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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quarta-feira, 23 de abril de 2008


Yeda quer despolitizar a CPI do Detran

Deu hoje em ZH, na coluna de Rosane de Oliveira, jornalista e abelha:

“Na Assembléia, o PSDB divulgou nota atacando a oposição na CPI do Detran e pedindo providências ao presidente, Alceu Moreira, para despolitizar a comissão.

Despolitizar a CPI do Detran, onde integrantes do governo Yeda Crusius são suspeitos de roubarem 44 milhões da autarquia? Como assim?

O esforço de despolitizar a CPI é o equivalente à insana tarefa de enxugar gelo.



Escritora fofa

Espiem a originalidade do que disse a escritora Lya Luft, hoje em ZH, a propósito do lançamento de um novo livrinho seu:

- Sou fascinada pelo lado complicado. Tenho um olho alegre que vive: sou uma pessoa despachada, adoro família, adoro a natureza. Mas eu tenho um outro olho que observa o lado difícil, sombrio. A minha literatura nunca vai ser "aí casaram e foram felizes para sempre". Minha literatura sempre nasceu do conflito, da dificuldade, do isolamento.

Muito criativa! Que fofura! Nunca, ninguém jamais disse isso antes. Esse é um dos motivos que LL como escritora é uma excelente tradutora.


Ministro Lobão diz que o preço da energia é justo

Não ria, ilustre cavalheiro, estimada dama. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse ontem (22) que o preço pago pelo Brasil ao Paraguai pela energia da hidrelétrica de Itaipu é justo. A informação é da Agência Brasil.

De acordo com o ministro, o Brasil não cogita alterar o Tratado de Itaipu. “O preço que se está praticando é um preço justo. O Brasil não pretende ver o tratado alterado e, a princípio, não tem porque concordar com a revisão da tarifa”, disse.

........

Além de confundir – por ignorância – o que seja tratado de Itaipu (que foi firmado antes mesmo da construção da hidrelétrica) com o contrato de preços e tarifas de energia gerada na usina, a credibilidade pública do ministro Lobão é menor do que a perícia do padre catarinense que voou com balões de aniversário. O sujeito é um desmoralizado.

Então, uma coisa é certa: se o ministro diz que o preço é justo, o preço não só é injusto quanto leonino, para os interesses do povo paraguaio.

Mas, mudando de assunto, que cabelo bonito e natural exibe o ministro Lobão, não?


terça-feira, 22 de abril de 2008


Jobim micou?

Semana passada um general-comandante (na ativa) do Exército se reuniu em público com colegas de pijama para falar mal do governo Lula, por um viés de direita. Seu chefe é o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que passados quase dez dias – ainda não se manifestou sobre o caso.

Onde está o ministro Jobim, depois deste grave episódio institucional? Onde estão os gestos vigorosos e a conversa de Cantinflas do rui-barbosa-em-compota que ocupa a pasta da Defesa?



O jornalismo ideologizado e embrutecedor de ZH

Na cruzada ideológica a que se dedica, o jornal Zero Hora (membro-sênior do PIG) manda às favas as regras do bom jornalismo e entrega-se à vulgaridade completa e desavergonhada.

No jargão político de esquerda, os vocábulos esquerdismo/esquerdista designam procedimentos com desvio ultra ou acentuadamente radicalizado, próprio daqueles que ignoram as conjunturas e as correlações de forças sociais. Em suma, o esquerdista é o vulgar porra-louca, o que sofre desvios políticos que o conduzem à inconseqüencia pessoal e à irresponsabilidade social.

Chamar Fernando Lugo de esquerdista é ir muito além do equívoco, é uma falta de objetividade jornalística, uma impropriedade de tratamento e uma manifestação de má-criação de um editor embrutecido pela permanente necessidade de produzir um panfleto de resultados ideologizados – um pseudo-jornal.


Agora, a educação brasileira está praticamente salva

Relaxe. O seu feriado não foi perdido. Enquanto você descansava, por conta do Tiradentes, havia alguém pensando no futuro do Brasil. Havia alguém preocupado com o futuro da educação no país. Mais exatamente, enquanto você esperava pelas manchetes sobre o caso Isabella, no hotel Transamérica da ilha de Comandatuba, na Bahia, o promotor de eventos João Dória Jr. (foto) se juntava a José Múcio Monteiro e Geddel Vieira Lima para falar sobre "Educação Pública de Qualidade para um Brasil Melhor".

Confesso que às vezes tenho saudade da infância de minhas filhas. Mas, de outra parte, às vezes me sinto aliviado de que ambas já não dependem do ensino no Brasil, ou do próprio Brasil. Já imaginaram o cenário sombrio? Depois de fracassar com o movimento Cansei, João Dória Júnior dá palpite na educação pública brasileira. Não achei que iria viver para ver isso: Dória, Geddel e Múcio no mesmo ambiente, debatendo educação. Será que eles não poderiam mudar de assunto? Falar sobre o caso Isabella, por exemplo?

Ver o governo Lula associado a tudo isso já não me surpreende. É a face Silvinho Land Rover Pereira do governo. Já se esqueceram dele? Ganhou de presente um jipe usado de presente. Onde já se viu levar um jipe usado de presente? Nem no Paraguai. No Paraguai é fácil encontrar no governo alguém que queira um jipe importado. Mas vão pedir um zerinho. O presidente Lula deveria rezar todos os dias para agradecer pela oposição com a qual foi presenteado por Deus. A qualidade destes quadros governamentais é estupenda: Múcio, Geddel e Hélio Costa.

Para completar o seu alívio, informo que parte da reforma educacional do governo de José Serra, em São Paulo, inclui a distribuição do Guia do Estudante, que você pode comprar nas bancas, para alunos da terceira série do segundo grau de escolas públicas. A Editora Abril, a mesma de Veja, vai cuidar da informação de nossos jovens estudantes. Haverá aulas especialmente criadas para que o conteúdo do Guia seja debatido. A alegação é de que os alunos não se informam sobre atualidades pelos jornais. Qual é a pior fonte de informação: o Guia do Estudante, O Globo ou Veja? É o mesmo que perguntar qual é o pior: Múcio, Geddel ou Hélio Costa?

Pescado integralmente do blog do Azenha.


Diante do discurso do general Heleno, ministro Jobim se escafede e Lula susta aumento dos militares

General quer apito

Foi como bater os olhos em jornal que forra, há muito tempo, uma prateleira de armário de quinquilharias. Lá estavam eles outra vez, em foto no cenário de tantas agitações, fontes da tumultuada história institucional do Brasil no século passado, tão avessa à democracia. Vários rostos e nomes de carreiras percorridas na ditadura, que nunca souberam o que todo o país sabia dos porões daqueles anos, e emergiram das ruínas do seu regime para serem vistos como democratas. Os menos idosos, na ativa ainda, vestidos com as roupas estreladas que usam nos seus escritórios, para ninguém duvidar de que ali não era um plenário de reunião cultural, ou algo assim.

Nesse cenário do Clube Militar, o alvo dos aplausos apresentou-se em uniforme de campanha, mangas arregaçadas, bandeira brasileira no braço para eliminar possíveis estranhezas em plena Cinelândia - tudo devidamente caracterizado como evidência de que se trata mesmo de campanha. No peito, entre diversos símbolos, o nome: Heleno.

Augusto Heleno Ribeiro Pereira. Não, não. General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, agora sim.

O inflamado pronunciamento do general Heleno foi planejado como seminário sob o interessante tema "Brasil, ameaças a sua soberania". A ameaça vista pelo general são os índios dotados de reservas indígenas, ou com probabilidade de sê-lo. Porque "o risco da soberania é que essas áreas podem ser separadas do território brasileiro", se esses "grupos indígenas" juntarem-se a ONGs internacionais "para solicitar essa divisão política. Pode ser a mesma situação que ocorreu no Kosovo". E por que só os índios fazê-lo e não São Paulo ou Rio Grande do Sul ou Roraima como Estado, não só pela reserva? Separatistas há por aí afora.

O general é franco na sua tese: "Como um brasileiro não pode entrar numa terra porque é indígena? Isso não entra na minha cabeça". Mas pode entrar na terra indígena, porque aí não encontra dificuldades mentais e conta com a cobertura legal, que apenas condiciona as finalidades da entrada. Hoje, na terra indígena de Raposa/Serra do Sol só não podem entrar a Polícia Federal, procuradores da República e outros representantes do Estado, ameaçados a bala, granada e coquetéis molotov pelos pequenos exércitos montados por donos de arrozais. Ou seja, seis remanescentes da ocupação não-indígena, apoiados pela tese do general Heleno e aceita pelos comandos do Exército. Apoio explícito, a ponto de, no ano passado, os militares negarem à Polícia Federal, representante do Estado e não-ocupante de terras alheias e da União, o apoio que lhes foi pedido para executar um mandado de retirada dos não-indígenas remanescentes.
Mas o general não está de todo sem razão: "A política indigenista está dissociada da história brasileira". Já o acréscimo peremptório, provável decorrência nostálgica, é de outro capítulo: "E tem de ser revista imediatamente".

De fato, as demarcações e homologações de reservas contrariam a história de genocídio dos milhões incalculáveis, ou precariamente estimados, de indígenas. Em nenhum outro país da América do Sul o extermínio foi tão grande e é tão continuado. E sempre impune. Como sabe o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, apesar do seu papel de ponta-de-lança de alguma coisa que começou com dois testes.

No primeiro, o ministro da Defesa, Nelson Jobim (foto), discípulo do "prendo e arrebento" do general Figueiredo que não prendeu e se arrebentou, sumiu diante do ato de hostilidade explícita organizado no Clube Militar contra o presidente da República e o governo. Lula não faltou com a devida atitude: cobrou de Jobim a falta de iniciativa, determinando-a; sustou o decreto de aumento para militares, previsto para anteontem, Dia do Exército; e fez com índios uma reunião em que prometeu batalhar, no Judiciário, pela área de Raposa/Serra do Sol como demarcada no governo Fernando Henrique e homologada no primeiro mandato do atual.

Excelente artigo do jornalista Janio de Freitas, publicado domingo na Folha.


Lugo criará equipe para discutir preço de energia

O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, afirmou ontem que irá criar um grupo de trabalho para discutir um preço justo para a energia da usina de Itaipu (foto) que o país vende para o Brasil. A medida integra o plano de governo de Lugo e gerou bastante polêmica durante a campanha para as eleições. A informação é da Agência Chasque.

Em entrevista concedida a jornalistas brasileiros nesta segunda, o futuro presidente paraguaio afirmou que não recorrerá a nenhum tribunal internacional até esgotar a negocição com o Brasil. Lugo também afirmou que pode convidar um terceiro país da região a atuar como mediador. O Paraguai reclama que o preço da energia excedente vendido ao Brasil é muito baixo e não beneficia a população do país como poderia. Caso o preço seja reajustado, o dinheiro será investido em áreas sociais, diz Lugo.


Globo quer azedar relações Lu-Lu

O PIG é pig mesmo. Ontem, o Jornal Nacional da tevê Globo já começou a cruzada antidemocrática para azedar as boas relações do governo Lula com o recém eleito presidente do Paraguai, o progressista Fernando Lugo, a fórmula Lu-Lu (foto).

Os editores do JN fizeram propositalmente confusão na notícia sobre a revisão do tratado de Itaipu, de abril/1973, em plena ditadura tanto paraguaia, quanto brasileira. Primeiro, informaram que o presidente Lula não admite revisar o tratado de Itaipu (algo que Lugo nunca cogitou, revisar o tratado). Segundo, disseram que o presidente Lula admite revisar as tarifas de energia pagas ao Paraguai pelo uso dos excedentes a que o Paraguai tem direito, mas vende a preços irrisórios ao Brasil.

Só que a notícia negativa (a do tratado) foi dada com grande ênfase, enquanto que a notícia das tarifas contratuais foi feita quase discretamente, no finalzinho da edição de ontem do futriqueiro noticioso global.

Informe-se, finalmente, que já houve revisões das tarifas pagas pela energia do Paraguai, em outros governos, quando tudo foi resolvido em paz e harmonia, apesar de os preços nunca terem atingido as marcas praticadas no mercado internacional.

Ou seja, o Brasil sempre foi sim imperialista com o Paraguai, nesta e em outras matérias. O presidente eleito, Lugo, quer apenas terminar com essa relação injusta e desigual, nesta e em outras matérias.


segunda-feira, 21 de abril de 2008


Problema
Menina à hora da novena
com os olhos aguados de religião
e as mãos escorrendo pecado;

rapaz ocioso
à esquina de uma rua qualquer;

sábio de borla e capelo
colecionando selos usados;

poeta aflito
por uma rosa que se desfolhou;

velhinho suspirando
a ouvir o fado num café;

viuvinha de crepes e de véus
vermelha por dentro de desejos;

raquítico a levantar meio quilo
com um só braço
e a agradecer os aplausos;

e mais eu, que sou pintor sem talento,
para fazer um quadro de vós todos:

…em que dia nos vamos suicidar?

Manuel da Fonseca (1911-1993), poeta português.

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