Pescado do Blog do Kayser
segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A última bandeira petista foi salva
O resultado maiúsculo do 3º Congresso do PT, que se encerrou ontem, é o anúncio – contrariando o presidente Lula (que audácia!) – de que o Partido vai lutar para ter candidato próprio à sucessão de 2010. Bravo!
Completamente lateral e acessório, uma vez que abriu mão de fazer política, o PT subalterniza-se cada vez mais à lógica do lulismo. Mas para manter uma justificação da própria existência cartorial faz – como dizia Rosa – da necessidade, virtude. Sem dúvida (e sem deboche), é vital para o PT afirmar candidatos à 2010. Caso contrário, perderá seu apelo e sua última bandeira, a de ser uma mera legenda eleitoral.
Mas onde ficaram aqueles documentos audaciosos, ideais-limite, altos sacrifícios, impulsos heróicos, refundação partidária? Tudo se dissipou em meio à rotina trivial e monótona de manutenção da ordem do petismo-lulista. O obeso Berzoini deve achar essa pantomima um saco! Nos últimos dias ele nem pôde sestear depois do almoço farto...
O cálculo técnico-eleitoral de 2010 substituiu a imaginação moral e política. Tardiamente o PT discutiu o socialismo que quer. Não quer. Mas dissimulou uma conversa. Debater sobre princípios nesta hora, implica em calar sobre tantas outras coisas!
Como disse uma vez Walter Benjamin, “a crise, a verdadeira crise, é continuar tudo como está”.
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Em Tempo: o grupo petista que se reuniu em torno da tese “Mensagem ao Partido” (do qual este blogueiro foi signatário) teve míseros 13,78% dos delegados presentes ao 3º Congresso do PT. O velho grupo dirceuzista (ex-Campo Majoritário) ratificou a sua hegemonia no Partido. Hoje, os signatários da tese “Mensagem ao Partido” estão completamente isolados dentro do PT.

Arquivo Nacional cria centro de memória da ditadura militar de 1964
Até outubro, deve sair a portaria que cria o Centro Memórias Reveladas, que irá reunir os documentos da ditadura militar (1964-1985) guardados atualmente em arquivos de órgãos federais e estaduais. O Centro ficará no Arquivo Nacional e abrigará informações das divisões do extinto Serviço Nacional de Informações nos ministérios e estatais. Os dados também deverão ser disponilizados em um banco de dados na internet. As informações são da Agência Chasque.
O Arquivo Nacional pretende, ainda, implementar uma rede de cooperação com acervos públicos de dez Estados do Sul, Sudeste e Nordeste. As instituições possuem dados sobre os Departamentos de Ordem Política e Social, o Dops, encarregado de interrogar e reprimir cidadãos considerados uma ameaça ao regime militar.
O Arquivo Nacional, criado em 1838, é o órgão central do Sistema de Gestão de Documentos de Arquivos-SIGA, da administração pública federal. Integrante da estrutura básica da Casa Civil da Presidência da República, está diretamente subordinado à Secretaria-Executiva. Sua sede principal está na praça da República, no Centro do Rio de Janeiro (foto).
domingo, 2 de setembro de 2007

O cerzido ideológico de um sociólogo pigmeu
“As idéias dominantes são as idéias das classes dominantes”. Com essa assertiva irrefutável de Marx (no “Manifesto”) basta para responder ao sociologuinho raso Alberto Carlos Almeida, que divulgou recentemente uma pesquisa onde trata de livrar a cara das elites econômicas e culturais brasileiras das suas responsabilidades éticas de classe dominante.
Segundo o jornal Zero Hora de hoje, que repercute o lixo pseudo-científico deste lacaio do sistema, “para o sociólogo [Almeida], o país vive uma divisão entre o pensamento arcaico, presente entre quem pouco estudou, e o moderno, presente na elite intelectual”.
Alberto Carlos Almeida é um sociólogo pigmeu a serviço da mídia oligárquica. Suas pesquisas não tem nenhum valor científico. Enxerga a superfície da realidade e afirma tratar-se da sua essência. Quando ele diz que os pobres são arcaicos e os cultos e ricos são modernos, Almeida não só está legitimando uma ordem desde sempre desigual, mas sobretudo tirando conclusões cínicas e apressadas sobre a nossa sociedade de classes. Almeida pretende construir, de maneira vulgar, uma ideologia, ou cerzir os fundilhos de uma ideologia rota, de forma a justificar a abismal diferença de classes no Brasil, fazendo passar a idéia de que tais fenômenos sejam desejados por Deus, fixados pela Natureza ou sustentados por algum dever moral escondido nos feitiços do tempo – onde nunca há sujeito responsável.
O curioso é que muitos indivíduos que se consideram espertos ainda “comprem” o pacote fraudulento de Almeida. Que a revista Veja, o jornal Zeagá, etcetera, o façam, não é de estranhar. Cumprem apenas o seu papel de difusores da mentira ideológica que precisa ser regada diariamente para não murchar como planta exótica em solo inóspito. Mas quando o ex-deputado Marcos Rolim tropeça e cai nessas armadilhas reluzentes da oligarquia decadente, aí a coisa fica dramática. Em sua coluna dominical de Zeagá, o ex-parlamentar petista, assume como lícito e digno o embrulho almeidista, e até faz considerações piedosas sobre os destinos nacionais caso o “arcaísmo das classes subalternas” persista por mais tempo.
Mal suspeita o colunista que esse trabalhinho pseudo-sociológico esteja inscrito numa estratégia mais ampla da direita para deslegitimar as duas eleições nas quais esses mesmos “arcaicos” escolheram um presidente – o primeiro da nossa longa história como Nação – egresso das classes populares. Mesmo que esse presidente tenha traído sua origem de classe, não importa, as elites não toleram – e Almeida apenas confirma – serem dirigidas e lideradas por um outsider de classe. Por bem menos, porque não eram outsiders, Getúlio foi ao sacrifício pessoal e Jango foi apeado do poder em 1964.
Foto: "A costureira de livros" da artista Vera Goulart.

O desbunde total de Palocci
A revista Isto É Dinheiro, que circula nesta semana, destaca que aos poucos o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci reconquista espaço na cena da política nacional. A revista comenta que Palocci acatou o apelo pessoal do presidente Lula para que assumisse o cargo de relator da comissão especial da Câmara que examina a emenda constitucional de prorrogação da CPMF.
Destaca ainda que há quem diga que Antônio Palocci está ganhando músculos para ser o candidato do presidente Lula à sucessão em 2010. Parece exagero, comenta a revista, mas nesse projeto, o ex-ministro receberia o apoio de grandes grupos financeiros, que não cansam de elogiar sua passagem pela Fazenda.
Um exemplo de seu bom trânsito no setor financeiro, diz a revista, é o fato de Palocci ser o interlocutor do Bradesco nas negociações com o ministro Hélio Costa [Comunicações], que quer romper o contrato da ECT com o banco paulista. Costa pretende que o Banco Postal caminhe com as próprias pernas. Mas o Bradesco tenta convencer o ministro do contrário e conta, para isso, com a ajuda de Palocci. A exemplo da atuação no Congresso, o ex-ministro presta serviços de consultoria com cautela e sem precipitação, diz a revista.
....
"Como a gente debate o socialismo e cogita Antonio Palocci para presidir o partido?" – desabafou um militante petista no 3º Congresso Nacional do PT, que se encerra hoje. Deu na Folha de hoje.

Ode ao burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
"- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
- Um colar... - Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...
Mário de Andrade
(
Óleo sobre tela de Tarsila do Amaral, 1927. Tarsila e Mário ajudaram a fazer a Semana da Arte Moderna de 1922, que deu início ao movimento modernista no Brasil, com novos conceitos de artes e buscando uma perspectiva genuinamente brasileira para as nossas expressões artísticas.
sábado, 1 de setembro de 2007
RBS faz um desagravo à ausência de Lula
O Jornal do Almoço, principal noticiário televisivo do grupo RBS (que apoiou o golpe gorila de 64) sequer fez menção hoje ao meio-dia sobre a presença e a fala da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ontem na exposição que assinalou o cinqüentenário do grupo midiático.
A ministra compareceu e falou, representando o presidente Lula, na abertura da exposição No Ar - 50 Anos de Vida, ontem, na Usina do Gasômetro,
O telejornal da RBS também não mostrou imagens e nem registrou as presenças de outros dois ministros do governo Lula, Franklin Martins, da Comunicação Social, e Carlos Lupi, do Trabalho.
O gesto de ignorar completamente os três ministros do governo Lula no principal telejornal do grupo pode ser interpretado como um desagravo à ausência do presidente da República ao evento comemorativo.
Lula foi formalmente convidado para o aniversário da RBS sessenta dias atrás, e teria confirmado a sua presença. Mas avaliações posteriores do Planalto concluiram que o presidente teria mais a perder do que a ganhar neste evento. Os atos festivos também não deixam de ter uma conotação política velada, já que a RBS significa, nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, mais que uma simples empresa de comunicação social, representa e protagoniza uma linha político-ideológica que o presidente Lula derrotou nas eleições de 2002 e 2006. Os veículos da RBS são permanentes instrumentos de desconstituição do caráter popular e democrático do governo Lula, e de resto de qualquer administração petista, sempre visando confundir os leitores com notícias grosseiramente editorializadas segundo uma ótica excludente e conservadora. A RBS cumpre o papel de um verdadeiro partido político, orientando e liderando campanhas ideológicas e eleitorais em favor dos setores mais atrasados e conservadores da sociedade sul-rio-grandense.
Recentemente ainda, o jornal Zero Hora, ao informar sobre graves irregularidades do governador Cássio Cunha Lima (PSDB) da Paraíba, estampou uma foto com o presidente Lula em primeiríssimo plano e o governador, objeto da notícia, estava em quinto plano, diluído e desfocado em meio a outros tantos personagens.
Esses dados da realidade foram analisados objetivamente pelo Planalto e serviram para aconselhar o presidente Lula a não comparecer à festa da família Sirotsky, ontem.
Quando era obrigatório parecer feliz Toda a sociedade extrai a matéria de seus sonhos de algum lugar. Durante anos, este lugar foi a Inglaterra, encarnada numa loura de olhar bovino. Lá, em junho de 1981, Lady Di se casava num conto de fadas. A cerimônia foi assistida por 1 milhão de espectadores. Em 1995, como qualquer plebéia, ela confidenciava a espectadores atônitos que seu casamento ia mal. Um ano depois se divorciava e, em 1997, numa noite em Paris, apagava-se.
Morreu aos 36 anos, dos quais dezesseis foram vividos na telinha.
Para além do casamento real, a década de 80 assistiu a mudanças importantes. O comércio viveu um boom nunca visto. Só se falava em globalização financeira, enquanto McDonalds e outras marcas se difundiam planeta afora. Mas a mundialização foi também um "longe mais perto". A CNN foi criada em 1980. No campo dos comportamentos femininos, os sonhos igualmente se amplificavam: ganhar dinheiro, tornar-se uma estrela, ser bela e feliz eternamente. Mas sempre sem esforço.
A agenda das mulheres cresceu: elas tinham que se mostrar plenas, bastar-se, tinham que "existir", enfim. Esta felicidade sob medida se encarnava na publicidade e na mídia. Nas sociedades industrializadas, ser feliz se tornou o "único bem supremo", diria Aristóteles. Uma tal sede de viver se exprimia num credo: "se dar prazer". A ditadura da felicidade a qualquer preço estigmatizava as infelizes.
A princesa embarcou no seu tempo. Juntou a receita de ser feliz com a potência mobilizadora da telinha. Ela mais queria se dar a ver do que a conhecer. Por meio da televisão, ela dividia com todo o mundo as suas emoções. Mas por trás do olhar bovino ela também entendeu que ninguém nascia sedutora.
Não bastava ter um corpo e colocá-lo
A adúltera dava lugar à santa. Num jogo de montagens narcísicas, ela celebrava a tal felicidade obrigatória. Mas os anos 80 embutiam um outro sucesso: o da depressão. Mais e mais esse sofrimento se tornava comum. E ela mergulhou no problema. Tornou-se bulímica. Tentou o suicídio. Enquanto isso, deixava a mídia resolver seus problemas de alcova. Famintos, os espectadores colhiam cada migalha deste misto de sonho e interdito.
O fim de Diana, debaixo da ponte d'Alma, lhe permitiu um último recurso televisivo: uma missa universal transmitida por quarenta canais. Outros cultos se sucederam: peregrinação, flores no palácio de Kensington e, por que não, a fundação do "Diana Land". Detalhe: só 10% dos rendimentos desse mausoléu-museu se dirigem a obras de caridade.
Na era da sociedade de massas, a princesa de massas virou um produto no mercado de mitos. Mistura de Sissi traída, de Marilyn suicida e de James Dean, morto ao volante, Diana preencheu o papel de uma mulher presa nas armadilhas do seu tempo. Como só era boa em piano e esportes e não gostava de estudar, teve poucas chances de olhar com recuo para si mesma. Preferiu ser sonho a ser verdade.
Na mesma época, morreu Teresa de Calcutá. Uma outra mulher do mesmo tempo, só que acima das religiões midiáticas. Alguém se lembra?
Artigo da brilhante historiadora Mary del Priore, publicado hoje na Folha.
Expulso por um bom motivo! Eu cresci como filho de gente abastada.
Meus pais puseram-me a usar colarinho branco,
e educaram-me no hábito de ser servido.
Ensinaram-me a dar ordens.
Mas quando já crescido, olhei à minha volta
Não me agradaram as pessoas da minha classe
e juntei-me à gente mais humilde.
Assim eles criaram um traidor,
ensinaram-lhe a sua arte,
e ele denunciou-os ao inimigo.
Sim, eu conto-lhes os seus segredos.
Fico entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá,
pois estou a par dos seus planos.
E o latim dos seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,
Então Deus revela-se uma farsa.
Tomo a balança da sua justiça
e mostro os pesos falsos.
Os seus informadores relatam
que me encontro entre os despossuídos,
quando tramam a revolta.
Eles me advertiram e apropriaram-se do
Que ganhei com meu trabalho.
E quando me corrigi eles tentaram caçar-me, mas
Em minha casa encontraram apenas escritos
que expunham as suas tramóias contra o povo.
Então enviaram-me uma ordem de prisão
Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa.
Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos proprietários.
Mas os espoliados lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por um bom motivo
Bertolt Brecht
Fotografia de John Freyr
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