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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Comprovado: Yeda dorme em beliche...


...Cai e bate com a cabeça, diariamente

"Quem tem mais dificuldade para entender essa liguagem [do governo Yeda] é a elite, porque é a elite que vem governando. É a elite que vem tendo todo tipo de poder: financeiro, econômico e político. A elite está acostumada a uma linguagem que é diferente da minha". [...]

Acreditem, a fala acima é da governadora Yeda. Está publicado no jornal Correio do Povo, edição de ontem (22).

A manifestação da governadora tucana é prenhe de significados. É uma confissão? "É a elite que vem governando".

Ou são os efeitos dos traumas na cabeça?

Sempre ouvi dizer que dormir em beliche não é bom para a saúde mental dos indivíduos comuns. Muito menos para governadores e governadoras.

Brincandeira à parte. A governadora revela tamanha verdade (ou disparate) e sequer é questionada pelos quatro ou cinco jornalistas que a entrevistavam. Como assim, governadora? - podiam ter dito. A que elites a senhora se refere? O seu governo dá poder - "financeiro, econômico e político" - às elites sulinas? E o quê mesmo a senhora recebe em contrapartida?

Nossos pseudo-jornalistas acham baldes de pérolas, todos os dias, mas preferem jogá-las aos porcos.

Termina 2009 e Lula não aprova os novos índices de produtividade no campo


MPF pressiona o Executivo para acelerar a reforma agrária

O Ministério Público Federal resolveu entrar no jogo de pressão pela revisão dos índices de produtividade agropecuária para fins de reforma agrária. Em recomendação expressa aos ministros do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, e da Agricultura, Reinhold Stephanes, os procuradores sugerem, pela terceira vez desde o fim de 2008, a edição de portaria conjunta para a atualização imediata dos parâmetros usados no processo de reforma agrária. A informação está no jornal Valor de hoje.

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão reivindica o cumprimento da "função social" da terra, previsto na Constituição, para recomendar o reajuste dos índices de produtividade no campo. O alerta relembra recomendações anteriores, iniciadas ainda em setembro de 2008, sobre a "preocupação com o retardo" na redefinição dos parâmetros de produção e a necessidade de tratar o assunto como "prioridade".

A bancada ruralista pressiona o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a desistir do reajuste dos índices.

Lula prometeu a medida aos movimentos sociais, mas tem deixado a decisão final em suspenso para retaliar invasões do MST. Auxiliado pelo PMDB, Stephanes resiste a assinar a portaria por temer impacto negativo em sua campanha de reeleição à Câmara. Em desvantagem no governo, Stephanes usa como pretexto a necessidade de utilizar os dados mais recentes do Censo Agropecuário 2006, a análise do tema por outros órgãos do setor e a indispensável reunião do Conselho Nacional de Política Agrícola (CNPA) para aprovar os novos índices. De outro lado, o PT divulgou nota de apoio e o ministro Cassel insiste na revisão.

A subprocuradora-geral da República, Gilda Pereira de Carvalho, recomenda a edição da portaria a partir de estudos de equipe composta por especialistas das duas pastas. O Grupo de Trabalho Reforma Agrária, criado no MPF para analisar o tema, afirma que os argumentos usados para rejeitar a revisão são relativos. E alerta para sua urgência.

O MPF afirma que os atuais índices foram fixados em 1975 e relembra que a Constituição exige o cumprimento "simultâneo" de critérios e graus de utilização da terra (GUT) e de eficiência da exploração (GEE). "A atualização é necessária para que os novos índices incorporem os ganhos de produtividade observados nas culturas e na pecuária desde 1975", diz a recomendação. A bancada ruralista já aprovou projetos para retirar exigências simultâneas e submeter novas revisões ao Congresso. O MPF já havia enviado outros ofícios alertando o governo da necessidade de reajustar os parâmetros de rendimento de lavouras e da pecuária para fins de reforma agrária.

Agricultura Camponesa versus Agronegócio


Alguns números do último Censo Agropecuário do IBGE

A cada 10 anos o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – faz um levantamento, uma pesquisa, indo de casa em casa, para saber como está a vida e a produção no meio rural brasileiro.

O último Censo Agropecuário foi feito em 2006 e publicado em 2009. Esta pesquisa permite fazer um retrato, uma fotografia de como está a vida e a produção na roça e dá para fazer algumas comparações importantes sobre as diferenças entres os grandes e pequenos agricultores, entre o agronegócio e a agricultura camponesa.

Vamos ver alguns números desta pesquisa:

Propriedade e posse da terra

Os pequenos agricultores têm 24% de todas as terras privadas do Brasil.

Quer dizer, de cada 100 hectares de terras, 24 são de camponêses.

Os médios e grandes tem 76% de todas as terras particulares.

De cada 100 hectares, 76 é do agronegócio.


Número de estabelecimentos rurais, propriedades, posses, lotes

Os camponeses possuem mais de 4 milhões e 360 mil estabelecimentos rurais.

Os médios e grandes proprietários somam apenas 807 mil estabelecimentos rurais.

Os grandes proprietários (acima de mil hectares) têm apenas 46 mil imóveis rurais. E os latifundiários (acima de 2 mil ha), são apenas 15 mil fazendeiros, que detém 98 milhões de hectares.

O que produzem

Os camponeses produzem 40% da produção agropecuária do Brasil (medida pelo Valor Bruto da Produção Agropecuária Total), apesar de terem apenas 24% das terras, e ainda, nas piores condições de topografia e fertilidade. Além disso, sabe-se que grande parte da produção do camponês é para auto-sustento, portanto não é vendida.

Os médios e grandes proprietários extraem 60% da produção agropecuária do país, tendo 76% de todas as terras do país, entre elas as mais planas e férteis e melhor localizadas para o mercado.

Valor da produção por hectare

1 hectare da agricultura camponesa fatura, em média, uma renda de R$ 677,00.

1 hectare do agronegócio fatura, em média, uma renda de apenas R$ 368,00.

Quem produz o que o povo brasileiro come

Daquilo que vai para a mesa dos brasileiros, 70% é produzido pelos pequenos agricultores, pelos camponeses.

Só 30% do que vai ao prato dos brasileiros vem das grandes propriedades, que priorizam apenas as exportações, ou seja, não produzem comida, querem produzir apenas "commodities"!


Trabalho para o povo

As pequenas propriedades, dão trabalho para 74% de toda mão-de-obra no campo brasileiro.

As médias e grandes propriedades, o agronegócio, mesmo com muito mais terra, só dão emprego para 26% das pessoas que trabalham no campo. Preferem utilizar mecanização intensiva e muito agrotóxico.

Por isso, o Brasil se transformou, na safra de 2008/2009, no maior consumidor mundial de veneno agrícola. São aplicados 700 milhões de litros de veneno por ano em nosso país.

Quantas pessoas trabalham por hectare

Na agricultura camponesa, em cada 100 hectares, trabalham 15 pessoas.

No agronegócio, em cada 100 hectares, dão emprego para apenas 2 pessoas.

Os recursos do Crédito Agrícola

Os valores do crédito não estão no Censo Agropecuário, mas no Plano Safra. Assim, no Plano Safra 2009/2010 foram destinados R$ 93 bilhões para o agronegócio. E apenas 15 bilhões de reais para a agricultura camponesa. Mesmo assim, sabe-se que apesar da crescente oferta de recursos para a agricultura camponesa, apenas 1,2 milhões de estabelecimentos familiares tem acesso ao crédito, e na ultima safra utilizaram apenas 80% do que esta disponível.

Isto significa que os camponeses utilizam apenas 14% do crédito agrícola do total ofertado pelos bancos, atraves das normas e determinações da política agrícola do governo federal.

Texto do Frei Sérgio Görgen, membro do MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) e da Via Campesina/Brasil.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Socorro



Do grande Arnaldo Antunes

TVE: Yeda faz o jogo da RBS


Se é para acabar com a TVE, vamos sufocar a TVE, bem devagar

O jornal Zero Hora, edição de hoje, página 16 (fac-símile acima), dedica-se a confundir o leitor sobre os destinos da TV Educativa/RS. A trapalhada é tanta que o texto da matéria esquece de informar a qual Ministro se refere o subtítulo da mesma ("Ministro reclama de falta de vontade do RS em fechar acordo com a TV Brasil, criada por Lula").

Fica evidente que a governadora Yeda cumpre as mais sentidas aspirações mercadológicas do grupo RBS. Este, por sua vez, devolve ao leitor de ZH a mesma confusão que a empresa midiática da família Sirotsky e a própria governadora combinaram de roteirizar na agenda de inanição que estabeleceram para a TVE e a FM Cultura.

Sabe-se que o governo federal tem interesse em administrar a emissora estatal do RS. Tanto tem interesse que acabou de adquirir do INSS o terreno e o prédio que pertenceram originalmente à extinta TV Piratini, que fez parte do patrimônio das Emissoras Associadas do primeiro barão midiático brasileiro Assis Chateaubriandt Bandeira de Mello.

Mas a governadora insiste: não quer resolver o impasse da TVE, prefere deixá-la minguando lentamente para que nada mais reste da emissora que ainda possa ser reerguido e futuramente servir de concorrente ao grupo RBS.

A morte por sufocamento operacional da TVE é o grande objetivo do consórcio Yeda/RBS.

Faltaram esclarecimentos no balanço anual do ministro Tarso Genro


É melhor explicar espontâneamente ainda em 2009 do que sob pressão em 2010. Ou defenestrar o delegado da direção da PF, já

O ministro da Justiça, Tarso Genro, classificou ontem de “desvio” o que chamou de espetacularização das operações deflagradas pela Polícia Federal (PF). Segundo ele, o trabalho da PF sofreu um “salto de profissionalismo extraordinário” durante o governo Lula. A informação é da Agência Brasil.

Em entrevista coletiva em que fez um balanço das ações da PF em 2009, Tarso Genro disse que o marketing em cima das operações policiais distorceu as relações da Polícia Federal com a imprensa. “Desvio institucional rapidamente corrigido”, acrescentou.

“Houve uma redução da espetacularização e não porque havia a suspeita de que o Brasil caminhava para um estado policial. Isto é devaneio literário. Mas porque havia uma exacerbação das relações de setores da Polícia Federal com a imprensa. Essa sensação de brilho adquirido gerava o apenamento precipitado das pessoas”, afirmou.

Na mesma linha, o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, defendeu o fim da pirotecnia nas operações da Polícia Federal. “Queremos trocar o mérito do impacto do primeiro momento da operação pela condenação dos criminosos. Isso ainda vai levar um tempo”, afirmou.

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Nota-se que o ministro Tarso Genro desconhece a etimologia do vocábulo marketing, derivado do verbo inglês to market. Me parece - no mínimo - inadequado misturar as atividades policiais da PF com mercadologia (a tradução literal da expressão inglesa). É de estranhar essa inadequação vocabular do ministro da Justiça, ele que comumente emprega um vocabulário variado e bastante preciso.

Mas faltou o ministro explicar as denúncias do repórter Leandro Fortes da revista CartaCapital que envolvem diretamente o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Correa, subordinado ao ministério da Justiça.

O delegado Corrêa foi "acusado de deter ilegalmente e torturar, à base de chutes, pauladas, socos e eletrochoques, a empregada doméstica Ivone da Cruz, em 21 de março de 2001, nas dependências da Superintendência da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre" - conta o repórter de CartaCapital, numa edição da revista publicada em março deste ano (leia aqui). Informe-se que a referida publicação não faz parte do círculo brasileiro da imprensa golpista, o famigerado PIG.

O fato grave envolvendo odiosas arbitrariedades, dignas da ditadura de 1964/85 e possivelmente patrocinadas pelo atual xerifão da PF, ocorreu em 2001, ainda no governo FHC.

Se aconteceu em 2001, por que Tarso Genro não esclarece de uma vez por todas esses fatos obscuros e repugnantes? Ou melhor, por que não pressiona formalmente o seu subordinado a prestar os esclarecimentos necessários sobre os espancamentos e torturas de 2001?

Tarso Genro reúne condições muito boas para vencer as eleições de 2010 ao governo do Rio Grande do Sul. Obterá êxito desde que não cometa erros e omissões que possam ser exploradas pelos adversários da direita guasca. Exemplo de erro primário: ignorar ou acobertar fatos graves seria o mesmo que assumir responsabilidade tácita e solidária em atos criminosos cometidos por seus subordinados em gestão que não foi a sua, em governo que não foi o seu.

Caso esse absurdo se confirme, ficaria configurado o cúmulo da desinteligência, o que - convenhamos - não combina com a imagem que todos têm de Tarso Genro.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O gigante Keith Jarrett

Parte - menos de dez minutos - do memorável concerto de Colônia (Alemanha), gravado em 24 de janeiro de 1975. Um dos tesouros da humanidade!

Leio que ele está voltando aos palcos, depois de muitos anos sem se apresentar. Em Londres, o ingresso para assistir KJ não custa menos de 400 reais.

Amy Jade

sábado, 19 de dezembro de 2009

A blasfêmia da palavra perfeita


Flor

Antes de eu pronunciar o nome
ele não era
mais que um simples gesto

Quando eu lhe pronunciei o nome
ele veio a mim
e se tornou uma flor

Assim como chamei-lhe o nome
alguém me chama o nome
que combine com o meu nariz e o meu perfume

Também quero ir até ele
e tornar-me a sua flor
Todos nós queremos ser algo
Eu para você, você para mim
Queremos ser
um inesquecível
significado

Kim Tchun-su, poeta coreana

Tradução da professora Yun Jung Im Park

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Quem sempre esteve intrigado com as palavras e seus significados foi Jorge Luis Borges (foto). Pode-se dizer que a sua imensa e complexa literatura - de uma vida toda - foi em torno do mistério das palavras, das palavras perfeitas que pudessem como que substituir a própria realidade. E como se a realidade também não fosse uma arquitetura - caótica ou organizada - de palavras?

As palavras são apenas metáforas dos objetos que procuram representar. Um discurso metafórico, alegórico, simbólico, é uma combinação de múltiplas pequenas metáforas - os vocábulos - alinhados por um sujeito (ou vários), marcado por tempos verbais e por predicados portadores de qualidades ou quantidades. Para entender o discurso do outro, diz Borges, temos que esquecer o caráter metafórico dos vocábulos unitários para melhor compreender o sentido geral daquela fala, talvez, uma metáfora com mais cenários e símbolos outros.

Borges tem um conto onde a um poeta celta fora encomendado pelo rei um poema sobre o palácio. O poeta faz o poema e o ensaia para dizer diante do rei. Primeiro lê o manuscrito, depois chega sem manuscrito e diz uma palavra para significar o palácio, não é a palavra "palácio", é um vocábulo que expressa de um modo mais perfeito o palácio. Quando ele pronuncia essa palavra, o próprio palácio do rei desaparece, como que por encanto. Já não há mais motivo de existir um palácio, quando a realidade já o substituíra por uma palavra. Pra quê palácio? A perfeição da palavra abstrata substitui a concretude do palácio.

Borges diz que encontrar as palavras perfeitas, as que representam de fato a realidade, é uma espécie de blasfêmia contra Deus. Dizia: "O que é um homem para encontrar uma palavra que possa substituir uma das coisas do universo?"

Borges foi um blasfemo encantador.

RBS: cinismo e caradurismo



Cerveja (ruim) patrocina o circo teen da RBS

Os adolescentes de Porto Alegre são campeões nacionais em consumo precoce de álcool, especialmente a cerveja. É o que diz uma pesquisa do IBGE, divulgada ontem.

O jornal Zero Hora, o principal veículo da RBS, edição de hoje, faz uma chamada de capa para a pesquisa, e dedica toda a página 32 a comentar o fato, sempre em tom de preocupado moralismo e discreta censura... ao álcool. Deduz-se, depois da leitura, que a responsabilidade é toda dos pais da meninada, uma vez que um especialista consultado afirmou empiricamente que "a explicação para a posição incômoda é cultural, muitos pais de Porto Alegre querem ter uma postura liberal com os filhos, mas acabam se tornando condescendentes".

A matéria de ZH jamais cogita de examinar a influência da propaganda do álcool na televisão, a qualquer hora do dia, e muito menos de mega-eventos teen patrocinados por fabricantes de bebidas alcoólicas.

Portanto, nada mais cínico, nada mais cara-de-pau. Logo a RBS, que detém o controle de uma empresa de eventos e explora o negócio responsável por montar anualmente dois circos, um em Florianópolis, outro em Atlântida, no litoral norte do RS. No circo, numa maratona de 72 duas horas seguidas, apresentam-se atrações musicais e bebe-se muita cerveja - mas apenas de uma marca, já que o principal cotista-patrocinador é um fabricante de cerveja de qualidade discutível. Público alvo do circo etílico rebessiano: crianças, pré-adolescentes e adolescentes.

Coisas da vida.

Em Tempo: E o Ministério Público/RS e SC onde estão? Têm algo a dizer? Agirão ou permanecerão impassíveis?

Clique nas imagens para ampliá-las.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Uma loura muito falsa e ordinária


A cerveja: bebendo gato por lebre

O Brasil é o quarto maior produtor de cerveja, com pouco mais de 10 bilhões de litros por ano. A China é o maior de todos, com 35 bilhões, e os EUA são o segundo, com 24 bilhões. A Alemanha vem em terceiro, com uma produção apenas 5% maior que a brasileira.

Segundo norma autorregulatória da indústria cervejeira alemã, a cerveja é composta única e exclusivamente por apenas três elementos, cevada, lúpulo e água, tendo como interveniente um fermento.

Tradicionalmente, o termo malte designa única e precisamente a cevada germinada.

O malte pode substituir a cevada total ou parcialmente. A malandragem começa aqui. Com frequência, lê-se em rótulos de cervejas a expressão "cereais maltados" ou simplesmente "malte", dissimulando assim a natureza do ingrediente principal na composição da bebida.

Com a aplicação desse termo a qualquer cereal germinado, a indústria cervejeira pode optar por cereais mais baratos, ocultando essa opção.

O poder da indústria cervejeira no Brasil (lobby, tráfico de influência etc.) deve ser imenso. Basta lembrar que convenceram as autoridades (in)competentes nacionais de que não estavam violentando normas que regulam a formação de monopólios ao agregar Brahma e Antártica - o que constituiria então cerca de 70% do consumo nacional - com o argumento de que só assim poderiam concorrer no mercado globalizado. Mas depois foram gostosamente absorvidas por uma multinacional do ramo, certamente uma forma sutil de realizar a concorrência prometida. E não foi tomada nenhuma providência.

Aliás, sempre que aparecia no cenário uma empresa nascente que, pela qualidade, pudesse despertar no brasileiro uma eventual discriminação quanto ao sabor, era ela acuada por todos os meios possíveis e finalmente absorvida, e sua produção, reduzida ao mesmo nível da mediocridade dos produtos das duas gigantes.

Aparentemente, o receio era o de que a população cervejeira, ao ser exposta a diferentes e mais sofisticados exemplos, desenvolvesse algum bom gosto e, consequentemente, passasse a demandar cerveja de qualidade.

A cerveja brasileira (com pequenas e honrosas exceções) é como pão de forma: mata a sede, mas não satisfaz o paladar exigente.

Para esclarecer a questão da má qualidade da cerveja brasileira, vamos fazer alguns cálculos.

A produção nacional de cevada tem ficado nos últimos anos entre 200 mil e 250 mil toneladas, das quais entre 60% e 80% são aproveitados pela indústria cervejeira. Essa produção agrícola tem sido suplementada por importação de quantidade equivalente. Em média, portanto, cerca de 400 mil toneladas de cevada são consumidas na indústria da cerveja no Brasil, presumindo-se que quase toda a importação tenha essa finalidade.

O índice de conversão entre a cevada e o álcool é, em média, de 220 litros por tonelada. Como as cervejas brasileiras têm um teor de álcool de 5%, podemos concluir que seria necessário que houvesse pelo menos seis vezes a quantidade de cevada hoje disponível para a indústria nacional da cerveja.

Portanto, a menos que um fenômeno semelhante àquele do "milagre da multiplicação dos pães" esteja ocorrendo, o álcool proveniente da cevada na cerveja brasileira representa cerca de 15% do total.

Há pouco mais de duas décadas foi publicado um relatório de uma tradicional instituição científica do Estado de São Paulo segundo o qual análises de cervejas brasileiras mostravam que um pouco menos que 50% do conteúdo da bebida era proveniente de milho (obviamente sem considerar a água contida).

Como o índice de conversão de grão em álcool para o milho é 80% maior que para a cevada, podemos considerar que a conclusão do relatório em questão atua como álibi, pois satisfaria normas vigentes.

Isso também explica a preferência dos produtores de cerveja pelo milho, pois os preços da tonelada dos dois cereais são aproximadamente os mesmos, apesar de consideráveis oscilações.

Esses números permitem, todavia, concluir que o milho (e outros eventuais cereais que não a cevada) constitui, em peso, quase três quartos da matéria-prima da cerveja brasileira, revelando sua vocação para homogeneização e crescente vulgaridade.

Outro determinante da baixa qualidade da cerveja brasileira é a adição de aditivos químicos para a conservação. O mal não está só nessa condição, mas na sua necessidade. O lúpulo em cervejas de qualidade, sejam "lagers", sejam "ales", é o componente responsável pela conservação -além, obviamente, de suas qualidades de paladar.

Depreende-se daí que os concentrados de lúpulo usados na cerveja brasileira são de baixa qualidade. O que é inexplicável e de lamentar, entretanto, é que as autoridades brasileiras, tão zelosas para com alimentos corriqueiros, sejam tão omissas quando se trata da bebida nacional mais popular e de maior consumo e permitam que o cidadão brasileiro beba gato por lebre.

Artigo do físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Unicamp. Publicado hoje na Folha.

A São Paulo demo-tucana



Jardim Pantanal fica em São Paulo (SP), cujo governante municipal é do Democratas (ex-Pefelê) e o governante estadual é o tucano José Serra, atualmente resolvendo o problema climático do planeta, na Dinamarca.

Charge do Angeli

Feira da Economia Solidária vai até 22 de dezembro em Porto Alegre


Direto do produtor

Iniciou ontem, quinta-feira, no Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público de Porto Alegre (foto), a nona edição da Feira da Economia Solidária.

Quem passar pela feira até o dia 22 de dezembro, terça-feira próxima, vai encontrar 59 estandes com produtos de 146 grupos de empreendimentos econômicos solidários da grande Porto Alegre.

Os visitantes irão encontrar desde artesanato, artigos de decoração a alimentos da agricultura familiar. Os produtos são vendidos diretamente do produtor. A informação é da Agência Chasque.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Dos movimentos libertários à hegemonia neoliberal


A "longa marcha" que foi engolindo tudo

Voltando ao assunto dos punks, apenas como introdução. O movimento surgiu na década de 70, portanto, quase imediatamente depois do febril maio de 1968 e da onda cultural hippie. Foram fenômenos urbanos de rebeldia e contestação ao estabelecido, seja em que esfera da vida fosse, à direita e à esquerda - se é que se possa chamar a União Soviética, a China e os epígonos do stalinismo de esquerda. Sem base teórica, mesmo porque não era essa a intenção, foram movimentos urbanóides que se decalcaram pelo mundo afora, especialmente nas grandes cidades do globo. O seu fio condutor foi a estética, a imagem e a música, sobretudo. O requerimento comum de todos eles: a liberdade - uma faca para não só dois legumes, mas para uma cesta variada de hortaliças e signos de todo o espectro.

Partilhando da mesma ontologia essencial do sistema produtor de mercadorias, tais movimentos funcionam como soluços existenciais da própria crise cíclica do sistema, mais notadamente depois da Segunda Guerra e do advento da cultura e a comunicação social de massa.

Sendo assim, são presas relativamente fáceis dos rearranjos e retomadas dos novos ciclos de acumulação. Não que sejam incorporados pela via econômica, mas absorvidos metabolicamente (perdão pelo organicismo explícito) pela própria cultura no qual vicejaram (outro organicismo!).

O geógrafo marxista David Harvey, que não tem exatamente a melhor análise do fenômeno neoliberal, mas apenas uma delas, afirma que a grande palavra de ordem original do que hoje se entende como hegemonia neoliberal foi dada precisamente pela consigna da chamada "liberdade individual" - bandeira essa que os nossos amigos beats, hippies, estudantes de '68 e punks também empunhavam com amor febril.

Se o neoliberalismo, no início de sua "longa marcha" (como previra Hayek em 1947, já roubando uma palavra de ordem maoísta), tivesse afirmado que se propunha apenas a restituir o poder econômico a minúsculos grupos de eleitos pelo mundo afora, certamente jamais lograria conquistar a hegemonia política e cultural no mundo inteiro. Foi porque partiu de conceitos e valores consagrados como centrais, pelo menos desde o advento do Iluminismo, que houve a virada neoliberal, a partir do início dos anos 1970.

Ironicamente, o início da virada acontece na China com Deng Xiaoping, em 1978, contando com a imprescindível chancela do próprio Partido Comunista chinês. Depois vieram as experiências no Chile de Pinochet, de Thatcher na Inglaterra, de Reagan nos EUA, Giscard na França, Índia, África do Sul, Argentina, Taiwan, Coréia, Cingapura e praticamente todos os demais países do mundo, com raras exceções.

A usina teórica neoliberal - com efetiva organicidade internacional - gerou um potente consentimento popular com o objetivo de legitimar o pensamento que o inspirava. Para tanto, foram usados berçários de difusão ideológica a partir de Universidades (eles se instalaram na Universidade Católica do Chile ainda no início dos anos '50, só para citar um exemplo), de corporações, instituições já existentes ou que foram criadas para esse fim precípuo, meios de comunicação, associações profissionais, escolas, Igrejas, serviços secretos estatais, etc.

Nota: Pretendemos voltar ao assunto. Isto é, se vocês quiserem.

Vampiro Brasileiro e Arruda estão em Copenhague


"Há algo de podre no reino da Dinamarca" - já dizia o príncipe Hamlet

Leio na Agência Brasil que o governador José Roberto Arruda (sem partido), do Distrito Federal, acusado pela Operação Pandora, de práticas corruptas na administração pública distrital de Brasília, chegou esta madrugada a Copenhague. Foi se juntar ao governador tucano, José Serra (PSDB), ambos ávidos de vitrine, emoldurados pelo tema da conservação ambiental. Sem nenhuma contribuição a darem para o sério debate mundial sobre as mudanças climáticas e a necessidade de medidas que mitiguem efeitos e apontem metas e soluções para serem cumpridas por todos os países nos próximos anos, os dois governadores querem somente aparecer nas telas das televisões brasileiras. Mais nada.

Estou informado que o governador Serra foi aconselhado por alguém da TV Globo a comparecer à COP 15, na Dinamarca. Ele, Serra, teria argumentado que não tinha contribuição alguma a dar à conferência do clima, ao que escutou a seguinte réplica:

"Certo, mas o senhor irá aparecer nos boletins de nossas tevês. O senhor quer deixar a ministra Dilma, sua concorrente, aparecer sozinha se apropriando por inteiro do discurso da defesa ambiental, durante dias e dias, direto de Copenhague? Se o senhor estiver lá, nós poderemos modificar esse monólogo anunciado...".

Foi o suficiente para Serra ir correndo vampirizar o palpitante veio da temática ambiental, enquanto São Paulo afunda sob as águas, prometendo muito trabalho ao mais novo ecologista da praça - o Vampiro Brasileiro.

Foto: Garrafa

Ruralistas querem que qualquer prefeito possa revogar o Código Ambiental


PL foi aprovado ontem na Câmara Federal

No último dia de trabalho do ano, a Câmara dos Deputados aprovou na noite de ontem (16) um projeto de lei que dá a Estados e municípios autonomia para criar suas próprias leis ambientais. A sessão realizada enquanto Lula e vários ministros estavam em Copenhague, é uma vitória incerta de ruralistas tentando revogar o Código Florestal, legislação que impõe limite ao desmatamento em terras privadas.

O PL, aprovado por 317 votos contra apenas 17, segue agora para tramitação no Senado. Se aprovado lá e sancionado pelo presidente - algo em que poucos apostam -, permitiria ao governo de um estado amazônico, por exemplo, aumentar o limite máximo de 20% de desmate.

Recentemente Santa Catarina aprovou sua própria lei ambiental, que está sendo contestada no Supremo Tribunal Federal.

Além de esvaziar o poder do Ibama para fiscalizar o desmatamento em escala nacional, o projeto cria comissões de integrantes do Executivo para arbitrar sobre eventuais conflitos, hoje tarefa cumprida pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente). A informação é da Folha.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

É muito punk! - disse a tia Maggie



Três décadas de "London Calling" da banda punk rock The Clash

Reparem o frescor de "Radio Clash" (no vídeo acima), do qual eu gosto muito. Essa foi a revolucionária The Clash, uma banda que durou de 1976 até 1986. Há trinta anos os caras faziam um rock que mostrava a bunda para a tia Maggie Thatcher, primeira mandatária da Inglaterra de maio de 1979 até 1990.

O disco (de vinil) "London Calling", com dezenove composições, foi lançado no dia 14 de dezembro de 1979. Ontem, portanto, fez três décadas de influência na cena musical do mundo inteiro. Nesta data, o thatcherismo já estava no poder desde maio, suprimindo direitos (liquidou com o salário mínimo, depois restituído por Tony Blair), privatizando empresas estatais, cortando o alimento gratuito das escolas públicas, e provocando uma política macroeconômica recessiva com o objetivo de baixar a inflação que chegou a 20% ao ano, entre 1979/80. Houve numerosa quebra de empresas privadas, bancos faliram e o desemprego aumentava a cada trimestre. A Dama de Ferro, como ficou conhecida, criou o chamado "poll tax", um imposto regressivo, onde os mais pobres pagavam mais impostos que os mais ricos, seguindo a orientação do pensamento econômico monetarista (neoliberal), segundo o qual havia que incentivar a poupança e o investimento somente dos que podem empreender, e estes são formados pelos mais ricos do espectro social - o topo da cadeia alimentar, segundo Charles Darwin (que entra nesse trololó de neodarwinismo do eixo Viena-Chicago, como Pilatos no Credo).

Conta a lenda que tia Maggie, uma vez indagada do que achava da música do recém formado grupo londrino The Clash, teria dito a frase que virou bordão:

- É muito punk!

De fato, o Clash deixou a sua marca na história do rock e da música pop contemporânea. Com letras politizadas, algo panfletárias e rebatendo forte contra a direita, o belicismo, o racismo e as ditaduras (tem um álbum em homenagem aos sandinistas) fez uma mescla experimental de gêneros musicais, "como reggae, ska, dub, funk, rap e rockabilly" (conforme a Wikipédia).

Hoje, depois de trinta anos o Clash ainda é atual para denunciar a tragédia representada pelo neoliberalismo globalitário. Afinal, foi a música da banda punk das primeiras que ajudou a suspeitar do mundo no qual estamos vivendo - um mundo clash, em conflito, em choque permanente. E muito punk!

Nota: Punk, é um anglicismo, significa algo imprestável, um traste. O movimento punk foi uma onda cultural (decadentista) urbana surgido na década de 70 que debocha de tudo, do rock e da música tradicional, da esquerda (stalinismo) à direita (nazismo, Thatcher, Reagan, etc.). Ao contrário do movimento punk, a banda Clash não foi adepta do solipsismo e do niilismo, sempre militou por causas políticas progressistas.


Lula condena jornais que desprezam os fatos e embarcam em campanhas infames



Grande mídia praticamente ignora a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação. Seria "medo", indaga o presidente Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, durante a abertura da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que a internet não é mais artigo de luxo e sim um instrumento de extrema necessidade para a população. Lula também lamentou as ausências de várias associações de empresas de televisão e de rádios que não participaram do evento.

“Demos um salto espetacular [no número de pessoas que acessam a internet]. É muito bom mas não podemos nos dar por satisfeitos. No mundo atual, a internet não é um luxo, mas um artigo essencial para população e para o exercício da cidadania”, discursou Lula acrescentando que é preciso massificar o acesso à internet.

“A inclusão digital, da mesma forma como a inclusão social, deve ser encarada como uma prioridade nacional”, afirmou Lula. Ele cobrou dos futuros candidatos à Presidência da República que incluam no debate eleitoral questões relacionadas à convergência de tecnologias. “É preciso incluir o tema da comunicação social na agenda do país”. O presidente da República ainda leu uma série de dados que informam da queda na tiragem dos grandes jornais no eixo Rio-São Paulo, em detrimento do aumento das tiragens de jornais no interior do País.

O presidente disse ainda não entender o motivo das ausências da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão (Abert), entre outras entidades, terem boicotado a Confecom. Lula questionou se essas associações estariam “com medo” do debate.

“Lamento que alguns atores da área de comunicação tenham preferido se ausentar dessa conferência temendo sei lá o quê. Perderam a oportunidade de derrubar muros. Lamento, mas cada um é dono de suas decisões e sabe aonde apertam os calos”, disse Lula.

A Confecom começou ontem com duas horas de atraso. Motivo: o grupo Bandeirantes quer vender mais caro a sua participação, aproveitando-se do boicote da Globo, do grupo Abril e outras emissoras, a Band quer aumentar a influência junto aos delegados e acabou melando a hora de abertura do grande evento.

Ontem à noite, os jornais das grandes emissoras de TV praticamente ignoraram a Confecom, demonstrando objetiva contrariedade com a meta da Confecom que é de precisamente aumentar a democracia na produção de conteúdos de Comunicação Social no Brasil. É como disse Lula, ontem, em seu discurso, "será que eles estão com medo do debate?"

Ipea mostra presença do Estado no Brasil


O estudo é inédito no país

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulga hoje (15/12), às 10h, em São Paulo, o estudo Presença do Estado no Brasil: Federação, Suas Unidades e Municipalidades.

A pesquisa, inédita, mostra a estrutura física do Estado brasileiro (União, estados e municípios) e a incidência de seus serviços.

O documento abrange nove temas: previdência social, assistência social, saúde, educação, trabalho, bancos públicos, infraestrutura, segurança pública e cultura.

Quase 3 mil municípios não têm agências de bancos públicos federais e cerca de 80 cidades não têm escolas municipais. O Sistema Único de Saúde (SUS) está presente em quase todo o território nacional, com exceção de dois municípios. O emprego público representa 21% das ocupações formais do país.

Os dados foram agrupados por região. No caso das regiões Nordeste e do Sudeste, todos os municípios foram mapeados. A informação é da Agência Brasil.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Arruda teria ajudado Yeda?


Onde está o laudo da morte de Marcelo Cavalcante?

Vejam a comovente confissão do senador Pedro Jorge Simon (PMDB-RS) na tribuna do Senado na última quarta-feira:

“Nessa hora tão tumultuada, tão difícil, tão complicada, onde não se sabe mais o que está certo e o que está errado, não se sabe o que fazer e o que não fazer, mais uma vez o Senado vai fazer a sua parte e vai votar um projeto da maior importância e do maior significado no que tange à questão da corrupção”, disse o parlamentar se referindo ao Dia Mundial Combate à Corrupção.

Dois dias depois, o intrépido Pedro Jorge voltou à tribuna, de onde espargiu perdigotos e críticas ao que chamou de "truculência" da Polícia Militar de Brasília contra manifestantes que pediam a renúncia do governador José Roberto Arruda (DEM), acusado de corrupção pesada.

Pedro Jorge, que dois dias antes ignorava "o que está certo e o que está errado, não se sabe o que fazer e o que não fazer", subitamente, ficou iluminado e protestou contra a opressão e a brutalidade da polícia do governador Arruda. Parcialmente iluminado, eu diria. Simon acometeu-se de meia lucidez, se é que isto exista. Faltou cobrar da polícia do Distrito Federal o laudo da causa mortis do ex-embaixador do governo Yeda no DF, Marcelo Cavalcante.

A propósito da morte misteriosa do ex-assessor de gabinete da então deputada federal Yeda Crusius (PSDB), Pedro Jorge poderia ajudar a esclarecer o motivo de a polícia de Arruda ter tanta dificuldade para emitir um laudo simples, que faz parte da rotina de qualquer força policial.

Para refrescar a memória de todos nós, vamos reler parte de um post deste blog, publicado em 19 de fevereiro último. Seis questões que intrigam:

1) É raríssimo suicídio por afogamento, tanto mais se o local escolhido for nas águas serenas de um lago (o Paranoá, de Brasília), onde não há correntezas, redemoinhos ou ondas.

2) Qual o motivo de apressar o sepultamento do corpo? O corpo foi encontrado no amanhecer de terça-feira, dia 17 de fevereiro de 2009, na quarta-feira (18) à tarde, já estava sepultado.

3) Por que não houve perícia técnica para examinar as vísceras do corpo? Em casos de suspeita de morte por afogamento é fundamental examinar a presença de microalgas no interior do pulmão da vítima. O exame legista pode dar respostas sobre agressão antes ou depois do óbito e qual foi de fato o agente causador do mesmo.

4) Como a hipótese de suicídio é remota, por que pessoas do centro do governo Yeda logo classificaram de forma perempta e uníssona, sobretudo uníssona, a morte por suicídio? Seria uma orquestração? De quem? Estranha muito a carta de Carlos Crusius que não disse a que veio, salvo para afirmar categoricamente que Marcelo Cavalcanti foi levado ao suicídio. Ficou evidente a “palavra de ordem” de Crusius: morte por suicídio e ponto final.

5) A mídia amiga e os correligionários do falecido passaram a repetir a hipótese do suicídio como uma verdade absoluta, fazendo cortina de fumaça para outras hipóteses e especulações menos ingênuas.

6) Uma questão importante: a Polícia Federal investiga ou investigou o caso?

Como já se notou, o escasso republicanismo do governo Arruda (Dem-DF) - ex-militante tucano - não teria contribuído para o descaso na emissão do laudo de causa mortis de Marcelo Cavalcante? As práticas convergentes dos governos do Rio Grande do Sul e do Distrito Federal não teriam colaborado para que as investigações e diligências acerca da misteriosa morte do ex-assessor de Yeda tivessem resultados nulos, vagos ou não-conclusivos?

O senador Pedro Jorge bem que poderia usar a sua meia lucidez para mobilizar forças em torno dos esclarecimentos do propalado "suicídio" de Marcelo Cavalcante, chave para tantas indagações suspensas e mistérios irresolvidos no yedismo de fracassos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O vício de origem das pesquisas eleitorais




Confiabilidade zero


Não dou o crédito equivalente a uma moeda de cinco centavos a esse Instituto Methodus, que realiza o que chama de "pesquisa" para saber quem está ponteando a corrida eleitoral de 2010.

Não só esse instituto, outros também. Não merecem crédito. Essas pesquisas não são confiáveis. Os critérios e o ferramental usados por todas essas entidades de "pesquisa" são inadequados e falhos. O resultado é um arranjo harmônico entre o que se chama de "bom-senso" (seja lá o que isso signifique) e um cálculo tendencioso orientado por modelinhos pré-formatados a partir do padrão de consumo dos entrevistados. É de bom senso colocar o pré-candidato Tarso Genro em primeiro lugar, logo, coloca-se Tarso Genro em primeiro lugar. Muito bem, combina com a derrocada do yedismo de fracassos e converge para o que o imaginário popular suspeita para um cenário presente e futuro do Estado.

Mas isso não invalida, só reforça a fragilidade dessas "pesquisas". A matriz dos modelos de cálculos para aferição de tendência eleitoral é a mesma matriz usada para sondar a preferência das donas de casa pelo sabão em pó, por exemplo. Vamos admitir que são universos bem distintos. Um processo eleitoral pertence à esfera da política. Um produto de varejo pertence à esfera do consumo de mercadorias. No entanto, essas instituições de pesquisa seguem usando a mesma matriz , os mesmos modelos para examinar fenômenos absolutamente distintos.

Ademais, quem pode confiar numa entidade cujo garoto-propaganda é o senhor Denis Lerrer Rosenfield, reconhecido intelectual orgânico da direita guasca?

O fac-símile do vídeo comercial-promocional do Instituto Methodus foi obtido no próprio portal web da empresa.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Zero Hora corre para o vinagre




Três exemplos de como não se faz jornalismo


Vá entender as editorias do jornal Zero Hora. Não tente, você pode adquirir um torcicolo mental a ponto de comprometer as suas faculdades cognitivas para todo o sempre.

Na edição de hoje, três abordagens de três temas distintos fritam o cabeção de qualquer um. Ignora-se onde os caras querem chegar, tamanha é a distorção dos princípios básicos do bom jornalismo.

O jornal da RBS quer ser engraçadinho quando menciona o "reino do Chávez". Engraçadinho e impreciso. A Venezuela é uma república democrática, não é uma monarquia. Se quiser insistir, o editor então deve mandar confeccionar os textos inteligentes chamados "para seu filho entender". Quanto à abordagem da chamada "crise bancária venezuelana" esta é puramente ficcional. Sugiro que os editores/redatores leiam a Folha de S. Paulo de hoje, o insuspeito diário dos Frias, certamente confiável à empresa dos Sirotsky. Na Folha serrista, se fica sabendo que o Judiciário da Venezuela mandou prender banqueiros "acusados de apropriação indevida de fundos de poupadores, fraude e formação de quadrilha, em sete bancos privados de pequeno porte". Em ZH, há uma livre re-interpretação da notícia, assim: "Presidente [Hugo Chávez, agora ele é "presidente", acima é chamado de "monarca"] já fechou sete bancos e prendeu oito executivos, causando apreensão entre correntistas". O Judiciário da Venezuela está procurando sanear o sistema bancário do País, com o objetivo de precisamente preservar a poupança e os investimentos dos cidadãos e cidadãs venezuelanos. Mas a matéria de ZH passa uma idéia inversa, a de que a intervenção "do Presidente Chávez" está trazendo insegurança para os correntistas dos bancos corrompidos por seus próprios donos e executivos financeiros.

A desonestidade jornalística dos editores de ZH, neste caso, é mais que evidente, é gritante. Trata-se de um estelionato midiático constrangedor. Pode ser objeto de estudos comparativos nas faculdades de Comunicação Social pelo Brasil afora. O professor coloca ZH e a Folha, lado a lado e compara o tratamento da referida matéria. Notem que estou - propositalmente - sugerindo a Folha, um jornal que não é propriamento o paradigma da honestidade jornalística, mas vá lá.

Outra matéria da edição de hoje, em ZH: essa não foi vítima da desonestidade dos editores, mas da inutilidade da notícia. Os caras estampam como manchete a clássica notícia do "cachorro que mordeu o transeunte". Ou seja, o governador Arruda nega enriquecimento. Ponto. Isto é notícia? Que relevância tem esta platitude para ocupar a manchete no alto de página? [Desculpem o oxímoro "platitude relevante".]

Outra, também de hoje: colocar na capa do jornal as desculpas esfarrapadas do "egrégio" ex-reitor da Ulbra. Onde está a relevância disso? A intenção é mesmo reabilitar a reputação de um suspeito de impor gestão temerária numa Universidade que envolveu alto risco à profissão e às expectativas e sonhos de mais de cem mil pessoas? Afinal, de que lado ZH está?

A continuar assim - com esse jornalismo de verdades particulares - ZH vai a passos largos para o vinagre da nossa indiferença.

Aquecimento global irá originar um bilhão de refugiados


Situação se agrava com rapidez

O relatório foi divulgado pela Organização Internacional para a Migração no segundo dia da conferência climática da ONU em Copenhague, na Dinamarca. O documento estima que vinte milhões de pessoas já ficaram desabrigadas na semana passada por causa de desastres naturais.

No entanto, o quadro deve se agravar devido às mudanças climáticas, alcançando um bilhão de refugiados. Afeganistão, Bangladesh, a maior parte da América Central e partes da África Ocidental e do Sudeste Asiático são as áreas mais propensas às grandes migrações por fatores climáticos. A informação é da Agência Chasque.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Liberou geral: avaliação de riscos dos transgênicos deve acabar


Mudança desobrigará as empresas de biotecnologia de realizar estudos científicos de avaliação de riscos

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) votará na quinta-feira (10/12) o fim do monitoramento dos efeitos adversos de organismos geneticamente modificados sobre a saúde humana e animal, o ambiente e os vegetais. A mudança desobrigará as empresas de biotecnologia de realizar estudos científicos de avaliação de riscos e de apresentar planos de monitoramento pós-liberação comercial de transgênicos no país. A informação é do jornal Valor, de hoje.

A nova regra deve "anistiar" os 25 produtos transgênicos (plantas, vacinas e enzimas) que já obtiveram aprovação para comercialização e beneficiará 11 pedidos que estão sob análise do colegiado, vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. A alteração na Resolução Normativa nº 5, em vigor desde março de 2008, dependerá do voto de 14 dos 27 membros titulares da CTNBio. O grupo favorável à mudança somaria 16 votos.

A medida também beneficiará diretamente a indústria alimentícia brasileira. Dirigentes da associação do setor (Abia) escreveram ao ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, para reivindicar o fim do monitoramento e ameaçaram derrubar a exigência na Justiça.

O presidente da CTNBio, o médico bioquímico Walter Colli, confirma a proposta de alteração na regra.

"Essas coisas não fazem mal. E, se fizerem, ninguém vai saber porque não tem como monitorar todo mundo. O argumento jurídico que se coloca é que monitorar só se justificaria se houvesse dúvida na análise de risco. Se o produto é idêntico ao convencional, não há razão para monitorar", explica.

Colli, que está em seu segundo mandato à frente da comissão, diz que o fim do monitoramento não causará problemas à população. "O monitoramento humano e animal foi uma esparrela, uma bobagem que fizemos. Cedemos pelo cansaço. Agora, a indústria alimentícia está sujeita a uma ação jurídica do Ministério Público por uma regra inepta da CTNBio. Cometemos um erro e quero corrigir isso", afirma.

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O presidente da CTNBio, o médico bioquímico Walter Colli, ligou o botão "fodam-se". Caso contrário, como se poderia interpretar a frase "essas coisas não fazem mal; e, se fizerem, ninguém vai saber porque não tem como monitorar todo mundo"?

Observem a gravidade do que está dizendo essa autoridade pública brasileira.

Walter Colli (foto) - velho amigo dos produtores de transgênicos - está falando do alimento nosso de cada dia, de comida cujo conteúdo se desconhece, tanto pode alimentar como pode matar, de forma silenciosa, a medio e longo prazo. No entanto, a autoridade pública lava as mãos e fecha os olhos para o risco que todos os brasileiros estão correndo ao colocar o alimento na boca.

Isso é muito grave!

Inscrições para o vestibular da Uergs encerram segunda-feira próxima


Faça sua inscrição aqui abaixo

A Universidade Estadual do Rio Grande do Sul oferece 1.300 vagas no vestibular de verão 2010. As inscrições foram prorrogadas até o dia 14 de dezembro (próxima segunda-feira) para todos os núcleos da Universidade, localizados em diversos municípios do RS.

As inscrições podem ser realizadas no site http://www.uergs.edu.br e o custo do investimento é de R$ 55,00. A Uergs oferece 50% das vagas para quem tem renda baixa, e 10% para deficientes físicos. A informação é da Agência Chasque.

A saúde do planeta está sendo debatida na Dinamarca


15ª Conferência das Partes sobre o Clima - COP 15

Entenda o que estará em jogo durante a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas que começou ontem em Copenhague, na Dinamarca.

A COP-15 em Copenhague

De 7 a 18 de dezembro, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que abrange 192 países, vai se reunir em Copenhague, na Dinamarca, para a 15ª Conferência das Partes sobre o Clima, a COP-15. O objetivo é traçar um acordo global para definir o que será feito para reduzir as emissões de gases de efeito estufa após 2012, quando termina o primeiro período de compromisso do Protocolo de Quioto.

O Protocolo de Quioto

Assinado em 1997 e ratificado em 2005, o Protocolo de Quioto estabelece metas de redução de emissões de gases de efeito estufa para os países desenvolvidos, que historicamente contribuíram mais para a concentração desses gases na atmosfera. O acordo determina a redução em 5% das emissões, em relação aos níveis de 1990. O primeiro período de compromisso do protocolo termina em 2012. A reunião de Copenhague terá que definir os próximos passos do acordo climático global.

O que está em jogo

O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), formado por 2,5 mil cientistas, afirma que a Terra já aqueceu cerca de 0,7 graus Celsius (ºC) desde a Revolução Industrial. O IPCC projetou cenários futuros que preveem o aquecimento do planeta em pelo menos 1,8°C até o fim deste século, dependendo das medidas tomadas pelos países para reduzir as emissões.

Metas x Compromissos voluntários

O Protocolo de Quioto prevê metas obrigatórias de redução de emissões de gases de efeito estufa para a União Europeia e mais 37 países industrializados. Os países em desenvolvimento, caso do Brasil, da China e Índia, não têm reduções obrigatórias. Metas obrigatórias para esses países não deverão entrar no texto que sairá da COP-15, mas essas nações serão cobradas a ter compromissos mensuráveis, reportáveis e verificáveis de redução de emissões em nível nacional.

Principais pontos da negociação

Além das novas metas e compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa para o período pós-Quioto, na COP-15 os países terão que negociar como será feita a transferência de tecnologia de países industrializados para que os países em desenvolvimento possam realizar ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. O financiamento dessas ações também não está definido. O Banco Mundial estima que sejam necessários pelo menos US$ 400 bilhões por ano para que os países em desenvolvimento enfrentem as mudanças do clima.

A preservação de florestas para evitar emissões de gases de efeito estufa deve ser incluída no acordo, no mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação, o Redd. É preciso definir como os países que mantêm a floresta em pé serão recompensados: por meio de um fundo com contribuições internacionais voluntárias, com a geração de créditos de carbono negociáveis no mercado ou com um mecanismo híbrido entre fundos e mercado. Texto pescado do portal Agência Brasil.

A foto acima parece falsa, mas não é. A “cidade-lixo” fica no Cairo (capital do Egito) e desde a década de 1950 os moradores dessa área vivem da coleta, separação e aproveitamento de resíduos.

A imagem do fotógrafo Bas Princen foi exposta na Bienal Internacional de Arquitetura de Rotterdam, na Holanda.




segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Parabéns, povo boliviano!






Com a banda boliviana Los Kjarkas

Mistério no Rio Grande: Gerdau doa dinheiro grosso ao Judiciário guasca


Oito perguntas que não querem calar

Hipoteticamente, alguém tem cerca de 40% do patrimônio em disputa no Poder Judiciário. São demandas as mais variadas, tanto naquelas em que o sujeito é réu, como naquelas em que é autor. Em ambas as situações, o seu patrimônio está em jogo, tanto pode perder quanto pode ganhar patrimônio. Então, é acometido de um ataque agudo de prodigalidade e passa a doar quantias expressivas ao Judiciário. Revelar a sua verdadeira intenção seria transformar a generosidade em ato mesquinho com objetivos repugnantes. Logo, o nosso hipotético benemérito passa a ser cantado em prosa e verso como abnegado mecenas do Direito e das ciências jurídicas.

Deixando as conjecturas de lado, vamos indagar sobre algumas questões:

1) Como o Judiciário irá contabilizar esse um milhão de reais doados espontâneamente pelo empresário Jorge Gerdau Johannpeter ao Poder Judiciário do Rio Grande do Sul?

2) O Poder Judiciário passa recibo e presta contas da aplicação desses recursos ao doador?

3) O referido empresário já fez outras doações em dinheiro vivo ao Poder Judiciário/RS?

4) Outros empresários do estado já efetuaram doações em dinheiro ao Judiciário estadual?

5) Quantos processos tramitam no Judiciário onde o referido empresário é nominado como parte? Que montante de recursos ou bens estão envolvidos nesses processos?

6) Por que o Poder Judiciário/RS não dá publicidade às doações que recebe de pessoas físicas e pessoas jurídicas?

7) Baseado em que legislação o Poder Judiciário aceita/contabiliza recursos monetários originados de doação espontânea de pessoas físicas e/ou jurídicas?

8) A doação - conforme informado pelo jornal Zero Hora, edição de ontem (ver fac-símile acima) - exige alguma contraprestação do Poder Judiciário ao doador? A que "resultados animadores" se refere a nota do jornal?

A cultura melhora o ser humano?


Falsa cultura

A cultura melhora o ser humano? Pergunta impertinente ou simplória: quem ousaria dizer não? No entanto há zonas de sombras ambíguas nessa palavra. Um monstro recente da literatura e do cinema serve de exemplo. Thomas Harris, escritor norte-americano, criou em seus livros um personagem inteligente e culto, que era também um assassino cruel: o dr. Hannibal Lecter [foto].

Requintado, ele preza a grande cozinha, é historiador da arte e fino crítico de música sinfônica (em um dos filmes da série ["Hannibal"], realizado em 2001 por Ridley Scott, devora o flautista desafinado de uma orquestra!).

Não é o único exemplo. Sobretudo nos Estados Unidos, cuja mentalidade pragmática desconfia das sofisticações culturais, esse tema volta com frequência na literatura, no cinema, no teatro.
Se alguém é culto, é porque há algo de errado com ele: alguma perversão sórdida, algum impulso assassino, alguma crueldade deve se aninhar, secreta, nessa alma. Cultura não cheira bem.

Outro exemplo, ilustre e europeu. Richard Wagner [1813-83] foi um gênio musical. Venerado pelos nazistas, sua "Cavalgada das Valquírias" tornou-se, graças a eles, um motivo guerreiro destinado a exaltar o ânimo ariano conquistador de povos. Os nazistas, que trucidaram milhões de judeus, de ciganos, de comunistas, de homossexuais, reverenciavam a música admirável. Eles percebiam ali uma justificação emotiva para os horrores que cometiam -e que, está claro, eles próprios não sentiam como horrores. A dimensão desumana não é eliminada pela sofisticação da sensibilidade ou do pensamento.

Por vezes, certos retratos revelam que a cultura corrompe a pureza da alma, a energia espontânea. Sintoma de deliquescência, de decadência, de enfraquecimento, ela surgiria onde há falta de energia, de vitalidade, de virilidade.

Muita gente, por sinal, teme a cultura para seus filhos homens. Menino deve jogar futebol, e não ficar lendo livro, ouvindo ópera, indo ver exposição de pintura. É mau sinal. Quantos pais aceitam tranquilamente a vontade de um garoto de estudar balé - forma cultural particularmente crivada pelos preconceitos sexuais?

Cultura, coisa de pessoas privilegiadas, traz ainda uma inevitável marca de classe. Isso se espelha na oposição, que tantos proclamam, entre "cultura das elites" e "cultura popular", com desprezo por uma e valorização da outra.

Cultura é ainda desdenhada quando se suspeita nela o crime da erudição, mal-entendido como acúmulo estéril de conhecimento "não crítico". No entanto, qualquer um que tenha descoberto Picasso, Beethoven ou Dostoiévski sabe que as experiências oferecidas pela cultura modificam o espírito e que o melhoram. Percebe que sensibilidade, refinamento, estudo, saber e prazer imbricam-se nela. [...]

Artigo de Jorge Coli, publicado ontem na Folha.

Yedismo de fracassos liquida emissoras públicas


Funcionários da TVE e da FM Cultura denunciam descaso

Funcionários da TVE e da FM Cultura denunciam que o governo do estado vai extinguir as emissoras. O prédio é ocupado pela TVE e FM Cultura há 30 anos e pertence ao INSS. O governo do estado encaminhou um ofício para o INSS, ainda na semana passada, afirmando que não teria interesse na aquisição do imóvel. Alexandre Leboutte, que representa os funcionários no Conselho Deliberativo da Fundação Piratini, gestora das duas emissoras, afirma que em 2008, o estado não mostrou interesse em realizar uma permuta com o INSS por cinco anos. Na ocasião, o governo do estado ficou de encaminhar uma lista para o governo federal, determinando em quais imóveis poderiam ocorrer essa permuta, mas esse documento não foi feito.

De acordo com Leboutte, em dezembro, o INSS manifestou o interesse de alienar o imóvel e o governo do estado não comprou o prédio. Leboutte afirma que até 31 de março de 2010, o estado vai desocupar o imóvel, mas não decidiu onde vai instalar as duas emissoras.

“Dado o histórico de atuação desse governo nas emissoras, que é um histórico de sucateamento, de precarização do funcionamento das emissoras, nós achamos que a saída da TVE e da FM Cultura dos prédios que ocupam é o início do passo mais radical de desmonte da Fundação (Piratini). Por causa da maneira que eles tratam a programação, os equipamentos, a falta de manutenção, a falta de reposição. Então, a gente acha que se não extinguir a TV e a Rádio, elas não serão mais as mesmas no novo local que a governadora quer instalar. E, se fosse tão bom esse local, não teria tanto segredo, pois até agora ninguém sabe em qual prédio será instalado”, explica.

O estado não realiza concurso público para funcionários da TVE desde 2001. Conforme Leboutte, muitos dos trabalhadores já saíram e a metade dos funcionários são cargos de confiança do governo. A informação é da Agência Chasque.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Fogaça e a Legolândia de Porto Alegre - parte 2


Uma história mal explicada

O Ministério Público de Contas solicitou formalmente ao Tribunal de Contas/RS que auxilie com auditorias para investigar a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, no que se refere a suspeita de favorecimento à empresa EDAcom Tecnologia. Esta empresa vendeu - sem licitação - à secretaria de Educação de Porto Alegre um grande número de kits de brinquedos educativos da marca Lego. O negócio suspeito de irregularidades foi consumado no primeiro quadriênio da administração José Fogaça, na Capital.

Em entrevista à RBS TV, que foi ao ar na última terça-feira, a atual secretária de Educação, Cleci Jurach, afirmou que não foi feita licitação porque o objeto da aquisição não tinha similar no mercado. A administração Fogaça adquiriu centenas de maletas com kits de robótica de fabricação Lego, para ser usado nas escolas da rede pública municipal de Porto Alegre. Estima-se que teriam sido comprados cerca de oito maletas por escola, como a rede municipal tem 95 unidades escolares, seriam cerca de 760 kits robóticos.

Os 3.869 professores da rede municipal de ensino de PortoAlegre estão indignados com essa denúncia. Muitos deles, alertam que este tema é bem mais complexo do que uma simples aquisição de brinquedos no mercado. A compra de artefatos pedagógicos pela rede pública - em si - é elogiável. Mas, observam esses professores, é necessário que se conheça o contexto mais geral do fato, para bem além, inclusive, da mera verificação de ilegalidade ou lisura na compra dos kits da Lego.

Os professores informam que a prefeitura de Porto Alegre comprou o Lego depois de a administração Marcos Ronchetti (PSDB), de Canoas, tê-los adquirido através da EDAcom Tecnologia, cujo executivo apareceu em vídeo na RBS TV, segunda-feira passada, oferecendo propina de 10% a um suposto emissário de um prefeito da Região Metropolitana.

- Para você ter uma idéia, estamos em dezembro, e até o momento o Lego não foi usado na minha escola - disse-me ontem uma professora da rede pública de Porto Alegre, que prefere permanecer no anonimato com receio de represálias. Nunca foi usado? - pergunto. - Sim, no início, quando chegou, todos se encantaram, mas é um brinquedo que exige, no mínimo, dois professores por turma de trinta alunos - completou a professora.

- Você tem que atender as crianças e ao mesmo tempo controlar o computador que movimenta os robozinhos, desse jeito fica impossível, sem falar na capacitação especial para trabalhar com essas tecnologias de novidade - disse-me ela.

Depois da compra do Lego, cujo custo estima-se ao redor de três milhões de reais, foi necessário adquirir computadores usuários de sistema Microsoft, o único capaz de "ler" a robótica Lego. A secretaria de Educação, bem como a própria prefeitura como um todo, era usuária do sistema não-proprietário Linux, desde a metade da administração petista na PMPA. Alguém pode supor que a administração Fogaça tenha comprado somente alguns servidores para atender a demanda exclusiva do Lego, mas não. Foram comprados computadores Dell e sistemas operacionais Microsoft para toda a rede municipal de ensino.

Assim, com o álibi da demanda da Lego, de resto, uma demanda completamente artificial e voluntariosa, a Dell e Microsoft também se beneficiaram com a súbita febre tecnológica da administração Fogaça em Porto Alegre. As verbas das escolas, controladas pelas próprias direções, ainda foram oneradas com a compulsória aquisição de artefatos para recarregar as pilhas dos pequenos robôs, a um custo unitário de 1.400 reais. Desse jeito, escolas em condições materiais precárias, sem manutenção há anos, muitas com aluguel de banheiro químico para os alunos fazerem as necessidades fisiológicas estão dotadas de flamantes máquinas Dell e carregadores de pilhas que constituem um luxo impensável para pais e professores. A escola municipal Nossa Senhora do Carmo, localizada na Quinta Unidade da Restinga, é uma das tantas que só tem banheiro químico para os alunos, porque os sanitários do prédio oferecem risco grave a quem se aventurar a usá-los.

Pode-se alinhar aqui inúmeros outros graves problemas da rede municipal de ensino de Porto Alegre, vamos apenas citar alguns poucos, o suficiente para evidenciar o equívoco da aquisição de brinquedos robóticos, ao mesmo tempo, em que tantas necessidades primárias não estão sendo satisfeitas:

1) Os alunos PNE (Portadores de Necessidades Especiais) carecem de condições mínimas para frequentar os prédios públicos das escolas, desde rampas, equipamentos pedagógicos, mobiliário especial, sanitários adequados, material escolar, etc.

2) A administração Fogaça, sem recursos para as escolas de PNE, trata de misturar os aluninhos PNE com os demais alunos, isso acarreta uma série de problemas, especialmente para os professores que não tem capacitação adequada para lidar com alunos PNE, sem mencionar, que a PMPA deixa de contratar professores capacitados e com contrato em regime especial, salários diferenciados e demais direitos trabalhistas em regime especial.

3) Inúmeros projetos pedagógicos estão cancelados nas escolas municipais, por falta de professores e animadores dos mesmos. Exemplo: projetos de horta escolar, projetos de educação física, projetos de jornalzinho na escola, projetos de educação ambiental, bem como o projeto da orquestra de flautas infantis da Escola Villa-Lobos - todos praticamente abandonados pela secretaria da Educação de Porto Alegre. Essas iniciativas visam uma pedagogia para fora da sala de aula, para além do esquema convencional professor-fala-aluno-escuta, visam objetivos bem concretos das realidades de nosso tempo.

A todas essas, se vê que a administração Fogaça está preocupada com a aquisição de bens que importam no investimento de grandes quantias de dinheiro. Não interessa o alcance social ou educacional dos investimentos, importa apenas a transação comercial havida entre as partes - o agente público e o ofertante privado. Ações intensivas, contínuas, participativas como o projeto de educação ambiental, por exemplo, não faz parte do rol de interesses da administração Fogaça. Afinal, onde estão os objetos, os bens valiosos, que podem ser trocados, passíveis de trazer a vantagem para o agente público e a régia remuneração ao agente privado?

Coisas da vida.

FHC, Serra e as privatarias

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José Serra foi o maior incentivador da privatização, segundo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Pescado do ótimo blog O Tijolaço


Resta uma saída: mudar de nome, pela oitava vez

Angeli

Aquele resultado selou o destino do Internacional em 2009


Para voltar a crer

Não faltam motivos para descrer da humanidade. Vamos combinar que fizemos coisas extraordinárias, mas nossa passagem pela Terra não está sendo, exatamente, um sucesso. Para cada catedral erguida bombardeamos três, para cada civilização vicejante liquidamos quatro, a cada gesto de grandeza correspondem cinco ou seis de baixeza, para cada Gandhi produzimos sete tiranos, para cada Patrícia Pilar 17 energúmenos. Inventamos vacinas para salvar a vida de milhões ao mesmo tempo em que matamos outros milhões pelo contágio e a fome. Criamos telefones portáteis que funcionam como gravadores, computadores – e às vezes até telefones –, mas ainda temos problema com a coriza nasal. Nosso dia a dia é cheio de pequenas calhordices, dos outros e nossas. Rareiam as razões para confiar no vizinho ao nosso lado, o que dirá do político lá longe, cuja verdadeira natureza muitas vezes só vamos conhecer pela câmera escondida. Somos decididamente uma espécie inconfiável, além de venal, traiçoeira e mesquinha. E estamos envenenando o planeta, num suicídio lento do qual ninguém escapará. E tudo isso sem falar no racismo, no terrorismo e no Big Brother Brasil.

Eu tinha desistido de esperar pela nossa regeneração. Ela não viria pela religião, que se transformou em apenas outro ramo de negócios. Nem viria pela revolução, mesmo que se pagasse para o povo ocupar as barricadas. Eu achava que a espécie não tinha jeito, não tinha volta, não tinha salvação. Meu desencanto era total. Só o abandonaria diante de alguma prova irrefutável de altruísmo e caráter que redimisse a humanidade. Uma prova de tal tamanho e tal significado, que anularia meu ceticismo terminal e restauraria minha esperança no futuro. E esta prova virá neste domingo, se o Grêmio derrotar o Flamengo no Maracanã.

Se o Grêmio derrotar o Flamengo, o Internacional pode ser campeão. Mas o mais importante não é isso. Se o Grêmio derrotar o Flamengo mesmo sabendo as consequências e o possível benefício para o arquiadversário, estará dando um exemplo inigualável de superioridade moral. A volta da minha fé na humanidade não interessa, Grêmio. Pense no que dirá a História. Pense nas futuras gerações!

Crônica do Luis Fernando Veríssimo, publicada hoje em vários jornais brasileiros.

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Na qualidade de gremista, que desacredita no seu clube até que seja defenestrada a cartolagem de alta coturnagem que por lá viceja, quero modestamente responder ao colorado (ninguém é perfeito!) Luis Fernando Veríssimo.

No domingo de 21 de junho de 2009, às 18h30, no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, o Internacional perdeu o título para o Flamengo, quando aconteceu o confronto direto entre os dois. Resultado do match: quatro gols para o Flamengo, Adriano (foto) empurrou três, e o Inter chafurdou no deserto do zero.

O resultado selou o destino do Internacional no ano de 2009.

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