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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Estudos sobre as articulações terrorista-repressivas das ditaduras do Cone Sul


Está disponível na rede a edição especial da revista Taller com o Dossiê Coordinaciones Represivas en el Cono Sur de America Latina (1964-1990), organizado pelo historiador e professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Enrique Serra Padrós e a pesquisadora Melisa Saltman. As articulações da ditadura no estado do Rio Grande do Sul são um dos temas analisados em artigos como:
Rio Grande do (Cone) Sul: La conexión repressiva de seguridade nacional (1960-1985), de Henrique Padrós.

A conexão repressiva entre a ditadura brasileira e o Uruguai (1964-1973). A atuação do Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul, de Ananda Simões Fernandes.

O controle sobre argentinos no Brasil e brasileiros na Argentina: vigilância e repressão extraterritoriais, de Caroline Silveira Bauer.

40 anos do Programa de Pós-Graduação em Sociologia - UFRGS




Vídeo institucional (11 min.) de comemoração dos 40 anos do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Marcha dos Sem se une à marcha de abertura do Fórum Social Mundial Palestina Livre


Os organizadores da 17ª Marcha dos Sem e da Marcha de Abertura do Fórum Social Mundial Palestina Livre decidiram unir as duas manifestações marcadas para hoje, quinta-feira 29, em Porto Alegre. 

A Marcha dos Sem iniciará sua concentração às 15 horas na Praça Otávio Rocha, no centro de Porto Alegre, e se encontrará com a marcha de abertura do Fórum por volta das 17 horas, no Largo Glênio Peres. Deste local, as duas marchas seguirão unidas com destino à Usina do Gasômetro onde ocorrerá um ato-show. 

Organizada anualmente pela Coordenação dos Movimentos Sociais do Rio Grande do Sul, desde 1996, a Marcha dos Sem tem como eixo principal este ano a luta pelo fim de todos os muros que geram desigualdades, injustiças, racismo, machismo e destruição do meio ambiente.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Centenas de jovens fazem manifestação pela qualidade da educação no País


Nesta quarta-feira (28), cerca de 800 jovens de diversas regiões do estado (Erechim, Porto Alegre, Santa Maria, Pelotas, São Borja, Alegrete, Cachoeira do Sul, Caxias do Sul) estarão mobilizados em Porto Alegre em defesa da educação. 

A mobilização ocorre concomitantemente em doze estados (Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Distrito Federal, Pará) do país e visa denunciar as precárias condições da educação brasileira e apontar alternativas para a sua transformação.

Em Porto Alegre, a mobilização inicia com concentração em frente à Prefeitura às 8h. Logo após, haverá a entrega das pautas da mobilização à administração municipal, principalmente referente à Educação Infantil. O ato segue com marcha até o Palácio Piratini, que culminará com audiência junto ao Governo do Estado, no qual a juventude apresentará a proposta de tornar o estado território livre de analfabetismo. 

Após, os jovens realizarão uma caminhada até a Universidade Federal do RS (UFRGS), onde serão recebidos na Reitoria para realização de audiência. A principal reivindicação é a implementação imediata da Lei Federal que assegura 50% das vagas do vestibular para alunos negros e de baixa condição sócio-econômica. No período da tarde, oficinas e intervenções serão realizadas.

A mobilização em Porto Alegre integra a campanha nacional por um Projeto Popular para a Educação, promovida desde o início de novembro pelo Levante Popular da Juventude. A campanha busca apontar respostas para a educação, que atendam as demandas históricas da população brasileira. Tornar o Brasil um território livre do analfabetismo é uma das pautas da Campanha, visto que, atualmente, 9,6% dos brasileiros acima dos 15 anos não sabe ler e escrever, segundo o IBGE. A criação de creches para mães estudantes, o acesso pleno à Universidade, a oferta de cursinhos pré-vestibulares e pré-ENEM à população, a educação do e para o campo, o acesso ao transporte e à cultura e a regulamentação das Universidades e faculdades particulares são também pontos de reivindicação.

O Levante Popular da Juventude é um movimento social organizado por jovens que visa contribuir para a criação de um Projeto Popular para o Brasil. Não é ligado a partidos políticos.
 
Com caráter nacional, tem atuação em 17 estados do país. Sobre a mesma identidade se propõe a organizar a juventude seja ela do campo ou da cidade, estudantes ou moradores das periferias urbanas, para defender os seus direitos.

Além disso, o Levante organiza a juventude para fazer denúncias à sociedade, por meio de ações de Agitação e Propaganda. Em 2012, organizou manifestos pela responsabilização dos militares acusados de tortura durante o período da ditadura civil-militar. O Levante Contra a Tortura foi realizado em vários estados do país, através de ações de escrachos em frente à casa e locais de trabalho dos militares.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O homem que medita continua sendo um animal depravado



O pensar como doença

"O estado de reflexão é contra a natureza. O homem que medita é um animal depravado." Tais afirmações de Rousseau parecem servir de guia involuntário para setores hegemônicos da clínica do sofrimento psíquico.

Há anos, a filósofa francesa Joëlle Proust foi capaz de afirmar que o sofrimento psíquico não teria relações com a forma com que o paciente reflete sobre seus sintomas a partir de suas próprias convicções e motivações.

Com isso, ela apenas dava forma a um princípio que parece guiar dimensões maiores da psiquiatria contemporânea. Ou seja, tudo se passa como se não houvesse relações entre a maneira com que sofremos e a maneira com que pensamos e procuramos justificar nossas vidas a partir de valores e normas.

Essa é uma boa maneira de evitar o trabalho mais doloroso exigido pelo tratamento de modalidades de sofrimento psíquico, a saber, a crítica dos valores, normas e formas de pensar que constituem, tacitamente, nosso horizonte de uma vida bem-sucedida.

A fim de evitar tal trabalho crítico, que certamente é o que há de mais difícil, parece que nos tranquilizamos com ideias como as da professora Proust. Elas acabam por servir para fortalecer a crença de que só haveria cura lá onde abandonássemos o esforço de pensar sobre nós mesmos. No fundo, talvez porque ainda estejamos presos a resquícios deste antigo paralelismo que associava, por exemplo, a melancolia ao ato de "pensar demais".

Décadas atrás, François Truffaut fez um belo filme sobre uma sociedade no futuro onde a polícia queimava livros porque eles trariam infelicidade. Melhor seria garantir a felicidade social por meio de uma política de uso exaustivo de medicamentos.

Tal filme foi a metáfora perfeita para um fenômeno que o sociólogo Alain Ehrenberg chamou, décadas depois, de "uso cosmético" de antidepressivos e afins.

Por "uso cosmético" entendamos o uso de larga continuidade que acaba por visar conservar performances sociais bem avaliadas, evitando ao máximo a experiência com transtornos de humor. Ele é o resultado inevitável do modelo de medicação que impera atualmente. Trata-se de uma distorção daquilo que deveria ser a regra, a saber, o uso focal ligado exclusivamente a situações e momentos de crise aguda.

Tal uso focal procura apenas garantir as condições de possibilidade para que o verdadeiro tratamento ocorra. Um tratamento que poderá mostrar como, se é a reflexão que nos adoece, é ela também que nos cura.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP.


Seguem as 'relações carnais' entre países...


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O show eleitoral do bom rapaz Obama


Os Estados Unidos forjaram um modelo de democracia que serve de régua e compasso para todos os regimes políticos do mundo conhecido. Fazem passar a ideia de que constituem um paradigma de convivência democrática e tolerância civilizatória. Mas na prática, a teoria (ou a propaganda do american way life veiculado sobretudo pelo cinema) é outra - o seu contrário.

Os Estados Unidos é a nação que mais se envolveu em guerras, em toda a história mundial. Contabiliza-se um conflito sangrento a cada três anos, desde 1793 (fim da Guerra da Independência) até 1991 (Guerra do Golfo). Portanto foram cerca de oitenta guerras distintas, mas que envolvem quase sempre os mesmos motivos: forjar uma personalidade nacional estadunidense coercitiva e policialesca, dentro e fora das fronteiras do País, bem como sustentar um domínio político-militar que satisfaça o imperialismo de seus capitais, em especial do seu complexo industrial-militar. Sem esquecer a guerra atual no Afeganistão, que teve início no ano de 2001, menos de trinta dias depois do suposto ataque terrorista à Nova York, em 11 de setembro daquele ano.

Nos processos eleitorais, onde a propaganda pela democracia estadunidense se faz mais intensa, é justamente o momento onde as maiores contradições do ethos ianque se mostram desnudos e por inteiro. A começar pelo custo - em moeda corrente - das eleições presidenciais. Segundo o jornal britânico, The Guardian, os dois candidatos Romney e Obama - as duas alas do unipartidarismo local, consumiram cerca de 5,8 bilhões de dólares (7% mais onerosa que a eleição de 2008) em três meses de campanha pelos seus respectivos programas, cuja margem de divergência se verifica somente nas franjas dos grandes temas sociais e políticos. Um só exemplo: não há debate acerca dos faraônicos gastos militares. Assunto proibido, porque intocável, porque não há divergência, já está tudo acertado com o hegemônico complexo industrial-militar - entidade fantasmagórica mas de capital importância no contexto do poder político estadunidense.

Sobram as questões ditas polêmicas (classificação essa originada do “senso comum” que brota da mídia conservadora, radar orientador dos graus de debate permitidos, tolerados, vetados e liberados): casamento gay, liberação da maconha, e ficamos por aí, porque do mais importante não se pode polemizar, a não ser nas mesas de bares. A tolerância da chamada democracia mais generosa do mundo é tão estreita quanto as (im)posições do pensamento ultra-conservador, hegemônico tanto na ala democrata quanto na ala republicana do partido único que governa os Estados Unidos desde sempre.

Barack Obama representa a esperança mitigada, o que - noves fora - não quer dizer coisa alguma. A esperança é uma dimensão do sonho da cidadania que jamais pode ser sonegada, nem na parte nem no todo. Se ela se constitui numa mera peça de propaganda para captar votos no espetáculo bilionário do processo eleitoral, se trata de uma esperança prostituída, portanto, sem nenhuma validade corrente para a cidadania. Quem protagonizou essa farsa é um fraudador daquilo que é o bem maior dos despossuídos e desassistidos - a aposta e a luta por um futuro digno e menos injusto de milhões de trabalhadores jovens, aposentados, idosos, negros, latinos e uma faixa crescente da classe média que resvala para a indigência e a necessidade.

O primeiro presidente negro dos EUA é o mesmo que vai ratificar sua política militarista e agressiva pelo mundo afora, o mesmo que permitirá que os seus mariners cometam mais massacres de civis nas aldeias famintas e empoeiradas do Afeganistão, o mesmo que vai manter as cerca de mil bases militares do País pelo mundo afora, o mesmo que irá continuar expulsando imigrantes, o mesmo que irá fazer vista grossa para execução em massa das fatídicas hipotecas imobiliárias (usina de homeless) e favorecer o sistema especulativo de Wall Street sem nenhuma contrapartida social pelo auxílio que o Estado lhe prestou no momento crítico e falimentar de sua existência.

A aparência de Obama, sua negritude, seu charme, sua simpatia, sua popularidade, sua performance como ator dramático e sobretudo como mediador do contrato social (leonino e desequilibrado) cai como uma luva para o establishment branco e endinheirado estadunidense. Ele representa uma síntese da nacionalidade multicultural do País, representa a imagem (e somente esta) que o verniz democrático do Império quer exibir ao mundo, representa com riqueza de detalhes a terra de oportunidades que o capitalismo ianque quer brindar a civilização ocidental, representa a legitimação de uma ética social que promete glórias aos vencedores, mas infunde perseverança infinita aos perdedores (especialmente quando estes aumentam em proporção geométrica a cada crise do capital).

Mais um bilionário show eleitoral terminou nos Estados Unidos. Venceu o mais do mesmo, ainda que esse mesmo não tenha se dado conta que se encontra num plano inclinado, sem rota de retorno.

Artigo de Cristóvão Feil, publicado originalmente na edição de papel do Jornalismo B.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Polícia gaúcha tem um Sherlock Holmes e não sabia



Vinte e três dias depois do assassinato do ex-chefe do DOI-Codi, o delegado da Polícia Civil/RS, Luís Fernando Martins de Oliveira, é categórico, e está tão seguro do que afirma que chegou a fazer declarações peremptas ao jornal ZH: "Pelo que consta ali, já descartamos a hipótese de o coronel ter sido morto por vingança em razão da atividade no Exército".

Ocorre que o falecido coronel Julio Miguel Molinas Dias, assassinado no último dia 01 de novembro, em Porto Alegre, não tem um passado nebuloso e contestado pelo fato de ter tido "atividade no Exército", mas sim por ter sido chefe do DOI-Codi, à época do atentado terrorista (perpetrado por membros das Forças Armadas do Brasil, sem farda) ao Riocentro, no Rio de Janeiro, no ano de 1981.

É de estranhar, portanto, a conclusão-relâmpago do delegado da Polícia gaúcha. Com tantas hipóteses a serem investigadas, o delegado se sente suficientemente seguro para prestar uma declaração à imprensa com convicções formadas e inabaladas pela dúvida ou pela incerteza, mesmo sabendo que tenham passados mais de três décadas do atentado da tigrada ao Riocentro.

Ora, o coronel assassinado em Porto Alegre, foi nada menos que o chefão da tigrada, segundo o jargão das próprias Forças Armadas para aqueles militares renitentes em aceitar os termos do "processo de abertura lenta, gradual e segura" - como queriam o general-ditador Ernesto Geisel e seu sucessor, João Figueiredo.  O general Geisel, aliás, chamava essa linha dura dos seus comandados da repressão de "bolsões sinceros, porém radicais", um eufemismo para designar assassinos e torturadores fardados à serviço do Estado brasileiro.

Tão radicais, que não hesitaram em tentar colocar bombas assassinas em um local fechado, onde se realizaria um grande show musical com milhares de civis, inocentes todos. A sorte é que a bomba - por uma trapalhada dos seus operadores - acabou explodindo antes da hora, e justo no colo de um dos terroristas chefiados pelo coronel Molinas Dias, assassinado dias atrás em Porto Alegre.  

Diante da certeza - manifestada publicamente à imprensa - do delegado Martins de Oliveira é de sugerir que o mesmo seja condecorado com alguma ordem do mérito por genialidade investigativa. A Polícia civil gaúcha tem um Sherlock Holmes e não sabia.

Alerta global: caminhamos céleres para um aquecimento de + 4 graus centígrados



A próxima rodada de negociações do tratado climático internacional começa na segunda-feira em Doha, no Qatar, com mudanças na geopolítica dos países emissores de gases-estufa. Há novas alianças também entre as nações que mais sofrem o impacto da mudança climática. A CoP-18, como se chama o encontro anual das Nações Unidas, deve mostrar coalizões mais complexas e blocos mais fragmentados dentro do tradicional confronto Norte-Sul. A informação é do jornal Valor, edição de hoje.

Há anos este fórum de negociação opõe os países desenvolvidos, mais industrializados e com um histórico de emissões, ao mundo em desenvolvimento. Os países ricos, à exceção dos Estados Unidos, têm compromissos obrigatórios de corte nas suas emissões de gases-estufa previstas no
Protocolo de Kyoto. Os países em desenvolvimento só têm metas voluntárias - essa é uma diferença fundamental e sempre definiu dois eixos políticos nos encontros de clima. Em Doha pode ser diferente.

Os países-ilha e as nações mais pobres do mundo formam alianças próprias, mas sempre negociaram dentro do grande bloco dos países em desenvolvimento, conhecido por 
G-77+China, e que reúne mais de uma centena de nações tão diversas como Haiti ou Índia. Mas na Rio+20, a conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável que aconteceu em junho, no Rio, as pequenas ilhas e muitos países africanos defenderam propostas daUnião Europeia. A mais famosa delas era a de transformar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em uma agência ambiental mundial - ideia que saiu derrotada por pressão dos EUA com apoio (ou omissão) de China, Índia e Brasil, por exemplo.

Esse novo contorno de alianças pode ressurgir em 
Doha. As pequenas ilhas são os países mais afetados pela mudança do clima. Já sofrem com o avanço do mar sobre seus territórios. Costumam pedir que os países emissores façam cortes mais ambiciosos e mais rápidos de gases-estufa. Defendem, por exemplo, que a CoP-18 comece a negociar o novo acordo climático internacional, que tem que estar pronto em 2015 - ideia que economias emergentes como Índia, China, Brasil e África do Sul não defendem para o encontro no Qatar.

Os emergentes querem que os desenvolvidos se comprometam, em Doha, com metas mais ambiciosas de cortes de emissão para o segundo período do 
Protocolo de Kyoto, a partir de 2013.

Para fazer frente a essa aliança entre países-ilha, nações mais pobres do mundo e 
União Europeia, um novo grupo com cerca de 35 nações ganha força dentro do G-77+China. Reúne Índia e China, Arábia Saudita, Sudão, Egito, Argentina e Malásia entre outros e se chama "Like Minded Group" (algo como "grupo que pensa da mesma forma"). É uma aliança política para o novo tratado climático internacional, que deve começar a funcionar em 2020. Brasil e África do Sul não fazem parte deste bloco.

"O
G-77+China saiu muito fortalecido da Rio+20 e está muito unido para a CoP-18", disse ao Valor o chefe dos negociadores brasileiros, embaixador André Corrêa do Lago. "Mas, claro, como sempre há opiniões divergentes sobre certas questões", reconhece.Doha mostrará, também, que há muitas divergências no bloco dos países desenvolvidos. Os EUA, por exemplo, estão fora de Kyoto, deixando sozinha a União Europeia. Japão, Nova Zelândia e Rússia estavam dentro do primeiro período de compromissos de Kyoto, de 2008 a 2012. E de acordo com todas as regras que definem compensações de emissões entre países, licenças para emitir e créditos de carbono. Agora será diferente.

A pauta principal do encontro em
Doha é definir o segundo período do Protocolo de Kyoto: seu prazo - de 2013 a 2017 ou de 2013 a 2020 -, quais países ricos estarão dentro e quanto irão cortar. Mas o Japão, a Nova Zelândia e a Rússia não devem fazer parte dessa nova fase. A União Europeia, a Noruega, a Suíça e a Austrália, por sua vez, já se comprometeram com o novo período de Kyoto. O Canadá estava dentro do Protocolo no início, mas desistiu no meio do caminho. Ou seja, aqui também há muitas divisões. Antes havia os países ricos dentro de Kyoto e os EUA fora. Agora não é mais assim.

Os negociadores sentirão, em
Doha, pressão de ambientalistas e também de entidades empresariais, que querem cenários mais claros. "Doha tem que definir, no mínimo, uma agenda de trabalho que viabilize o que os cientistas recomendam e como chegaremos a 2015", diz Carlos Rittl, coordenador do programa de clima e energia do WWF-Brasil, mencionando a data em que o acordo global deve estar fechado.

Segundo ele, os governos deveriam definir, em
Doha, qual a natureza do instrumento que será negociado - um protocolo ou um acordo, por exemplo - e um calendário claro para 2013. "Estamos caminhando para um mundo com aquecimento de 4°C", diz. "É hora de conseguirmos evitar isso."

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O poeta Orelhinha e o revolucionário Bonito



Direitos Humanos, Movimento Estudantil e Comissão da Verdade”: esse é o tema do painel que será realizado dia 24 de novembro (sábado), das 9 às 12 horas, no anfiteatro do Colégio Julio de Castilhos, Av. Piratini, 76 - Bairro Santana, Porto Alegre.

Participarão do encontro Claudio Gutierrez (que falará sobre Luiz Eurico Lisboa, assassinado em São Paulo), Luiz Alberto Basso (que falará sobre seu irmão Jorge Alberto Basso, desaparecido na Argentina, durante a ditadura de 1976) e Calino Pacheco Filho (que falará sobre Nilton Rosa da Silva, assassinado em Santiago do Chile, por um comando de ultradireita, durante a ditadura pinochetista).

As fotografias deste post são registros do concorrido enterro do militante brasileiro, nascido em Cachoeira do Sul (RS), Nilton Rosa da Silva, conhecido como Orelhinha ou Bonito, dublê de revolucionário e poeta. 

No Chile, Orelhinha militou no MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria). Foi assassinado com um tiro na testa, numa avenida de Santiago  
por franco-atiradores fascistas, postados no topo de edifícios, durante uma manifestação de massa contra o golpe que viria a acontecer meses depois, em 11 de setembro de 1973. 

O golpe no Chile contou com a ajuda secreta dos governos dos Estados Unidos e do Brasil. 

Em Santiago, hoje, há uma avenida com o nome do poeta Orelhinha ou revolucionário Bonito, Nilton Rosa da Silva.






segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O governo Dilma abandonou completamente o projeto da reforma agrária


A reforma agrária está patinando no governo da presidente Dilma Rousseff. O sinal mais evidente está nos números acumulados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Segundo o último dado sobre assentamentos disponível no órgão, com data de 16 de novembro, o governo assentou 10.815 famílias neste ano. É a taxa mais baixa registrada neste mesmo período em dez anos e representa apenas 36% da meta estabelecida para 2012, de 30 mil famílias. A informação é do Estadão, edição de hoje.

A menos que haja uma dramática alteração no ritmo de assentamentos nos próximos dias, a marca de assentamentos deste ano corre o risco de ficar atrás da registrada em 2011 - a pior dos últimos 16 anos, com 21.933 famílias beneficiadas pela reforma agrária.

Nos dois mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a quem o PT acusava de menosprezar a reforma agrária, a marca mais baixa foi de 42.912 assentamentos - foi em 1995, primeiro ano de governo.

Neste ano, o Incra parece ter engatado a marcha lenta. Do total de R$ 3 bilhões destinados neste ano àquela instituição no Orçamento da União, só 50% foram liquidados até agora, segundo informações do Siga Brasil - sistema de acompanhamento de execução orçamentária do Senado. No caso específico da verba para aquisição de terras para a reforma agrária, o resultado é mais desalentador: até a semana passada haviam sido autorizados gastos de 41% do total de R$ 426,6 milhões desta rubrica.

O problema preocupa o PT, o partido da presidenta. Na semana passada, o deputado Valmir Assunção (BA), coordenador do Núcleo Agrário do PT na Câmara Federal, ocupou a tribuna daquela Casa para fazer um alerta, como ele definiu: "Alertamos ao governo e à sociedade brasileira da paralisação da reforma agrária no Brasil, com a diminuição, cada vez mais visível, da obtenção de terras para novos assentamentos".

O deputado chegou a propor a formação de uma força tarefa nacional, para evitar um resultado igual ou pior do que o de 2011. "Ou fazemos isso ou, mais uma vez, amarguraremos um pior índice de reforma agrária", afirmou.

No Movimento dos Sem Terra (MST), o maior do País e historicamente próximo do PT, a insatisfação é crescente. "Estamos insatisfeitos e decepcionados. O governo Dilma abandonou completamente o projeto da reforma agrária", diz Alexandre Conceição, integrante da coordenação nacional e porta-voz do movimento.

O diálogo dos movimentos sociais com o governo, segundo o líder dos sem terra, piorou desde que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou a Presidência da República em 2010. "Já tentamos de todas as maneiras dialogar com esse governo, já tomamos muita água e muito cafezinho, mas não conseguimos nada porque o núcleo central do governo não quer saber da reforma. Daqui para a frente, vamos partir para o conflito com o latifúndio. Estamos preparando grandes jornadas de luta para o ano que vem", afirma Conceição.

O MST também critica a estratégia do governo de fortalecer os assentamentos já existentes com o apoio do Programa Brasil sem Miséria, por meio de convênios de cooperação entre os ministérios do Desenvolvimento Social e Desenvolvimento Agrário. "O Brasil sem Miséria é um programa compensatório, que se destina a tirar o sujeito da miséria, sem mexer no índice de concentração fundiária do País. Dá o peixe, mas não ensina a pescar", critica o porta-voz do movimento.

A única coisa que o MST assinala a favor da presidente Dilma é o fato de não ter sido ela a responsável pelo início do atual processo de desvalorização da reforma. "O governo federal começou a amarelar lá em 2008", afirma Conceição.

A observação se baseia na estatística. Quem observar a série histórica com números do Incra, nesta página, verá que Lula promoveu um salto no nível de assentamentos nos anos 2005 e 2006. Neste último foi registrado o maior índice da história, com a distribuição de lotes da reforma para 117 mil famílias.

De lá para cá, porém, a tendência tem sido de declínio. Por esse viés, Dilma teria apenas dado continuidade ao processo.

Entre os integrantes dos movimentos sociais, há a percepção de que o salto ocorrido em 2005 possa ter ocorrido devido a razões políticas. Foi naquele ano que eclodiu o escândalo do mensalão, agora em julgamento pelo Supremo Tribunal Federal. Naquela época, chegou-se a cogitar um possível impeachment do presidente. Para se fortalecer, Lulapromoveu uma reaproximação do governo e de seu partido, o PT, com os movimentos sociais, entre eles o MST.

Quanto a 2006, foi o ano em que Lula se candidatou à reeleição - e venceu.
Demarcações de quilombos também seguem em ritmo lento
As dificuldades do Incra não afetam só os projetos de reforma agrária. A demarcação de terras de comunidades quilombolas, de responsabilidade daquela instituição, também está quase paralisada. Na semana passada, às vésperas do Dia da Consciência Negra, que se comemora amanhã, a Comissão Pró Índio de São Paulo divulgou um levantamento mostrando que neste ano apenas uma comunidade conseguiu obter o título de posse definitivo da terra com apoio do Incra. No ano passado foi registrada a mesma marca.

De acordo com a antropóloga Lúcia Andrade, coordenadora da Comissão Pró Índio e responsável pelo levantamento, existem quase 3 mil comunidades quilombolas no País. Desse total, cerca de mil já abriram processos reivindicando a demarcação e a titulação das terras em que vivem. A maior parte, porém, não passou sequer da fase inicial. "Calculamos que 87% não têm nem o relatório inicial de identificação do território, a partir do qual se pode discutir, contestar ou confirmar a reivindicação dos quilombolas", explica a antropóloga.

A demora, na avaliação dela, se deve à falta de estrutura do Incra para atender à demanda. "O governo federal, no governo do presidente Lula, encarregou o Incra de levar adiante essa tarefa, o que foi muito positivo, mas não preparou a instituição para isso", diz Lúcia. "Apesar de insuficientes, os recursos do Incra para demarcação e titulação não são gastos integralmente, devido à falta de pessoal. Faltam técnicos em levantamento fundiário, antropólogos, agrônomos e geógrafos."

Em todo o País, 193 comunidades quilombolas já conseguiram documentos de titularidade das terras em que vivem. Na maioria das vezes, foram concedidos por governos estaduais. O Pará lidera a lista, com 45 títulos desde 1995.

Na esfera do governo federal, as comunidades obtiveram 12 títulos nos oito anos do mandato do presidente Lula. A média, portanto, seria 1,5 título por ano. "Não é um número favorável para o Lula", diz Lúcia.

Ela contesta a informação normalmente dada por assessores do governo de que as principais dificuldades para a demarcação e titulação de terras estariam no Judiciário. "O número de processos parados no Judiciário não chega a 20", afirma. "O problema maior está no Executivo. O Incra não dá conta da tarefa."

Lúcia explica que a obtenção das terras de quilombos é mais complicada do que no caso das áreas para assentamentos. "Na reforma agrária normalmente se discute a desapropriação de uma fazenda, enquanto um quilombo frequentemente envolve terras de várias propriedades."

A crítica da antropóloga é reforçada por Reginaldo Aguiar, diretor da Confederação Nacional das Associações dos Servidores do Incra. "As deficiências do instituto estão aumentando a cada dia", afirma.

Ele observa que a greve de funcionários que paralisou quase totalmente a instituição neste ano também foi para protestar contra o descaso do governo. "Logo no início do ano, cortou 25% do orçamento. Depois, contingenciou parte dos recursos. Por outro lado, não realiza concursos para a contratação de mais funcionários nem realiza a reestruturação do Incra, prometida desde o governo Lula."

Segundo a assessoria do Incra, do orçamento de R$ 47 milhões destinados à questão dos quilombolas neste ano, 87,5% já teriam sido empenhados.
Greve e troca de chefia do Incra atrapalharam

A explicação para o baixo nível de assentamentos nos dez primeiros meses do ano se deve à greve dos funcionários do Incra, que atingiu 28 das 30 superintendências regionais e se estendeu por três meses. Embora não seja oficial, essa é a explicação que assessores da instituição dão para os magros resultados deste ano, piores que os de 2011.

Ainda extraoficialmente, os assessores também lembram que a instituição passou por uma troca de presidente, em julho. Isso teria afetado a execução dos trabalhos da reforma.

Procurado pelo Estadão, o presidente atual, Carlos Guedes de Guedes respondeu por meio de sua assessoria que qualquer manifestação sobre os números acumulados até agora seria precoce. Ele prefere esperar a consolidação oficial para se manifestar.

Sabe-se que Guedes e outros dirigentes da instituição, que é comandada por petistas desde 2003, não perderam a esperança de, nos próximos dias, reverter o quadro. Eles se baseiam em séries estatísticas que mostram o seguinte: a maior parte do registro de novos assentamentos ocorre no quarto trimestre.

Na média, nos oito anos do governo Lula, 65% dos assentamentos foram registrados nos três meses de encerramento do ano, período em que aumenta a pressão de Brasília para que as superintendências executem o orçamento. O índice mais alto foi verificado em 2008, quando 91% dos registros ocorreram em outubro, novembro e dezembro.

No dia 23 de outubro, o Incra informou que os assentamentos no ano somavam 4.041. No dia 16 ele já teria saltado para 10.815, segundo a mesma fonte.

Por mais notável que seja o salto ocorrido em 22 dias, o fato é que o número final ainda é o pior do verificado no mesmo período nos últimos dez anos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Às vezes temos soluços de democracia


Como já dissemos, este blog não é democrático. Mas às vezes é acometido de pruridos (ou coceiras) democráticas. Hoje, aconteceu. 

Vejam que estamos divulgando (a pedido dos bravos companheiros da José Martí) uma palestra sobre o inolvidável Kim Il Sung, fundador da Coreia do Norte, como a conhecemos hoje. 

Kim Il Sung foi um stalinista dos mais empedernidos, cobria regularmente a mulher de porrada, e é o avô do atual jovem dirigente norte-coreano Kim Jon Il, fã confesso do rato Mickey (concepção do anticomunista Walt Disney) Já se vê que estamos diante de uma dinastia onde predomina um misto de monarquia consuetudinária com discretos aromas marxistas-leninistas. 

A rigor, Kim criou uma justificação ideológica para entronizar-se no poder e garantir que seu filho e neto o sucedessem na direção do país. A justificação chama-se "Ideia Juche", cujo eixo principal chama-se sistema Songun, onde a política é concebida como uma subordinação do militarismo. Assim, o kimilsonguismo pode ser considerado a quintessência do stalinismo. 

De qualquer forma, deve ser interessante ouvir o que o embaixador da Coreia do Norte tem a nos ensinar. 

Ademais, sugiro a leitura de um artigo do grande intelectual marxista paquistanês, Tariq Ali sobre a Coreia do Norte, ele que esteve lá duas vezes, e diz o seguinte de Kim Il Sung: "Nunca em toda a minha vida senti tamanha aversão a um personagem político de esquerda". 


Vale a pena a leitura, está muito bem escrito, já que Tariq Ali também é escritor de literatura. E dos bons.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Joaquim Barbosa: um homem de palavras




A voz das provas

Foi uma das coincidências de tipo raro, por sua oportunidade milimétrica e preciosa. Várias peculiaridades do julgamento no STF, ontem, foram antecedidos pela manchete ao pé da página A6 da Folha de domingo, título de uma entrevista com o eminente jurista alemão Claus Roxin: "Participação no comando de esquema tem de ser provada".

O subtítulo realçava tratar-se de "um dos responsáveis por teoria citada no julgamento do STF", o "domínio do fato". A expressão refere-se ao conhecimento de uma ocorrência, em princípio criminosa, por alguém com posição de realce nas circunstâncias do ocorrido. É um fator fundamental na condenação de José Dirceu, por ocupar o Gabinete Civil na época do esquema Valério/PT.

As jornalistas Cristina Grillo e Denise Menchen perguntaram ao jurista alemão se "o dever de conhecer os atos de um subordinado não implica corresponsabilidade". Claus Roxin: "A posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato. O mero ter que saber não basta". E citou, como exemplo, a condenação do ex-presidente peruano Alberto Fujimori, na qual a teoria do "domínio do fato" foi aplicada com a exigência de provas (existentes) do seu comprometimento nos crimes. A teoria de Roxin foi adotada, entre outros, pelo Tribunal Penal Internacional.

Tanto na exposição em que pediu a condenação de José Dirceu como agora no caótico arranjo de fixação das penas, o relator Joaquim Barbosa se expandiu em imputações compostas só de palavras, sem provas. E, em muitos casos, sem sequer a possibilidade de se serem encontradas. Tem sido o comportamento reiterado em relação à quase totalidade dos réus.

Em um dos muitos exemplos que fundamentaram a definição de pena, foi José Dirceu quem "negociou com os bancos os empréstimos". Se assim foi, é preciso reconsiderar a peça de acusação e dispensar Marcos Valério de boa parte dos 40 anos a que está condenado. A alternativa é impossível: seria apresentar alguma comprovação de que os empréstimos bancários tiveram outro negociador -o que não existiu segundo a própria denúncia.

Outro exemplo: a repetida acusação de que José Dirceu pôs "em risco o regime democrático". O regime não sofreu risco algum, em tempo algum desde que o então presidente José Sarney conseguiu neutralizar os saudosos infiltrados no Ministério da Defesa, no Gabinete Militar e no SNI do seu governo. A atribuição de tanto poder a José Dirceu seria até risível, pelo descontrole da deformação, não servisse para encaminhar os votos dos seguidores de Joaquim Barbosa.

Mais um exemplo, só como atestado do método geral. Sobre Simone Vasconcelos foi onerada com a acusação de que "atuou intensamente", fórmula, aliás, repetida de réu em réu. Era uma funcionária da agência de Marcos Valério, por ele mandada levar pacotes com dinheiro a vários dos também processados. 

Não há prova de que soubesse o motivo real das entregas, mesmo admitindo desde a CPI, com seus depoimentos de sinceridade incomum no caso, suspeitar de motivo imoral. Passou de portadora eventual a membro de quadrilha e condenada nessa condição.

Ignoro se alguém imaginou absolvições de acusados de mensalão. Não faltam otimistas, nem mal informados. Mas até entre os mais entusiastas de condenações crescem o reconhecimento crítico do descritério dominante, na decisão das condenações, e o mal-estar com o destempero do relator Joaquim Barbosa. Nada disso "tonifica" o Supremo, como disse ontem seu presidente Ayres Britto. Decepciona e deprecia-o - o que é péssimo para dentro e para fora do país.

Artigo do jornalista Janio de Freitas, publicado hoje na Folha - um jornal insuspeito. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Mais crimes da ditadura, ou de como transformar um índio em torturador




Este pequenos vídeo mostra que a ditadura civil-militar 1964/85 incorporou como prática de Estado a tortura e o crime para combater os seus adversários. O desfile público mostrando o pau-de-arara (foto abaixo) evidencia o grau de naturalidade com que o regime ditatorial encarava a tortura, bem como o uso de indígenas como agentes do Estado no combate aos inimigos do regime.

O filme é parte do acervo sobre 60 povos indígenas, coletado durante quatro décadas pelo documentarista Jesco von Puttkamer (1919-94) e doado em 1977 ao IGPA (Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia), da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O centro e a periferia da arte



Sem centro

Se, no final do século 19, alguém se perguntasse sobre os lugares nos quais se decidia silenciosamente os novos caminhos das artes visuais, dificilmente ele acertaria. Pois dificilmente alguém imaginaria que devesse voltar os olhos para uma ilha perdida no meio da Oceania, para uma cabana rústica isolada nos campos do sul da França e para uma pequena vila nos arredores de Paris. No entanto, era lá que Paul Gauguin, Paul Cézanne e Vincent van Gogh trabalhavam na reconstrução da linguagem da pintura.

Em um dos momentos maiores de redefinição das artes visuais no Ocidente, foi necessário sair do centro para que algo de fato ocorresse. Foi necessário estar na periferia.

Não se tratava de alguma forma de necessidade patológica de isolamento ou de procura pela força pretensamente evigorante da natureza intocada.

Estar fora do centro era importante porque acontecimentos normalmente ocorrem em contextos de deslocamento, em locais onde uma certa indiferença criadora em relação aos padrões da linguagem torna-se possível.

Atualmente, vários voltam seus olhos para as periferias do mundo a fim de encontrar linguagens artísticas em reconstrução.

Outros desconfiam destas procuras, vendo nelas apenas uma forma de projeção que visa compensar, através da idealização de "novos sujeitos", nossas expectativas criativas frustradas. Um pouco como se procurássemos nas periferias aqueles que, no lugar dos proletários integrados ao sistema capitalista, pudessem nos guiar em direção à realização de uma filosofia da história pensada como redenção revolucionária criadora.

No entanto, não precisamos acreditar em tal filosofia da história para aprendermos a olhar para além de nossos muros. Basta darmos um passo a mais em relação à época de Gauguin, Cézanne, Van Gogh e admitirmos uma teoria da contingência que suspende a própria distinção entre centro e periferia para dizer: "Um acontecimento é aquilo que pode vir de qualquer lugar".

Uma revolta política que perpassa nossa época como um vírus pode começar em uma pequena cidade da Tunísia. Uma experiência literária verdadeira pode estar em gestação na periferia de São Paulo.

Esta dimensão de "lugar qualquer" que um acontecimento é capaz de produzir nos lembra que o pior pecado é não acreditar nos agenciamentos contingentes.

Temos de estar preparados para que eles ocorram em qualquer lugar.

O primeiro passo para isto é mostrar, por ações concretas, que abandonamos de vez a distinção entre centro e periferia. Hoje, a inteligência sempre vem de um "lugar qualquer".


Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP.

A história de um chacinado na Casa da Morte


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Banco Central está terminando com os picaretas operadores da área bancário-financeira


Fato inédito na história do Bacen

A inabilitação de dirigentes bancários alcançou um recorde neste ano. Desde janeiro, o Banco Central proibiu a atuação de 364 administradores de instituições financeiras e a tendência é que esse número aumente ainda mais. Inspirado na Justiça Eleitoral, o BC está exigindo "ficha limpa" dos administradores de instituições financeiras.

A regra é negar homologação aos envolvidos em fraudes ou em condutas indevidas no sistema financeiro, além daqueles que respondem a ações judiciais ou processos administrativos. Essa tendência já foi captada por administradores de bancos que, em resposta, entraram com dezenas de ações contra o BC em pelo menos quatro unidades da Federação - Rio de Janeiro, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

A inabilitação de dirigentes bancários chegou, neste ano, a um recorde. Desde janeiro, 364 administradores de instituições financeiras foram proibidos de atuar pelo Banco Central e a tendência é a de esse número aumentar ainda mais. Motivo: inspirado no Supremo Tribunal Federal (STF), o BC está exigindo ficha limpa dos administradores de instituições financeiras.

A regra é a de negar a homologação daqueles envolvidos em fraudes ou em condutas indevidas no Sistema Financeiro, além daqueles que respondam a ações judiciais ou a processos administrativos.

Essa tendência já foi captada por administradores de bancos que, em resposta, entraram com dezenas de ações contra o BC em pelo menos quatro unidades da Federação - Rio de Janeiro, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Nessas ações, eles alegaram que a não homologação para atuar no Sistema Financeiro vai contra o princípio da presunção da inocência pelo qual alguém só pode ser considerado culpado com o trânsito em julgado do processo contra si - fase em que não cabe mais recurso e o dirigente bancário é condenado.

Mas, o BC está ganhando 99% desses processos na Justiça. A informação é do jornal Valor, edição de hoje.

Ilustração de Eugênio Neves

A economia brasileira e a crise mundial: debate na Feira do Livro


As argentinas do Kumbia Queers

A guerrilha infantil pelo conhecimento



Sede de conhecer (no Afeganistão). A comunhão pelo conhecimento. Em francês, a expressão connaissance é mais rica que em português, quer dizer co-naissance, comunhão, co-nascimento, nascer junto (na sala de aula coletiva, com os demais). Relaciona nascimento com comunitário. Conhecer é nascer-crescer em comum, de forma compartilhada, com o outro. É renascer, nascer novamente, agora em comunidade. Na sala de aula, como na caso da foto, em meio a uma guerra inútil nos confins do Afeganistão. 

Essas crianças (na praxis) fazem a antítese da guerra, derrotam a morte através do conhecimento que adquirem em comunhão e solidariedade.

Fotógrafo desconhecido.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Eu, você, Bill Gates somos todos alienados


O mercado é definido como uma instituição social e histórica que supre a sociedade de valores de uso determinada (governada) pela lei do valor, que submete a liberdade individual às quantificações sem-qualidades de sua própria reprodução fetichizada. 

As qualidades (valor de uso) do trabalhador (agora) sem qualidades estão diluídas para sempre em reproduções seriais de valores de troca que o representam de forma transfigurada no mercado de quantidades "sisificamente" repetidas. 

A transcendência máxima do máximo de mercadorias é realizar-se (qualificar-se) freneticamente como dinheiro – a mercadoria modelo/forma da última vida social ou, como diz Marx, a "expressão social do mundo das mercadorias".

A última ferida narcísica do homem é o mercado e suas derivações alienadas da vida social pós-moderna. Os pós-marxistas-leninistas, que julgam ter apanhado uma enfermidade da qual estão curados, esses humanistas recém-chegados que buscam sofregamente uma (nova) mito-teologia para se agarrar, devotam uma fé fatalista no mercado e na lei do valor como instituições supra-históricas de insanável determinação "natural". Para esses, o pequeno Narciso interior está irremediavelmente transpassado pelo opróbrio e as chagas de São Sebastião, atado à árvore da alienação: "Qual o quê!, eu alienado?"

A alienação é social, universal e histórica. Não é exclusiva do trabalhador expropriado de mais-valia, mas generaliza-se socializando o seu deletério vírus contaminante que compromete todas as moléculas da vida social da modernidade.

Os basbaques do neoliberalismo, por sua vez, propagam que a racionalidade do mercado é inabalável e, para tanto, proclamam a vitória sobre o planejamento contábil bolchevique com o seu arremedo de mercado. Como ensina Hegel, há tão-somente uma racionalidade em si, uma mecânica razão objetiva, "naturalizada", inumana, que, ao promover a alienação, sujeita os homens (todos, indistintamente, mesmo Bill Gates e Slavoj Zizek) como objetos pétreos dessa racionalidade invertida.

Onde a racionalidade (social) do mercado? Se a necessidade social que aparece no mercado não é idêntica à necessidade real, mas somente à "necessidade social solvente" (Marx). As diferentes demandas estão condicionadas ao poder de compra dos indivíduos e, portanto, às "relações mútuas entre as diferentes classes sociais e suas posições econômicas relativas". 

As carências e necessidades (e mesmo desejos) dos indivíduos estão moduladas e moldadas pela classe social a que pertence; não há como expressar a sua efetiva e real necessidade via mercado, pois ele acaba esbarrando no muro limítrofe da sua classe social, ficando aí, prisioneiro. 

A classe é uma sentença sociológica implacável.

Marcuse pode esclarecer agora: "mesmo se o mercado manifestasse a necessidade social real, a lei do valor continuaria a funcionar como um mecanismo cego fora do controle consciente dos indivíduos. Ela teria continuado a exercer a pressão de uma 'lei natural' (Naturgesetz), cuja necessidade longe de impossibilitar a dominação do acaso sobre a sociedade, antes a garantiria. O sistema de relacionar indivíduos independentes uns dos outros, pelo tempo de trabalho necessário contido nas mercadorias que eles trocam, pode aparecer a suprema racionalidade. Na realidade, porém, este sistema organiza apenas o desperdício e a desproporção".

Desperdício e desproporção que são as usinas geradoras dos atuais desequilíbrios ambientais do planeta, e ameaçador comprometimento da vida.

"A sociedade – diz Marx, no livro 3 de O Capital - adquire os artigos que ela requer, dedicando à sua produção, uma parte do tempo de trabalho disponível. Isto é, a sociedade adquire aqueles artigos pelo gasto de uma quantidade definida de tempo do trabalho de que dispõe. 

Àquela parte da sociedade à qual a divisão do trabalho prescreve a tarefa de empregar seu trabalho na produção do artigo desejado deve, em troca disto, ser dado um equivalente resultante de outro trabalho social, incorporado a artigos por ela desejados. 

Não há, porém, uma conexão necessária, mas apenas uma conexão acidental entre o volume da demanda de um certo artigo pela sociedade e o volume representado pela produção deste artigo.

É verdade que todo artigo individual, ou toda quantidade definida de qualquer espécie de mercadoria, talvez contenha apenas o trabalho social requerido para a sua produção, e sob este ponto de vista o valor no mercado de toda esta massa de mercadorias de um determinado tipo represente somente o trabalho necessário. 

Não obstante, se esta mercadoria foi produzida em quantidade maior do que a demanda temporária da sociedade por ela, então muito do trabalho social foi desperdiçado e, neste caso, esta massa de mercadorias representa, no mercado, uma quantidade de trabalho, muito menor do que realmente ela tem em si incorporada".

Veja que Marx cria a categoria valor de uso, em acréscimo ao valor de troca, antes já reconhecido pela economia política clássica, e que permite "desvendar um processo de necessidade cega, acaso, anarquia, frustração" (Marcuse). 

Essa nova categoria marxiana auxilia a verificação do atendimento às necessidades reais dos indivíduos.

Assim, a lei do valor - agora se pode dizer - é a forma geral da Razão, no sistema produtor de mercadorias. Ela se formata no mercado, mas é conteúdo do processo de produção (lembra? "o tempo de trabalho socialmente necessário"...). 

Por isso, ele (o valor) nunca se expressa em termos de substância, de qualidade, de conteúdo, quer dizer, de trabalho abstrato, nem em termos de medida, o tempo de trabalho socialmente necessário. O valor vai sempre se manifestar, objetificar-se, sob a forma de mercadoria-dinheiro.

A contradição, pois, entre forma e conteúdo, essência e aparência é que promove a inversão que irá se refletir na consciência dos indivíduos. A existencia material e a forma dessa existencia irão modelar a consciência social dos indivíduos, em representações ideológicas do real. 

Já se vê que em todo o processo produtivo capitalista há crescentes níveis de abstração da realidade, que Marx apreende e usa como método de análise, a começar, para ilustrar, pelo trabalho concreto individual que no mercado assume a feição de trabalho abstrato universal e só assim ele cria valor, sob o formato da mercadoria-dinheiro. 

O trabalho individual de alguém que manufatura uma mesa no âmbito doméstico não cria valor, e nem essa mesa é uma mercadoria, é apenas um valor de uso (uma mera utilidade) para consumo doméstico, entretanto, se ele fizer cem mesas, por exemplo, empregando "N" pessoas, ele estará produzindo mercadorias (valor de troca) que alcançarão valor no mercado, e só no mercado. Mesas essas que serão valores de uso para os seus adquirentes consumidores, realizando o ciclo da dupla aptidão da mercadoria. Sem essa dupla natureza ela não se realiza, não realizando valor, não valorizando o valor.

Por ocasião do contrato social, que pressupõe o trabalhador livre para vender a sua força de trabalho no mercado, em condições de igualdade e justiça, se estabelece a base da produção capitalista. O capitalista paga o valor da mercadoria, a força de trabalho, e compra o seu valor de uso, quer dizer, o trabalho. Esse duplo caráter da mercadoria trabalho é motivo da contradição inerente ao trabalho assalariado. 

O capitalista compra valor de uso e valor de troca, mas paga somente valor de troca, mediante o salário, de inhapa, ganha o valor de uso da força de trabalho. Essa inhapa é o plus, é a mais-valia, o sobretrabalho não-remunerado, e, portanto, alienado, subtraído, expropriado.

"Na realidade – diz Marx –, o vendedor da força de trabalho, como o de qualquer outra mercadoria, realiza seu valor de troca e aliena seu valor de uso. Não pode receber um, sem transferir o outro. O valor de uso do óleo vendido não pertence ao comerciante que o vendeu, e o valor de uso da força de trabalho, o próprio trabalho, tampouco pertence ao seu vendedor", o trabalhador assalariado.

Para a mercadoria trabalho, o valor de troca é remunerado com salário, e o valor de uso é alienado ao capitalista sob a forma de mais-valia. 

Aquilo que no início do processo e sob a forma de um contrato salarial era um exercício de liberdade marcado por uma relação entre iguais e sob o signo da justiça, agora, aparece invertido: a liberdade gera a exploração, a riqueza criada e apropriada por uma classe recria mais desigualdade, e a justiça, sem pressupostos, é uma impotência no reino da necessidade.

Artigo de Cristóvão Feil

Serigrafia "São Sebastião", de Glauco Rodrigues

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