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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Muito complicado


Viajando de carro se ouve mais rádio. Fora de casa, eu pelo menos, vejo mais televisão. Com dificuldades de acessar a web, buscam-se notícias nos meios mais diretos, os tradicionais. Por isso mesmo, posso dizer de boca cheia e o coração contrito: o nível está cada vez mais rasteiro. Há uma praga que contamina dez entre dez repórteres, trata-se do recorrente "complicado", "muito complicado". O rapazinho ou a moçoila estão ali para narrar sobre as consequencias da chuva, o trânsito lento, mas limitam-se a um enigmático (e irritante) "a situação aqui está muito complicada". O sujeito adjetiva no ato. Nem narrou ainda, mas já está adjetivando. Começa a frase com o sonoro adjetivo: "complicado".

Pode ser algum mecanismo inconsciente, alguma contrapartida minimalista à merreca de salário que sofrem no fim no mês. A economia narrativa corresponderia - em contida represália - à economia salarial da empresa que trabalha?

Se a minha suspeita estiver próxima da verdade, fico feliz pela brava consciência de classe dos repórteres de rádio e televisão que tenho ouvido ultimamente. Me alegro, como dizem os uruguaios. Os caras estão fazendo uma revolução por dentro, silenciosa, em regime de procedimento padrão, cumprindo com o estritamente necessário para a emissora não sair do ar e eles não serem demitidos por justa causa.

Se é assim, rendo-me incondicionalmente. As novas tecnologias e a aguda consciência política do proletariado da imprensa burguesa estão cumprindo com o seu irrenunciável papel que os dogmas fixos da história lhes reservaram. Ufa!

Tudo que é sólido está se dissolvendo no ar, tudo que é sagrado está sendo profanado...

9 comentários:

Anônimo disse...

Concordo com o "complicado". Discordo do ranço materialista histórico do post. Boris Vangloren.

Juarez Prieb disse...

Viu, Feil? Vc quis ser irônico e as antas não entenderam.
O LF Veríssimo diz que a ironia é muito perigosa se o público for grande.

Katarina Peixoto disse...

Hahahahaahahah, adorei! Muito complicado é luxo, mesmo. A coisa abunda na desinformação triunfante. Passeando com meu cachorro vi que a Capa da Revista Óia explica a chuva. Muito complicado.

andré disse...

Esse Boris VanDamen é o famoso pé da letra.
Imaginação ZERO!!!!!!!!!!!!!
Burrice MILHÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Coitado, se alfabetizou lendo Veja e ZH.

Cesar Shu disse...

Isto me fez lembrar do espanto negativo da professora Christel Fricke com a ruindade da TV aberta brasileira. Ela comentou o assunto nas duas vezes que veio ao Brasil, em 1999 e em 2009. Isso que ela não entendia a língua!

Anônimo disse...

Acho que é o big BRodi em ação. A novalíngua, o não pensamento...

Anônimo disse...

Percebo uma homenagem ao professor Hariovaldo, grande informador dos homens de bem.

Marcelo Sperling disse...

Especialmente o que me irrita sao as caras, bocas, olhares e gestos dos reporteres na TV. Parece que eles fazem um curso de como gesticular ao dar a notícia. Nao tem um que faz isso parecer natural. Outra é como eles querem aparecer mais que a notícia. Parece que a notícia está em segundo plano, eles aparecem no centro da imagem com todo esse repertório de chamariscos pessoais (um classico é a mao com a palma pra cima se afastando da barriga). Será que eles tao preocupados em mostrar trabalho pra nao perder o emprego?

Anônimo disse...

E os cumprimentos ?
Na apresentação e despedida, principalmente as meninas, fazem uma entonação dura, seca e nada cordial. Parecem que estão a desejar um
Mau Dia !
Fico na expectativa de ouvir o
"Olá." "Boa Tarde." - naquele tom e fisionomia ríspidos e sem graça.
Penso logo "A la pucha tchê, dá-lhe !"
É dificil, para alguns, achar o tom certo para a sobriedade, se é o desejado.
E para a alegria, quando sobram sorrisos sem espontaneidade.

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