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quinta-feira, 22 de março de 2012

Há um crucifixo no meio do caminho da nossa república





Territórios livres


Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. Ao mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida, e dívidas, que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos. Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja. Se tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu. 


O poder dela está por toda a parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros.Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de Igreja e Estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste país, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado.

É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa. Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração. No caso, de liberdade.


Artigo de Luis Fernando Veríssimo, publicado hoje no jornal O Globo.



Fotografias de cima a baixo: 1) gabinete do presidente da República, no tempo de Lula; 2) plenário da Câmara dos Deputados; 3) Presidenta Dilma, vice Temer, e presidente do Senado, José Sarney, no plenário da Câmara; 4) Plenário do STF, órgão máximo do Poder Judiciário, em Brasília. 

6 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Como se não houvesse nada mais prioritário, há quem alimente o medo de um "boneco pendurado num madeiro". Deviam se preocupar com os picaretas da fé pós-pentecostal, que usurpam o poder. E também acreditam que aquilo também é um "boneco pendurado num madeiro".

Anônimo disse...

Lamentável. A liberdade de fato e não formal exige o afastamento dos fundamentalismos, principalmente, aqueles que a CF coibe de forma cogente, por expressar que somos uma república laica.

armando do prado

Guilherme B. disse...

A nossa Constituição é aberrantemente promulgada "SOB A PROTEÇÃO DE DEUS" (preâmbulo da CF), absurdo completo em um Estado laico.

Mas a decisão do TJ do RS foi digna de aplauso.

E a partir daí se vê que a inserção de casais homossexuais nas novelas globais é só para inglês ver. Nos telejornais, ao menos nos regionais da afiliada RBS, fica claro a forma como tratam jocosa e preconceituosamente o fato de ter sido a representação de uma associação de lésbicas que motivou a decisão do TJ.

Enfim, a decisão é salutar, é um avanço social, e deveria ser seguida por outros órgãos do Poder Judiciário.

P.S.: apenas uma ressalva à RBS, já que ZH publicou artigo do Claudio Brito louvando a decisão e criticando os defensores do atraso.

Anônimo disse...

como se não bastasse, a condição para a existência da mais ampla liberdade religiosa é que nenhum símbolo, de qualquer religião em particular, esteja no espaço republicano, que é laico. Nas escolas públicas, onde em tese, se formam os cidadãos, não deveriam também estar. A fé não é coisa pública numa sociedade não-fundamentalista. A fé é do âmbito do privado e não deve constranger os cidadãos, de qualquer religião e inclusive sem nenhuma -- os que mais são agredidos com os símbolos, no caso inclusive, bastante complicado, pois é a reprodução de um instrumento de tortura.Num país voltado para o mar revolto do medievo as coisas se invertem e os que são agredidos dessa forma, são tidos como agressores...Quando será que o Brasil vai sair das trevas?

josé lopes disse...

Isto é que os religiosos precisam entender. Mas um dia chegará que todos aqueles que têm explorado os intectualmente despreparados começarão a se digladiar entre si. Um exemplo: O bispo Macedo briga com o pastor Waldomiro por disputa de poder, tudo em nome de Cristo ou do dinheiro dos fiéis? Acusações mútuas revelam que enriqueceram às custas de pessoas humildes.

Blog do Professor Tim disse...

Diário Gauche é, sem dúvida, um dos mais extraordinários da blogosfera. Crítico, defendendo uma sociedade mais justa, humana e igualitária. Atacadores os conservadores de direita. Postando os melhores textos. Artigo de Luís Fernando Veríssimo é um deles. Parabéns ao Diário Gauche. Mensagem do Blog do Professor Tim - timraimundo.blogspot.com

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