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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Nelson Jobim, o “impoluto”

Deu na Folha, de ontem.

Quem conhece os bastidores do STF se divertiu vendo Nelson Jobim reagir ao vazamento do papo eletrônico entre ministros da Casa com a declaração de que ali não existem pré-combinados. Durante seu período no tribunal, o hoje titular da Defesa era considerado um especialista em negociações para "amarrar" votos dos colegas.

Um combinado famoso foi o que derrubou as ações de inconstitucionalidade contra medidas adotadas pelo governo FHC em resposta ao apagão de energia, em 2001. Na ocasião, especulou-se que Jobim chegara a ajudar a redigir o voto da então novata Ellen Gracie.

O punhal de Brutus

Os anarquistas eram divididos. Cada grupo seguindo um líder, e entre esses estavam Kropotkin, Bakunin e Proudhon. Os livros de Proudhon eram muito vendidos em toda a Europa, na segunda metade do século 19. Bakunin pregava o recurso ao assassinato político; e seus correligionários eliminaram Alexandre II da Rússia (1881); o rei Humberto, da Itália (1900); o presidente francês, Carnot (1894); a imperatriz Elisabeth, da Áustria (1898); e o presidente dos EUA, William McKinley (1901). Esse recurso extremo foi defendido por muitos pensadores, não só anarquistas.

Alfieri, um dos protagonistas da unificação italiana, tinha a "teoria do punhal", como método político; compartilhada por Mazzini, um dos ideólogos da unidade da Itália. Já bem antes, Santo Tomás de Aquino considerava um direito, baseado na lei natural, o assassinato de um tirano para o bem comum.

Atualmente esse recurso político é desprezado. Certamente, não por razões morais de incivilidade, selvageria, etc., mas por pura ineficácia de propósitos. O dirigente tirano, déspota, já não reduz-se ao indivíduo que governa ("o Estado sou eu"); hoje, a complexidade do poder de Estado elimina, ou civiliza, esses impulsos voluntariosos. O "punhal de Brutus" como método político é peça de museu.

O sacrifício de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, tem alguns ingredientes desse método, embora de modo invertido. O dirigente imola-se para denunciar um sistema conspiratório anti-nacional. Tudo em vão, o suicídio só empurrou o problema para 1964.

Evo Morales denuncia conspiração dos EUA

O presidente da Bolívia, Evo Morales, denunciou que a embaixada dos Estados Unidos no país está financiando ações de desestabilização contra seu governo. De acordo com o jornal La Prensa, a embaixada estaria pagando subornos a seis dirigentes da oposição para estimularem rebeliões em algumas províncias do País.

Há dez dias, moradores e o governador da província de Chuquisaca (ver mapa da Bolívia acima), que é da oposição, protestam contra a Assembléia Constituinte defendida por Evo Morales. Eles querem que Sucre, que é a Capital do departamento, passe a ser a Capital do país, hoje La Paz. Vários protestos estão sendo marcados por outra regiões de oposição ao governo federal. Evo afirma que o movimento é político e que pretende parar as reformas feitas por ele no país. Movimentos indígenas que apóiam o governo de Evo Morales também marcam protestos de apoio para esta semana. A informação é da Agência Chasque.

domingo, 26 de agosto de 2007

Um teólogo na morte

Os anjos me disseram que, quando Melanchton morreu, lhe foi oferecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual àquela que possuíra na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que não morreram). Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nessa casa, reatou suas tarefas literárias como se não fosse um morto e escreveu durante alguns dias sobre a salvação pela fé. Como era seu hábito, não disse uma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas a interrogá-lo. Melanchton lhes falou: "Demonstrei de maneira irrefutável que a alma pode dispensar a caridade e que para entrar no céu basta a fé". Dizia isso com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram essa afirmativa o abandonaram.

Em poucas semanas, os móveis começaram a se encantar até se tornarem invisíveis, com exceção da poltrona, da mesa, das folhas de papel e do tinteiro. Além disso, as paredes do aposento se mancharam de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Continuava, entretanto, escrevendo, mas como persistia na negação da caridade, foi transferido para uma sala subterrânea, onde estavam outros teólogos como ele. Ali ficou preso alguns dias e começou a duvidar de sua tese e lhe deram permissão de voltar. A roupa que vestia era de couro cru, mas procurou imaginar que a que tivera antes fora uma simples alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Uma tarde, sentiu frio. Então percorreu a casa e comprovou que as demais peças já não correspondiam às de sua casa na Terra. Uma delas estava cheia de instrumentos desconhecidos; outra estava tão reduzida que era impossível entrar nela; outra não tinha sofrido modificação, mas suas janelas e portas davam para grandes dunas. A do fundo estava cheia de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio quanto ele. Essa adoração agradou-o, mas como uma das pessoas não tinha rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Determinou-se então a escrever um elogio da caridade, mas as páginas que escrevia hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque eram feitas sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente morta recentemente, mas sentia vergonha de mostrar-se num lugar tão sórdido. Para fazer-lhes crer que estava no céu, entrou em acordo com um feiticeiro dos que estavam na peça dos fundos, e este os enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Era só as visitas se retirarem, reapareciam a pobreza e a cal; às vezes isso acontecia um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mágico e um dos homens sem rosto o levaram até as dunas e que agora ele é como que um criado dos demônios.

Jorge Luis Borges

Foto: Borges e Maria Kodama em Paris, 1983.

sábado, 25 de agosto de 2007

Panfleto ordinário

O jornal Zero Hora (do grupo RBS apoiador do golpe gorila de 1964) de hoje superou-se. Ver reprodução da capa acima.

É um panfleto de propaganda, que estampa imagens e signos subliminares de inegáveis intenções político-ideológicas.

Observem: a manchete mais destacada informa que [José] Dirceu está livre. No contraponto, com a força dramática da fotografia aparece o “filatelista” Macalão com uma expressão de dor sendo conduzido algemado para o camburão policial.

O panfleto ordinário da RBS quer passar a idéia que na área federal os (supostos) corruptos estão livres, enquanto na área estadual (tucana) o mero suspeito está sendo tratado no rigor da lei e da justiça.

Entretanto, o mais grave é que o fato principal de ontem na província de São Pedro foi o anúncio do próprio presidente Lula de que serão aplicados no Rio Grande do Sul cerca de 1,755 bilhões de reais provenientes do PAC. O relevante factual está noticiado com letras minúsculas e laterais, e como um distante "pacote de promessas".

Mas o que são quase dois bilhões de reais diante da possibilidade de denegrir os meus inimigos de classe? – haverão de pensar os editores de Zeagá.

Eis, pois, um panfleto ordinário!

A comprida e sertaneja poética rústica de Riobaldo Tatarana

[...]

Porque ele tinha me estatutado os todos projetos. Como estava reunindo e pervalendo aquela gente, para sair pelo Estado acima, em comando de grande guerra. O fim de tudo, que seria: romper em peito de bando e bando, acabar com eles, liquidar com os jagunços, até o último, relimpar o mundo da jagunçada braba.

— “Somente que eu tiver feito, siô Baldo, estou todo: entro direto na política!”

Antes me confessou essa única sina que ambicionava, de muito coração: e era de ser deputado. Pediu segredo, e eu não gostei. Porque eu estava sabendo que todos já aventavam aquela toleima, por detrás dele até antecipavam alcunha: “o Deputado”... O mundo é assim. Mas, mesmo desse jeito, o pessoal todo não regateava a ele a maior dedicação de respeito. Por via de sua macheza. Ah, Zé Bebelo era o do duro — sete punhais de sete aços, trouxados numa bainha só! Atirava e tanto com qualquer quilate de arma, sempre certeira a pontaria, laçava e campeava feito um todo vaqueiro, amansava animal de maior brabeza — burro grande ou cavalo; duelava de faca, nos espíritos solertes de onça acuada, sem parar de pôr; e medo, ou cada parente de medo, ele cuspia em riba e desconhecia. Contavam: ele entrava de cheio, pessoalmente, e botava paz em qualquer rutuba. Ô homem couro-n’água, enfrentador! Dava os urros. E mesmo, para ele, parecia não ter nada impossível. Com tanta bobéia assim, desfrutável e escurril, e ai de quem pensasse em poitar olho de chacotas: morria vertiginoso...

— “O único homem-jagunço que eu podia acatar, siô Baldo, já está falecido... Agora, temos de render este serviço à pátria — tudo é nacional!”

Esse que já tinha morrido, que ele falava, era Joãozinho Bem-Bem, das Aroeiras, de redondeante fama. Se dizia, tinha estudado a vida dele, nos pormenores, com tanta devoção especial, que até um apelido em si se apôs: Zé Bebelo; causa que, de nome, em verdade, era José Rebelo Adro Antunes.
[...]

João Guimarães Rosa
Pequeno trecho da magistral obra Grande Sertão: Veredas
Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1ª edição, 1956.

Foto: Mark Nozeman, no sertão do Nordeste brasileiro.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Viúvas dos gorilas fazem protesto anti-Lula

Hoje à tarde em Porto Alegre, um grupo de manifestantes do movimento Luto Brasil protestou contra a presença do presidente Lula na Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul – Fiergs. Estavam vestidos de preto e portavam faixas e cartazes de apelo moralista. Um dos cartazes pedia a volta dos militares ao poder no Brasil.

A foto acima deve ser o sonho de consumo daqueles manifestantes para tratar os conflitos sociais do País.

Território cinzento

Estamos em plena temporada de caça ao voto visando as eleições municipais de 2008. Me explico: caça aos cabos eleitorais, lideranças comunitárias, posições de cabeça-de-ponte em entidades, clubes, associações, etc.

É agora ou nunca. As urnas de 2008 começam a falar é neste momento – agora, antes das convenções e das definições das nominatas majoritárias, coligações, etc. Vejam que começam a surgir os blogs eleitorais, oportunisticamente eleitorais.

Neste sentido, o ex-partido de vanguarda está com seus candidatos a vereador em febricitante mobilização... pelo voto, num contraste desolador com a apatia relativamente às tarefas que deveria desempenhar na luta social (ver post abaixo).

Vou contar um episódio acontecido semanas atrás. Um fato ilustrativo que habita o território cinzento situado entre a comédia e a tragédia. Vejam só!

Um certo ex-dirigente e burocrata petista quer concorrer a vereador em Porto Alegre, ano que vem. Para tanto, procura uma liderança da Lomba do Pinheiro, na zona leste da Capital guasca. A tal liderança surpreende-se com a manifestação de vontade do burocrata aspirante a vereador, dizendo:

- Tchê, companheiro, me admira que tu queiras ir para o parlamento burguês, fazer essa disputa rasa e despolitizada e ainda legitimar uma assembléia formada por uma maioria de oportunistas e carreiristas... me admira muito!

O burocrata responde:

- Companheiro, essa minha candidatura é pra mobilizar, agitar e fazer um barulho...

- Mas, então, - responde o líder comunitário interrompendo o burocrata – vamos entrar para uma escola de samba e bater tambor que o resultado é muito melhor!

O burocrata desanimado ainda deu um tapinha no ombro do outro e disse:

- Valeu! – e foi adiante em busca de incautos.

E o partido de vanguarda, onde está?

Quando se constatou a inevitabilidade da vitória do tucanato aqui no Rio Grande do Sul, através da professora neoliberal Yeda Crusius, muitos observadores – inclusive este blog – previram o advento de um tempo de grandes mobilizações de corporações, de sindicatos e de movimentos sociais.

Agora este tempo chegou. As mobilizações organizadas crescem a cada semana no Estado. Resultam do temor pelas ameaças de subtração de direitos, pela ameaça de alienação de patrimônio público, pelo descumprimento das funções mínimas do Estado, como saúde e educação, pela manutenção de incentivos e renúncia fiscal que implicam prejuízo grave ao Tesouro, pelo descontrole do Estado para com práticas predatórias ao meio ambiente, pelo desmonte da máquina pública, pela anomia administrativa, etc, etc.

De parte das entidades que estão se mobilizando, entretanto, falta uma coordenação geral unitária que organize todos os movimentos contra o Piratini de forma mais concentrada, racional, orgânica, com palavras de ordem unitárias, e em regime de convergência de energias políticas. Por exemplo: é necessária uma discussão sobre o ponto final das mobilizações, por enquanto a manifestação final é defronte ao Palácio Piratini. Mas é preciso cogitar de levá-la para a frente da sede da RBS, na avenida Ipiranga esquina com a Érico Veríssimo; afinal, a RBS é o partido real e efetivo que está no poder, é o núcleo orgânico deste poder e através de seus inúmeros veículos (jornal, rádio e tevê) pauta o debate político dizendo o que é certo e o que é errado na província de São Pedro. Dona Yeda é apenas uma marionete neste jogo de luzes e sombras do bloco no poder guasca.

Nesta hora, pois, é que falta um partido político de vanguarda, confiável e legítimo que dê a linha política unitária do movimento antineoliberal no Estado.

Mas onde está este Partido? Ele existe? Não existe? Se existe só cartorialmente, estará ele debaixo da cama?

A gênese da disciplina para o trabalho

Em A Ideologia Alemã, Karl Marx comenta os efeitos do progresso social, representado pela manufatura, e as repercussões disso no mundo da vida.

Com a manufatura, o comércio expande-se e o feudalismo tem dificuldades em reproduzir-se, e as cidades adquirem novas dimensões para receber o capital mercantil e manufatureiro.

Estamos no fim do século 15 e início do século 16, e Marx relata que "o início da manufatura foi acompanhado de um período de vagabundagem ocasionada pela dissolução das comitivas feudais, o licenciamento dos exércitos de aventureiros que haviam auxiliado os reis contra os vassalos, pela melhoria da agricultura e pela transformação em pastagens das grandes extensões de terras aráveis. [...] Tais vagabundos eram tão numerosos que, por exemplo, Henrique 8º da Inglaterra mandou enforcar 72 mil; e foi com as maiores dificuldades, forçados pela miséria extrema que, após longa resistência, esses párias se sujeitaram ao trabalho. A rápida evolução das manufaturas, principalmente na Inglaterra, absorveu-os progressivamente" – completa Marx.

Foto: Trabalho infantil intensivo como forma de acumulação primitiva nos Estados Unidos (veja mais aqui no acervo da Biblioteca do Congresso, USA). O trabalho infantil teve três funções no início do capitalismo: promover a acumulação primitiva, extrair mais-valia sem direitos, e disciplinar didaticamente para o trabalho, na vida social, frente ao Estado, às autoridades e às leis burguesas.

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