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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre




FestFoto 2012 – A Experiência Coletiva
Abertura Oficial:
Dia 21 de agosto de 2012 (terça-feira)
Abertura da exposição de Nair Benedicto, fotógrafa homenageada desta sexta edição.
Horário: 19 horas
Local: Memorial do Rio Grande do Sul
Praça da Alfândega – Centro – Porto Alegre

Recebo mensagem do santuário gaucheiro


A resposta está aqui abaixo:



Aguardemos, pois. E puxem um banco. 

sábado, 18 de agosto de 2012

Gramado monta um santuário do gauchismo de espetáculo




Depois não entendem por que somos motivo de gozação no Brasil inteiro

Em setembro de 2004 eu escrevi um pequeno artigo que chamei de “A Disneylândia de bombachas”, publicado no portal da Agência Carta Maior (leia aqui).

Neste artigo, eu brincava que se o movimento tradicionalista gaúcho (MTG) “tivesse bala na agulha, ousadia, empreendedorismo, poderia associar-se à Walt Disney Corporation no sentido de negociar o direito de ser objeto da dramaturgia materializada em parques temáticos e embalsamar mitologias e histórias”. O MTG, assim, “poderia montar uma mega Disneylandia de bombachas, que é a aspiração mais legítima do tradicionalismo de espetáculo”.

Pois, ontem, lendo o jornal Zero Hora, noto que esse artigo despretensioso foi uma espécie de vaticínio. Em Gramado, segundo o jornal do bairro Azenha, alguém montou uma Disneylândia mirim com temática baseada no mito do gaúcho. O jornal não identifica os “vivarachos”, responsáveis por esse caça-níqueis para arrancar dinheiro de turista desavisado.

Gramado e Canela viraram a sede de oportunistas que montaram uma usina de tradições inventadas. Eles exploram vários imaginários visando transformá-los em mercadorias para a demanda turística: o Natal cristão, o mundo do chocolate, uma ideia de cultura europeia transplantada, uma estética arquitetônica germano-suíça, uma confusa gastronomia da quantidade e do entulho (vide o chamado café-colonial), e a estética do frio, que nos últimos anos exagerou na dose a ponto de inventar a virtualidade da neve (em combinação com a mídia regional).

Todos esses elementos são - evidentemente - fakes, conscientemente falsificados, um simulacro mal ajambrado de um fantasmático imaginário de classe média calcado em ícones da infância-adolescência dos indivíduos. Mas um elemento se destaca pela autenticidade e uma certa originalidade: o festival de cinema, com altos e baixos na organização das edições anuais. Mas isso é outra história, e merece uma análise própria.

Gramadocanela (a conurbação-grife) se transformou numa linha de montagem de produtos turísticos voltados para iludir um público ingênuo e predisposto ao autoengano.

O mito do gaúcho ainda estava de fora deste cenário de espetáculo. Agora não está mais. Foi inaugurado ontem (17/8) o Parque do Gaúcho, que segundo o jornal ZH, “é um santuário de estancieiros e indígenas”.

A matéria vai mais além na confusão e na mistura de conceitos tomados emprestados da biologia (“miscigenação”), da antropologia (etnias autóctones), da economia regional da Campanha (a unidade produtiva da estância latifundiária, voltada para a economia mercantil de exportação, subordinado ao circuito mercantil inglês do século 19), e da sociologia (o gaúcho, como constructo mítico do homem-síntese do Rio Grande do Sul, outrora um tipo socialmente marginal, hoje, um gentílico aceito quase universalmente).

O jornal garante que o gaúcho resulta da miscigenação do estancieiro com o indígena. Ora, isso é de uma impossibilidade total. Zero Hora quer cruzar biologicamente - vejam só - um sujeito econômico (estancieiro) com um sujeito étnico-autóctone (índio) e garantir que o resultado disso é o constructo ideológico chamado “gaúcho”. Nem o mais fértil dos mentirosos (ou ficcionista) poderia conceber tal sujeito, fruto híbrido de uma “bricolage” improvável - a combinação não entre seres biológicos - mas entre o tipo ideal (Weber) da economia e o tipo ideal da etnia, que lograram parir o tipo ideal ideológico - o gaúcho. Sem esquecer que esse tipo ideal ideológico ainda sofreu uma completa repaginação moral, que o transformou no seu contrário, uma vez que originalmente era tido como um pária social e passou a ser o gentílico ufanista de todo um povo.

Não satisfeita com esse insólita unidade de materiais tão distintos, numa bricolage que não para de pé, o jornal Zero Hora ousa agregar outra dimensão cultural para sustentar a narrativa do nosso improvável “gaúcho”: refiro-me à religião, uma vez que ao festejado Parque do Gaúcho de Gramado está sendo conferido o grau de “santuário”. É isso mesmo, o gaúcho está sendo entronizado em um santuário em Gramado, ou seja, o antigo andarilho guasca (“sem rei, sem lei e sem fé”), sempre vivendo no limite da lei, da ordem, e da moral vigente, hoje ascende à condição do sagrado, do augusto e do divino.

Eu suspeito mesmo que essa gente desconhece o alcance da tolice que acabaram de cometer e que pode colocar o estado do Rio Grande do Sul e sua gente como objeto de deboche e escárnio dos demais "gauchos" do Uruguai e da Argentina, bem como dos demais brasileiros.

Inventar tradições é uma prática cultural admitida no mundo todo, especialmente depois que o turismo virou uma grande indústria que gera emprego e renda para milhões de pessoas em todos os lugares onde é incentivado. Mas como na arte da literatura de ficção, no Direito e na ciência Estatística não se pode violar um atributo intocável, o da verossimilhança. A narrativa do tal “gaúcho” não pode estar divorciada da realidade, é necessário que haja uma probabilidade de verdade na relação entre ideia e imagem.

Ademais essa súbita divinização do “gaúcho”, além de constituir um exagero passível de troça e riso viral, é um fator de exclusão de tudo quanto a cultura sul-rio-grandense tem de rica e variada. O RS tem certamente o mais colorido mosaico étnico-cultural do Brasil, somos imbatíveis neste quesito. Temos uma coleção de contribuições de nacionalidades e etnias europeias, de etnias autóctones, de afrodescendentes (Porto Alegre é a cidade brasileira com o maior número de manifestações ativas das religiões africanas, mais do que Salvador da Bahia.), etc. Por que, então, representar o sul-rio-grandense somente através do unidimensional “gaúcho”? Está certo, a expressão “gaúcho” virou um gentílico (como carioca, por exemplo), mas daí a garantir que esta projeção idealizada se transforme no sagrado (com direito a santuário), vamos convir, é encaminhar requerimento urbi et orbi para que sejamos motivo de raro estranhamento. De zombaria, mesmo.

P.S.: Alô, editores de Zero Hora, a palavra cacimba se escreve assim: cacimba, e não cassimba, como vocês permitiram escrever e publicar, em claro desrespeito ao público leitor. Ou “consumidor”, como vocês dizem nas internas. Ver fac-símile ao lado. 



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A selvageria do “capitalismo moderno” e a farsa democrática



O auge do “capitalismo moderno” e o ocaso da política

Algum dia será necessário refletir sobre o impacto da queda do Muro de Berlim, tanto no mundo dos vencedores como no dos vencidos.

Os vencedores do 'comunismo' foram os políticos, que tinham à disposição a força militar e as novas tecnologias. As corporações tiveram um papel fundamental, mas indireto até então. E os defensores do Ocidente daquela época (estamos falando de 1988), apresentavam como modelo um capitalismo que hoje está em vias de extinção.

Esse capitalismo havia se confrontado com as lutas sociais que se seguiram à Revolução Industrial e incorporara progressivamente valores como justiça social, participação e democracia na base da organização social. Um capitalismo que aceitara os sindicatos, os acordos entre sindicatos e empresas, e o trabalho como um direito fundamental.

No começo de julho, David Brooks, comentarista do conservador The New York Times, saiu em defesa do “capitalismo moderno”, observando que a cobiça é um forte estímulo para o sucesso. Afirmou que, se foram deslocados centenas de milhares de postos de trabalho, é porque o “capitalismo moderno” tem uma visão global, não meramente nacional.

Isto implicou a criação de outros tantos postos de trabalho em países do Terceiro Mundo, o que é objetivamente um resultado de profundo significado social. Segundo Brooks, o capitalismo moderno continua sendo o único motor da história.

Este tipo de lógica seria impensável antes da queda do Muro de Berlim. A ninguém ocorreria elogiar a cobiça e apresentar como uma ideia positiva a eliminação de milhões de postos de trabalho, em nome de maiores lucros para as empresas. O fato de isto ser lido em um jornal respeitável demonstra como o mundo está mudando.

O motor do “capitalismo moderno” é a finança, não a indústria. A indústria foi o motor do velho capitalismo. Em um breve período os capitais se concentraram nas finanças para obter maiores ganhos do que com a indústria.

É ilustrativo saber que, em 2010, o valor médio da produção mundial de bens e serviços em um dia era de quase US$ 1 trilhão, enquanto no mesmo período as transações financeiras chegavam a US$ 40 trilhões. As transações quadruplicaram entre 2004 e 2010.

A incapacidade da política para controlar as finanças é a razão da força avassaladora do “capitalismo moderno”. Longe de defender e aplicar as constituições, a política se converteu em um instrumento a serviço dos mercados. Não sei quanto notaram, mas até agora nenhuma fraude do sistema financeiro levou à prisão um banqueiro (recordo que Bernard Madoff era um indivíduo, não um banco).

Como é notório, o último grande escândalo, a manipulação da taxa interbancária Libor, revelou uma associação ilícita entre um seleto grupo de bancos.

Um deles, o inglês Barclays, foi multado em US$ 450 milhões. Seu executivo chefe, Bob Diamond, que havia declarado no inverno passado que “já é hora de se deixar de atacar os banqueiros”, teve que se demitir. E, embora não agrade ao senhor Diamond, em lugar de “bankers”, volta a ser utilizado o termo “bankster”, que esteve no auge durante a Grande Depressão de 1929.

Um presidente democrata daqueles tempos, Franklin D. Roosevelt, introduziu férreas regras sobre as finanças, que foram abolidas, uma após outra, começando com as desregulamentações do presidente Ronald Reagan, para culminar em 1999, quando o presidente Bill Clinton cancelou a lei Glass-Steagall de 1933 sobre separação de bancos comerciais e de investimentos.

O grave problema atual, ao contrário da época da Revolução Industrial, é que o sistema político, o fiel das constituições, perdeu legitimidade, especialmente entre os jovens, e a cada dia se subordina em maior grau às finanças.

A campanha eleitoral norte-americana deste ano passará dos US$ 4 bilhões. E o candidato republicano Mitt Romney tem um tesouro de guerra superior ao do presidente Barack Obama. Isto foi facilitado porque uma decisão da Suprema Corte permite que as corporações façam doações ilimitadas.

Se a política não voltar a se fundamentar em valores, entraremos em uma era de populismo, com tristes perspectivas. Os partidos de direita ou de evasão ganham espaço na Europa, desde o caso da Hungria ao partido dos piratas na Alemanha ou ao de Beppe Grillo na Itália.

A deriva direitista do Partido Republicano nos Estados Unidos, sob a influência do Tea Party, é muito maior do que a de George W. Bush sob a influência dos neoconservadores.

Bush tinha como ideologia o sonho americano, Romney a ideologia das elites financeiras e religiosas mais conservadoras. Se vencer as eleições, poderemos esquecer de tentar atenuar a mudança climática, que para ele não é um problema real, mas uma conspiração contra as empresas de petróleo.

Os detalhes da vida diária são janelas para a sociedade. Descobre-se agora que supermercados, restaurantes e bares estão aumentando os decibéis da música de fundo porque se comprovou que quanto mais barulho mais os clientes consomem.

Um estudo publicado pela revista Alcoholism: Clinical & Experimental Research demonstra que, em um bar com a música em 72 decibéis, os clientes consumiam uma média de 2,6 copos, em 14,5 minutos cada um. Se o volume da música aumentasse para 88 decibéis, a média aumentava para 3,4 copos, e cada em apenas 11,5 minutos.

Por exemplo, o restaurante Beaumarchais’, de Nova York, coloca a música em 99 decibéis e as mesas são liberadas mais rapidamente. Segundo as leis norte-americanas de proteção ao trabalhador, nesse nível não se permite mais do que 19 minutos sem proteção acústica.

“Estamos manipulando? Certamente”, afirmou Jon Taffer, dono de restaurantes, consultor sobre a vida noturna e apresentador do reality show Bar Rescue (Salvando Bares). “Meu trabalho é enfiar minha mão no seu bolso tão fundo quanto você gosta. É um negócio de manipulação”, ressaltou.

O “capitalismo moderno” está chegando aos bares, aos restaurantes e às lojas. Não é algo apenas da City ou de Wall Street.

Artigo do economista Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News. Publicado originalmente no portal Envolverde.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Greves do funcionalismo federal: um Estado forte exige uma burocracia preparada e satisfeita



Há quase três meses o governo Dilma enfrenta - em silêncio - mais de trinta greves distintas de funcionários públicos federais. O silêncio pode parecer resignação, mas não é. Significa, lamentavelmente, o mutismo da autoridade que se recusa a dialogar com a burocracia estatal.

Somente a um setor o governo federal dirigiu alguma atenção face ao conflito aberto no qual ambos estão submetidos, esse setor é o dos professores do ensino superior federal.
O Estado moderno exige necessariamente uma burocracia organizada e preparada para as tarefas administrativas que as macro instituições impõem.

Com o advento do ideário neoliberal, a partir do final da década de 1970 e anos 1980 em diante, a burocracia estatal foi demonizada, passou a ser objeto da materialização de todos os deficiências atribuídas ao Estado.

Prevaleceu a ideologia do Estado mínimo, capaz de se desfazer de suas grandes atribuições políticas em favor das livres forças do mercado. As políticas públicas passaram a ser vistas como freios à liberdade do empreendedorismo. A regulação do Estado foi taxado de representar um golpe contra as liberdades individuais e negociais.

Margaret Thatcher, a ex-primeira ministra britânica entre 1979 e 1990, e grande dama (de ferro) do neoliberalismo, chegou a afirmar que “a sociedade não existe”. Conforme ela, só existem os indivíduos e suas famílias. Evidentemente, foi uma forma de justificar o encolhimento do Estado e a dispensa de parcela majoritária de sua burocracia, bem como a venda de patrimônio público na bacia das almas.

À diminuição do Estado correspondia ao aumento do poder dos capitais, especialmente o capital financeiro, e a autonomização da esfera econômica, em detrimento da participação política da cidadania. Com o encolhimento dos direitos do cidadão houve o inchamento dos valores do individualismo e do poder dos mercados.

Afortunadamente a crise financeira de 2008 e as sequelas que ecoam por toda a Europa, ainda hoje (e por muito tempo) mostraram a derrocada do modelo neoliberal, ainda que à custa de sofrimento e mais dano para os direitos dos trabalhadores, convocados que foram - mais uma vez - para pagar a conta da farra especulativo-financeira do capitalismo de cassino.

No Brasil, a partir do segundo governo Lula, houve uma guinada importante, aprofundada por Dilma Rousseff. O grande fato político - a meu ver - foi a determinação de baixar os juros correntes no País, hoje, ainda alto, na faixa de 8% ao ano, mas com tendência de descenso até a taxas civilizadas de 1% ao ano, ou menos. Ora, isso permite e fomenta a retomada do desenvolvimento produtivo e sustentável, em vez de drenarmos dinheiro para o capital financeiro parasita, excludente e recessivo.

Neste sentido, é estranho e paradoxal o comportamento fechado e autoritário do governo Dilma para com o movimento reivindicatório dos funcionários públicos federais. A retomada de políticas públicas de indução do desenvolvimento exige um Estado mais organizado, com um corpo técnico-funcional dispondo de melhores condições de trabalho, com remuneração justa e incentivo a uma carreira que lhe aporte satisfação profissional e existencial.

A hora é de superar a hegemonia de três décadas do poder econômico sobre a esfera política. Para tanto, urge o fortalecimento do Estado e de políticas públicas horizontais e republicanas. Urge, igualmente, apostar mais na burocracia do Estado, e não ignorá-la e segregá-la a um papel secundário e até dispensável, como quis o neoliberalismo nos últimos trinta anos, no mundo todo.

O governo Dilma não tem prática nem vocação neoliberal, não tem o direito, portanto, de fazer experiências, ainda que episódicas, de neoliberalismo tardio, como ora equivocadamente parece estar ensaiando na relação com o funcionalismo. É mais que necessário robustecer o Estado, e não de debilitá-lo, por via do descaso ou de relações desqualificadas com o seu corpo funcional. 

Artigo de Cristóvão Feil, publicado originalmente no Jornalismo B, número 42, edição da primeira quinzena de agosto/2012, versão em papel.   

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Cachoeira "fala" através da revista Veja

Kayser

O jornal que tem vergonha de ser gaúcho



Esse é o jornalismo-lixo que temos no Rio Grande do Sul. Um jornalismo que sugere - sem nenhuma sutileza ou eufemismo - que tenhamos vergonha do nosso chão e da nossa gente. 

Tenta politizar - e até eleitoralizar - dados negativos do desempenho da educação pública do nosso estado, quando se sabe que este processo de decadência do RS já vem se verificando há muitos anos, em todos os setores da vida pública, nos três poderes.

Curiosamente, mas não de forma aleatória, os responsáveis diretos pela calamidade no setor público sul-rio-grandense são os mesmos governos e líderes que foram apoiados pelo grupo midiático RBS/Família Sirotsky.

Em Porto Alegre, até os pombos do Mercado Público sabem que esse sub-baronato sub-jornalístico tem veleidades de partido político, que se comporta como partido político e milita como organização política, ainda que velada e clandestina, mesmo sem nunca admitir, mesmo sem registro cartorial, e sustentando um discurso pífio e mentiroso de neutralidade e apartidarismo.

Essa gente representa um perigo para a democracia e uma ameaça para a República.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O quarteto Danças Ocultas



Danças Ocultas é o nome de um grupo musical português constituído por Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel. Eles executam o acordeão diatônico, em Portugal conhecido como concertina. É para ver como a música platina e mesmo a do Rio Grande do Sul não é tão original e autóctone como se poderia supor. 

bandoneón platino, por exemplo, que está na raiz do tango, é um instrumento musical de palhetas livres, semelhante à concertina, embora o bandoneón não seja diatônico (quer dizer, ele tem o mesmo som ao abrir e ao fechar o fole). Aliás, me perdoem os argentinos e uruguaios, mas saibam que o bandoneón foi inventado na Alemanha, por um certo músico chamado Heinrich Band, que morreu em 1860. Daí o nome: bandoneón.   

No Rio Grande do Sul já tivemos uma fábrica de bandoneões, a Danielson & Goettems, de Santa Rosa. A Alemanha ainda é a grande fornecedora deste instrumento musical, hoje. 

Londres 2012 esqueceu o Museu Britânico, aquela rica 'caverna' de Ali Babá




Rapinagem

A melhor observação que li sobre a crise das dívidas na Europa foi a de um leitor do “London Review of Books” que, numa carta à publicação, comenta as queixas dos alemães inconformados com a obrigação de mandar seus euros saudáveis para sustentar a combalida economia grega. O leitor estranha que ninguém se lembre de perguntar sobre as grandes reservas de ouro que os alemães levaram da Grécia durante a Segunda Guerra Mundial – e nunca devolveram. Só os hipotéticos juros devidos sobre o valor do ouro roubado dariam para resolver, ou pelo menos atenuar, a crise grega. O autor da carta poderia estranhar também o silêncio que envolve um exemplo mais antigo de pilhagem, a dos tesouros artísticos da Grécia Antiga, levados na marra e de graça para os grandes museus da Alemanha. Seu valor garantiria com sobras a ajuda aos gregos que os alemães estão dando com cara feia.

É claro que se, num acesso de remorso, os alemães decidissem devolver ou pagar o que levaram da Grécia, estaria estabelecido um precedente interessante: a América poderia muito bem reivindicar algum tipo de retribuição da Europa pelo ouro e pela prata que levaram daqui sem gastar nada e sem pedir licença, durante anos de pilhagem. Que não deixaram nada no seu rastro, salvo plutocracias que continuaram a pilhagem e sociedades resignadas à espoliação. Alguém deveria fazer um cálculo de quanto a metrópole deve às colônias pelo que não pagou de direitos de mineração no tempo da rapinagem desenfreada. Só por farra.

Quanto às reservas de ouro levadas da Grécia pela Alemanha nazista, a observação do leitor do “London Review” mostra como a História não é linear, é um encadeamento. A atual crise do euro e da comunidade europeia é a crise de um sonho de unidade que asseguraria a paz e evitaria a repetição de tragédias como as das duas grandes guerras. Sua meta era uma igualdade econômica, que dependia de um equilíbrio de forças, que dependia da Alemanha como potência econômica ser diferente da Alemanha que invadiu e saqueou meia Europa. Os alemães atuais não têm culpa pelos desmandos dos nazistas, mas não podem renunciar à força desestabilizadora que têm, que continuam a ter. Como a Grécia não pode evitar de ter saudade do seu ouro, do qual nunca mais ouviu falar.
Artigo de Luiz Fernando Veríssimo, publicado hoje em vários jornais brasileiros. 
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Completando as pertinentes observações do Veríssimo: na abertura das Olimpíadas de Londres 2012, dias atrás, houve um detalhado desfile das conquistas britânicas pelo mundo afora, com destaque para os avanços civilizatórios operados pela primeira revolução industrial, as contribuições inegáveis da cultura inglesa, etc. Mas faltou a menção às conquistas do Império inglês nos séculos 18 e 19. Faltou alguma alusão às rapinagens, saques e roubos mesmo do colonialismo inglês no Egito, por exemplo, na Índia, no sul da China, onde se apoderaram de Hong Kong, só para citar alguns locais onde houve choro e ranger de dentes por onde os "civilizados" ingleses passaram. Não mencionaram nada acerca do famoso Museu Britânico. Curioso, não? 
Foto: Museu Britânico de Londres, erguido em 1753. Mantém uma variada e valiosa coleção de objetos saqueados do mundo todo. Lá é possível encontrar peças de valor inestimável subtraídas da antiga Grécia, do Japão, das culturas pré-colombianas da América, da África, sobretudo do antigo Egito, e naturalmente da Ásia inteira, principalmente arte chinesa e persa antigas. O Museu Britânico é uma suntuosa caverna de Ali Babá da civilização branca e culta do Ocidente. 

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