Você está entrando no DIÁRIO GAUCHE_um blog com vista para o mar incerto do século 21
Foto-legenda:
Foto-legenda:
Gostaria de conhecer o cálculo moral e o balanço ético feito pelo Dr. Marcio Thomaz Bastos para defender e posar ao lado do Cachoeira. O ex-ministro da Justiça do governo Lula sentado com um operador da bandalheiras da direita parlamentar em conluio com a direita midiática. Sentado, defendendo e referendando a conduta pestilenta e antissocial de um inseto político.
Esse Marcio Thomaz merece o desprezo de todos nós. Como foi feito, durante a ditadura, com o cantor Wilson Simonal. Um desaparecimento cívico total e definitivo.
terça-feira, 3 de maio de 2011
O que a publicidade vende é exclusão
Fetiches e perversões
O casal jovem está sentado frente a frente na mesa de um restaurante caro. A cena reproduz o tipo de encontro que já está configurado no imaginário romântico de nossa época. É nas mesas de bares e restaurantes, frente a frente, que as pessoas flertam, se declaram, se encontram para conversar e namorar. Sabemos que o encontro amoroso, assim como todas as relações humanas, é atravessado por alguns objetos: a decoração da sala, a comida e as bebidas, as roupas e adereços dela e dele.
O encontro amoroso não acontece entre dois; ele é mediado pela linguagem, que se faz presente também na forma de objetos que a cultura e a classe social consideram adequados para a ocasião. Assim o vinho, os talheres, a música ambiente, a comida e o preço da comida participam do encontro, demarcando e ao mesmo tempo preenchendo um intervalo entre os parceiros. Este intervalo, esta descontinuidade entre um e outro é que permite a circulação do desejo, como se fosse – mas não é – o puro desejo de um pelo outro.
Na cena que descrevo, o rapaz está tentando dizer algo à moça. Começa timidamente, hesita – o espectador percebe que ele esboça um pedido de casamento. Mas o olhar da moça é distante. Custamos a interpretar seu sorriso de polida indiferença, até que a câmera faz um giro e conduz nosso olhar para fora da janela, para onde o olhar da moça se dirige. Lá está um carro novinho, de cuja marca não me lembro (mas sei que é vermelho). Quando o noivo, cada vez mais embaraçado, termina seu pedido, ela cai em si e pergunta: “desculpe, o que você dizia…?” A ironia é confirmada pela voz do locutor que alerta os espectadores para o objeto que realmente interessa às moças casadoiras. Se o rapaz não puder oferecer a ela o carro x, desista da empreitada.
O carro introduz-se entre os dois namorados não como um objeto a mais entre os outros – vinho, talheres, cardápio, preço – uma série cujos elementos podem sempre ser substituído por outros. Nessa propaganda, o carro não é um entre os muitos objetos mediadores do desejo (sexual); é ele, este artefato mecânico revestido de lata e tinta brilhante, que se instala no lugar de um dos parceiros como se fosse o próprio objeto do desejo.
Se os outros acessórios fálicos recortam o lugar da falta a partir do qual o desejo circula, o carro x, que desvia a atenção da mulher no momento em que o homem lhe pede que seja sua esposa, está no lugar (imaginário) do objeto (simbólico) do desejo. Agora, o homem é que ocupa o lugar acessório; casar-se com ele seria, para ela, apenas um meio de acesso ao gozo/carro. O homem tornou-se supérfluo diante do único bem que interessa à moça de maneira absoluta.
O carro é o objeto irrecusável do desejo, tanto dela quanto do espectador, convocado a identificar-se não com o olhar ingênuo do moço, que ignora o que sua noiva vê, mas com o olhar indiferente e sonhador dela, focando o carro zero estacionado do lado de fora. Ao contrário da mulher freudiana, esta personagem publicitária sabe exatamente o que quer; diante disso o pretendente, que lhe oferece o pobre substituto de um compromisso de amor, faz papel de otário.
Como bem lembrou Eugênio Bucci em vários de seus artigos sobre televisão para a Folha de S. Paulo e o Jornal do Brasil, o apelo psicológico comum a todas as formas de publicidade visa à dinâmica da inclusão e da exclusão. A publicidade, escreve Bucci, vende sempre a mesma coisa: a proposta de uma inclusão do sujeito às custas da exclusão do outro. A identificação do espectador como consumidor do produto que se apresenta como capaz de agregar valor à sua personalidade promove sua inclusão imaginária no sistema de gosto, na composição de estilos, que move a sociedade de consumo.
Goza-se com isso: não tanto da própria inclusão (que pode não passar de uma fantasia), mas da exclusão do outro. O que a publicidade vende, portanto, é exclusão. Não é imprescindível que a exclusão seja de classe, como ocorre em outro anúncio em que os meninos de rua que pedem para tomar conta e limpar os carros ao preço de um real brigam pelo privilégio de polir o modelo top de linha de um feliz playboy que acabou de estacionar. A exclusão pode ser de estilo.
Durante a copa, um comercial de cerveja mostrava um torcedor que errou ao oferecer uísque em vez de Skol aos amigos que foram assistir ao jogo em sua casa. Diante da gafe imperdoável, foram todos tomar a cerveja certa no bar ao lado, excluindo o anfitrião da alegria coletiva. Não foi uma troca de produto – a cerveja pelo uísque – mas de companhia. O uísque, bebida errada na hora errada, desqualificou o anfitrião perante seus amigos. Este mostrou-se tão otário quanto o pretendente da moça do primeiro comercial que não entendeu qual seria o verdadeiro objeto da sua paixão. É óbvio que a relação que se estabelece é entre as pessoas e as coisas. Ou entre as próprias coisas, que se relacionam, se avaliam e se atribuem significações na medida em que as pessoas (reduzidas a consumidores) se perfilam diante de suas marcas.
Aquela mulher que sabe o que quer, no entanto, não é o mestre do gozo na pequena peça publicitária que escolhi para abrir esse artigo. Se ela sabe que quer é porque um outro, em posição de mestria, lhe apresentou um objeto imperativo da satisfação garantida. Para nós, espectadores, o mestre é o publicitário. É ele quem dirige nosso olhar para o objeto que atrai o olhar dela. É ele quem promove a iniciação dos sujeitos desejantes, convocados desde o lugar de consumidores, em relação às possibilidades de gozo em circulação no mercado. Mas para a personagem do filme de propaganda, no qual a autoria do publicitário está elidida, o objeto do desejo se apresenta por conta própria, como por obra dos deuses do acaso. Ele entra em cena através de um giro da câmera que conduz, “naturalmente”, o nosso olhar; está ali, na calçada fora do restaurante, para que a moça reconheça em suas formas, em sua cor vermelha, mas acima de tudo na marca de fabricação, o objeto inquestionável do desejo.
Os deuses do acaso dispõem as mercadorias em circulação no mundo contemporâneo como o antigo Deus cristão dispunha das forças da natureza para abençoar ou castigar seus fiéis. Uma nova versão imaginária do Outro ocupa o lugar – lugar de um Ser onipresente, onisciente e onipotente – deixado vazio quando parte da humanidade deixou de orientar suas escolhas a partir da crença no Deus judaico-cristão.
Um Outro que enuncia o que deseja de nós e promete suas bênçãos para aqueles que melhor se dispuserem a atender suas demandas. Este Outro pode ser, simbolicamente, o Mercado, filho enviado à terra por seu Pai, o Capital – abstrações sem nome e sem rosto que determinam nosso destino e, de um lugar simbólico fora do nosso alcance, nos submetem às leis inflexíveis do Seu gozo.
Artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. Publicado originalmente no blog da Boitempo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Arquivo do Diário Gauche
-
►
2012
(76)
-
►
Maio
(20)
- O grande poeta brasileiro vivo: Manoel de Barros
- Salvar bancos quebrados é tarefa da população?
- Governo RS incentiva o audiovisual
- Cachoeira vai "beber água"?
- Homenagem a Apolônio de Carvalho
- Copa e Olimpíada continuam fazendo vítimas nas per...
- A presidenta brasileira é uma estadista em constru...
- Luta de raças explícita na mídia brasileira
- A tortura já foi política de Estado, saibam disso
- O grande e atual escândalo brasileiro: especulação...
- Show integral da Amy Winehouse
- Presidenta Dilma voltou a bater nos bancos
- Os bancos brasileiros e as máfias
- Para a Folha, Europa mergulha na incerteza por cau...
- 'Dilma deveria ser mais rápida e agressiva'
- Ditaduras do Cone Sul: Repressão e Resistência
- A africana Imany
- A diferença entre expropriar e dominar pela guerra...
- Veja que deputados do RS ajudaram na farsa do novo...
- A canadense Treasa Levasseur
-
►
Abril
(15)
- Espanha, onde o indicador de êxito é o desemprego
- A australiana Amy Dickson
- 'A Dama de Ferro' é uma alegoria sobre o declínio ...
- Cristina K. dá uma no prego outro na ferradura
- Expropriação na Argentina rompe tradição
- O pós-lulismo exige uma outra esquerda
- Dilma começa a enfrentar o sistema financeiro
- Comissão da Verdade e os rituais da verdade
- O lar-pântano da direita
- Por um movimento de desprezo público aos torturado...
- Feito inédito do PT de Porto Alegre
- Do marxismo ao pós-marxismo
- 'Coelhinho' da Páscoa moralmente modificado
- O marxismo e a deficiência mental (da direita)
- Ditadura é igual a segurança mais cinismo
-
►
Março
(12)
- Encontro 'Memória, Verdade e Justiça'
- Petrobras promove tolices privadas
- Arapongas dos EUA têm regalias com milicos brasuca...
- O controle do desemprego através da guerra
- Há um crucifixo no meio do caminho da nossa repúbl...
- Jorge Gerdau constitui um grande erro político da ...
- E a revolução burguesa no Brasil - a quantas anda?...
- “Os Descendentes” e a alienação da vida cotidiana
- Trocando seis por meia dúzia
- Serra, Cerra, Çerra, Çerrote
- O passado não conhece o seu lugar, está sempre pre...
- Presidenta Dilma determina punição a treze generai...
-
►
Maio
(20)
-
▼
2011
(256)
-
▼
Maio
(31)
- Já se admite que Palocci deva cair
- Morreu Gil Scott-Heron
- Liturgia do cargo
- Blogueiros guascas e sujos, unidos!
- Banda imbatível: Aldo e os Ruralistas
- Ruralistas vaiam anúncio de morte de extrativistas...
- Reinvenção democrática para além da democracia lib...
- “Palocci está liquidado politicamente”
- A dimensão e a medida da pobreza extrema: o caso d...
- Como multiplicar seu patrimônio
- Imagens e falas da Espanha
- Espanha Insurgente
- Mulheres ressentidas e amargas
- Prática corrente
- “Pequeno grupo de terroristas financeiros querem p...
- Lucro dos oligopólios é que pressionam os preços, ...
- “A guerra que você não vê” – o documentário
- Plano de Ajuste Interpessoal
- Oportunistas não respeitam nem cerimônia de cremaç...
- Direita agora chama pobre de "gente diferenciada"
- Amarcord
- Pobreza e exclusão nos territórios do agronegócio
- Ao amigo Minhoca, que partiu hoje
- Enfim, os EUA já podem dormir em paz
- Formando adolescentes ao sabor dos ventos
- O chileno Julio Numhauser
- Os suíços da banda Mama Rosin
- O que a publicidade vende é exclusão
- Dilma começa a enfrentar os grandes tubarões de ág...
- O beato assustador
- Dia dos Trabalhadores e Trabalhadoras
-
▼
Maio
(31)
Links recomendados:
- Agência Brasil
- Agência Carta Maior
- Agência Pulsar
- Animot
- Biscoito Fino e a Massa
- Blog do Merten
- Blog do Nassif
- Blog do Planalto
- Blog Rádio COM
- Blogoleone
- Brasil de Fato
- Bullet Proof Blog
- Celeuma
- Cidadania.com
- Cloaca News
- Coletivo Catarse
- Coletivo Subverta
- Conversa Afiada
- Dialógico
- Diário Gauche (textos anteriores a Ago/2007)
- EconoBrasil - Economia Internacional
- Editora Expressão Popular
- Fórum de Reforma Urbana
- Grain.org
- Historiando
- Impedimento (Futebol)
- Instituto Humanitas - Unisinos
- Jornalismo B
- La Latina - Cinema
- La Vaca
- La Vieja Bruja
- Letteri Café
- Levante da Juventude
- Movimento Consulta Popular
- MST
- O Bairrista
- O petróleo tem que ser nosso
- Paideia Gaucha
- Partisan RS
- Pimenta Negra
- Ponto de Vista
- Porto Alegre Vive
- PT_Sul
- Página 12
- Pública, Jorn. Investigativo
- Radioagência NP
- RS Urgente
- Rádio da Universidade
- Sakamoto
- Sin Permiso
- Somos Andando
- Sátiro
- Tijolaço
- Varanda Cultural
- Vi o Mundo
- Via Campesina

3 comentários:
Artigo impressionante. Somos títeres...
Ótimo artigo. É assim que deixamos de ser sujeitos e passamos a ser objetos.
Eu gosto muito da Maria Rita, mas acredito que pior do que a guria desejar o carro é o cara desejar a bundinha dela. Se não tiver uma bundinha no mínimo torneadinha esta ferrada. O cara ainda pode conseguir dinheiro e comprar o carro. Mas ela, só botando silicone, mas acho que não cola.
Postar um comentário