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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quinta-feira, 21 de março de 2013

E a banda empresarial que ajudou na repressão e no terrorismo de Estado durante a ditadura 64/85?


Os coniventes

O ex-deputado estadual e ex-marido da Dilma, Carlos Araújo, não é um ex-ativista político, pois recentemente voltou à militância partidária no PDT apesar de limitado pela saúde. Quando militava na resistência à ditadura, foi preso, junto com a Dilma, e os dois foram torturados. Depondo diante da Comissão Nacional da Verdade, esta semana, sobre sua experiência, Araújo lembrou a participação de empresários na repressão, muitas vezes assistindo à ou incentivando a tortura. Que eu saiba, foi a primeira vez que um depoente tocou no assunto nebuloso da cumplicidade do empresariado, através da famigerada Operação Bandeirantes, em São Paulo, ou da iniciativa individual, no terrorismo de Estado.

O assunto é nebuloso porque desapareceu no mesmo silêncio conveniente que se seguiu à queda do Collor e a revelação do esquema montado pelo P. C. Farias para canalizar todos os negócios com o governo através da sua firma, à qual alguns dos maiores empresários do país recorreram sem fazer muitas perguntas. A analogia só é falha porque não há comparação entre o empresário que goza vendo tortura ou julga estar salvando a pátria com sua cumplicidade na repressão selvagem e o empresário que quer apenas fazer bons negócios e se submete ao esquema de corrupção vigente. Mas a impunidade é comparável: o Collor foi derrubado, o P. C. Farias foi assassinado, mas nunca se ficou sabendo o nome dos empresários que participaram do esquema. Nunca se fez a CPI, não dos corruptos, mas dos corruptores, como cansou, literalmente, de pedir o senador Pedro Simon. No caso da repressão, talvez se chegue à punição ou, no mínimo, à identificação, de militares torturadores, mas o papel da Oban e da Fiesp e de outros civis coniventes permanecerá esquecido nas brumas do passado, a não ser que a tal Comissão da Verdade siga a sugestão do Araújo e jogue um pouco de luz nessa direção também.

A comparação nossa com a Argentina é quase uma fatalidade geográfica, somos os dois maiores países da América do Sul com pretensões e vaidades parecidas. Lá, o terrorismo de Estado foi mais terrível do que aqui, e sua expiação – com a condenação dos generais da repressão – está sendo mais rápida. Mas a rede de cumplicidade com a ditadura foi maior, incluindo a da Igreja, e dificilmente será julgada. Olha aí, pelo menos nessa podemos ganhar deles.

Artigo de Luis Fernando Veríssimo, publicado em diversos jornais do Brasil, hoje.

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A meu ver, a Comissão Nacional da Verdade está por demais tímida. O ex-deputado Carlos Araújo em depoimento à Comissão, segunda-feira passada em Porto Alegre, deu informações precisas e nominadas sobre a participação de empresários nas sessões de tortura a que foi submetido nas dependências da Operação Bandeirantes em São Paulo.

O coordenador da CNV, Paulo Sérgio Pinheiro, um notório tucano, desconversou. Disse que “a Comissão está investigando os financiadores civis do Doi-Codi e da Oban”. Mais não disse, porque não interessa chafurdar nesse tema que pode pegar muita “gente boa”, cidadãos “probos” e de “retidão de caráter”. “Homens de bem”, como se autodenominam os bandalhos da direita em situação de risco e suspeita de seus atos e feitos públicos.

A propósito do tema, quero recomendar vivamente a leitura de uma reportagem que passou desapercebida (por motivos óbvios). Trata-se de uma longa entrevista concedida pelo ex-repressor, delegado José Paulo Bonchristiano, do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, entre 1964 e 1983, à repórter Marina Amaral (Agência Pública) em fevereiro de 2012. 

O delegado, hoje com 81 anos, “entrega” alguns figurões como Roberto Marinho (“este passava pessoalmente no Dops, toda a vez que vinha a São Paulo, pra ver se a gente não estava precisando de alguma coisa”), o “publisher” (como se autointitulava) Octávio Frias (Grupo Folha), que era instado por Marinho para auxiliar os delegados da repressão da Operação Bandeirantes, bem como o dono e fundador do Bradesco, Amador Aguiar, que segundo Bonchristiano, mandou tudo para mobiliar o Dops, “até máquina de escrever”. O velho delegado ainda conta detalhes da participação e dos cursinhos de capacitação ministrados pela CIA aos oficiais da repressão brasileira.

Leia matéria aqui. Está imperdível.

Fotografia: o delegado Bonchristiano e o jovem cantor Roberto Carlos. Delegados do DOPS faziam a "segurança" do programa de RC na antiga TV Record, década de '60. O "rei", hoje,  poderia esclarecer essa sua preocupação primeva pela questão da "segurança".


terça-feira, 19 de março de 2013

Populismo ou quando os processos históricos têm nome e sobrenome



Populista

A morte de Hugo Chávez serviu, entre outras coisas, para mostrar quão maleável é o uso do conceito de "populismo" entre nós.

Normalmente utilizado como uma injúria, "populismo" deve ser inicialmente visto como a expressão do medo de alguns quando veem mobilizações populares nas ruas. Só assim pode-se explicar como vários de nossos livros de história descrevem o período entre 1945 e 1964, o primeiro momento de forte densidade popular na política brasileira, erroneamente como "República populista".

Fala-se muito da fragilidade institucional e da forte presença de lideranças carismáticas como características diferenciais do populismo.

No entanto nenhum desses dois pontos devem ser vistos como excludentes em relação a um conceito substancial de democracia.

Primeiro, porque a democracia tem uma fragilidade institucional constitutiva, já que ela não ignora a plasticidade das formas e processos de governo. Acorrentar o futuro por meio de arranjos institucionais criados para referir-se a situações passadas, acostumando a sociedade a instituições e dinâmicas que funcionam mal, não tem relação alguma com a realização de uma sociedade democrática.

Segundo, uma questão importante a ser levantada, mas, entretanto, muito pouco pensada, consiste em perguntar pelo lugar da liderança no interior de uma sociedade democrática. 

Talvez estejamos muito marcados por um certo weberianismo que vê o carisma como a explosão do irracional no interior da política, sendo que ele é, muitas vezes, a condição para que identificações e investimentos libidinais se realizem.

A personalização de um processo histórico não é algo necessariamente ruim, como já dizia Hegel. Ao contrário, muitas vezes ela é a astúcia necessária para que tais processos ganhem força. Vários movimentos de transformação perdem força por não terem lideranças capazes de fornecer a imagem que leva a sociedade a atravessar seus medos. Ou seja, a democracia e sua inventividade política não exclui a função da liderança.

Mas a crítica do uso do conceito de populismo não implica, necessariamente, recusar toda sua força crítica. Há um uso restrito do conceito que talvez deva ser conservado, por retratar um risco de bloqueio em processos de transformação social. Ele se refere aos arranjos nos quais o poder converge para o fortalecimento de um polo altamente centralizado e personalizado, normalmente o Poder Executivo.

Quando isso ocorre, como foi o caso na Venezuela, a transferência do poder em direção a instâncias autônomas de democracia direta não se completa. No entanto nem nas democracias que conhecemos isso ainda ocorre.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Pequeno debate sobre Chávez na Oxford University



Imperdíveis seis minutos de debate entre um jovem estudante e o professor George Galloway acerca de Hugo Chávez, direitos sociais e conquistas do povo venezuelano.

terça-feira, 12 de março de 2013

O despotismo infantil de nosso tempo: estamos criando pequenos fascistas


Pequenas autoridades
Theodoro tem dois anos e 11 meses e o apelido de "Theorremoto", ganho às custas de muita birra. "Não muito orgulhosa disso", a mãe, a estilista Marina Breithaupt, 32, diz que o menino manda nela, no pai e na irmã de 11 anos.

"Saímos quando ele quer, assistimos ao que ele gosta na TV. Ele quer tudo antes da irmã e decidiu que não dorme mais na cama dele, só na nossa", conta a mãe.

Se ouvir um não, o menino "faz escândalo, vira um inferno". A família deixou de ir a shopping porque Theo quer tudo que vê. E só vai a restaurante que tem parquinho: um dos pais brinca com ele enquanto o outro come.

A última do garoto é não querer ir à escola. "Já acorda dizendo que não vai. Num domingo, resolveu que queria ir", diz Marina. "Sou rígida, mas acabo cedendo para evitar problemas. Ele tem personalidade dominadora."

Ele e uma geração inteira de pequenos ditadores, na explicação de Marcia Neder, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da USP e autora do livro "Déspotas Mirins - O Poder nas Novas Famílias" (Zagodoni, 144 págs., R$ 34).

"Vivemos uma 'pedocracia'", diz, dando nome ao fenômeno das famílias sob o governo das crianças. "Há 50 anos, elas não tinham querer. Agora, mandam."

Segundo Neder, estamos no ápice da tirania infantil. "Muito se fala sobre declínio de poder paterno e ascensão do materno. Discordo. Quem ganhou poder nas últimas décadas foram os filhos", diz.

A falta de limites é sinal da derrota dos pais, na visão dela. "A criança foi a grande vitoriosa do século 20."

E não precisa ser mandão para manter o reinado. Mesmo sem espernear, os filhos têm as vontades atendidas e a rotina da casa organizada em função deles. "O adulto é um satélite em volta da criança", diz Neder, que considerada urgente um esforço pela retomada do poder adulto. "Vamos pagar o preço de ver esses tiranos crescidos." 

Matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo, de hoje.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Santo Agostinho, o papa e a semântica do peido


Entre o pum e o papa

Há dois elementos centrais na educação ocidental: o pum e o papa.

Agostinho foi o pensador que lidou com o que o filósofo contemporâneo Peter Sloterdijk chamou de "a semântica do peido". Agostinho era encantado com as proezas de controle fisiológico. Sua interpretação do pecado original atravessa esse assunto.

Adão e Eva desobedeceram a Deus ao comerem do fruto da árvore do conhecimento. 

Como membros do paraíso, se tornaram independentes de Deus. A punição imediata foi que eles próprios, em seus paraísos pessoais - seus corpos - viram como é triste não possuir controle. Tornaram-se vítimas da ereção involuntária e outros descontroles corporais. O homem e a mulher sentem vergonha quando agem como um tipo de fantoche maluco.

A luta contra essa sina foi uma meta de Agostinho. Ele se fez herdeiro do "conhece-te a ti mesmo" e da busca do "governo de si" socráticos tanto quanto esse projeto esteve ligado aos estoicos, epicuristas e, por meio de Paulo, aos cristãos. Sua ideia básica: mais que um exército que possa peidar junto, temos de ter uma humanidade com autolimites claros.

O papa é o chefe da igreja e o representante da divindade na Terra, dizem os católicos. 

Sendo assim, é aquele que, ao menos em tese, seria o homem mais apto a controlar seu pum. Com efeito, dificilmente, os papas se desviam de uma vontade férrea e um autocontrole fenomenal. Bento 16 não fugiu à regra. Falou que renunciaria caso não pudesse seguir sua missão e levou a cabo seu dito.

Foi usando dessa força filosófica de seus membros que a igreja contribuiu - não sem dor e sangue - para o caminho civilizatório, especialmente percorrido pelo Ocidente. Em muitos lugares, nos tornamos de tal modo donos de nós mesmos que pudemos deixar nossas juventudes pichar nos muros "É proibido proibir". Por que ousamos fazer isso?

O sociólogo Norbert Elias explicou mais ou menos assim: chegamos a tal ponto de sofisticação no autocontrole que pudemos criar zonas temporais e espaciais de "relaxamento dos instintos". A praia é um lugar que mostra bem isso. Até o menos educado já não tem qualquer ereção no meio de outros humanos quase inteiramente nus.

Todavia, se Agostinho e Elias vissem o Brasil, diriam o seguinte: as coisas não estão completas. Muito do que já é dispensado no Primeiro Mundo, aqui ainda é necessário!

Tanto isso é verdade que o Estado fez uma esdrúxula campanha nesse Carnaval: "urine no banheiro". Creio que gastamos mais levando o pipi das pessoas ao lugar certo do que dizendo que essa parte do corpo precisa ser protegida para não pegar o HIV.

Eis aí esse problema todo traduzido politicamente: queremos que todos sejam livres e responsáveis, de modo a termos uma sociedade liberal, com as regras coercitivas mais brandas possíveis, mas, ao mesmo tempo, não nos responsabilizamos pelos animais, não cuidamos do espaço público, não ensinamos a nossos filhos os chamados "bons hábitos" e não cedemos lugar para os mais velhos em ônibus.

E mais: bebemos e logo em seguida saímos de carro. Isso sem falar o quanto desejamos todos usar da "carteirada". No Brasil, parece que estamos a anos-luz do papa. Ainda não somos donos de nosso próprio pum.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Se os humanos perturbarem o equilíbrio da Terra, serão pisoteados e jogados fora



O humanismo é uma religião esquecida

Os recentes relatórios científicos informando sobre mudanças climáticas praticamente irreversíveis ou de remota reversão, impõem ao homem abstrato a necessidade de entender onde foi, afinal, que errou.

Evidentemente o vilão número um do aquecimento global é o homo oeconomicus gestado nas usinas de carvão do princípio da Revolução Industrial e, claro, suas subsequentes derivações tecnológicas que teimam cada vez mais em consumir combustíveis fósseis combinado com um modelo perdulário e predatório de produção e consumo – seja no setor primário, seja na indústria de transformação.

Na sua obra Cinco ensaios sobre a psicanálise, Freud detectou aquilo que chamou de feridas narcísicas do homem da modernidade. A primeira ferida foi causada por Copérnico ao provar que o homem e seu pequeno planeta não eram o centro do Universo. A segunda ferida foi causada por Darwin ao mostrar que o homem é tão-somente um elo na evolução das espécies vivas, e não uma criatura especial de Deus para dominar a Natureza. A terceira ferida foi obra do próprio Freud ao mostrar que “o Eu não somente não é senhor na sua própria casa, mas também está reduzido a contentar-se com informações raras e fragmentadas daquilo que se passa fora da consciência, no restante da vida psíquica”.

Em suma, diz Freud, arrasador, somos periféricos, ligeiramente pós-primatas e temos uma consciência opaca, quase sonâmbula. 

O homem que formulou constructos de religiões e filosofias para adornar a própria condição, sem as quais a vida seria mais penosa, aos poucos dá-se conta que não passa de mais um dos tantos animais da vasta fauna terrena. Não foi Platão e Descartes que apontaram a consciência como o elemento distintivo entre os humanos e os outros animais?

Pois hoje quem estiver com os olhos e a estreita janela da consciência abertos para aceitar que nós humanos não devemos ter tanta importância assim, está de fato contribuindo para a salvação do Planeta e o início prático da biofilia - o amor endereçado a todas as coisas vivas.

Esses densos temas estão discutidos por John Gray na obra Cachorros de Palha - Reflexões sobre humanos e outros animais (Ed. Record). Como se vê, o britânico Gray (um liberal) abala as convicções mais arraigadas de todos nós, atirando com pontaria em ícones humanistas, tanto à direita, quanto à esquerda. Ora extraindo inspiração da poesia, onde vale-se até de Fernando Pessoa, ora da literatura de Conrad, ora da filosofia de Hume, de Schopenhauer, de Kant, e de Nietzsche, ele consegue fazer-nos pensar que, de fato, a sombra escura do homem é bem maior do que o seu real tamanho natural. 

O livro é um trabalho inspirado e muito bem escrito sobre antropologia filosófica, mas passa longe dos jargões e da linguagem hermética dos iniciados. Sobre John Gray se pode dizer que talvez seja um Schopenhauer sem a ranhetice deste, sem aquela misoginia agressiva, e que nunca empurrou a empregada do alto da escada, como o filósofo alemão.

Da biologia molecular, Gray trabalha com o que afirma Jacques Monod, segundo o qual a vida é uma casualidade que evoluiu pela seleção natural de mutações randômicas (aleatórias, contingentes). E que, portanto, nem a filosofia, nem as religiões (cuja moralidade entre o certo e o errado está informada por Deus, e que este afinal vai garantir-nos um sentido para a vida), e muito menos o progresso tecnológico podem afastar-nos da jogada de sorte de sermos o resultado (bem ou mal) sucedido de uma loteria cósmica.

O grande alvo de Gray é o humanismo pretensioso dos Iluministas, segundo o qual pode-se perfeitamente substituir a religião tradicional pela fé secular na humanidade. Gray lembra que para a hipótese Gaia, a vida humana não tem mais sentido do que a vida dos fungos.

Gaia, aliás, está na raiz do título Cachorros de Palha. Segundo uma antiga escrita taoísta, nos rituais chineses, cachorros de palha eram usados como oferendas para os deuses. Durante o ritual eram tratados com reverência e respeito. Quando tudo terminava, e não sendo mais necessários, eram pisoteados e jogados fora: "Céu e terra não têm atributos e não estabelecem diferenças: tratam as miríades de criaturas como cachorros de palha" - diz a escrita do sábio Lao-Tsé.

E completa John Gray: "Se os humanos perturbarem o equilíbrio da Terra, serão pisoteados e jogados fora".

Uma leitura que nos reconcilia com os animais e com o Planeta, sem a chatice da conversa "verde" e nem a falsa piedade dos consumidores de pet shop e mascotes caseiros.

Artigo de Cristóvão Feil. Publicado originalmente na revista mensal do MST, em setembro de 2007.

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