segunda-feira, 16 de julho de 2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
O talentoso senhor Ripley
O
talentoso senhor Dirceu
Futricas do Supremo, dedo em riste da CUT e outras levezas serão nosso pão cotidiano durante as próximas semanas.
Esta coluna ignoraria o tema solenemente, não fossem os efeitos do mensalão sobre a política externa brasileira.
A história começa há dez anos, em julho de 2002, quando José Dirceu foi aos Estados Unidos pela primeira vez.
Não falava nem entendia inglês. Não conhecia quase ninguém. Mas Lula crescia nas pesquisas de intenção de voto, Fernando Henrique patinava e o "Financial Times" sentia cheiro de calote no ar.
Não era a primeira crise financeira a coincidir com uma eleição presidencial. Em 1998, um Fernando Henrique acuado pedira socorro ao presidente Bill Clinton.
Em 2002, Lula não tinha como fazer o mesmo com George W. Bush porque o PT estava longe dos centros americanos de opinião pública, pensamento e poder.
O "New York Times" tinha lá seu naco de razão: "Um governo esquerdista do PT e um governo conservador republicano podem ser uma combinação explosiva".
Lá foi José Dirceu com a "Carta ao Povo Brasileiro" debaixo do braço. Em Nova York, conversou com gente de JP Morgan, Citigroup, Morgan Stanley, Lehman Brothers, ABN Amro, Bear Stearns, da Alcoa e também da Moody's.
Em Washington, visitou a central sindical americana AFL-CIO, o Banco Interamericano, o Departamento de Estado, o Tesouro, o Conselho Econômico Nacional e o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Tirou foto solene no Ground Zero. WikiLeaks e outros documentos abertos pela lei americana de acesso à informação revelam que ele convenceu.
Em poucos meses, Lula e Bush montariam a aproximação diplomática mais ambiciosa de uma geração. Patrocinaram o primeiro encontro ministerial dos dois países, consultaram um ao outro sistematicamente e a Casa Branca começou a argumentar que o Brasil era "uma potência global em ascensão". Em relações internacionais, reconhecimento é poder.
O mensalão jogou esse trabalho por terra porque era Dirceu quem mantinha o canal de comunicação desimpedido.
Mais tarde, o Palácio do Planalto e a Casa Branca iriam às turras a respeito de Iraque, Cuba, Honduras, Irã, comércio internacional, direitos humanos e proliferação nuclear.
Longe de mim colocar azeitona na empada de José Dirceu. O homem não precisa de mais mitificação. Mago dos magos para uns, inimigo público para outros, ele é odiado e reverenciado ao mesmo tempo.
Sua iniciativa deu certo. Não porque ele fosse um grande estadista. Não era. Estava mais para bombeiro apagando incêndio. Teve êxito porque, na época, uma estratégia para lidar com os Estados Unidos era inexistente.
Dez anos mais tarde, pouco mudou. Quando se trata de gerir problemas na relação com os Estados Unidos, o Brasil ainda fica à mercê do talento de um ou outro indivíduo. Sexta economia do mundo, podíamos fazer melhor.
Artigo
de Matias Spektor, professor da FGV, publicado hoje na Folha.
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Tem
um traço (forte) de ironia o título do artigo acima, escrito por
Matias Spektor. Se o dirceuzismo de resultados que grassa e hegemoniza o PT entender a sutileza, pode ficar incomodado. Indiretamente ele remete ao personagem recorrente da
genial escritora Patricia Highsmith, Tom Ripley, um indivíduo não
propriamente virtuoso e ético. Uma das tantas obras da escritora,
onde o protagonista é Tom, chama-se justamente 'O talentoso Mr.
Ripley'. Esse livro de Patricia já foi adaptado para o cinema, pelo
menos duas vezes, numa, Tom é vivido por Alain Delon (O sol por
testemunha, 1960, do diretor René Clément) e noutro por Matt
Damon (O talentoso Mr. Ripley, 1999, do diretor Anthony
Minghella).
Quem
quiser saber o que Spektor quis dizer quando colocou este título no
seu artigo terá que ler os livros de Patricia Highsmith. Não custa
nada, os livros são muito bons. Patricia tem a capacidade (rara) de
mostrar que existe uma variedade infinita de gradações entre o
preto e o branco, em se tratando de análise da alma e do
comportamento humano. A formulação literária do personagem de
Ripley é um laboratório disto, onde o maniqueísmo fácil - e
difícil - passa muito distante.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
O mito da (contra) Revolução de 1932 e o paulistinismo filisteu e ideológico
Hoje é dia de celebrar a
bravura da “locomotiva da nação”
A (Contra) Revolução de 1932 completa 80 anos. O dia [hoje, 9 de julho], como sempre, é reservado para alimentar o processo de mitificação daqueles acontecimentos, com paradas militares, crianças agitando bandeirinhas, o vermelho, o preto e o branco das cores de São Paulo pintados nos rostos, autoridades emplumadas passando as tropas em revista, discursos de como o Estado é importante…
Afinal de contas, séculos depois, muitos de nós, paulistas, ainda nos sentimos acima do restante do país, fantasiando uma suposta autoridade moral que nunca existiu. Sabe aquela coisa ridícula que está escrita, em latim, na bandeira do município de São Paulo (non ducor duco – não sou conduzido, conduzo)? Então…
Autoridade que desaparece quando analisamos a política higienista em São Paulo, posta em prática, quase de forma articulada, pelos governos federal, estadual e municipal. Afinal de contas, as empreiteiras e os especuladores imobiliários estão aqui, doando recursos de campanhas, emprestando parentes para cargos públicos, influenciando o cumprimento e o não cumprimento de regras, dizendo quem tem direito à cidade e quem não tem.
A sanha punitiva do Estado-locomotiva (sic) da nação é grosseira, tendo – na maioria das vezes – como alvo a massa de sem-teto, sem-terra, dependentes químicos, pobres, imigrantes ilegais, enfim, os rotos que ousam ficar no meio do caminho do progresso.
Já citei aqui, anteriormente, o ensaio “O Fausto de Goethe: A Tragédia do Desenvolvimento”, de Marshall Berman. Fausto é um personagem que tem altos e baixos: encanta e fascina, surpreende e decepciona. Não é possível traçar um caráter para ele, pois ele não o possui. Assim como todo o sistema, é mutável – uma metáfora do desenvolvimento capitalista.
Fausto vendera sua alma em troca de experimentar as sensações do mundo. Mas o diabo não é o Lúcifer da cristandade, não representa o mal em si, mas sim o espírito empreendedor. A mentalidade que fomenta Fausto (“destruir para criar”) é a realidade em constante movimento (Mefistófeles perguntava a ele se Deus não havia destruído as trevas que reinavam no universo para poder criar o mundo), a mesma que norteia uma metrópole como São Paulo.
Essa destrutividade criativa pode ser encontrada no caso de Filemo e Baúcia, um casal de idosos. Ambos eram um empecilho para os planos do empreendedor Fausto e precisavam ser removidos. Quando Mefistófeles queima a casa deles, os assassinando, não quer Goethe provar a sua maldade, mas expor exatamente o contrário: joga-se a negatividade fora criando o princípio fictício que o mal (o casal idoso) pode ser estirpado da sociedade. Caem os limites morais. O desenvolvimento da modernidade não possui padrões éticos, além da ética que cria para si mesmo.
Na mesma linha, o “paulistanismo”, o nacionalismo paulista, funciona como uma espécie de seita radical para os seus adeptos. Mesmo as pessoas mais calmas viram feras, libertando uma fúria bandeirante que parecia, historicamente, reprimida dentro do peito quando se vêem diante de críticas à ideia de destruir para criar. Bandeirante, aquele pessoal que virou nome de avenida, escola, praça, escultura, Palácio de Governo, homenageados por terem dizimado gente. O fato de São Paulo tê-los escolhido como heróis diz muito sobre quem somos. E o fato de muita gente continue defendendo que seus métodos foram necessários para que o Brasil fosse “grande” diz muito sobre o que seremos.
Para parte da população paulista, a Cracolândia e o Pinheirinho (remoções forçadas ocorridas este ano) eram um mal a ser extirpado em nome do progresso.
Espero que, daqui a 80 anos, não celebrem este 2012 como o início da retomada do Estado pelos “cidadãos de bem” com paradas militares, crianças agitando bandeirinhas, o vermelho, o preto e o branco das cores de São Paulo pintados nos rostos, autoridades emplumadas passando as tropas em revista, discursos de como o Estado é importante…
Sobre o cartaz acima: Ainda por cima, não sabiam as regras gramaticais do português. Esta elite cafeeira se achava a vanguarda do País. Perderam a revolta de '32, foram surrados pelo governo Vargas, e como vendetta foram à Europa buscar professores para fundar uma Universidade, a USP. Menos mal. Vale ler a obra Tristes Trópicos, do Levi-Strauss, no capítulo onde repassa as impressões sobre o que encontrou em São Paulo. Ele achou muito estranha a elite paulistana. Ora, 80 anos depois, continua tudo igual, só que agora eles perambulam por aí de gravata dourada e automóveis importados de 100 mil dólares, quando não, de helicóptero. E quando os pobres os chateiam, chamam a polícia tucana e mandam descer o cassetete e o gás pimenta - pra infelizama saber com quem está lidando.
domingo, 8 de julho de 2012
O andaluz Javier Ruibal
Javier
Ruibal colocou letra na conhecida música de Erik
Satie (considerado um precursor do jazz), 1ère Gnossienne (1890), e lhe deu o nome de “La Flor de
Estambul”. Veja o resultado.
sábado, 7 de julho de 2012
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Espetáculos de pura animalidade em pleno século 21
Todos os anos nos Estados Unidos, Coney Island, em Nova York, acontece uma competição de comilança de sanduíche. É tradicional, o prefeito comparece, fala, se homenageiam os glutões, e se exaltam as capacidades de comer rápido e muito. A competição dura dez minutos e o vencedor come cerca de meia centena de sanduíches, ou mais. Uma coisa animalesca, mas, sobretudo, pornográfica.
É o equivalente às touradas na Espanha e aos espetáculos de autoflagelação humana durante a chamada semana santa dos católicos do mundo todo. Fica a pergunta: que ethos social sustenta e dá suporte continuado (por décadas, centenas de anos) a esses espetáculos de pura animalidade e brutalidade coletiva?
Não me admira se criarem um campeonato de arremesso de vômito, nas categorias “volume” e “distância”. O filme do Polanski, “Deus da Carnificina” trata um pouco disso, da escatologia em geral (nos dois sentidos do termo). Outra hora eu comento esse filme, aqui no blog.
Fotos de Andrew Burton/AFP
terça-feira, 3 de julho de 2012
O Brasil abre mão de tantas coisas importantes só para beneficiar o automóvel particular
Indústria
automobilística teve isenção de R$ 1 milhão por emprego criado
As medidas de estímulo à venda de veículos nos últimos três anos e meio também contribuíram para a remessa de US$ 14,6 bilhões ao exterior, na forma de lucros e dividendos, para as matrizes que contavam prejuízos com a queda na receita nos Estados Unidos e na Europa. O lucro enviado para fora do País fica próximo do valor que as empresas deixaram de pagar em impostos.
A maior parte dos benefícios foi anunciada de surpresa pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, sem planejamento com outros setores do governo. Sob a tutela da presidente Dilma Rousseff, o ministro assumiu a negociação direta com as montadoras, gerando críticas, nos bastidores, de outros gabinetes. Há quem critique a falta de contrapartidas ambientais, de geração de empregos e de investimentos pelas empresas.
Economistas concordam que o consumidor brasileiro paga preço salgado para ajudar um setor da economia e criticam a forma atabalhoada com que o governo lida com as montadoras. Mas divergem sobre a necessidade de ajuda ao setor: uns dizem ser vital e outros apostam em uma abordagem mais liberal que permitisse, por exemplo, que os empresários tivessem prejuízo na crise para que aumentassem a qualidade do produto.
A ajuda a conta-gotas, em vez de políticas de longo prazo para tornar a indústria nacional mais competitiva, reflete o lobby de alguns setores viciados em receber auxílio estatal, diz Gabriel Leal de Barros, especialista em crédito público do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas.
"A indústria automotiva do Brasil tem 60 anos e a da Coreia do Sul, 35, e eles são tão mais competitivos que o consumidor consegue perceber isso simplesmente entrando no carro", afirma Barros, que defende reformas econômicas e investimentos em infraestrutura para reduzir custos da indústria.
Os dados mostram que o País "abre mão de muita coisa para atender aos interesses desse setor, a um custo enorme", diz Julio Miragaia, coordenador de Políticas Econômicas do Conselho Federal de Economia. "Provavelmente, a maior parte da desoneração tenha sido enviada na forma de lucros para o exterior."
Se houve queda no preço ao consumidor, a política do governo não estimulou a concorrência, segundo o consultor Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento. "Os dados demonstram que o regime beneficiou mais as empresas tradicionalmente instaladas do que a entrada de novos concorrentes, o que seria a intenção original."
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A sociedade do automóvel, moldada para conviver e dar amplo espaço aos veículos particulares, está consumindo muitos outros valores que poderíamos cultivar no nosso meio social. Cada vez mais, adotamos o comportamento de manada.
Vejam as cidades brasileiras, médias e grandes (e mesmo as pequenas): estão deformadas, entupidas e hipertrofiadas para propiciar que o automóvel tenha regalias no meio urbano, em detrimento dos indivíduos e sua liberdade de locomoção e mais qualidade do ar e das águas.
Os incentivos do lulismo de resultados ao automóvel jamais considerou a necessidade de políticas públicas para o transporte urbano das grandes massas. O próprio programa habitacional Minha Casa, Minha Vida (elogiável em quase todos os aspectos) também não incidiu sobre a revisão das políticas acerca do solo urbano e as medidas para coibir a especulação imobiliária desenfreada e selvagem, bem como sobre o transporte coletivo caótico nas cidades brasileiras.
Queremos (e podemos) estar entre as dez maiores economias do planeta, mas para tanto não podemos deixar que um artefato do século 19 seja hegemônico no nosso meio e nos imponha tantos sacrifícios e com vantagens bastante discutíveis e ultrapassadas.
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