Você está entrando no Diário Gauche, um blog com as janelas abertas para o mar de incertezas do século 21.

Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 3 de junho de 2008


Um personagem de Steinbeck

Ontem, assistindo parte do depoimento do senhor Antonio Dornéu Cardoso Maciel (ele próprio pronunciava Dornéu, ontem), réu no processo judicial originado da Operação Rodin, aos deputados da CPI do Detran, lembrei de John Steinbeck (1902-1968).

Antes de explicar o motivo de tão extravagante nexo, devo dizer que Steinbeck, para mim, é um gigante da literatura universal, foi e é o meu mestre nas dificuldades da escrita e da narrativa.

Mas porque mesmo eu fiz a conexão entre o grande Steinbeck e o réu Dornéu? É que ao ouvir o senhor Dornéu Maciel fiquei tentado a definir que tipo de pessoa estava ali. Me pareceu de plano, um sujeito repulsivo, quase visguento. Um tipo que interrompia a inquirição de um deputado para fazer mesuras retóricas com algum parlamentar que chegasse à sala de reuniões – expressando uma cordialidade postiça, exagerada e xaroposa, enfim, manifestações sensíveis de uma “alma deformada”.

Um breve trecho do magistral A Leste do Éden (1952), penso que desenha um vulto do indigitado líder da direita guasca, este:

Creio que há monstros nascidos no mundo de pais humanos. Pode-se ver alguns, disformes e horrendos, com enormes cabeças ou corpos minúsculos; alguns nascem sem braços, sem pernas, outros com três braços, com caudas ou bocas nos lugares mais estranhos. São acidentes e ninguém tem culpa, ao contrário do que se costumava pensar antes. Houve um tempo em que eram consideradas punições visíveis a pecados ocultos.

Assim como há monstros físicos, não é possível que nasçam também monstros mentais ou psíquicos? O rosto e o corpo podem ser perfeitos, mas se um gene adulterado ou um óvulo disforme podem produzir monstros físicos, o mesmo processo não poderia gerar uma alma deformada? [...]

E por aí vai. Steinbeck faz esse preâmbulo para anunciar a entrada em cena de uma personagem forte deste romance extraordinário, que é Cathy Ames, uma pessoa – como Dornéu Maciel – nada exemplar.



Yeda fragiliza o Banrisul de forma pensada

O Conselho de Administração do Banrisul presidido pelo secretário da Fazenda, Aod Cunha reuniu-se ontem para examinar as graves denúncias do vice-governador Paulo Feijó de que foram desviados cerca de 90 milhões de reais da instituição bancária estadual.

Feijó fez graves acusações ao presidente do banco, Fernando Lemos, mas o Conselho – sem a presença do diretor-presidente alvo das denúncias – resolveu taticamente entender que fosse um ataque institucional, e como tal, respondeu, ou tentou responder ao vice-governador, em nota divulgada depois da reunião.

Leia a nota na íntegra aqui.

Segundo o jornal ZH de hoje, o Banrisul tentou tranqüilizar o mercado (fac-símile). Se tentou não conseguiu, já que a nota não esclarece absolutamente nada, basta examiná-la. E depois, o chamado mercado não está nervoso, pelo menos quanto ao Banrisul, já que as ações da instituição tem alcançado nos últimos dias valores inéditos.

De qualquer forma, já se vê que o governo Yeda Crusius está adotando o mesmo procedimento irresponsável quanto ao Detran para o Banrisul. Quando o então secretário da Segurança, Enio Bacci, informou de irregularidades e “sujeira” no Detran, a governadora fez olho-branco e ouvidos moucos, pois, agora, com as denúncias importantes e documentadas de alguém do próprio núcleo de governo, este não reage preferindo comportar-se com irresponsabilidade e negligência.

Parece que aposta no quanto pior melhor, para futuramente – com o banco fragilizado – vendê-lo na bacia das almas por cinco réis de mel coado.


segunda-feira, 2 de junho de 2008


Cimi denuncia rearticulação da direita contra indígenas

O Cimi (Conselho Indigenista Missionário, ligado à CNBB), denuncia que está em curso uma rearticulação de extrema direita, ligada a militares da reserva e a grupos econômicos empenhados em acabar com as reservas indígenas. A informação está em O Globo, de hoje.

- Querem transformar o índio em camponês pobre ou sem-terra, passando por cima de seu direito à cultura - afirma o assessor do Cimi, Paulo Maldós.

Para André Villas, indigenista do ISA, há três motivos de acirramento: o recrudescimento dos direitos territoriais, a precariedade da assistência governamental e o modelo de desenvolvimento do governo Lula:

- Há paranóia excessiva. A demonização das ONGs é descabida. Há empresas que lavam dinheiro, políticos que roubam e ONGs que erram. Nem por isso todas as empresas, políticos e ONGs são desonestos – disse o indigenista.

O diretor de Assistência da Funai, Aloysio Guapindaia, afirmou que a Funai não tem indicativo de que há acirramento externo dos indígenas:

- Os movimentos são isolados. Há um passivo muito grande. Eles reclamam da demora da Funai, da Funasa, da falta de atendimento em saúde. Estão preocupados, e com razão.



Arquivo vivo

O depoente do dia na CPI do Detran/RS, hoje, é o misterioso Antonio Dorneu Maciel (foto), ex-diretor geral da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, dirigente do Partido Progressista (ex-Arena) no Estado, e réu no processo judicial originado da Operação Rodin, que constatou o roubo de 44 milhões de reais do departamento de trânsito.

Dorneu (ou Dornéu) Maciel foi diretor geral da AL no período em que o orçamento do legislativo pulou de 1% do Orçamento estadual para quase 5% anuais, de 1995 a 2001.

Dizem que o homem é um mago das finanças públicas.

O certo é que se ele falar tudo o que sabe, vai abalar as estruturas ético-morais de 60% do PIG guasca e fazer respingar suspeitas em metade da autodenominada “classe política” da direita sul-rio-grandense.

Mas eu não acredito que ele fale algo expressivo.



Truque velho de jornal em crise

Os jornais do mundo todo tem um truque infalível para vender o seu peixe, principalmente em tempos de queda nas tiragens. É o velho ardil de revisitar antigos crimes insolúveis, acontecidos na cidade ou na região, e que tenham conteúdos sensacionais e misteriosos.

Zero Hora, da RBS, não foge à regra. Está remexendo no célebre Caso Daudt, que continua obscuro mesmo depois de duas décadas.

O governador na época era o peemedebista Pedro Simon (1987-90), conhecido radical da cautela. O jornalista e deputado estadual peemedebista José Antônio Daudt freqüentava certas rodas heterodoxas. Foi assassinado por motivações cuja origem estava nesses círculos. As investigações policiais da época chegaram ao endereço certo, mas o governador Simon mandou cessar tudo porque o fio condutor que levava à verdade e à solução do crime era cor-de-rosa. Esse elo conectava inúmeros parlamentares da base simonista, secretários de Estado, dirigentes políticos, empresários locais e soldados espadaúdos da Brigada Militar.

Alarmado, o governador Simon mandou parar tudo. O chamado Caso Daudt continuará insolúvel. E mesmo que passem vinte anos, ZH continua ocultando partes deste quebra-cabeça pink. O negócio é vender jornal para veicular as bugigangas oferecidas pelos anunciantes.



Juventude brasileira tem um futuro de incertezas

Ah, a juventude que essa brisa canta... – passou-se o tempo da ingenuidade poética e do lirismo irresponsável. Hoje, só o hip-hop para dar conta da dura radiografia da juventude feita pelo IPEA. O funil se afunila ainda mais.

Dados empíricos selecionados a partir de estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Economica Aplicada, do Ministerio do Planejamento) divulgados em artigo do seu diretor-presidente, o economista Márcio Pochmann publicado no jornal Valor (15/05/2008):

- Há 51 milhões de jovens no Brasil, entre 15 e 29 anos.

- 66% deles estão fora das salas de aula, não estão estudando.

- Apenas 13% dos jovens estão cursando curso superior.

- Apenas 48% dos que tem idade entre 17 e 18 anos estão cursando o ensino médio.

- A principal causa alegada para não estar estudando, entre os homens, é ter que trabalhar para ajudar a familia e, a gravidez/maternidade precoce, entre as jovens.

- 46% deles estão desempregados.

- 50% dos 54% que estão empregados, trabalham sem carteira assinada, ou seja, do total de jovens, apenas 27% têm emprego com carteira assinada.

- 31% de todos eles são considerados miseráveis, pois possuem renda per capita inferior a meio salário mínimo.

- 70% dos jovens considerados pobres, são negros.

Leia aqui a íntegra do estudo do IPEA sobre a juventude brasileira.


domingo, 1 de junho de 2008


Pau Casals i Defilló

Mundialmente conhecido como Pablo Casals (1876-1973), regente e violoncelista catalão, un català, como dizem com raro orgulho em Barcelona.

Pau foi republicano durante a Guerra Civil Espanhola (1936-39). Lutou contra o franquismo e todas as formas do fascismo. Foi vítima de uma tentativa de suborno por parte do nazismo hitleriano, no sentido de fazê-lo “virar a casaca mediante pecúnia” (vilania comum naqueles tempos, retratado pelo filme Mephisto do diretor István Szabó, de 1971).

Resistiu bravamente e ainda militou na resistência nazi-fascista na Europa ao proteger ativistas que fugiam tanto de Franco quanto de Hitler.

Modesto, uma vez explicou assim o seu ativismo:

"Não sou político, sou simplesmente um artista. Mas a questão é definir a arte como um passatempo fora do contexto da vida diária dos homens, ou como um meio para preservar o significado original da existência humana. A política não é tarefa dos artistas, mas, na minha opinião, temos a obrigação de tomar uma clara posição, qualquer que seja o sacrifício que isso acarrete, se a dignidade do homem estiver em jogo."

Hoje quando se fala de Yo-Yo Ma como o grande nome do violoncelo, não é possível esquecer Pau Casals, o mestre dos mestres no cello e um ser humano completo. Um exemplo total.

Ouça o catalão aqui.

Trata-se de um filme de 1954, de 9 minutos, e dado como sumido por muitos anos. Pau interpreta Bach. Imperdível!



Karmo

Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....

Olavo Bilac (1865-1918), poeta parnasiano brasileiro.



Omar Cruz

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