O auge do “capitalismo moderno” e o
ocaso da política
Algum dia será necessário refletir
sobre o impacto da queda do Muro de Berlim, tanto no mundo dos
vencedores como no dos vencidos.
Os vencedores do 'comunismo' foram os
políticos, que tinham à disposição a força militar e as novas
tecnologias. As corporações tiveram um papel fundamental, mas
indireto até então. E os defensores do Ocidente daquela época
(estamos falando de 1988), apresentavam como modelo um capitalismo
que hoje está em vias de extinção.
Esse capitalismo havia se confrontado
com as lutas sociais que se seguiram à Revolução Industrial e
incorporara progressivamente valores como justiça social,
participação e democracia na base da organização social. Um
capitalismo que aceitara os sindicatos, os acordos entre sindicatos e
empresas, e o trabalho como um direito fundamental.
No começo de julho, David Brooks,
comentarista do conservador The New York Times, saiu em defesa do
“capitalismo moderno”, observando que a cobiça é um forte
estímulo para o sucesso. Afirmou que, se foram deslocados centenas
de milhares de postos de trabalho, é porque o “capitalismo
moderno” tem uma visão global, não meramente nacional.
Isto implicou a criação de outros
tantos postos de trabalho em países do Terceiro Mundo, o que é
objetivamente um resultado de profundo significado social. Segundo
Brooks, o capitalismo moderno continua sendo o único motor da
história.
Este tipo de lógica seria impensável
antes da queda do Muro de Berlim. A ninguém ocorreria elogiar a
cobiça e apresentar como uma ideia positiva a eliminação de
milhões de postos de trabalho, em nome de maiores lucros para as
empresas. O fato de isto ser lido em um jornal respeitável demonstra
como o mundo está mudando.
O motor do “capitalismo moderno” é
a finança, não a indústria. A indústria foi o motor do velho
capitalismo. Em um breve período os capitais se concentraram nas
finanças para obter maiores ganhos do que com a indústria.
É ilustrativo saber que, em 2010, o
valor médio da produção mundial de bens e serviços em um dia era
de quase US$ 1 trilhão, enquanto no mesmo período as transações
financeiras chegavam a US$ 40 trilhões. As transações
quadruplicaram entre 2004 e 2010.
A incapacidade da política para
controlar as finanças é a razão da força avassaladora do
“capitalismo moderno”. Longe de defender e aplicar as
constituições, a política se converteu em um instrumento a serviço
dos mercados. Não sei quanto notaram, mas até agora nenhuma fraude
do sistema financeiro levou à prisão um banqueiro (recordo que
Bernard Madoff era um indivíduo, não um banco).
Como é notório, o último grande
escândalo, a manipulação da taxa interbancária Libor, revelou uma
associação ilícita entre um seleto grupo de bancos.
Um deles, o inglês Barclays, foi
multado em US$ 450 milhões. Seu executivo chefe, Bob Diamond, que
havia declarado no inverno passado que “já é hora de se deixar de
atacar os banqueiros”, teve que se demitir. E, embora não agrade
ao senhor Diamond, em lugar de “bankers”, volta a ser utilizado o
termo “bankster”, que esteve no auge durante a Grande Depressão
de 1929.
Um presidente democrata daqueles
tempos, Franklin D. Roosevelt, introduziu férreas regras sobre as
finanças, que foram abolidas, uma após outra, começando com as
desregulamentações do presidente Ronald Reagan, para culminar em
1999, quando o presidente Bill Clinton cancelou a lei Glass-Steagall
de 1933 sobre separação de bancos comerciais e de investimentos.
O grave problema atual, ao contrário
da época da Revolução Industrial, é que o sistema político, o
fiel das constituições, perdeu legitimidade, especialmente entre os
jovens, e a cada dia se subordina em maior grau às finanças.
A campanha eleitoral norte-americana
deste ano passará dos US$ 4 bilhões. E o candidato republicano Mitt
Romney tem um tesouro de guerra superior ao do presidente Barack
Obama. Isto foi facilitado porque uma decisão da Suprema Corte
permite que as corporações façam doações ilimitadas.
Se a política não voltar a se
fundamentar em valores, entraremos em uma era de populismo, com
tristes perspectivas. Os partidos de direita ou de evasão ganham
espaço na Europa, desde o caso da Hungria ao partido dos piratas na
Alemanha ou ao de Beppe Grillo na Itália.
A deriva direitista do Partido
Republicano nos Estados Unidos, sob a influência do Tea Party, é
muito maior do que a de George W. Bush sob a influência dos
neoconservadores.
Bush tinha como ideologia o sonho
americano, Romney a ideologia das elites financeiras e religiosas
mais conservadoras. Se vencer as eleições, poderemos esquecer de
tentar atenuar a mudança climática, que para ele não é um
problema real, mas uma conspiração contra as empresas de petróleo.
Os detalhes da vida diária são
janelas para a sociedade. Descobre-se agora que supermercados,
restaurantes e bares estão aumentando os decibéis da música de
fundo porque se comprovou que quanto mais barulho mais os clientes
consomem.
Um estudo publicado pela revista
Alcoholism: Clinical & Experimental Research demonstra
que, em um bar com a música em 72 decibéis, os clientes consumiam
uma média de 2,6 copos, em 14,5 minutos cada um. Se o volume da
música aumentasse para 88 decibéis, a média aumentava para 3,4
copos, e cada em apenas 11,5 minutos.
Por exemplo, o restaurante
Beaumarchais’, de Nova York, coloca a música em 99 decibéis e as
mesas são liberadas mais rapidamente. Segundo as leis
norte-americanas de proteção ao trabalhador, nesse nível não se
permite mais do que 19 minutos sem proteção acústica.
“Estamos manipulando? Certamente”,
afirmou Jon Taffer, dono de restaurantes, consultor sobre a vida
noturna e apresentador do reality show Bar Rescue (Salvando
Bares). “Meu trabalho é enfiar minha mão no seu bolso tão fundo
quanto você gosta. É um negócio de manipulação”, ressaltou.
O “capitalismo moderno” está
chegando aos bares, aos restaurantes e às lojas. Não é algo apenas
da City ou de Wall Street.
Artigo do economista
Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias
IPS (Inter Press Service) e editor do Other News. Publicado
originalmente no portal Envolverde.