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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Chile e os Vereadores de Porto Alegre



A velha nova direita

Quando Sebastián Piñera (foto) ganhou a Presidência chilena, não foram poucos os que saudaram a sua vitória como a prova maior da vitalidade da democracia no país andino.

Empresário de sucesso, com imagem de homem eficaz e sem grande envolvimento visível com a ditadura de Pinochet, Piñera parecia uma reversão da onda esquerdista que domina a América Latina desde o início do século. Ele era o homem indicado para mostrar, à política latino-americana, a via da modernização conservadora.

No entanto nada deu certo. Depois de dois anos de governo, Piñera protagoniza a maior catástrofe da história da política chilena recente. Com níveis recordes de baixa popularidade, o presidente parece ter servido para mostrar como a direita latino-americana perdeu sua hora.

Desde o movimento dos estudantes chilenos que pediam educação pública de qualidade para todos - revolta esta apoiada por mais de 70% da população -, ficou visível como havia um grande descompasso entre o que o povo queria e o que o governo estava disposto a oferecer.

O povo pediu claramente serviços públicos de qualidade e disponíveis a todos. O governo, com seu ideário neoliberal envelhecido e ineficaz, continuou recusando-se a desenvolver as condições econômicas para o fortalecimento da função pública e para a liberação de largas parcelas da população pobre das garras dos financiamentos bancários contraídos para pagar a educação dos filhos.

Depois, diante da firmeza da revolta estudantil, só passou pela cabeça de Piñera reforçar o aparato de segurança e repressão, isso na esperança de quebrar as demandas sociais.
Discursos contra "nossos jovens que não foram bem-educados pelos pais e que agora querem tudo na boca" ou "os estudantes arruaceiros" e outras pérolas da mentalidade pré-histórica foram ouvidos. Prova maior da incapacidade de responder de forma política a problemas políticos.

Agora, como se não bastasse, seu governo teve de voltar atrás em uma tentativa bisonha de retraduzir a "ditadura militar" chilena em uma novilíngua onde ela se chama "regime militar". Prova indelével de que a direita latino-americana nunca conseguiu fazer a crítica e se desvencilhar de vez de seu apoio às ditaduras.

Quando o assunto volta à baila, eles agem com um estranho espírito de solidariedade, como vimos na votação feita pela Câmara Municipal de Porto Alegre para a modificação do nome de uma avenida que se chamava "Castello Branco". O pedido de modificação, feito bravamente pelo PSOL, foi arquivado.

Nesse vínculo ao passado e nessa inabilidade diante do presente, evidencia-se claramente como a nova direita latino-americana não conseguiu renovar seu guarda-roupa.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Publicado na Folha, no último dia 10 de janeiro.

5 comentários:

Claudemir disse...

Vargas não foi um ditador, à época do Estado Novo ?

Por que essa trupe de patifes dos "trabalhistas", ou os próprios membros do PSOL não impugnam também o nome da Avenida Getúlio Vargas ?

No mais, se a população chilena apóia tanto a educação pública e de qualidade, e é contra o ideário neoliberal, como é que votam e elegem um farsante como esse ?

Não adianta, o povo não sabe votar. A massa é nada mais do que isso: uma "massa", mas de manobra.

hector rodrigo aguilera araya disse...

Muito obrigado pela nota. Sou um chileno com corazón gaúcho, que como vocês escrevem sofre, "Depois de dois anos de governo, ...a maior catástrofe da história da política chilena recente."

Agradeço a divulgaçao da realidade de nosso país que nao tanto o paraíso que muitos pintam no estrangeiro....
Um abraço
Héctr Aguilera, Viña del Mar, Chile/ Porto Alegre no meu coraçao

Nelson disse...

Depois de ter alçado breve vôo em direção a patamares civilizatórios mais elevados, durante os 16 anos de governos petistas, a capital dos gaúchos parece ter sido tomada por uma vontade tão empedernida de voltar para trás que esqueceu-se de, ou não quer, desengatar a ré.

Anônimo disse...

Pior é ter ruas e viadutos com o nome do psicopata Milton Tavares da Silva, vulgo 'general miltinho'. Pobre S. Paulo.

armando do prado

Fernando disse...

#1
Igualar Vargas e Castelo Branco: na boa! E' muita vontade de contrariar. Entre outras, Vargas foi o modelo de politico conciliador, de "centro". Inspirou varios exemplos retumbantes (e aos quais temos que tentar sobreviver). Foi ruim, mas poderia ter sido muito pior. Poderia ter sido um Castelo! Ta' loco. Dali so' veio coisa ruim. Sequer uma esmola de vez em quando. Se bem que, na real, os amigos do PSOL bem que poderiam se preocupar com coisa mais seria do que com o engasgo que causa ver nome de rua homenageando algum brutamontes.

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