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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sábado, 29 de setembro de 2012

O culto insano à austeridade que varre a Europa


A loucura da austeridade na Europa

A complacência não deu em nada. Dias atrás, a visão generalizada era que a Europa finalmente tinha as coisas sob controle. Ao prometer comprar, se fosse preciso, as obrigações de governos que passam por problemas, o Banco Central Europeu tinha acalmado os mercados.

Tudo o que os devedores tinham de fazer era aceitar mais e maior austeridade - condição dos empréstimos do BCE - e tudo ficaria bem.

Mas, de repente, Espanha e Grécia são sacudidas por greves e protestos enormes. O público desses países está dizendo que já chegou ao limite: com o desemprego em níveis dignos da Grande Depressão e com trabalhadores reduzidos a vasculhar o lixo em busca de comida, a austeridade já foi longe demais.

Os manifestantes estão certos. Mais austeridade não servirá a nenhum fim útil; os atores realmente irracionais são os políticos e as autoridades supostamente sérios, que exigem cada vez mais sofrimento.

Considere-se a Espanha. Basicamente, o país vive a ressaca da enorme bolha imobiliária, que causou um boom econômico e um período de inflação que deixaram a indústria espanhola pouco competitiva.

Com o estouro da bolha, a Espanha levará anos para recuperar sua competitividade. A não ser que o país deixe a zona do euro, um passo que ninguém quer dar, ele está condenado a anos de desemprego alto.

Mas esse sofrimento, que pode ser visto como inevitável, está sendo amplificado em muito pelos rígidos cortes nos gastos públicos.

A Espanha não enfrentou problemas porque seu governo foi perdulário. Na véspera da crise, tinha superavit orçamentário e dívida baixa. Grandes deficit emergiram quando a economia entrou em recessão, carregando a receita com ela, mas, mesmo assim, a Espanha não parece ter uma dívida tão grande assim.

Em outras palavras, a Espanha não precisa de mais austeridade. O país provavelmente não tem alternativa a um longo período de tempos difíceis. Mas cortes selvagens nos serviços públicos essenciais e na ajuda aos necessitados prejudicam as perspectivas de ajuste bem-sucedido no país. Por que, então, se pede mais e mais austeridade?

Parte da explicação é que "pessoas muito sérias" se deixaram convencer pelo culto à austeridade, pela crença de que o deficit orçamentário, e não o desemprego em massa, é o perigo real e imediato.

Além disso, autoridades alemãs retratam a crise do euro como um drama de moralidade: países gastaram mais do que tinham e agora enfrentam as consequências. Não importa que não tenha sido isso o que aconteceu, nem o fato inconveniente de que bancos alemães tiveram papel importante na inflação da bolha imobiliária espanhola.

Pior: muitos eleitores alemães creem nisso, em boa medida porque é o que os políticos lhes disseram. E o medo da reação negativa de eleitores faz com que os políticos alemães não queiram aprovar créditos emergenciais para a Espanha e outros países, a não ser que os devedores sejam castigados primeiro.

Passou da hora de pôr fim a essa insensatez cruel. Se a Alemanha quer realmente salvar o euro, deve deixar o BCE fazer o que é preciso para resgatar os países devedores - sem exigir mais sofrimento.


Artigo do economista Paul Krugman, prêmio Nobel de economia de 2008.

A luta de classes na China


Fotografia da revolução cultural chinesa? Não é bem isso. São protestos de rua na China, contra o Japão, que reivindica uma ilha que seria da China. Foto de 16 de setembro último.

Contudo, não é de se descartar a possibilidade de haver manifestações de massa na rua motivado pela luta interna no PC chinês. O protesto contra o Japão seria um biombo da luta real no seio do Partido Comunista, que conta com 80 milhões de militantes. Como sabemos, a chamada “revolução cultural proletária” (de 1966 a 1969) foi a expressão externa da vasta luta interna no PC entre o dirigente Mao Tse-tung e seus adversários, que o responsabilizavam pelos desastres provocados pelo plano econômico chamado Grande Salto Adiante (1958-61).

De “revolução” e de “cultural” não teve nada. Mao, de forma sagaz, externalizou a luta de classes interna ao PC para as ruas, Universidades, fábricas, agrovilas e em todos os lugares. Com isso, ele teve que aprofundar os elementos do culto à personalidade, já que as manifestações de rua ocorriam sempre como um confronto entre os que estavam a favor de Mao, e os que estavam contra Mao, contra a revolução, a favor do Ocidente, a favor da URSS, por um intelectualismo pequeno-burguês, etc. A rigor, a "revolução cultural" só terminou com a morte de Mao, em setembro de 1976.

Hoje, o PC está novamente mudando sua alta burocracia (é a quarta geração de dirigentes, desde a revolução de 1949), que corresponde à alta direção da própria China. Deve sair Hu Jintao, e entrar Xi Jinping, que está designado, pelo menos, desde 2007, mas a cúpula de poder ainda não se sentiu segura para fazer a troca dos dirigentes.

Há uma grande especulação sobre o destino do poder na China, e as repercussões disso na economia internacional, face à crescente influência da economia chinesa no mundo atual. Tudo se agravou, quando há alguns dias, Xi Jinping desapareceu por duas semanas, tendo aparecido depois sem qualquer explicação das autoridades. Agora, essas grandes manifestações de rua, que podem remeter aos acontecimentos da segunda metade da década de 60, embora ainda estejam encobertas pela motivação anti-japonesa.

Da China tudo se pode esperar, menos o fim da luta de classes. Fotografia da AP.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Contestadora e discípula do “doutor Jorge Gerdau”: o cálculo Manuela







Que mixórdia é a cabeça da deputada Manuela D'Ávila (PCdoB). Não se sabe se ela é assim mesmo, ou representa uma persona (no sentido de “máscara”) com o objetivo de angariar popularidade e votos na atual corrida eleitoral ao Paço Municipal de Porto Alegre. 

Pode, também, ser as duas coisas: uma cabeça de bricolage, formada por cavacos pop de senso comum e bom senso (a fórmula balanceada de ingredientes que a sociedade do espetáculo exige dos amestrados) e uma máscara eleitoral, mesmo. 

Sendo assim, o resultado sintético da persona Manuela é o cálculo. Um cálculo para agradar gregos e baianos. Um cálculo alienado e despersonalizado.

Em Tempo: Marx, Durkheim e Weber não são exatamente “a santíssima trindade do socialismo”, como desinforma a matéria sobre Manuela, em Zero Hora de hoje (aliás, foi ela que disse essa estultice pedante ou foi o redator de ZH?). 

Imaginem, quem consideraria (a não ser os ignorantes) Durkheim e Weber como socialistas? 

Os três - a rigor - são os pensadores clássicos da Sociologia e não (jamais) do socialismo. 

Quem afirma isso está fazendo-o de orelhada, em flagrante desonestidade intelectual.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Uma asnice parada no ar


Esse chargista do jornal Zero Hora é um siderado mental. Ele sequer entendeu o que a presidenta Dilma disse ontem na ONU. Não consegue fazer uma crítica, por mais injusta ou equivocada que fosse. Ele só consegue esse sorvete-na-testa aí acima. 

É impossível deduzir o que o energúmeno quer dizer com o desenho. A charge do cara não é. A garatuja não é. Não é nada. Há uma intenção de criticar, de agredir, de diminuir a presidenta Dilma, mas fica no meio do caminho. Há uma asnice parada no ar. Há uma vontade abortada, um propósito impotente, que não se realiza, inconcluso por absoluta incapacidade de haver pensamento no gesto suspenso do desenhista siderado.

O cara aspira a ser burro, mas não consegue. Ele se projeta para a burrice, mas esta o rejeita. Falta-lhe habilitação para asno. Ele chegou no prefácio do curso da asnice, e foi rejeitado. Compreendemos e nos apiedamos dele.  

Quem inventa a neve, inventa fatos sociais, inventa outra realidade


Se a RBS/Zero Hora inventa estados da natureza e ficciona fenômenos meteorológicos a seu bel prazer, imagina o que faz com os fatos sociais, políticos, econômicos que narra diariamente nos seus meios de comunicação. A realidade é interpretada conforme o espírito momentâneo do jornalista ou do editor. Não há neve no RS? Edita-se a neve, no jornal, na TV e no rádio.   

Há dois dias os veículos da RBS vêm insistindo que houve o fenômeno da neve no RS e Santa Catarina. Não houve neve, houve sincelo e escarcha, fenômenos naturais distintos da neve. Mas, contrariando a classificação da ciência meteorológica, a RBS teima que prevaleceu a neve - a fixação do grupo midiático da família Sirotsky.


Não confundamos neve com sincelo ou escarcha.

Sincelo (segundo a Wikipédia) é um fenômeno meteorológico que acontece em situações de nevoeiro aliado a uma temperatura de -2ºC a -8ºC e resulta do congelamento das gotas de água em suspensão, quando estas entram em contato com qualquer superfície: vidro, lata, arame, gramado, folhas, pedra, madeira, etc. Não deve ser confundido com a geada. A película de gelo forma-se em qualquer superfície que contacte com a neblina, dando às folhas e caules das árvores uma aparência vítrea.

No Brasil a ocorrência do sincelo é raríssima, sendo observado no estado de Santa Catarina e, com muito menor frequência, no Rio Grande do Sul.

Escarcha é uma forma mais amena do sincelo, ocorrendo com uma neblina. A fotografia acima (tirada do portal ClicRBS) tipifica o sincelo.  

A neve - igualmente um fenômeno raríssimo no Sul do Brasil - é uma ocorrência meteorológica que consiste na precipitação de flocos formados por cristais de gelo. Cada floco de neve é composto por água congelada em uma forma cristalina que, devido à sua grande capacidade de refletir a luz, adquire aparência translúcida e coloração branca (informações da Wikipédia). 

O divã e a tela, em Porto Alegre


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Chango Spasiuk e o chamamé

A súbita e novíssima intimidade do tucanato com a moralidade pública



Falsa intimidade

A moralidade é uma virtude disputada. Mesmo aqueles que dela conhecem apenas o nome gostam de falar sobre virtudes morais como se fossem íntimos de longa data.

Em época eleitoral, por exemplo, somos obrigados a acompanhar o espetáculo lamentável de moralistas de última hora, que parecem acreditar no pendor infinito da população ao esquecimento e à indignação seletiva.

Melhor seria que eles se abstivessem de falar de moral antes de meditar profundamente a respeito da passagem do Evangelho que exorta a primeiro tirar a trave no seu próprio olho antes de retirar o cisco no olho do próximo.

Por exemplo, o Brasil vive um momento importante com o corajoso julgamento do chamado mensalão. Espera-se, com justiça, que daí nasça uma nova jurisprudência para crimes de corrupção eleitoral. Espera-se também que ninguém saia impune desse caso vergonhoso.

No entanto é tentar resvalar a moralidade à condição de discurso da aparência e da esperteza ver políticos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seu candidato à Prefeitura de São Paulo tentarem utilizar a justa indignação popular em benefício eleitoral próprio.

Caso eles realmente amem os usos das virtudes morais em política, melhor seria se começassem por fazer uma profunda autocrítica sobre o papel de seu partido na criação do próprio mensalão, da acusação de compra de voto na emenda da reeleição, assim como fornecer uma resposta que não fira a inteligência quando membros de seu partido - como Marconi Perillo, Yeda Crusius e Cássio Cunha Lima - aparecem envolvidos até a medula em casos de corrupção.

Seria bom também que eles explicassem por que apoiam incondicionalmente um prefeito que chegou a ter seus bens apreendidos pela Justiça no ano passado devido ao caráter da contratação da empresa Controlar, e por que a Justiça suíça e a francesa investigam propinas que a empresa Alstom teria pago a políticos do governo paulista em troca de contratos com a Eletropaulo.

Por fim, seria uma boa demonstração de respeito aos eleitores que o candidato Serra se defendesse, de preferência sem impropérios, a respeito das acusações sobre o processo de privatização de empresas federais no período FHC.

Sem isso, toda essa pantomima lembrará uma velha piada francesa sobre um sujeito que dizia a todos em sua pequena cidade ser amigo de Charles de Gaulle. Eis que um dia, De Gaulle aparece na cidade. Para não ser desmascarado, o sujeito resolve chegar perto do presidente e, com um tom de cumplicidade, perguntar: "E aí, Charles, o que há de novo?". "De novo", respondeu De Gaulle,"só mesmo essa intimidade".

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Positivismo e Castilhismo em debate, hoje



O Museu Júlio de Castilhos fica na rua Duque de Caxias, 1205 - Centro de Porto Alegre.
Palestra do professor de Filosofia, Nelson Boeira, hoje, às 19h30 sobre "Positivismo no período castilhista".

sábado, 22 de setembro de 2012

Resignificação do 'gaúcho' e a propaganda enganosa do latifúndio




O general Joca Tavares é um dos tantos mitos do Rio Grande do Sul. Como todo o mito, resulta pois de relatos fantásticos da tradição oral, cujo objetivo é sustentar a ideologia do presente ornando-a com justificações heróicas e feitos edificantes. Especialmente por força da propaganda dos pecuaristas da fronteira oeste do estado mais meridional do Brasil. Com 75 anos de idade, o velho latifundiário de Bagé inicia a revolta armada contra Julio de Castilhos em fevereiro de 1893. O levante civil ficou conhecido como Revolução Federalista de 1893/95, a rigor, uma reação dos estancieiros da fronteira contra os ventos modernizantes do positivismo castilhista. Foi um movimento violento, de ambas as partes, seja do lado dos insurgentes federalistas, seja do lado legalista, sob o comando do presidente (governador da provîncia) Julio Prates de Castilhos. Cálculos conservadores indicam que morreu cerca de 4% da população do Rio Grande, nas escaramuças da guerra de guerrilha, como prisioneiros depois mortos pela degola, feridos que sucumbiam à infecção, ao frio e à fome, etc.

Os federalistas do regime pastoril, já naquela época, faziam autopropaganda das suas raízes farroupilhas, evocando assim um passado épico e glorioso. O chefe militar Gumercindo Saraiva, em incursão rebelde pelo Paraná, ousou blefar contra o próprio presidente da República, Floriano Peixoto. Ao pedir a renúncia de Peixoto, Saraiva (mega latifundiário no Uruguai) se intitulava como “descendente de um farroupilha”, o que constituía uma atrevida inverdade. A imprensa federalista (também conhecida como maragata ou gasparista) era forte e atuante. Em Porto Alegre, no final do século 19, circulavam diariamente cinco jornais, entre os quais o republicano-castilhista A Federação e o parlamentarista-monárquico A Reforma. Este, trazia como subtítulo no cabeçalho a inscrição em favor de uma memória farroupilha: “A lenda de ‘35”, aludindo a 1835, quando se inicia a revolta separatista farrapa no estado. O jornal O Maragato, editado em Rivera, no Uruguai, fazia propaganda e ajudava a estruturar o mito Joca Tavares, assim: “Os gaúchos  reúnem-se, armam-se, rebelam-se  e proclamam-no seu chefe militar. Ei-lo ali, apesar dos seus oitenta anos, ágil como um jovem domador...”.

Notem que, nesta altura, já se modificava a noção depreciativa da figura do “gaúcho” ou “gaucho”, como dizem no Prata. A expressão gaúcho fora sempre um insulto a alguém. Informava sobre andarilhos, ladrões, marginais e mestiços, sem qualquer habilitação para o trabalho e a guerra permanente dos caudilhos e montoneras. Entretanto, depois da publicação do poema campeiro “O gaúcho Martin Fierro” do autor argentino José Hernandez, as noções negativas deram lugar a um constructo positivo, épico e até heróico. 

O fenômeno da releitura de uma expressão antes desprezível, agora um honorável adjetivo gentílico, tem a ver com interesses ideológicos, culturais, sobretudo econômicos, e até eleitorais. A raiz dessa virada está na Argentina, onde por todo o século 19 se digladiavam os caudilhos do interior, conhecidos como Federalistas, e os urbanos e modernizantes de Buenos Aires, liderados pelo intelectual Domingo Faustino Sarmiento, conhecidos como Unitaristas. Estes denegriam aqueles com expressões de profundo desprezo físico e político, como “gauchos”. Ora, Martin Fierro acabou servindo aos propósitos de recuperação da imagem dos bravos peões de estância, agora cantados como heróis ancestrais e portadores de alma nobre e injustiçada. A resignificação – mesmo que à custa de uma disputa nacional no país vizinho – acabou chegando ao Rio Grande do Sul, por obra dos estacieiros revoltosos contra o republicano Castilhos. Com ela, a mitologia farroupilha que falava de glórias e feitos que jamais existiram. Uma das grandes empulhações era afirmar – em tom ufanista - que o general latifundiário Joca Tavares fora farroupilha em 1835. Tavares lutou sim, tanto na guerra farroupilha quanto na guerra “inglesa” contra o Paraguai, e em ambos os casos foi um rematado legalista. Em 1836, foi preso após perder um combate para as forças farroupilhas do coronel Afonso Corte Real, em Rosário do Sul.

Não é à toa que o general Joca Tavares (marcado na foto, com ar de pasteleiro fumador de ópio) é homenageado em São Paulo, dando o nome – de nobreza - à Praça Barão de Itaqui, situada no bairro do Tatuapé, zona leste da cidade de São Paulo. 

Agora me perguntem: em quantos logradouros importantes de São Paulo foram dados nomes de vultos do Rio Grande? De um só, Getúlio Vargas, o maior de todos? Resposta: nenhum.          

Sobre o mesmo tema, leia também o artigo Por que o Rio Grande do Sul é assim
       
Fotografia de 1870, autor desconhecido. 

Artigo publicado originalmente neste blog DG em 18/07/2011

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