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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Edição do Jornal Nacional vitimiza a governadora Yeda
A notícia como massinha de modelar
O caso do sargento da Brigada que fazia arapongagem dentro do governo Yeda foi completamente distorcido pela editoria do Jornal Nacional da TV Globo, na edição de ontem às 20 horas. Veja o vídeo acima.
A história foi contada pela metade. Na outra metade, mostra uma versão desfigurada, como se o sargento Cesar Rodrigues Carvalho estivesse descolado do governo a qual pertence e serve com grande desenvoltura. A TV Globo contou como se ele fosse um agente singular e autônomo, sem nenhuma subordinação ao governo Yeda e à Secretaria de Segurança do RS. De lambuja, dona Yeda ainda foi mostrada como vítima do brigadiano araponga, suspeito de ser um dos braços operativos de um obscuro e enraizado esquema de bingos e jogos eletrônicos ilegais. Sobre o submundo ao qual pertence o perigoso bisbilhoteiro, nada.
Para o grande público, o sargento Cesar Rodrigues Carvalho é mais um desses malucos que se meteu por exclusiva vontade própria no interior dos órgãos de segurança do RS e, do nada, resolveu xeretar a vida dos outros. Mais um caso pitoresco, como tantos outros.
Prefiro rosas, meu amor, à pátria
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
Ricardo Reis (in Odes), um heterônimo de Fernando Pessoa
................................
Minha pátria é a língua portuguesa
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, um dos tantos heterônimos de Fernando Pessoa, ou semi-heterônimo, como ele próprio se referia à Soares.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
RBS monta joguinho viciado para favorecer Fogaça
Um leitor do blog DG manda o teste que fez no ClicRBS. O resultado mostra um grosseiro vício no resultado. Veja o fac-símile acima do teste efetuado por esse nosso leitor.
Não sei por que a RBS não abre logo o jogo: olha pessoal, a família Sirotski e seus celetistas estamos com o boko-moko do Fogaça e não tem pra mais ninguém! Ponto.
Mas não, ficam fazendo testinhos espertos e passando o nome do inapetente à muque. Olhem o resultado do teste feito pelo leitor. Vocês conseguiriam explicar essa aritmética rebessiana? No caso, 8 é menor que 2.
Sem entrar no mérito da formulação das questões e suas respostas cretiníssimas. Resultado: uma armadilha esperta em favor do candidato do PMDB, José Fogaça.
"Veja" confirma que nos próximos dias será jogado o maior lance de José Serra
A última chance de Serra?
Deu na Veja (a matriz do PIG), coluna Radar on-line, de ontem:
Nos próximos dias, será jogado o maior lance de José Serra na campanha até aqui: a tentativa definitiva de fazer o brasileiro se indignar com Dilma, Lula & Cia por causa da quebra de sigilo de sua filha e de outros tucanos.
A essa altura, o Aloprados 2 parece o único pedaço de madeira que Serra tem para se agarrar e não se afogar no meio da tempestade eleitoral. Se não virar agora, não vira mais. E “virar” aqui significa apenas chegar à praia – ou, mais precisamente, ao segundo turno.
Mas e as pesquisas Ibope e Datafolha de anteontem e ontem já não mostraram que a tentativa tucana falhou? Não. Esse tipo de escândalo, de extrato complexo para a maioria esmagadora de uma população que nem declara imposto de renda, leva certo tempo para ser entendido. Se é que de fato o será. E, se for, é preciso ver se o brasileiro se indignou com o crime a ponto de mudar o seu voto.
O fato, portanto, de os ponteiros de Dilma e Serra não terem se mexido ainda não quer dizer tanta coisa. Não se deve esquecer que apenas na quinta-feira passada, o programa de Serra na TV foi fundo no assunto, justamente quando os funcionários do Ibope e Datafolha já estavam nas ruas entrevistando a população. Não se pode também descartar a possibilidade de novos e chocantes fatos serem revelados no curso das reportagens investigativas da imprensa – das investigações da Receita Federal não se deve esperar muita coisa.
Antes de a campanha na TV começar, Luiz Gonzalez, o marqueteiro de Serra, pedia sangue-frio aos tucanos. Dizia que apenas a partir do dia 8 de setembro seus programas de TV mostrariam os primeiros efeitos nas pesquisas – e que, até lá, seria Dilma quem subiria.
De fato, Dilma subiu. Mas e Serra? Bem, se a partir de agora as pesquisas lhe forem um pouco mais simpáticas, não se poderá atribuir ao roteiro original de Gonzalez. Mas, sim, ao acaso de um escândalo produzido aparentemente por petistas ter caído no colo da campanha tucana, mudando, inclusive, dando-lhe gás e motivos de sobra de indignação.
Em 2006, o Aloprados 1 deu combustível para Geraldo Alckmin fazer a travessia para o segundo turno. É fato. Mas também é fato o mensalão ainda era um fantasma que assombrara o país apenas um ano antes.
Agora, a situação é outra. Lula é popular como nunca, o brasileiro declara-se mais satisfeito com sua vida e mais confiante no futuro. São variáveis que naturalmente dificultam a opção da virada de voto do eleitor.
As pesquisas do próximo fim de semana revelarão com maior grau de precisão se o Aloprados 2 foi uma tábua de salvação para Serra.
domingo, 5 de setembro de 2010
A direita prepara o golpe fatal, o definitivo
Como será a bala de prata na campanha
Deu no blog do Nassif, uma hipótese bastante plausível:
Qual a bala de prata, a reportagem que será apresentada no Jornal Nacional na quinta-feira que antecederá as eleições, visando virar o jogo eleitoral, sem tempo para a verdade ser restabelecida e divulgada?
Ontem, no Sarau, conversei muito com um dos nossos convivas. Para decifrar o enigma, ele seguiu o seguinte roteiro:
1. Há tempos a velha mídia aboliu qualquer escrúpulo, qualquer limite. Então, tem que ser o episódio mais ignóbil possível, aquele campeão, capaz de envergonhar a velha mídia por décadas, mas fazê-la acreditar ser possível virar o jogo. Esse episódio terá que abordar fatos apenas tangenciados até agora, mas que tenham potencial de afetar a opinião pública.
2. Nas pesquisas qualitativas junto ao eleitor médio, tem sobressaído a questão da militância de Dilma Rousseff na guerrilha. Aliás, por coincidência, conversei com a Bibi que me disse, algo escandalizada, que coleguinhas tinham falado que Dilma era "bandida" e "assassina". Aqui em BH, a Sofia, neta do meu primo Oscar, disse que em sua escola - em Curitiba - as coleguinhas repetem a mesma história.
As diversas pesquisas de Ibope e Datafolha devem ter chegado a essa conclusão, de que o grande tema de impacto poderá ser a militância de Dilma na guerrilha. A insistência da Folha com a ficha falsa de Dilma e, agora, com a ficha real, no Supremo Tribunal Militar, é demonstração clara desse seu objetivo.
Assim como a insistência de Serra de atropelar qualquer lógica de marketing, para ficar martelando a suposta falta de limites da campanha de Dilma – em cima de um episódio que não convenceu sequer a Lúcia Hipólito.
Aliás, o ataque perpetrado por Serra contra Lúcia – através do seu blogueiro – é demonstração cabal da importância que ele está dando à versão da falta de limites, mesmo em cima de um episódio que qualquer avaliação comezinha indicaria como esgotado.
A quebra de sigilo é apenas uma peça do jogo, preparando a jogada final.
A partir daí, meu interlocutor passou a imaginar como seria montada a cena.
Provavelmente alguém seria apresentado como ex-companheiro de guerrilha, arrependido, que, em pleno Jornal Nacional, diria que Dilma participou da morte de fulano ou beltrano. Choraria na frente da câmera, como o José Serra chora. Aí a reportagem mostraria fotos da suposta vítima, entrevistaria seus pais e se criaria o impacto.
No dia seguinte, sem horário gratuito não haveria maneiras de explicar a armação em meios de comunicação de massa.
Será um desafio do jornalismo brasileiro saber quem serão os colunistas que endossarão essa ignomínia - se realmente vier a ocorrer -, quem serão aqueles que colocarão seu nome e reputação a serviço desse lixo.
Essa loucura - que, tenho certeza, ocorrerá - será a pá de cal nesse tipo de militância de Serra e de falta de limites da mídia. Marcará a ferro e fogo todos os personagens que se envolverem nessa história.
Incendiará a blogosfera. Todos os jornalistas que participarem desse jogo serão estigmatizados para sempre.
Todas essas possibilidades são meras hipóteses que partem do pressuposto da falta de limites total da velha mídia.
Mas a hipótese fecha plenamente.
Sting e Branford Marsalis
A composição é o já clássico Englishman in New York (1987), que homenageia o escritor Quentin Crisp, contra todas as caretices. Crisp, viejito, aparece todo o tempo no belo vídeo p&b, junto com a banda do sax-soprano Branford Marsalis e a figura do ex-The Police, Sting.
Segundo o Wikipédia, tia Quentin Crisp, nascido Denis Charles Pratt (25 de dezembro de 1908-21 de novembro de 1999) foi um escritor inglês. Ele se tornou um ícone da homossexualidade na década de 1970 após a publicação da sua autobiografia, The Naked Civil Servant, quando chama a atenção do público em geral pelo exibicionismo desafiador e a recusa em manter a sua sexualidade em privado.
Nada mal para um domingo porto-alegrense de sol brilhante, mas frio, depois de uma semana chuvosa e enferrujada.
sábado, 4 de setembro de 2010
O nome dela é Lorna Earnshaw
Argentina, mas vive em Porto Alegre. Viram? PoA não está tão por baixo assim... A bela Lorna dá "clases" de canto, postura, técnica vocal, e prepara bandas, além de ser compositora de muitas das canções que interpreta. Seu repertório vai do rock ao jazz, passando pelo tango e o demais portenho. Fiquem ligados que Lorna deve se apresentar em algum lugar de Porto Alegre nos próximos dias.
Um artigo que chama pela pertinária da direita
Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha e Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do mesmo instituto, ambos celetistas do grupo midiático da família Frias, assinam um artigo na edição de hoje da Folha de S. Paulo. Não é preciso frisar que a Folha constitui uma armada serrista em combate constante contra o lulo-dilmismo.
A real condição político-ideológica do grupo Folha, de resto, de todos os grandes veículos da mídia que conta no Brasil, entretanto, é subsumida (kantianamente) sob o manto falso da isenção, da imparcialidade, do porta-voz da vontade geral, e do pior, do apolitismo mais acanalhado e cínico. Você jamais lerá um editorial de O Globo ou do Estadão declarando voto a José Serra. Eles preferem o jogo oblíquo, indireto e no interior da câmara de espelhos, onde as imagens podem ser falsas, os personagens, fictícios, e os fatos, fantasiosos. O resultado é isso que estamos assistindo no presente momento: uma editoria diária de representações da realidade na intenção de fazer moldes fake do real.
O artigo da dupla Paulino-Janoni tem como título "Só uma tempestade pode mudar a maré de bonança de Dilma". Eles admitem que - de fato - é muito difícil haver uma modificação tão drástica na tendência de vitória da candidata de Lula. Mas essa admissão é apenas uma máscara para a real intenção do texto.
No final, acenam com alguma chance para Serra, caso a escalada golpista do momento seja exitosa. O duo PJ diz assim, encerrando o artigo com um fresta de oxigênio para a direita: "Em condições normais, sem fatos que abalem a concentração do voto de um ou outro candidato, espera-se a manutenção da tendência. Mas, vale a lembrança de que, em 2006, antes da denúncia dos 'aloprados do PT', Lula tinha em 4 e 5 de setembro 51% das intenções de voto contra 27% de Geraldo Alckmin (PSDB). O presidente chegou nas urnas com 45%, o tucano com 38% e houve segundo turno".
Eles estão admitindo que as manobras golpistas já deram certo uma vez, pelo menos no primeiro turno de 2006, logo, podem ocorrer novamente, basta perseverar na transfiguração do real. Este artigo é uma conclamação à necessidade de pertinácia da direita.
Observe, então, que há sim uma aposta firme e progressiva no golpe como forma de modificação do quadro político-eleitoral adverso à direita.
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