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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Protógenes e ele

E o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, hein? Escreveu um longo artigo na revista Piauí (nº 48, setembro 2010) tentando defender o peleguinho do Daniel Dantas, dono do banco Opportunity e de uma coleção de inimigos no Brasil e no exterior.

A coisa parece que tem o dedo do Gomes. O texto é ruim, confuso. Admira que a Piauí admita um texto descuidado, por lá.

Raimundo conclui (sem êxito) sua árdua empreitada de defesa, assim:

"Se o sistema financeiro moderno é o inferno, pode-se dizer que Dantas não é Lúcifer, o pior dos anjos caídos. Era um diabo como os outros. [Uau!] Para promovê-lo à condição de Príncipe das Trevas era preciso uma farsa, que foi a encenada sob a batuta do governo Lula, pelos grandes interesses aqui descritos e por muitos outros interesses menores.

Como os do delegado Protógenes. A sua Operação Satiagraha foi uma pantomima que o levou ao estrelato. E agora pode conduzi-lo à Câmara dos Deputados. Não com o meu voto. Em matéria de besteira política, já me basta uma, bem grande: em 1960 votei em Jânio Quadros."

Três coisas, para arrematar:

1) Eu pensava que o título de Príncipe das Trevas era exclusivo do velho roqueiro Ozzy Osbourne;

2) Eu também pensava que a Operação Satiagraha era da Polícia Federal, e não do delegado Protógenes;

3) Raimundo Rodrigues Pereira se tivesse que viver do exercício da advocacia já tinha morrido de fome e, assim, nem teria podido votar no Jânio Quadros.

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Meu prognóstico: o Daniel Dantas (ao lado) vai eleger uma numerosa bancada no Congresso Nacional. Inclusive com parlamentares "gaúchos" - como gosta de dizer a RBS.

Sinto muito. 

Compositor Jards Macalé risca o carro de tipo antissocial da Globo


Conta hoje Joaquim Ferreira dos Santos em sua coluna "Gente Boa" no O Globo: "Jards Macalé ia pela calçada da Rua Maria Angélica, Jardim Botânico, quando foi interrompido por um carro estacionado com as quatro rodas. Não teve dúvida. Arranhou-o de um lado ao outro - e só não continuou pelo outro lado porque de dentro do carro, escondido pelo insulfilm, saiu o motorista, de 2 m de altura. Começou o bate-boca e a multidão juntou, tomando partido em discursos".

"A cena ficou mais 'fantástica' quando surgiu o dono do carro, o repórter Tadeu Schmidt, da TV Globo. A PM veio em seguida, depois, a Guarda Municipal. A cena se desfez duas horas depois, quando Macalé se dispôs a pagar os danos à lataria do carro (já orçados em R$ 1 mil), desde que houvesse multa pelo estacionamento na calçada. O caso está na 15ª DP".

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Parabéns ao grande Jards Macalé pelo gesto corajoso, didático e exemplar.

Folha de S. Paulo foi sórdida com a candidata Dilma Rousseff


Ratazana dá o perfil de Dilma

Como dizem os data venia, não quero deixar transitar em julgado a sordidez cometida pelo jornal Folha de S. Paulo contra a candidata Dilma Rousseff. A referida matéria foi publicada na edição de domingo passado, 12 de setembro, sob o ambíguo título "Espião de Dilma". Eu afirmo que é um título ambíguo, porque ele é portador de duplo sentido. O espião pode ter vigiado Dilma. O espião pode estar a soldo de Dilma para bisbilhotar a vida de outrem. Portanto, a má intenção do redator já fica garantida desde o título. Daí em frente, tudo é consequencia desta opção do jornal por lambuzar a honra da pessoa objeto da reportagem e da ira de classe do diário da família Frias.

A coisa, entretanto, saiu um tanto quanto atabalhoada, mesmo contando com a participação de dois jornalistas, Plinio Fraga e Fernando Rodrigues. Exemplo: o jornal sugere que um senhor idoso e reservista, Sílvio Carriço Ribeiro, de 69 anos de idade, tenha sido perseguido e punido pelo petista Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul. O texto afirma: "Em 1998, no final do governo de Olívio Dutra (PT), Ribeiro enfrentou um Inquérito Policial Militar que o exonerou da Brigada Militar, já quando era reservista".

Ora, o governador Olívio Dutra assumiu o cargo em 1º de janeiro de 1999. Em 1998, o governador se chamava Antonio Britto Filho (PMDB depois PPS). O idoso reservista - tadinho - foi punido porque foi condenado por se apropriar de forma criminosa de bens públicos da Brigada Militar estadual. Mais: o idoso reservista, condenado por gatunagem, é ex-agente dos órgãos de repressão durante a ditadura civil-militar de 1964-85. Foi esse cidadão, altamente qualificado, probo, e acima de qualquer suspeita que a Folha veio entrevistar para conhecer o perfil da cidadã Dilma Vana Rousseff.

E o que disse o probo ex-espião da famigerada comunidade de informações da ditadura sobre Dilma?

"Ela não é tão boazinha assim", afirma o ex-larápio. "Nasceu para mandar. Não para ser mandada. Lula vai se enganar com ela" - garante o ex-alcaguete.

Não é uma epifania?

Graças à Folha, nós alcançamos o significado essencial do que é vilania.

Um jornal entrevista um tipo desses, cuja desqualificação não pode ser mais degradada, para traçar um perfil da candidata Dilma Rousseff. E do alto da sua baixeza, o sujeito profetiza, com um travo abjeto de defesa do interesse de Lula:

- Lula vai se enganar com ela! - ainda tem o topete de advertir o presidente Lula.


PS: Não é de estranhar que a Folha ainda tenha o endereço destes tipos repelentes da comunidade de informações da ditadura. Afinal, não foi o grupo Folha que emprestava veículos para as diligências do terror de Estado configurado na famigerada Operação Bandeirantes? Saber o endereço de uma ratazana velha, hoje, é café pequeno.

Escândalo enfraquece quem?


Agora a Casa Civil virou gente

O novíssimo escândalo do governo Yeda, agora com nova rodada de arapongagem (que passava informações para a contravenção e também para a mídia de bombacha), não enfraquece mais o próprio governo Yeda, enfraquece a Casa Civil.

A Casa Civil é gente. Antropomorfizaram a Casa Civil.

O governo Yeda comete os maiores e os piores desatinos e quem se enfraquece - certamente, por causas naturais - é a Casa Civil.

Inacreditável!

Essa matéria de Zero Hora, edição de hoje, é um desrespeito à inteligência dos últimos leitores do jornal sito na margem do arroio Dilúvio, aquela sarjeta corrente entre a Lomba do Sabão e o Guaíba.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Zero Hora não tem coragem de escrever um editorial apoiando Serra


Mas tem a caradura de editar essas fotos

Todos os dias nesta campanha eleitoral se podem flagrar aspectos editoriais do jornal Zero Hora que ou favoreçam José Serra ou desfavoreçam Dilma Rousseff. Entretanto, nunca (jamais) se leu um editorial sustentando com todas as letras e verbos a posição do jornal sito à margem do arroio Dilúvio.

Essas duas fotografias arranjadas (acima) dão bem o tom da campanha subliminar do principal jornal do grupo midiático RBS. Como os felinos domésticos, dão o tapa e escondem a patinha.

Serra é o que olha direto, com objetividade, passando verdade, honradez e confiança.

Dilma é a que olha o vazio, dissimulada, oblíqua, desviando o olhar (a verdade) daquele que expressa seriedade, tenacidade e retidão.

Na Europa, ao contrário da América Latina, a política está capturada pela sua dimensão gerencial

Por isso, não aparece a invenção nem a possibilidade de construir um relato de emancipação. Não aparece o problema da justiça nem o da igualdade, porque se supunha que isto estava superado

Está imperdível a leitura da entrevista do psicanalista argentino Jorge Alemán. Alemán politiza a psicanálise. Alemán psicanalisa a política. Para ele, é preciso recuperar a capacidade da política frente a mesmisse da economia e do mercado unidimensional.

O argentino não hesita em trazer para a esquerda pensadores que não foram originalmente de esquerda, tais como Freud, Heidegger e Lacan. Diante do radicalismo de cada um, pensa ele, é possível aportar novas categorias e linhas criativas de pensamento e ação à esquerda contemporânea.

Alemán (acima) quer recuperar, também para a esquerda, a expressão "populismo", na perspectiva do que não está concertado, do inesperado, da invenção criativa, daquilo que não resultou de mera conciliação com as oligarquias. Jorge Alemán afirma que "o populismo é um momento da soberania". 

Quem perder a leitura desta entrevista de Jorge Alemán é porque comunga da mitologia urdida pela sra. Lya Fett Luft e de sua reverendíssima, autoridade intelectual guasca, dom Dadeus Grings. Por isso, fique com Alemán:

Qual é o aporte de Lacan, a política em questão... para pensar a relação entre psicanálise e política?

É uma relação tensa, problemática, porque a política se ocupa dos feitos coletivos e a psicanálise, em princípio, se ocupa da teoria do sujeito. Mas é certo que a partir de Lacan, essa teoria do sujeito se vincula também à construção dos laços sociais e, em particular, com a construção discursiva da realidade. Por sua vez, a política, as ciências políticas e as teorias sociais estão começando a tomar em conta de como está feito o sujeito. Portanto, já não basta descrever os fatos objetivos, mas é necessário considerar como se constituem certas respostas subjetivas nestes processos. As transformações sociais, ou o que impede que estas ocorram, exigem - em muitos casos - ver de que maneira estão subjetivados esses processos sociais. Depois da crise do modelo neoliberal, na medida em que volta a tomar forma a teoria dos antagonismo sociais, é necessário uma teoria de como funcionam os sujeitos nestes antagonismos. Porque já não são os antagonismos clássicos, como a luta de classes, mas antagonismos mais fragmentados, que não aparecem claramente objetivados, mas funcionam sim dentro da estrutura social. A esse respeito, o psicanalista pode dar conta da implicação subjetiva destes processos.

A que você chama de "antagonismos fragmentados"?

Quando funcionava a teoria da luta de classes, a classe trabalhadora, por sua posição objetiva dentro do modo de produção, era a destinada a levar a cabo a transformação. Se pensava que pelo mesmo motivo era o sujeito histórico que iria realizar a essência humana. Hoje não aparece desta maneira um sujeito histórico objetivável.

Por quê?

Porque há excluídos e porque, dentro dos mesmos trabalhadores, há fragmentos: estão os imigrantes, os excluídos, os que não têm trabalho. Houve uma metamorfose na pobreza. No conceito clássico do marxismo, a pobreza era a privação das satisfações, das necessidades materiais, era uma carência. Hoje, um conceito como o de Lacan - o "plus-de-gozar", que se refere aos modos de satisfação - mostra que a pobreza não é somente um menos, mas que também é um mais, que na miséria atual participa o consumo da droga, o consumo de armas, a dependência química. Já não se pode pensar somente na lógica da falta, há um monte de processos de subjetivação onde podemos ver que há uma fragmentação, e portanto, se estes antagonismos que formam parte da dinâmica social querem tomar uma forma política, devem ser tomados em conta todos estes fatores.

Por que você acredita que ser lacaniano implica em ser de esquerda?

Lacaniano e de esquerda não são palavras que andam juntas. Primeiro porque Lacan nunca foi de esquerda. Com respeito aos projetos da esquerda clássica sempre teve uma relação crítica. No entanto, Lacan é um pensador radical, entendeu muito bem a lógica capitalista, entendeu muito bem os efeitos da técnica no mundo contemporâneo. Portanto, posto que a esquerda já não dispõe daquele sujeito histórico que prometia a transformação, pode encontrar em Lacan uma oportunidade para renovar seu discurso.

Como encontraria essa oportunidade?

Ao poder ver de que maneira se pensa a realidade, a que, a partir de Lacan, não é uma coisa contínua. Em Lacan há uma oposição muito clara entre o real e a realidade. O real é o que não se simboliza na realidade. Portanto, os sujeitos constroem diferentes tipos de respostas com respeito a esse real que é impossível de simbolizar. Até agora os projetos de transformação partiam do suposto de que somente com a tomada de consciência, somente através da crítica e através da análise objetiva da realidade, se poderia iniciar um processo de mudança. Mas a partir da lógica lacaniana, que exige a construção de mediações, isto já não está garantido. Esta ausência de garantias tem levado alguns lacanianos a se tornarem conservadores, irônicos, ou a exercer uma espécie de ceticismo lúcido. Mas, por outro lado, também se pode aproveitar esses mesmos obstáculos para repensar os projetos políticos, como o faz Ernesto Laclau.

De algumas passagens da sua obra parece surgir a ideia de que a psicanálise sempre foi de esquerda. É assim mesmo?

É curioso porque Freud (ao lado) nunca acreditou nos processos revolucionários e Lacan tampouco. Minha afirmação é que a psicanálise tem sido um sintoma na esquerda. No entanto, os momentos mais fecundos da psicanálise tem a ver precisamente com uma discussão que sempre buscou transformar a civilização. Há sempre duas possibilidades: se pode ser hegeliano de esquerda ou hegeliano de direita, se pode ser heideggeriano de esquerda ou heideggeriano de direita.

Pode?

Sim.

Como?

Heidegger não era de esquerda. Ainda assim, toda a descrição do mundo da técnica foi finalmente assumida pela esquerda, porque Heidegger (ao lado direito) entendeu que a técnica não era simplesmente um instrumento técnico, mas uma maneira de situar todos numa sociedade do espetáculo onde iríamos virar imagem, como está confirmado atualmente na realidade. Portanto, hoje em dia, a leitura heideggeriana do mundo contemporâneo é parte dos instrumentos críticos. Esse é o caso de um pensador que não surge do âmbito da esquerda, e que de qualquer forma grandes discípulos - inclusive judeus - o transformaram numa referência para a esquerda. Em outra ordem poderia também funcionar as teses lacanianas. Lacan entendeu como era o que podemos chamar de o discurso capitalista, que tipo de lógica o regia. Ele pensou bem todos os obstáculos que há do lado do sujeito para assumir um processo de mudança. No entanto, se no momento a esquerda não assume em definitivo o entendimento de como estão os sujeitos, estaria numa posição idealista, seguiria desconhecendo um dos motores decisivos para o que seja a mudança política.

Hoje, o que é ser de esquerda na América Latina?

Dá a impressão de que é mais fácil pensar o que é ser de esquerda na América Latina que na Europa, neste momento. Não podemos imaginar como é a saída do capitalismo. É mais fácil imaginar o fim do mundo que a saída do capitalismo. Pela sua lógica cultural, pela presença da imagem e a sociedade do espetáculo, pelas possibilidades que transformar tudo em mercadoria, inclusive a subjetividade. Daí a importância da psicanálise.

Por que você atribui tanta importância à psicanálise?

Porque estamos num tempo histórico onde o subjetivo mesmo se introduziu na forma mercadoria. Então, ser de esquerda é pensar que mesmo que não seja possível conceber esse exterior, o capitalismo é uma realidade histórica contingente, não é a última palavra da condição humana, não é eterno. Não há nada que nos garanta qual é essa saída, diferentemente de outras épocas. Voltamos ao fragmentário, onde alguém pode dizer: "Isto é apenas uma etapa, que precede a outra, onde haverá um sujeito histórico que nos conduzirá a esta outra etapa". Não há nada que garanta esta saída. No entanto, é parte da aposta poder pensar em quê condições uma saída tal seria possível.

Como você define "a política da psicanálise"?

A política específica da psicanálise se refletiu muito bem quando Lacan pretendeu construir a sua escola. Por um lado, a experiência analítica leva ao sujeito que leva adiante esta experiência, a ir além das suas identificações. Por sua vez, se tem que pertencer a uma escola, como pertence a uma escola alguém que sempre tomou distância de suas identificações. Porque, em geral, quando se pertence a um conjunto é através de identificações, através daquilo que Freud chamava de "psicologia de massas". Em geral, os conjuntos se organizam por significantes, patrões que funcionam como ideais e se misturam aos sujeitos.

Como se pensa um coletivo que não está organizado através da identificação?

Esse é um problema político da psicanálise. Um coletivo fica interessante quando não se orienta somente pela identificação, porque um coletivo regido pela identificação, cedo ou tarde, termina na inércia, numa segregação, num recuo. Então, um coletivo que não seja somente construído pela identificação é uma das experiências políticas mais cativantes. A psicanálise, do ponto de vista político, não aposta no fortalecimento das identificações. Este é um debate com outros movimentos políticos que reivindicam o identitário. Na psicanálise, as possibilidades de transformação se abrem na medida em que nem tudo está jogado no plano da identificação.

Além da identificação, quais são esses outros componentes que garantem a luta de um coletico através do tempo?

Uma causa. Mas, diferente de outras épocas, onde ainda se podia objetivar a causa, conhecê-la e colocá-la diante de todos, esta causa hoje está pouco sólida, não tem um fundamento que se possa apresentar claramente e também tem muito de aposta.

Frequentemente se vincula a psicanálise a uma prática para poucos, essa ideia não é contraditória na relação da psicanálise com a esquerda?

Que a psicanálise esteja vinculada a poucos evidentemente é parte da lógica cultural deste momento histórico. Meu propósito não é transformar os psicanalistas numa corrente de esquerda, mas que na esquerda surja como problema algo explicado na psicanálise. Tenho insistido na difícil tensão de conciliar estes dois legados - posto que minha herança simbólica é tanto a psicanálise quanto o meu pertencimento à esquerda - sem nenhuma expectativa de casar estes dois termos, mas também vivendo uma tensão irredutível com respeito a eles. O que me interessa é que emerja algo que a esquerda em geral não se deu conta, mas depois de experiências históricas me parece que vale a pena que se tenha em conta que o mal-estar na civilização descrito por Freud, o discurso capitalista descrito por Lacan e as maneiras em que um sujeito está constituído. Porque sem pensar como um sujeito está constituído, é impossível pensar num processo de transformação.

Como se pensa hoje o mal-estar na civilização?

Há muitos modos de pensar, todos podem ser suscetíveis de uma articulação. Primeiro, com a despolitização: a política perdeu a sua condição, já não tem a dignidade de uma experiência. Em segundo lugar, com a impossibilidade de construir relatos simbólicos. Cada vez mais, o estímulo aos modos de gozar produz o que é estar a sós com a pulsão de morte, sem poder construir nenhum relato: aí temos uma definição psicanalítica ou lacaniana da miséria. Em segundo lugar, então, esta corrosão dos relatos. Em terceiro lugar, na presença de um mundo que estimula cada vez mais a dizer tudo, a contar tudo em partes, para que tudo se transforme em mercadoria. Isto, na aparência, parece muito subjetivo, mas é um assassinato da subjetividade, porque o sujeito não faz a experiência do que é habitar a língua, faz sim uma experiência de disciplinamento.

Por que é mais fácil pensar a esquerda desde a América Latina que desde a Europa? Que acontece hoje na Europa com a possibilidade de pensar a esquerda, sobretudo no pós crise?

A Europa está sempre se protegendo do que vem, porque tem o sentimento de ter sido muito importante e de que tudo o que vem pode piorar o quadro. Então, está muito conservadora. A crise econômica gerou novas formas de racismo, já previsto pelo próprio Lacan (ao lado esquerdo) quando dizia ser desnessário uma ideologia explícita para ser racista. O racismo, como um fenômeno da própria subjetividade, como um fenômeno que se constroi espontâneamente, inclusive de costas para o próprio sujeito. O sujeito é racista e não sabe mesmo em que medida o é. Há uma espécie de metamorfose política que tem muito a ver com a presença do estrangeiro e os fenômenos racistas. Por sua vez, a presença da técnica, a estrutura midiática e os movimentos do capital tem logrado estabelecer um sistema em que as opiniões políticas não apresentam um antagonismo, se constroem sempre num consenso, se trata de ver quem é que faz melhor, quem administra melhor. Na Europa, a política está capturada pela sua dimensão gerencial e administrativa, não aparece a invenção nem a possibilidade de construir um relato de emancipação. Não aparece o problema da justiça nem o da igualdade, porque se supunha que isto estava superado.

Muitas vezes se pensa a crise como oportunidade. Por que esta crise não pode ser uma oportunidade na Europa?

O que se chama crise não é uma crise do capitalismo. O capitalismo tem uma estrutura tal que não entra em crise, o que entram em crise são as instituições que o querem regular. E como se produziu um desmantelamento da experiência política, a crise está sendo paga pelo imigrantes, os trabalhadores, que não dispõe de arsenal teórico, crítico, nem simbólico para enfrentar, porque houve muitos anos de despolitização. Por exemplo, Itália, que tem um dos partidos comunistas mais importantes do mundo, neste momento está sob o fenômeno Berlusconi.

Novamente...

Novamente. É uma catástrofe moral na Itália. Mas, para não ter somente uma visão obscura do assunto, penso na contingência, outra lição da psicanálise. Antes se pensava os processos sociais como contínuos e objetivos, agora se pensa cada vez mais que o contingente pode-se introduzir, a emergência de um sujeito é a emergência de algo novo. Pode ser que a contingência introduza algo imprevisível que agora não possamos pensar. Na Europa, se olha a América Latina como uma espécie de retrocesso, não estão pensando desde a invenção de algo novo, que implica esta construção latinoamericana.

E você como enxerga a realidade política latinoamericana?

Para mim a nova subjetividade está na América Latina. Primeiro, porque está construída com outra lógica, não como antes, que se sabia como iria acontecer. Neste momento, estão se inventando os processos. Não são relatos que estão assegurados de antemão e podem ser objetivos ou estejam determinados qual é o sujeito que os levará adiante. Mas sim que estão improvisando, mas por sua vez com uma perspectiva histórica de a quê legado pertencem, a quê herança simbólica pertencem. Então, esta dupla conjunção de a quê legados se pertencem, mas por sua vez a ideia de que há previamente um conceito determinado. De que há sim que inventar, e de como esta América Latina me parece apaixonante e muito diferente do que agora está acontecendo na Europa.

Pode-se pensar que na América Latina está acontecendo, ao mesmo tempo, um processo de despolitização?

Não, creio que na América Latina está se produzindo uma coisa diferente que a despolitização. Na Europa, por exemplo, esta crise tem naturalizado as leis de mercado, parece que são leis que emanaram de um lugar que não se pode discutir. Se diz: "Bom, agora vamos produzir isto e vamos fazer o ajuste porque o mercado assim manda". E as armas críticas para poder discutir isto não comparecem. Há reivindicações setoriais, sindicais, há fragmentos, mas não aparece uma articulação que permita pensar as coisas de outro modo.

Então, é o sistema político que está em crise?

O sistema político se encontra num momento do capitalismo onde já não tem o socialismo como referência, se tem como o discurso universal. Retrocedeu para construir a sua legitimidade, aceitou muitas condições das quais agora é muito difícil se livrar.

Por que você acredita que a Europa enxerga como um retrocesso o que está acontecendo na América Latina?

Um paradigma muito importante dentro da esquerda europeia é o paradigma do diálogo. Os cidadãos têm que discutir quais são as melhores condições, isto é o democrático. Cada setor tem que reivindicar seus direitos, seus interesses, sempre na perspectiva de construir um consenso. Claro, quando aparece na América Latina um líder político - e que resulta que nem todos são cidadãos porque há muitos excluídos - que deve tomar determinações que não estavam no consensual e não respondem a um diálogo prévio concertado, mas que exigem uma decisão... bem, isto na Europa se traduz como populismo, mas de uma maneira negativa.

Que opinião eles têm do populismo?

Há um uso pejorativo desta categoria, eles confundem com demagogia, com manipulação. Mas se poderia tentar restabelecer - por exemplo, um teórico como Ernesto Laclau (ao lado) tem feito isso - uma dignidade dessa expressão, para entender que o momento populista é um momento que não se pode eliminar da política mesma e que corresponde precisamente a este momento onde se toma uma decisão que não está previamente garantida por procedimentos normativos, mas que emerge para responder a um determinado estado da realidade. Neste sentido, o populismo é um momento de soberania. Então, se quisermos restabelecer a dignidade, haveria que separar este termo das manipulações demagógicas. Por exemplo, dizem que Berlusconi é populista, mas acredito que é um demagogo de direita. Assim, o que é historicamente um insulto, poderíamos subvertê-lo em sua significação e tomá-lo como um momento da política e de construção de projetos novos. [...]

Entrevista conduzida por Natalia Aruguete e Bárbara Schijman. Publicado hoje (13/9) no jornal argentino Página/12. Tradução de Cristóvão Feil.

sábado, 11 de setembro de 2010

Serra faz pajelança gospel



- Vai dar tudo certo! - canta o líder da direita brasuca, José Sobrenatural de Almeida Serra, em cerimônia sincrética entre o mágico e o eleitoral.

As vítimas do 11 de Setembro chileno



A banda argentina de ska, Los Fabulosos Cadillacs, faz homenagem ao professor, poeta e músico chileno Victor Jara, sequestrado, torturado (teve as duas mãos decepadas) e depois covardemente assassinado pela ditadura neoliberal-pinochetista em 16 de setembro de 1973.

11 de setembro de 1973, Santiago do Chile



A estratégia do golpe e o advento do neoliberalismo

Neste documentário, chamado A Batalha do Chile, o diretor Patricio Guzmán conta com grande realidade e crueza o golpe civil-militar de 11 de setembro de 1973 que derrubou o governo constitucional de Salvador Allende, no Chile. Sempre, claro, com a inestimável ajuda dos Estados Unidos.

O Chile acabou servindo de laboratório do neoliberalismo para as suas políticas de submissão às economias centrais e ao sistema financeiro mundial.

Quando Pinochet dá o golpe em 11 de setembro, já o faz em nome de um plano econômico chamado El ladrillo, formulado por economistas chilenos e estadunidenses egressos da Universidade de Chicago, os chamados Chicago-boys, devotos da conhecida escola econômica austríaca, que visa glorificar a moeda e promover a hegemonia completa do capital financeiro, em detrimento da produção, do trabalho e da promoção de políticas sociais que diminuam a desigualdade.

Assim, o ciclo ultraliberal, a hegemonia avassaladora do capital financeiro e a ideologia do pensamento único, iniciado em 11 de setembro de 1973, no Chile, contamina o mundo inteiro através do fenômeno da globalização (aliado à aplicação intensiva das novíssimas tecnologias da informação) e se fecha simbolicamente em 15 de setembro de 2008 com a liquidação do banco Lehman Brothers e o abalo estrutural do sistema capitalista que se estende até os nossos dias, num arco temporal de quase quatro décadas.

O vídeo tem 1h25min. A rigor, esta é a segunda parte de um documentário de mais de quatro horas. A primeira parte deste filme (Insurreição da burguesia) pode ser visto aqui. Vale a pena. Ainda tem uma terceira parte denominada El poder popular. Você pode baixar todos os três vídeos aqui.

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