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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Mais crimes da ditadura, ou de como transformar um índio em torturador




Este pequenos vídeo mostra que a ditadura civil-militar 1964/85 incorporou como prática de Estado a tortura e o crime para combater os seus adversários. O desfile público mostrando o pau-de-arara (foto abaixo) evidencia o grau de naturalidade com que o regime ditatorial encarava a tortura, bem como o uso de indígenas como agentes do Estado no combate aos inimigos do regime.

O filme é parte do acervo sobre 60 povos indígenas, coletado durante quatro décadas pelo documentarista Jesco von Puttkamer (1919-94) e doado em 1977 ao IGPA (Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia), da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O centro e a periferia da arte



Sem centro

Se, no final do século 19, alguém se perguntasse sobre os lugares nos quais se decidia silenciosamente os novos caminhos das artes visuais, dificilmente ele acertaria. Pois dificilmente alguém imaginaria que devesse voltar os olhos para uma ilha perdida no meio da Oceania, para uma cabana rústica isolada nos campos do sul da França e para uma pequena vila nos arredores de Paris. No entanto, era lá que Paul Gauguin, Paul Cézanne e Vincent van Gogh trabalhavam na reconstrução da linguagem da pintura.

Em um dos momentos maiores de redefinição das artes visuais no Ocidente, foi necessário sair do centro para que algo de fato ocorresse. Foi necessário estar na periferia.

Não se tratava de alguma forma de necessidade patológica de isolamento ou de procura pela força pretensamente evigorante da natureza intocada.

Estar fora do centro era importante porque acontecimentos normalmente ocorrem em contextos de deslocamento, em locais onde uma certa indiferença criadora em relação aos padrões da linguagem torna-se possível.

Atualmente, vários voltam seus olhos para as periferias do mundo a fim de encontrar linguagens artísticas em reconstrução.

Outros desconfiam destas procuras, vendo nelas apenas uma forma de projeção que visa compensar, através da idealização de "novos sujeitos", nossas expectativas criativas frustradas. Um pouco como se procurássemos nas periferias aqueles que, no lugar dos proletários integrados ao sistema capitalista, pudessem nos guiar em direção à realização de uma filosofia da história pensada como redenção revolucionária criadora.

No entanto, não precisamos acreditar em tal filosofia da história para aprendermos a olhar para além de nossos muros. Basta darmos um passo a mais em relação à época de Gauguin, Cézanne, Van Gogh e admitirmos uma teoria da contingência que suspende a própria distinção entre centro e periferia para dizer: "Um acontecimento é aquilo que pode vir de qualquer lugar".

Uma revolta política que perpassa nossa época como um vírus pode começar em uma pequena cidade da Tunísia. Uma experiência literária verdadeira pode estar em gestação na periferia de São Paulo.

Esta dimensão de "lugar qualquer" que um acontecimento é capaz de produzir nos lembra que o pior pecado é não acreditar nos agenciamentos contingentes.

Temos de estar preparados para que eles ocorram em qualquer lugar.

O primeiro passo para isto é mostrar, por ações concretas, que abandonamos de vez a distinção entre centro e periferia. Hoje, a inteligência sempre vem de um "lugar qualquer".


Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP.

A história de um chacinado na Casa da Morte


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Banco Central está terminando com os picaretas operadores da área bancário-financeira


Fato inédito na história do Bacen

A inabilitação de dirigentes bancários alcançou um recorde neste ano. Desde janeiro, o Banco Central proibiu a atuação de 364 administradores de instituições financeiras e a tendência é que esse número aumente ainda mais. Inspirado na Justiça Eleitoral, o BC está exigindo "ficha limpa" dos administradores de instituições financeiras.

A regra é negar homologação aos envolvidos em fraudes ou em condutas indevidas no sistema financeiro, além daqueles que respondem a ações judiciais ou processos administrativos. Essa tendência já foi captada por administradores de bancos que, em resposta, entraram com dezenas de ações contra o BC em pelo menos quatro unidades da Federação - Rio de Janeiro, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

A inabilitação de dirigentes bancários chegou, neste ano, a um recorde. Desde janeiro, 364 administradores de instituições financeiras foram proibidos de atuar pelo Banco Central e a tendência é a de esse número aumentar ainda mais. Motivo: inspirado no Supremo Tribunal Federal (STF), o BC está exigindo ficha limpa dos administradores de instituições financeiras.

A regra é a de negar a homologação daqueles envolvidos em fraudes ou em condutas indevidas no Sistema Financeiro, além daqueles que respondam a ações judiciais ou a processos administrativos.

Essa tendência já foi captada por administradores de bancos que, em resposta, entraram com dezenas de ações contra o BC em pelo menos quatro unidades da Federação - Rio de Janeiro, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Nessas ações, eles alegaram que a não homologação para atuar no Sistema Financeiro vai contra o princípio da presunção da inocência pelo qual alguém só pode ser considerado culpado com o trânsito em julgado do processo contra si - fase em que não cabe mais recurso e o dirigente bancário é condenado.

Mas, o BC está ganhando 99% desses processos na Justiça. A informação é do jornal Valor, edição de hoje.

Ilustração de Eugênio Neves

A economia brasileira e a crise mundial: debate na Feira do Livro


As argentinas do Kumbia Queers

A guerrilha infantil pelo conhecimento



Sede de conhecer (no Afeganistão). A comunhão pelo conhecimento. Em francês, a expressão connaissance é mais rica que em português, quer dizer co-naissance, comunhão, co-nascimento, nascer junto (na sala de aula coletiva, com os demais). Relaciona nascimento com comunitário. Conhecer é nascer-crescer em comum, de forma compartilhada, com o outro. É renascer, nascer novamente, agora em comunidade. Na sala de aula, como na caso da foto, em meio a uma guerra inútil nos confins do Afeganistão. 

Essas crianças (na praxis) fazem a antítese da guerra, derrotam a morte através do conhecimento que adquirem em comunhão e solidariedade.

Fotógrafo desconhecido.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Eu, você, Bill Gates somos todos alienados


O mercado é definido como uma instituição social e histórica que supre a sociedade de valores de uso determinada (governada) pela lei do valor, que submete a liberdade individual às quantificações sem-qualidades de sua própria reprodução fetichizada. 

As qualidades (valor de uso) do trabalhador (agora) sem qualidades estão diluídas para sempre em reproduções seriais de valores de troca que o representam de forma transfigurada no mercado de quantidades "sisificamente" repetidas. 

A transcendência máxima do máximo de mercadorias é realizar-se (qualificar-se) freneticamente como dinheiro – a mercadoria modelo/forma da última vida social ou, como diz Marx, a "expressão social do mundo das mercadorias".

A última ferida narcísica do homem é o mercado e suas derivações alienadas da vida social pós-moderna. Os pós-marxistas-leninistas, que julgam ter apanhado uma enfermidade da qual estão curados, esses humanistas recém-chegados que buscam sofregamente uma (nova) mito-teologia para se agarrar, devotam uma fé fatalista no mercado e na lei do valor como instituições supra-históricas de insanável determinação "natural". Para esses, o pequeno Narciso interior está irremediavelmente transpassado pelo opróbrio e as chagas de São Sebastião, atado à árvore da alienação: "Qual o quê!, eu alienado?"

A alienação é social, universal e histórica. Não é exclusiva do trabalhador expropriado de mais-valia, mas generaliza-se socializando o seu deletério vírus contaminante que compromete todas as moléculas da vida social da modernidade.

Os basbaques do neoliberalismo, por sua vez, propagam que a racionalidade do mercado é inabalável e, para tanto, proclamam a vitória sobre o planejamento contábil bolchevique com o seu arremedo de mercado. Como ensina Hegel, há tão-somente uma racionalidade em si, uma mecânica razão objetiva, "naturalizada", inumana, que, ao promover a alienação, sujeita os homens (todos, indistintamente, mesmo Bill Gates e Slavoj Zizek) como objetos pétreos dessa racionalidade invertida.

Onde a racionalidade (social) do mercado? Se a necessidade social que aparece no mercado não é idêntica à necessidade real, mas somente à "necessidade social solvente" (Marx). As diferentes demandas estão condicionadas ao poder de compra dos indivíduos e, portanto, às "relações mútuas entre as diferentes classes sociais e suas posições econômicas relativas". 

As carências e necessidades (e mesmo desejos) dos indivíduos estão moduladas e moldadas pela classe social a que pertence; não há como expressar a sua efetiva e real necessidade via mercado, pois ele acaba esbarrando no muro limítrofe da sua classe social, ficando aí, prisioneiro. 

A classe é uma sentença sociológica implacável.

Marcuse pode esclarecer agora: "mesmo se o mercado manifestasse a necessidade social real, a lei do valor continuaria a funcionar como um mecanismo cego fora do controle consciente dos indivíduos. Ela teria continuado a exercer a pressão de uma 'lei natural' (Naturgesetz), cuja necessidade longe de impossibilitar a dominação do acaso sobre a sociedade, antes a garantiria. O sistema de relacionar indivíduos independentes uns dos outros, pelo tempo de trabalho necessário contido nas mercadorias que eles trocam, pode aparecer a suprema racionalidade. Na realidade, porém, este sistema organiza apenas o desperdício e a desproporção".

Desperdício e desproporção que são as usinas geradoras dos atuais desequilíbrios ambientais do planeta, e ameaçador comprometimento da vida.

"A sociedade – diz Marx, no livro 3 de O Capital - adquire os artigos que ela requer, dedicando à sua produção, uma parte do tempo de trabalho disponível. Isto é, a sociedade adquire aqueles artigos pelo gasto de uma quantidade definida de tempo do trabalho de que dispõe. 

Àquela parte da sociedade à qual a divisão do trabalho prescreve a tarefa de empregar seu trabalho na produção do artigo desejado deve, em troca disto, ser dado um equivalente resultante de outro trabalho social, incorporado a artigos por ela desejados. 

Não há, porém, uma conexão necessária, mas apenas uma conexão acidental entre o volume da demanda de um certo artigo pela sociedade e o volume representado pela produção deste artigo.

É verdade que todo artigo individual, ou toda quantidade definida de qualquer espécie de mercadoria, talvez contenha apenas o trabalho social requerido para a sua produção, e sob este ponto de vista o valor no mercado de toda esta massa de mercadorias de um determinado tipo represente somente o trabalho necessário. 

Não obstante, se esta mercadoria foi produzida em quantidade maior do que a demanda temporária da sociedade por ela, então muito do trabalho social foi desperdiçado e, neste caso, esta massa de mercadorias representa, no mercado, uma quantidade de trabalho, muito menor do que realmente ela tem em si incorporada".

Veja que Marx cria a categoria valor de uso, em acréscimo ao valor de troca, antes já reconhecido pela economia política clássica, e que permite "desvendar um processo de necessidade cega, acaso, anarquia, frustração" (Marcuse). 

Essa nova categoria marxiana auxilia a verificação do atendimento às necessidades reais dos indivíduos.

Assim, a lei do valor - agora se pode dizer - é a forma geral da Razão, no sistema produtor de mercadorias. Ela se formata no mercado, mas é conteúdo do processo de produção (lembra? "o tempo de trabalho socialmente necessário"...). 

Por isso, ele (o valor) nunca se expressa em termos de substância, de qualidade, de conteúdo, quer dizer, de trabalho abstrato, nem em termos de medida, o tempo de trabalho socialmente necessário. O valor vai sempre se manifestar, objetificar-se, sob a forma de mercadoria-dinheiro.

A contradição, pois, entre forma e conteúdo, essência e aparência é que promove a inversão que irá se refletir na consciência dos indivíduos. A existencia material e a forma dessa existencia irão modelar a consciência social dos indivíduos, em representações ideológicas do real. 

Já se vê que em todo o processo produtivo capitalista há crescentes níveis de abstração da realidade, que Marx apreende e usa como método de análise, a começar, para ilustrar, pelo trabalho concreto individual que no mercado assume a feição de trabalho abstrato universal e só assim ele cria valor, sob o formato da mercadoria-dinheiro. 

O trabalho individual de alguém que manufatura uma mesa no âmbito doméstico não cria valor, e nem essa mesa é uma mercadoria, é apenas um valor de uso (uma mera utilidade) para consumo doméstico, entretanto, se ele fizer cem mesas, por exemplo, empregando "N" pessoas, ele estará produzindo mercadorias (valor de troca) que alcançarão valor no mercado, e só no mercado. Mesas essas que serão valores de uso para os seus adquirentes consumidores, realizando o ciclo da dupla aptidão da mercadoria. Sem essa dupla natureza ela não se realiza, não realizando valor, não valorizando o valor.

Por ocasião do contrato social, que pressupõe o trabalhador livre para vender a sua força de trabalho no mercado, em condições de igualdade e justiça, se estabelece a base da produção capitalista. O capitalista paga o valor da mercadoria, a força de trabalho, e compra o seu valor de uso, quer dizer, o trabalho. Esse duplo caráter da mercadoria trabalho é motivo da contradição inerente ao trabalho assalariado. 

O capitalista compra valor de uso e valor de troca, mas paga somente valor de troca, mediante o salário, de inhapa, ganha o valor de uso da força de trabalho. Essa inhapa é o plus, é a mais-valia, o sobretrabalho não-remunerado, e, portanto, alienado, subtraído, expropriado.

"Na realidade – diz Marx –, o vendedor da força de trabalho, como o de qualquer outra mercadoria, realiza seu valor de troca e aliena seu valor de uso. Não pode receber um, sem transferir o outro. O valor de uso do óleo vendido não pertence ao comerciante que o vendeu, e o valor de uso da força de trabalho, o próprio trabalho, tampouco pertence ao seu vendedor", o trabalhador assalariado.

Para a mercadoria trabalho, o valor de troca é remunerado com salário, e o valor de uso é alienado ao capitalista sob a forma de mais-valia. 

Aquilo que no início do processo e sob a forma de um contrato salarial era um exercício de liberdade marcado por uma relação entre iguais e sob o signo da justiça, agora, aparece invertido: a liberdade gera a exploração, a riqueza criada e apropriada por uma classe recria mais desigualdade, e a justiça, sem pressupostos, é uma impotência no reino da necessidade.

Artigo de Cristóvão Feil

Serigrafia "São Sebastião", de Glauco Rodrigues

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