos, desenterrando-os dos porões, porque eles haviam sufocado ali, e levando-os para uma imensa pira fúnebre. E ouvi dizer - não vi fazerem isto - que desistiram deste processo porque era muito lento e, naturalmente, a cidade começava a cheirar mal. Então mandaram sujeitos com lança-chamas.

Por que meus companheiros prisioneiros de guerra e eu não fomos mortos eu não saberia dizer.

Eu era um escritor em 1968. Era um picareta. Escrevia qualquer coisa para ganhar dinheiro, vocês sabem. E, que diabo, eu tinha visto aquela coisa, eu sobrevivera a ela, por isso ia escrever um livro oportunista sobre Dresden. Sabem, do tipo que seria transformado num filme em que Dean Martin, Frank Sinatra e outros desempenhariam o nosso papel. Tentei escrever, mas não conseguia encontrar o jeito certo. Continuava escrevendo merda.

Então fui até a casa de um amigo - Bernie O'Hare, que tinha sido meu camarada. Estávamos tentanto lembrar coisas engraçadas do nosso tempo de prisioneiros em Dresden, papo da pesada e tudo o mais, coisas que dariam um filme de guerra bacana. E sua mulher, Mary O'Hare, soltou os cachorros. Ela disse: "Vocês não passavam de bebês na época."

Isso é verdade em relação a soldados. São de fato bebês. Não são astros do cinema. Não são Duke Wayne [*]. Percebendo que aquela era a chave, senti-me finalmente livre para contar a verdade. Éramos crianças e o subtítulo de Matadouro 5 se tornou A cruzada das crianças.

Por que levei 23 anos para escrever sobre o que experimentei em Dresden? Todos voltávamos para casa com histórias, todos queríamos faturar com elas, de um jeito ou de outro. O que Mary O'Hare estava dizendo, com efeito, era: "Por que não conta a verdade, para variar?"

Ernest Hemingway escreveu um conto depois da Primeira Guerra chamado "O lar de um soldado", sobre como era rude perguntar a um soldado o que ele vira quando voltava para casa. Acho que muita gente, eu mesmo, inclusive, perdia a fala quando um civil perguntava sobre o combate, sobre a guerra. Era chique. Uma das maneiras mais impressionantes de contar a sua história de guerra é recusando-se a contá-la, vocês sabem. Os civis teriam então de imaginar todo tipo de atos de bravura.

Mas acho que a Guerra do Vietnã me libertou, e a outros escritores, porque fez nossa liderança e nossos motivos parecerem muito sórdidos e esssencialmente estúpidos. Podíamos finalmente falar sobre maldades que praticamos contra as piores pessoas possíveis, os nazistas. E o que eu vi, o que tinha a relatar fazia a guerra parecer muito feia. Sabem, a verdade pode ser uma coisa realmente poderosa. Não é algo que se espera.

Claro, outra razão para não falar da guerra é que ela é inexprimível.

Kurt Vonnegut (in Um homem sem pátria, 2005)

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Achei que o texto do grande Kurt Vonnegut combina com a música de Philip Glass. Sábado de carnaval, portanto, será o aniversário do massacre de Dresden, onde quase 140 mil pessoas - quase todas civis - foram incendiadas por milicos britânicos. Para quê, se os nazistas já estavam derrotados? Hitler já se arrastava como rato de esgoto nos subterrâneos de Berlim, e em abril se suicidaria, para quê?

Ora, para deleite e cupidez de milicos doentes.

Só a música de Philip Glass para exprimir essa tristeza.

[*] O ator norte-americano John Wayne (1907-1979), o eterno cowboy, também conhecido como "Duke". A tradução brasileira do livro de Vonnegut - A man without a country -, feita por Roberto Muggiati (Editora Record), por algum motivo desconhecido, omite essa informação.

9 comentários:

Anônimo disse...

música de primeiríssima.

Anônimo disse...

Por coincidência, encontrei Um homem sem pátria num sebo, semana passada. 8 reais. Foi estranho ler o nome do livro aqui. Não é tão bom quanto Matadouro 5, mas vale muito a pena.

Anônimo disse...

John Wayne é um ator estadunidense, norte-americano os canadenses também são.

Facundo disse...

E os mexicanos?

Anônimo disse...

Bela lembrança, Feil. Por conta das atrocidades cometidas por Hitler, esse episodio lamentavel e monstruoso comandado contra o povo alemao (Dresden restava uma cidade habitada por criancas e mulheres) costuma ser ignorado pela historia.

Meira da Rocha disse...

O culpado tem nome: Harris, o flambador: http://en.wikipedia.org/wiki/Sir_Arthur_Harris,_1st_Baronet

Anônimo disse...

Alguns retoques:
1) É óbvio que Kurt Vonnegut, por ser descendente de alemães, criticou o bombardeio de Dresden.
2) Onde estava Kurt quando os "flambadores" nazistas queimaram nos fornos de Treblinka, Auschwitz, e Bergen-Belzen 6 milhões de judeus?
3) Onde estava Kurt quando os nazistas bombardearam cidades da Polônia, França, Inglaterra sem objetivos militares (apenas para atingir a população)?
4) O que Kurt acha das cidades incendiadas pelos nazistas nas estepes da Russia em direção a Stalingrado?

Não vi nada disto escrito pelo Kurt.

Juarez Prieb disse...

Idiota, se dê conta que Kurt Vonnegut era soldado dos aliados e tinha apenas 19 anos quando foi prisioneiro dos nazistas em Dresden.
Vc não leu nada do KV e fica cobrando posição de um "bebê" como disse a mulher do amigo dele.

Ignorantão!!!!!

Maurício disse...

Acho que os irlandeses deveriam, assim como o povo do leste da Líbia, marchar contra Londres e tirar a Rainha do poder. Aí o OBAMA deveria congelar os ativos da Coroa Britânica assim como fez com o Khadaffi(afinal qual é a família de ditadores que mais suga dinheiro do mundo e está há mais tempo no poder?), e colocar os duques e lordes em guantânamo por crimes de guerra, contra a humanidade (vide Dresden) e por tomaram chá com leite. Julgados pelos Juízes Srs Exmo. Magistrados Penais Brasileiros, afinal sem dinheiro os lordes cairão na desgraça do cárcere. Não precisa nem citar os crimes coloniais como mérito de sentença...
Sonha, humanidade, com justiça.
A mídia é controlada?
Ela que comanda. Quem a comanda?
Lamentável Auschiwtz, Dresden, Hebron, Nablus, Teresina, Heliópolis. Que o Bope invada e salve-nos !!! Capitão Nascimento na Nova Ordem Boçal. Simialismo ou apocalipse pseudo hi-tech?! Mordam-se e me digam depois.

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