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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Ministro Jobim começou a delirar?


Defesa estaria preparando uma intervenção militar em Honduras

Uma ordem dentro do Ministério da Defesa determinou às Forças Armadas a preparação de um plano de contingência específico para o caso de ser necessário o resgate de brasileiros em Honduras. A notícia é da Folha, de hoje, página A 15, caderno Mundo.

A organização logística do plano está a cargo do Estado Maior de Defesa, instância responsável na área militar por esse tipo de missão. O assunto é tratado de maneira discreta. Há um esforço para evitar demonstrar animosidade em relação a Honduras.

A rigor, as Forças Armadas já mantêm várias opções prontas para esse tipo de situação. Agora, trata-se de uma adaptação para servir às necessidades de operação no país centro-americano. Na hipótese de emergência, será preciso ter à disposição pessoal e aviões brasileiros posicionados e em condições de chegar ao território hondurenho - ou até a fronteira daquele país - em três ou quatro horas, no máximo.

A decisão do Ministério da Defesa foi tomada de maneira autônoma, sem interação com o setor diplomático brasileiro. O Itamaraty não fez nenhum tipo de pedido.

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Essa informação é inacreditável. Ou a Folha, ou o ministro Jobim, alguém está delirando, de forma insana e perigosa. Muito perigosa.

O ministério da Defesa teria se autonomizado do governo Lula e decidido de forma unilateral partir para algum tipo de ação em território hondurenho?

Risível.

O grupo Prisa e os golpes de Estado


Chávez, Zelaya e o Correio do Povo

O influente jornal espanhol El País (grupo Prisa) modificou seus conceitos sobre golpe de Estado. Se em 2002 aprovou o golpe midiático contra o presidente constitucional da Venezuela, Hugo Chávez, agora, reencontra-se com a verdade dos fatos e reprova duramente o processo golpista em Honduras.

No editorial publicado ontem, o jornal madrilenho considera que "Micheletti não tem feito outra coisa que mostrar a luz do dia o que tratou de ocultar depois de chegar à presidência nos braços do Exército: seu governo é incompatível, tanto em origem como em exercício, com a Constituição hondurenha".

O jornal trouxe ainda uma informação importante para analisar a situação naquele país, a de que o general Romeo Vásquez, chefe das Forças Armadas de Honduras, "lavou as mãos" quanto a deposição do presidente Manuel Zelaya. Ele tirou o corpo fora e não admitiu que o golpe fosse obra dos militares, mas dos civis, liderados pelo deputado vitalício Roberto Micheletti.

Isso demonstra que os golpistas estão muito divididos. O título do editorial do El País é "Micheletti a descoberto", o mesmo que dizer que o impostor está isolado. Um líder empresarial, Adolfo Facussé, presidente da Associação Nacional de Indústrias, chegou a admitir mesmo a volta de Manuel Zelaya ao poder. Outros líderes empresariais se manifestaram na mesma direção. Para contrariar, e não quebrar a escrita do agronegócio, o presidente da Federação Agropecuária de Honduras, Santiago Ruiz disse que opta por um terceiro nome, pois acha que Zelaya pode tornar o país "ingovernável".

Já se vê, portanto, que as decisões em ziguezague do impostor Micheletti tem razão de ser. A pressão internacional - mesmo com a vacilação norte-americana - e as repercussões internas na queda da atividade econômica e a resistência popular ao golpe estão dissolvendo o autoritarismo intrínseco das oligarquias locais.

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Fiz questão de referir o noticiário do El País porque no Brasil não pára de crescer o rumor segundo o qual o grupo Prisa está por comprar jornais brasucas. Logo, todos pensam no centenário diário "Correio do Povo" de Porto Alegre, atualmente controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), do bispo Edir Macedo, que parece querer se desfazer dos seus jornais de papel.

Basta ir à Wikipédia para saber que o grupo midiático Prisa (Promotora de Informaciones, Sociedad Anónima) já possui diários, publicações e editoras em 22 países da Europa e da América Latina. Apesar das dívidas que contraíram, os espanhóis querem operar no Brasil, e mais fortemente no México.

Os jornais editados pelo Prisa são de caráter liberal, sem adotar completamente o chamado neoliberalismo, mas uma edição jornalística mais oxigenada, plural e com menos linhas de conflito com a verdade dos fatos. Importante: para trabalhar no Prisa, o sujeito tem que saber redigir bem, o que não é o caso dos principais diários brasileiros, especialmente os de Porto Alegre, hoje.

Na Espanha o grupo cultiva uma certa proximidade (eu diria, comprometedora) com o ex-primeiro ministro Felipe González, do PSOE (social democracia que introduziu o neoliberalismo na península) e mantém distância (eu diria, auspiciosa) do protofascismo de José Maria Aznar (PP).

Seria importante a vinda do grupo Prisa para Porto Alegre. Uma lufada de ar menos corrompido e bons textos.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O indiscreto charme da burguesia


O aniversário de um milhão de reais. Haja chinelo!

"Vai ser uma coisa diferenciada", disse Simara Sukarno pelo telefone, numa terça-feira de maio. "Já faz dois meses que eu cuido da organização. São mais de trinta fornecedores. O cerimonial vai ficar com a Marina Bandeira, que fez casamentos dos Safra e dos Klabin. No meio, a Marina é tida como a melhor. As rosas são colombianas. As máscaras serão feitas pela Gigi, que cuida dos principais destaques do Carnaval aqui de São Paulo. Eu sou destaque há dez anos. Prefiro trabalhar com o pessoal de escola de samba porque eles têm mais senso de ridículo." A linha caiu.

Assim começa a reportagem do jornalista Roberto Kaz sobre a festa dos quinze anos da filha do empresário Alexandre Grendene (fabricante de sandálias e chinelos de material sintetizado a partir do petróleo), publicada na última edição da revista mensal Piauí.

O texto está imperdível. A festa foi comemorada nas dependências da descolada loja Daslu, e simboliza a quintessência da frivolidade da elite parasitária brasuca. Vale a pena ler aqui (texto na íntegra).

Fifa quer sonegar impostos no Brasil


Ministro dos Esportes (do PCdoB) concorda com a boca-livre para os príncipes da cartolagem mundial

Deu na coluna da Mônica Bergamo, hoje, na Folha:

Momento de tensão entre a Fifa e o governo em torno da Copa de 2014: o Ministério da Fazenda faz carga contra a exigência da entidade de não pagar impostos no Mundial. A isenção seria estendida a todos os seus fornecedores, sem exceção.

A Receita Federal não aceita os termos propostos pela federação. O Ministério do Esporte defende que eles sejam atendidos, pois fazem parte dos compromissos assumidos pelo país para sediar o evento. O impasse está instalado.


A Receita enviou sua proposta de isenção de impostos à Fifa para o ministro Orlando Silva, do Esporte, que por sua vez a discutiu com o comitê organizador da Copa. "Estão querendo tratar a Fifa de uma maneira que ela não é tratada em nenhuma parte do mundo", diz um dos que negociam pelo lado da federação. "Há muitos problemas, muitas divergências", confirma um integrante do governo.

A Fifa defende, por exemplo, que todo e qualquer fornecedor, direto ou indireto, dos jogos, seja reembolsado por impostos que pagar no Brasil.

A Receita quer limitar o alcance da isenção.
Joseph Blatter [foto], presidente da Fifa, se encontra hoje (29) com o presidente Lula, em Brasília.

Fotografia é...


Andrade

Brasil pede maior engajamento da comunidade internacional em Honduras


EUA vacila em condenar ditadura hondurenha

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim (foto), pediu “maior engajamento” dos Estados Unidos na crise política em Honduras em uma conversa por telefone com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ontem. A informação é da BBC Brasil.

O pedido de maior envolvimento foi feito ainda ao diretor-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e ao secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza. Amorim conversou com os dois por telefone.

Em entrevista a jornalistas, em Brasília, Amorim disse que citou a recusa do governo interino em permitir a entrada de diplomatas da OEA em Honduras, e possibilidade de que a embaixada brasileira perca o status diplomático como casos “graves” que merecem a atenção da comunidade internacional.

“Esses fatos mostram um estado de surdez das autoridades de facto frente ao que tem dito a OEA. Há total falta de receptividade”, disse o ministro.

O chanceler brasileiro também demonstrou “preocupação” quanto às declarações do embaixador americano na Organização dos Estados Americanos (OEA), Lewis Amselem, que descreveu a volta de Manuel Zelaya a Honduras como “irresponsável e insensata”.

Em Washington, o embaixador brasileiro na OEA, Ruy Casaes, criticou a postura da organização na crise em Honduras. Durante a reunião do conselho, Casaes disse que a OEA “está caminhando cada vez mais para um absoluto estado de irrelevância”.

Ainda nesta segunda-feira, o Itamaraty fez uma nova notificação ao Conselho de Segurança da ONU. Em carta enviavada à presidente do Conselho, Susan Rice, a representação brasileira cita as ameaças à embaixada brasileira em Honduras.

“Nosso governo acredita que o Conselho de Segurança deve ser informado dos acontecimentos para que possa tomar as medidas que considerar apropriadas, no tempo certo”, diz o documento.

A avaliação do governo brasileiro é de que, sozinho, o país não conseguirá resolver o impasse que se instalou em Honduras, e que a participação dos Estados Unidos, por exemplo, tornou-se “fundamental” para a solução da crise.

O assessor especial do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia, disse que o governo americano poderia adotar sanções “mais enfáticas” em relação à economia hondurenha.

“Não há dúvida de que poderiam ser mais contundentes”, disse Garcia.

Segundo ele, houve uma “clara involução” da situação em Honduras e que o país vive sob uma “ditadura”.

“As restrições à imprensa local e a suspensão de direitos individuais são prova de que o país vive uma ditadura. Tivemos uma involução da situação tremenda”, disse o asssessor.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Banzo da ditadura 1964-1985

Kayser

As jazidas de petróleo do pré-sal são bem maiores do que admite oficialmente o governo Lula


O Rio Grande do Sul também está contemplado com óleo na plataforma de Pelotas

Neste último fim de semana conversei com um engenheiro da Petrobras. Ele fez uma revelação surpreendente, sobre as jazidas do pré-sal brasileiro.

Segundo essa fonte confiável, a província petrolífera do pré-sal é muito maior do que já foi anunciado oficialmente pela estatal de energia. Ele assegura que o limite sul do óleo é a bacia do Prata, na altura de Punta del Este, e o limite norte é o Suriname, havendo um intervalo de vazio petrolífero entre Alagoas e Pernambuco/Rio Grande do Norte (leste), mais ou menos (ver a ilustração acima).

Ainda não houve a divulgação do fato porque a Petrobras obedece às políticas estratégicas do Palácio do Planalto, mas sobretudo para evitar intercorrências indevidas da ANP, que segundo ele, tem tido uma postura "muito entreguista e preocupante para os interesses nacionais".

A se confirmar essa informação, o Brasil se alça a uma condição invejável na geopolítica mundial do século 21, mesmo que à custa de energia fóssil e não-renovável.

TV Globo faz louvação à pena de morte sumária


Programa "Fantástico" espetaculariza matadores do Bope carioca


A realidade urbana brasileira está indicando soluções fáceis para o problema da violência e da criminalidade: para os pobres infratores, tem o grupo de atiradores de precisão do Bope, para os ricos e criminosos do colarinho branco, tem o ministro Gilmar Mendes.

Esta semana, no Rio, um assaltando negro foi abatido com um tiro na cabeça pelo grupo de atiradores de precisão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. À noite, a televisão mostrou a execução do rapaz que, tendo assaltado uma farmácia, e não conseguindo fugir, tomou como refém uma moça. A PM veio, estabeleceu negociações com o assaltante, enquanto um atirador de elite se postava em local privilegiado. A um comando, o atirador de precisão Major Busnello (entrevista no vídeo acima) adotou o que em linguagem bopeana se chama a "solução mais letal, ou seja, o tiro de comprometimento".

Nós todos sabemos que dormita no inconsciente do senso comum um desejo de vingança que se expressa na permissão à pena de morte. As frustrações dos indivíduos, provocadas por uma sociedade onde não cabem todos na estreita mesa do consumo e do espetáculo, resultam em estímulos à predominância dos baixos instintos humanos. A televisão, neste caso, cumpre o papel do jornalismo demagógico - referido por Weber - e opera a mediação entre a brutalidade do fato e a confirmação mecânica e acrítica por parte do público.

Mas que público é esse? Não é o público de cidadãos políticos, que decidem, participam, discordam e sancionam, mas o público consumidor alienado de direitos e usurpado de vontades. A massa de manobra da televisão como instrumento da sociedade da mercadoria.

A televisão Globo promoveu ontem à noite um estímulo ao regressismo civilizatório, ao elogiar a pena de morte sumária para um crime quase banal hoje nas ruas brasileiras. O fato de jovens excluídos portarem armas, assaltarem pessoas e estabelecimentos comerciais - isso em escala industrial no Brasil todo - não pode liberar a força pública para a "solução final" como assistimos na televisão. O que se viu não é a eficiência do Estado, mas a sua redução e simplificação a um ponto em que é dispensável todo o aparato judicial, penal e educativo.

Com esse pequeno vídeo, de poucos minutos, a TV Globo está cancelando como inúteis e vencidas todas as conquistas do Iluminismo e dos direitos humanos de dois séculos. Está dizendo que "os seus problemas acabaram, agora nós temos atiradores bem treinados que com uma boa mira e um tiro certeiro eliminam os objetos das nossas inseguranças e temores".

A cidadania está sendo convocada a seguir um antivalor, já que os sentidos da virtude estão suspensos. Trata-se de adotarmos - todos nós - a não-ética da violência desmedida, da agressividade selvagem e da total suspeição dos outros. A solidariedade, a cooperação, a convivência cidadã e a política como requerimento das demandas públicas foram derrotados.

O laço social agora se fará pela brutalidade horizontal, pela exclusão do mais fraco, e por uma disputa espetacularizada e glamorizada onde os vencedores ficam com tudo e os perdedores serão eliminados - fisicamente.

Parece um game infantojuvenil? Não, apenas a vida como ela é, o mundo-cão, proposto ontem pela TV Globo.

domingo, 27 de setembro de 2009

ZH vampiriza jornal de São Paulo



Jornal da RBS chupa matéria de canudinho e não dá crédito

Com o franco intuito de estimular a desinteligência entre duas lideranças nacionais do campo lulista, a Folha publicou ontem - sábado - matéria onde aponta uma certa disputa entre o deputado Ciro Gomes e a ministra Dilma Rousseff.

Pois, hoje - domingo - o principal jornal da RBS não só copiou a pauta da Folha como o próprio conteúdo da matéria feita pelos repórteres Ana Flor e José Alberto Bombig. E o mais grave é que Zero Hora dominical sonegou o crédito.

Agora, temos uma nova modalidade de jornalismo aqui na província: o jornalismo-vampiro - a extorsão da força e da vitalidade de outra publicação com a finalidade de angariar prestígio e popularidade junto ao seu leitor/consumidor.

sábado, 26 de setembro de 2009

Esse menino hondurenho tem dez anos de idade



Oscar David Montesinos, um menino de apenas dez anos, tornou-se um símbolo da resistência ao golpe que derrubou, há dois meses, o presidente constitucional de Honduras, José Manuel Zelaya.

Domingo passado, num comício-protesto que reuniu milhares de pessoas em Tegucigalpa, capital do país, o pequeno Oscar fez um discurso que é de deixar qualquer um de queixo caído, não apenas pelo conteúdo como pela capacidade oratória e simpatia. Vê-se que não é um texto decorado e impressiona a articulação de sua fala.

Ele bate duro no presidente golpista Roberto Goriletti Micheletti:
- Micheletti que te vas, que te vas!

Sugerido pelo leitor André Vinicius Jobim, de Santa Maria (RS).

Povo hondurenho canta

video

- Nos tienen miedo por que no tenemos miedo...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O provincianismo


Visto pelo olho agudo de Fernando Pessoa, em 1928

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.

O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do « Orpheu», disse a Mário de Sá-Carneiro: «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si».

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergílio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a «Divina Comédia» superior à «Eneida». O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.

É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Exarnina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele «desenvolvimento da largueza de consciência», em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, «A Relíquia», Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos. [Em 1928]

Textos de Crítica e de Intervenção, Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980.

Foto: posteridade pop de Pessoa em parede portuguesa do Porto.

Conhecendo melhor a África


TV pública mostra hoje um belo documentário sobre o continente africano

A série Nova África - que estréia hoje - incluída na nova programação da TV Brasil, mostra imagens e histórias do continente africano que pouca gente conhece. “Falar em África como um todo é tão impróprio quanto falar em América Latina desconhecendo que ela inclui desde o Uruguai até Barbados. Por isso o nome: Nova África" - dizem os produtores da série para a televisão.

Uma nova forma de ver a África”, define Luiz Carlos Azenha, jornalista responsável pela série de 26 episódios que será exibida todas as sextas a partir de 25 de setembro, às 22h, na TV Brasil.

“A cada semana, uma surpresa”, promete o jornalista, para acrescentar: “Tentamos romper com o tom condescendente ou folclórico que é comum nas reportagens de brasileiros sobre a África” - diz Azenha.

Saiba aqui como sintonizar a TV Brasil. Em alguns lugares do País, ela parece clandestina, mas não é.

A questão hondurenha provoca banzo na mídia brasileira





FMI reconhece Zelaya como presidente de Honduras

O Fundo Monetário Internacional anunciou ontem que, após consultar os países-membros, decidiu reconhecer Manuel Zelaya como presidente legítimo de Honduras. No início do mês, o FMI bloqueou o acesso do governo hondurenho a 163 milhões de dólares, que seriam liberados como Direitos Especiais de Giro.

No entanto, o governo de fato do golpista Roberto Micheletti não poderia usar o dinheiro enquanto o órgão não decidisse como iria lidar com a situação. Ontem, centenas de pessoas organizadas pelos golpistas protestaram contra o presidente Zelaya em frente à embaixada brasileira, onde está alojado. A informação é da Agência Chasque.

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Cada vez mais se evidencia a correção do governo brasileiro no tratamento da questão hondurenha. O Brasil não está a favor exatamente do indivíduo Manuel Zelaya ou dos seus interesses subjetivos presumidos (o cavalo-de-batalha ilógico da direita brasileira), mas a favor da democracia formal que foi violentada pelo braço armado das oligarquias locais.

Como já observou o Azenha, o caso hondurenho está servindo para revelar o quanto é "democrata" parte da mídia brasuca. Há dois dias, o sabichão Alexandre Garcia, da Globo, chegou a comparar a situação de Zelaya na embaixada do Brasil com o MST. "Zelaya e seus amigos parecem os invasores do MST quando ocupam a sede de uma fazenda, deitam na sala como se estivessem em suas casas" - reclamou o ex-porta-voz do ditador-presidente João Figueiredo.

Se adotarmos o "indicador Honduras" para medir o grau de progressismo-regressismo da imprensa brasileira, veremos que hoje o jornal Zero Hora alcança os níveis mais salientes de regressismo e os mais achatados de progressismo. Quando o diário da RBS afirma que o "Brasil se torna alvo de protestos em Honduras", está implicitamente ratificando a manifestação de alguns hondurenhos. E quem são estes que protestam contra o Brasil? São os partidários do golpe contra a democracia, os representantes das oligarquias locais, temerosos de perderem seus privilégios tradicionais. Zero Hora escolheu apoiar essa gente, corrompida e decadente.

Já os principais diários do Rio e São Paulo, preferiram um enfoque menos bolorento, menos divorciado dos fatos e da consciência cívica da comunidade internacional, incluindo o FMI, quem diria!

A Folha - os mesmos que há poucos meses classificaram a ditadura civil-militar brasileira de "ditabranda" - não hesita em apontar os "golpistas" de Honduras. E o Estadão e O Globo não dão grande destaque editorial para o desenrolar dos acontecimentos centro-americanos, em que pese, não acontecer o mesmo com seus colunistas mais notórios, todos empenhados em criticar o Itamaraty, Chávez, o MST, Lula/Dilma, o Zezinho dos Anzóis... menos os golpistas hondurenhos.

Sintoma de uma incontrolável nostalgia, um banzo mesmo, da ditadura 1964-85, um tempo e um território em que eles eram felizes. E sabiam.

Essa gente olha para 2010 e pressente um futuro no qual não se reconhecem. Por isso, preferem olhar para a Honduras de Micheletti. Lá, eles se sentem em casa.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O olho da revolução


Clique na imagem do cartaz para ampliá-lo.

Honduras revela o caráter "democrático" de muitos jornalistas


Qual é mesmo o papel das elites locais?

Deu no blog do Azenha:

Existem pontos positivos na cobertura que a mídia brasileira faz dos acontecimentos em Honduras. O primeiro deles é revelar a completa ignorância de muitos sobre a América Latina. O segundo é de iluminar o caráter "democrático" de alguns jornalistas e políticos.

Tive o prazer de conhecer alguma coisa da América Central. Já estive no Panamá, na Costa Rica, em El Salvador e em Honduras.

Em Honduras fiz reportagens sobre a "guerra do futebol" e sobre a epidemia de AIDS. Fui a Tegucigalpa e a San Pedro Sula. Viajei pelo interior. Os militares sempre tiveram papel central na política hondurenha. Promoveram uma política de extermínio contra os "campesinos", quando estes aderiram aos movimentos populares que em países vizinhos resultaram em guerras civis (El Salvador e Nicarágua).

Como em outros países da região, os anos 70 e 80 em Honduras foram marcados por rápida urbanização e por uma explosão das demandas sociais. A imigração para os Estados Unidos funcionou como válvula de escape. Depois que os Estados Unidos, no governo Reagan, deram forte apoio às elites locais na suposta luta anticomunista - na verdade, para esmagar movimentos populares -, Washington resolveu adotar uma política regional de pacificação econômica.

Os americanos promoveram uma área de livre comércio regional. As maquilas se disseminaram. São as "maquiladoras", ou maquiadoras, empresas que tiram proveito da área de livre comércio para montar produtos que recebem vantagem tarifária para ingressar no mercado dos Estados Unidos. Os capitais vieram da Ásia, especialmente de Taiwan e da Coréia do Sul. Qual é o papel dos centro-americanos nessa história? O de mão-de-obra barata. Qual é o papel das elites locais? Além de se associar ao capital estrangeiro para enriquecer, cabe a elas garantir que os trabalhadores não se sindicalizem e não obtenham conquistas sociais. As condições de trabalho nas maquiladoras são pré-revolução industrial.
A equação era essa: os homens imigravam para os Estados Unidos para fazer o papel de derrubar o salário dos trabalhadores americanos. As mulheres serviam às maquiladoras em condições sub-humanas.

Porém, com a crise econômica nos Estados Unidos, esse modelo ruiu. Muitos pais de família hondurenhos perderam o emprego nos Estados Unidos. A caça aos imigrantes promovida pelos republicanos também os afetou. Nas economias dependentes de remessa de dólares a crise se aprofundou. Manuel Zelaya abandonou antigos aliados em nome de romper com esse modelo, no qual Honduras entra apenas com o trabalho servil de seus homens e mulheres.

Portanto, não se trata apenas de dizer que Manuel Zelaya é o presidente constitucional de Honduras, eleito pela maioria dos eleitores e que o governo golpista é ilegítimo e ilegal. É importante expor claramente quem são os golpistas, a quem servem: àqueles que querem manter os hondurenhos numa servidão pré-Getúlio Vargas. Só assim para expor a elite brasileira da maneira como ela precisa ser exposta: como representação verde-amarela de interesses parecidos com aqueles representados pelos afrikâners, que inventaram um sistema sofisticado para fazer o mesmo que a elite hondurenha faz: manter parte da população - no caso da África do Sul, os negros; no caso de Honduras, os "campesinos" - na servidão.

Foto: militares hondurenhos leais ao governo de fato (golpista) reprimem manifestações populares pela democracia no país.

A economia dos instintos no romantismo


Deve-se perdoar os nossos inimigos, mas...

“Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente à minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos – mas não antes de terem sido enforcados”. [In Gedanken und Einfälle].

O autor da ironia corrosiva foi o escritor e poeta alemão Heirich Heine (1797-1856). Freud cita esse trecho da obra de Heine em O mal-estar na civilização (1929), para enfatizar o permanente conflito humano entre as exigências do instinto (a nossa porção Natureza) e as restrições da civilização (a nossa porção Cultura).

O poeta romântico foi um duro crítico da religião (que agora está na moda, com inúmeros autores se dedicando a escrever sobre o tema).

A famosa expressão que qualifica a religião como “ópio do povo", usado por Karl Marx na Crítica da filosofia hegeliana do Direito (1844), foi inspirada numa obra de Heine de 1840, onde ele - como sempre - ironizava:

“Bendita seja uma religião, que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança”. [Esta frase eu pesquei da Wikipédia.]

Os ricos sabem disso e só comem alimentos orgânicos


Agrotóxicos no seu estômago

Os porta-vozes da grande propriedade e das empresas transnacionais são muito bem pagos para todos os dias defender, falar e escrever de que no Brasil não há mais problema agrário. Afinal, a grande propriedade está produzindo muito mais e tendo muito lucro.

Portanto, o latifúndio não é mais problema para a sociedade brasileira. Será? Nem vou abordar a injustiça social da concentração da propriedade da terra, que faz com que apenas 2%, ou seja, 50 mil fazendeiros, sejam donos de metade de toda nossa natureza, enquanto temos 4 milhões de famílias sem direito a ela.

Vou falar das consequências para você que mora na cidade, da adoção do modelo agrícola do agronegócio.

O agronegócio é a produção de larga escala, em monocultivo, empregando muito agrotóxicos e máquinas.

Usam venenos para eliminar as outras plantas e não contratar mão de obra. Com isso, destroem a biodiversidade, alteram o clima e expulsam cada vez mais famílias de trabalhadores do interior.

Na safra passada, as empresas transnacionais, e são poucas (Basf, Bayer, Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell química...), comemoraram que o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa.

Esses venenos são de origem química e permanecem na natureza. Degradam o solo. Contaminam a água. E, sobretudo, se acumulam nos alimentos.

As lavouras que mais usam venenos são: cana, soja, arroz, milho, fumo, tomate, batata, uva, moranguinho e hortaliças. Tudo isso deixará resíduos para seu estômago.

E no seu organismo afetam as células e algum dia podem se transformar em câncer.

Perguntem aos cientistas aí do Instituto Nacional do Câncer, referência de pesquisa nacional, qual é a principal origem do câncer, depois do tabaco? A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) denunciou que existem no mercado mais de vinte produtos agrícolas não recomendáveis para a saúde humana. Mas ninguém avisa no rótulo, nem retira da prateleira.

Antigamente, era permitido ter na soja e no óleo de soja apenas 0,2 mg/kg de resíduo do veneno glifosato, para não afetar a saúde. De repente, a Anvisa autorizou os produtos derivados de soja terem até 10,0 mg/kg de glifosato, 50 vezes mais. Isso aconteceu certamente por pressão da Monsanto, pois o resíduo de glifosato aumentou com a soja transgênica, de sua propriedade.

Esse mesmo movimento estão fazendo agora com os derivados do milho.

Depois que foi aprovado o milho transgênico, que aumenta o uso de veneno, querem aumentar a possibilidade de resíduos de 0,1 mg/kg permitido para 1,0 mg/kg.

Há muitos outros exemplos de suas consequências. O doutor Vanderley Pignati, pesquisador da UFMT, revelou em suas pesquisas que nos municípios que têm grande produção de soja e uso intensivo de venenos os índices de abortos e má formação de fetos são quatro vezes maiores do que a média do estado.

Nós temos defendido que é preciso valorizar a agricultura familiar, camponesa, que é a única que pode produzir sem venenos e de maneira diversificada. O agronegócio, para ter escala e grandes lucros, só consegue produzir com venenos e expulsando os trabalhadores para a cidade.

E você paga a conta, com o aumento do êxodo rural, das favelas e com o aumento da incidência de venenos em seu alimento.

Por isso, defender a agricultura familiar e a reforma agrária, que é uma forma de produzir alimentos sadios, é uma questão nacional, de toda sociedade.

Não é mais um problema apenas dos sem-terra. E é por isso que cada vez que o MST e a Via Campesina se mobilizam contra o agronegócio, as empresas transnacionais, seus veículos de comunicação e seus parlamentares, nos atacam tanto.

Porque estão em disputa dois modelos de produção. Está em disputa a que interesses deve atender a produção agrícola: apenas o lucro ou a saúde e o bem-estar da população? Os ricos sabem disso e tratam de consumir apenas produtos orgânicos.

E você precisa se decidir. De que lado você está?

Artigo do economista João Pedro Stedile, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Sem Terra (MST). Publicado na edição de hoje de O Globo.

Yeda aniquilou a soberania do Estado


O empréstimo com o Banco Mundial

É inacreditável o disposto nos documentos que lastreiam o empréstimo do Rio Grande do Sul com o Banco Mundial. Com a leitura, comprovamos que o contrato não só é péssimo para as finanças como aniquila a soberania do Estado.

A intenção de perenizar o atual governo é nítida, pois todas as políticas públicas, das receitas próprias às despesas, ficarão sob o controle direto do Banco. Isto impõe aos futuros governadores a obrigação de seguir, por trinta anos, os rumos traçados.

Os pretendentes a governador já podem saber o que terão que fazer e a quem deverão obedecer.

Basta que leiam os documentos que sustentam o empréstimo [ver abaixo]. Por mais inacreditável que possa parecer, eles são reais, e compulsórios.

Aqueles que minimizam a profundidade do contrato se surpreenderão ao lerem cláusulas como a que dispõe que os direitos e as obrigações das partes são unicamente aqueles estabelecidos nos documentos da operação, os quais se sobrepõem ao próprio estatuto do Banco Mundial e a quaisquer leis ou constituições, sejam elas brasileiras ou norte-americanas.

Os litígios? Eles serão resolvidos por um Tribunal Arbitral composto por três pessoas.

Mais algumas informações:

a) na desvalorização cambial tomamos, nas primeiras 11 prestações, uma espetada de 18,47%, pois as pagamos com um dólar médio de R$2,1607 enquanto que a primeira parcela foi recebida com um dólar a R$1,8238. Aliás, a espetada poderia ter sido de 30,95% se a primeira parcela tivesse sido recebida com o dólar constante dos estudos do governo, que era de R$1,65;

b) já pagamos US$2,75 milhões e serão pagos aproximadamente outros US$3,5 milhões, somente em duas comissões;

c) o atual governo amortizará 0,15% do empréstimo enquanto que aos próximos caberão os restantes 99,85%;

d) seis dias após sua edição, a lei estadual nº 12.915/08, que autorizou o empréstimo no valor de R$2 bilhões, foi alterada pela nº 12.917/08, mudando a moeda, de reais para dólares, e o valor do empréstimo, dos noticiados US$1,100 para US$1,140, bilhão; estaria sendo preparado novo empréstimo de US$40 milhões?

Com a leitura, percebemos que o Rio Grande do Sul tem um novo núcleo duro de poder ao qual se sujeitarão os futuros governadores.

Para que isto não ocorra o empréstimo deverá ser quitado antecipadamente.

Os links dos documentos:

O Contrato

A tradução oficial

Documento inicial

Condições gerais

Leis estaduais


Artigo do contador João Pedro Casarotto, fiscal de Tributos Estaduais do RS, aposentado, dirigente do Sintaf (Sindicato dos Fiscais de Tributos do RS) e ex-presidente da Afisvec (Associação dos Fiscais de Tributos Estaduais). Publicado originalmente no ótimo portal informativo IHU/Unisinos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Aracruz de Guaíba está sendo vendida a chilenos



As promessas de 2006 ficaram na saudade

A Aracruz Celulose, incorporada pela Votorantim Celulose e Papel (VCP), negocia a venda da Unidade Guaíba com o grupo chileno Empresas CMPC. O valor do negócio é US$ 1,43 bilhão, sujeito a ajuste. A venda da unidade foi antecipada pelo jornal Valor em reportagem publicada no último dia 16.

De acordo com fato relevante divulgado pela Aracruz, já foi assinado um memorando de intenções com a CMPC, que terá exclusividade nas negociações por 90 dias.

O acordo de venda inclui uma fábrica de celulose com capacidade de produção de aproximadamente 450 mil toneladas anuais e uma fábrica de papel, que pode produzir cerca 60 mil toneladas/ano.

O comprador também leva os terrenos com uma área aproximada de 212 mil hectares e as licenças e autorizações para expansão da fábrica de celulose, projeto que pode elevar a capacidade para cerca de 1,75 milhão de toneladas.

Conforme apurou o Valor, a intenção dos acionistas não era vender a unidade que fica no Rio Grande do Sul. Mas a oferta pelo ativo foi alta o suficiente para que a proposta fosse avaliada. A informação é do portal Valor Online, repassada pelo jornalista Daniel Cassol.

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O governo Yeda Crusius, a partir desta notícia, deve uma explicação ao Rio Grande do Sul, bem como o jornal Zero Hora.

Conforme badalou na capa o jornal da RBS, edição de 30 de junho de 2006 (ver acima), os investimentos da papeleira iriam beneficiar cerca de trinta municípios da Metade Sul e gerar 12,5 mil empregos, graças a um investimento de 1,5 bilhão de dólares.

Prometeram - Yeda, a RBS e a papeleira quebrada (pela jogatina financeira no mercado de derivativos cambiais em 2008) - e não cumpriram.

A papeleira não só não realizou nenhuma dessas promessas, como agora, a própria está sendo negociada pela quantia de 1,43 bilhão de dólares com um grupo de investidores chilenos.

Clique nas imagens para ampliá-las.

Ala dos Compositores


Kayser

Devemos atualizar o projeto para o campo


O campo no Brasil atual

Marx partia do princípio de que, para compreendermos as sociedades, seria necessário entendermos como esta sociedade produz e reproduz os seus meios de existência. Ou seja, seria necessário compreendermos o trabalho humano como um princípio fundante de situações sociais diversas. Partindo deste princípio, a esquerda brasileira, até os anos 80, analisa o mundo do campo e o da cidade através da categoria trabalho e, deste modo, quem trabalhava em atividades agrícolas era um sujeito do campo.

O trabalho rural era dividido em diversas categorias, como o de pequeno produtor, o assalariado, o posseiro, o sem terra, o bóia-fria etc. Claro que, existindo sujeitos que produziam no campo, existiriam outras categorias, como professores, pequenos comerciantes etc. A luta pela reforma agrária englobava a luta de todos estes trabalhadores visando à construção de uma sociedade que num primeiro momento integrasse os trabalhadores ao processo produtivo para, num segundo momento, criar as bases para a ultrapassagem do capitalismo. Pensando nos direitos materiais e culturais, todos teriam o mesmo direito que a modernidade, através do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, havia conquistado.

A partir dos anos 1990, decorrentes da crise do socialismo, do fim da URSS e da supremacia do pensamento neoliberal, a esquerda brasileira, como de resto a esquerda mundial, desconcerta-se. E, em conseqüência, boa parte desta esquerda irá abrigar-se em análises puramente culturalistas e pós-modernas, desvinculadas dos problemas sociais e econômicos.

As análises acerca da problemática rural tomam o mesmo rumo acima descrito. Passa-se a debater o que seria o campo e sua relação com as cidades numa análise puramente cultural.

Com isto, os projetos de reforma agrária vão perdendo espaço para debates acerca da influência dos meios de comunicação, do jovem, do velho, da mulher, desvinculados da realidade sócio-econômica.

Debate-se o que seria campo ou cidade em termos puramente subjetivos e, assim, começa-se uma discussão estéril se as pequenas cidades seriam parte urbana ou rural do país ou se o campo é relação com a natureza pura e a cidade a natureza transformada. Nesta discussão, o trabalho como instância definidora perde espaço.

Porém, esta discussão subjetiva e culturalista começa a mostrar as suas fragilidades, pois não é possível discutir estas questões sem colocar a questão da produção e reprodução da vida em primeiro plano. Desta forma, vejo que devemos retomar conceitos básicos para que, compreendendo as relações sociais de produção hoje, possamos compreender o papel do campo na sociedade brasileira atual.

Defendo que o capitalismo brasileiro não mais merece o crédito das reformas. Assim, o trabalho e vida no campo e na cidade devem estar inseridos em um novo Projeto de País em que ambos tenham sua importância como produtores de bens necessários e bens que nos levem ao caminho da liberdade. Devemos superar a produção visando apenas o mercado, criarmos condições reais de produção e trabalho, proporcionando assim as condições de vida, escolarização, saúde, lazer e maior integração com as cidades para os moradores do campo.

Devemos atualizar o projeto para o campo, pensando na questão ambiental e na produção para valores necessários à vida humana. Podemos dar ênfase ao cooperativismo, às alternativas regionais de produção e comércio, como a convivência com o semi-árido, à produção coletiva e democraticamente dirigida pelos trabalhadores nas maiores propriedades.

Se a população do campo decresce, precisamos compreender este processo dentro de relações capitalistas da sociedade brasileira, e não ficarmos especulando em análises puramente culturalistas. Só assim será possível compreendermos o campo, suas contradições, suas possibilidades, ou não, de ter um papel fundamental no desenvolvimento da sociedade brasileira.

Artigo do professor Antonio Julio de Menezes Neto, da Faculdade de Educação, UFMG. Publicado originalmente no Correio da Cidadania.

Lula: o político mais popular do mundo



Isso consome FHC por dentro, ele que é o mais popular entre os usuários de THC

A revista semanal novaiorquina Newsweek traz uma longa matéria com o presidente Lula. Ele é apontado como "o político mais popular do mundo". Entrevistado pelo repórter Mac Margolis, Lula defendeu a democracia bolivariana do presidente Hugo Chávez.

A Newsweek é uma publicação liberal que circula por quase duzentos países do mundo, com cerca de três milhões de exemplares, pertence ao grupo educacional Kaplan que também detém o controle do influente jornal The Washington Post e serviços de broadcasting.

Em Tempo: FHC está com entrevista publicada nesta semana nas páginas amarelas de Veja (acima). Assunto: THC, a sigla que define a fórmula química do princípio ativo da maconha. O Farol de Alexandria agora é "especialista" em drogas consideradas ilícitas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Globo e Record têm concessões renovadas sem debate público


Isso é um escândalo! As duas emissoras representam 60% da audiência no País

As concessões de TV de quatro emissoras da Rede Globo e duas da Record foram oficialmente renovadas na última quinta-feira (10) pelo Congresso Nacional. Assim, as duas empresas ganham permissão para transmitir suas programações por mais 15 anos. No caso da Globo, esse prazo vai até 2022 e da Record, até 2013. Assim como acontece com os outros processos de renovação de outorga na radiodifusão, não houve a participação dos mais interessados no assunto: o público.

As renovações em questão ganham ainda mais importância por se tratarem de emissoras próprias das duas empresas, que respondem hoje por mais de 60% da audiência de TV no país. Além disso, nos dois casos as outorgas renovadas são para as chamadas “cabeça-de-rede”, que centralizam maior parte da produção que é transmitida pelas afiliadas espalhadas pelo país. As emissoras da Rede Globo cujas concessões foram renovadas ficam em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Já as da Record estão situadas no Rio e em Itajaí (SC).

A análise dos processos, que passam por dois ministérios – o das Comunicações e a Casa Civil – e pelo Congresso Nacional, durou pouco mais de dois anos. Este prazo contrasta com a morosidade registrada para os demais processos de renovação. Há casos de emissoras funcionando com licença vencida há mais de 10 anos. A informação é do jornal Brasil de Fato.

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No Brasil, a liberdade de imprensa é a liberdade da mídia oligárquica. O direito à livre informação é a "liberdade" de ver/escutar a mentira ideologizada das tradicionais empresas midiáticas do pensamento único.

O lulismo de resultados compactua e é conivente com esse atentado à cidadania e a favor do lixo midiático.

Jamais seremos um país independente com um povo emancipado convivendo diariamente com o produto desqualificado e rebaixado que jorra todos os dias dessas duas emissoras de televisão.

Rádio Globo está contra o golpe hondurenho


Rádio Globo (de Honduras), bem explicado

Ouça aqui direto de Honduras notícias sobre a permanência do presidente Zelaya na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, e as manifestações populares que estão sendo reprimidas duramente pela gorilarem do golpista Micheletti.

Ao vivo.

A rádio Globo pede que a opinião pública internacional se manifeste contra os golpistas. É muito importante, para a reconquista da democracia hondurenha.

A embaixada do Brasil está sitiada por tropas militares que sustentam o golpe. Foi cortada a energia elétrica, a linha telefônica, e a água da rede pública de Tegucigalpa que abastece a representação brasileira.

Neste momento, foi colocado um carro militar com uma grande antena parabólica que emite um ruído muito alto e estridente, com o objetivo de perturbar a casa diplomática brasileira e seus ocupantes.

Zelaya não pode repetir Cámpora


Atitude do governo brasileiro é irrepreensível

A atitude do governo brasileiro em dar refúgio político ao único e legítimo presidente hondurenho Manuel Zelaya na nossa embaixada em Tegucigalpa é elogiável, sob todos os aspectos. É uma cunha política importante para pressionar os golpistas locais a deixarem o poder que tomaram pela força em 28 de junho último.

É uma notícia importante essa. O Brasil troca de lado no que se refere a apoio a situações de golpe em países latino-americanos. Se em 1973, a ditadura civil-militar brasileira acolhia no interior da embaixada em Santiago (ainda que de forma oficiosa) os golpistas que depois acabariam por derrubar o presidente civil Salvador Allende, em 11 de setembro daquele ano, hoje, com o presidente Lula, o panorama é bem outro.

O Brasil torna-se peça importante para resolver o impasse hondurenho, onde um legítimo presidente foi apeado do poder por militares e civis golpistas, apesar da grita internacional pela irregularidade grave dos acontecimentos centro-americanos.

A presença de Zelaya no interior do território hondurenho, mas a salvo da fúria dos inimigos da democracia, pode ser considerado uma jogada de mestre, seja quem for o autor desse plano até agora bem sucedido. A manobra política deve necessariamente ter desdobramentos, caso contrário, pode reprisar o desfecho do ocorrido com o ex-presidente argentino Héctor Cámpora, quando do golpe militar de 24 de março de 1976.

El Tio
, como era chamado o correto líder peronista, refugiou-se na embaixada do México em Buenos Aires (o jornalista brasileiro Flávio Tavares teve um papel determinante em favor de Cámpora, neste episódio, com lances cinematográficos) e lá permaneceu por mais de três longos anos. Só recebeu salvo-conduto para deixar o país dominado por gorilas assassinos, depois de provar que estava com um câncer terminal. Seguiu para a Cidade do México e lá morreu, meses depois, em dezembro de 1980.

Isso não pode se repetir.

Espera-se, agora, que a Casa Branca também tome atitudes mais definidas em relação à situação de Tegucigalpa, uma vez que tem oscilado desde o golpe de junho entre a defesa de seus investidores locais e a consigna da democracia liberal que tanto alega defender mundo afora.

A posição adotada pelo Itamaraty no presente caso é o que se espera de um país que pretende assumir cada vez mais protagonismo e liderança regional entre as nações democráticas da América Latina.

Foto: o presidente hondurenho Manuel Zelaya acena para a multidão postada na frente da embaixada brasileira em Tegucigalpa, ontem. Hoje, o governo golpista mandou cercar a embaixada do Brasil com tropas militares e tanques de guerra. A situação é tensa. Lula pediu respeito com a casa do Brasil em Honduras.

Ex-presidente do Detran queria "delatar" a governadora Yeda


CPI divulgou ontem dez novos áudios cabeludos

A CPI da Corrupção apresentou ontem novas gravações que mostram que o ex-presidente do Detran, Sergio Buchmann, teria sido pressionado pelo secretário adjunto da Administração e dos Recursos Humanos, Genilton Macedo Ribeiro.

Segundo as gravações, o diretor teria mandado Buchmann calar a boca e parar de falar com a imprensa sobre as irregularidades no Detran. Ribeiro ainda teria afirmado que sabia da compra da mansão pela governadora Yeda Crusius desde a campanha eleitoral. Em outra gravação, o também ex-presidente do Detran, Flavio Vaz Netto, mandou avisar o deputado Adilson Troca, do PSDB, de que queria voltar à CPI do Detran para delatar o secretário-geral Delson Martini e a governadora Yeda. As informações são da Agência Chasque.

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A divulgação seriada de áudios com diálogos comprometedores entre os réus da Rodin tem mostrado que os membros proativos da CPI da Corrupção acertaram a mão com a tática adotada. Mesmo que os deputados yedistas estejam boicotando de forma sistemática a comissão parlamentar e que a mídia local faça olho branco para os diálogos não-republicanos divulgados, a prática tem saldo positivo. Não é por que a mídia ignore e os yedistas gazeteiam que a população deixa de tomar conhecimento dos bastidores da maior fraude contra os cofres públicos do Estado. É a oportunidade que a comunidade sulina tem para saber do "alto espírito público" que orientava os líderes e militantes partidários da base de sustentação da governadora Yeda. Os diálogos telefônicos mostram um mundo-cão perfeito, onde o padrão é o da caverna de Ali-Babá e quejandos.

Chama a atenção que quando está marcada reunião da CPI na Assembleia a governadora sempre está longe de Porto Alegre. Ontem, por exemplo, ela estava em um churrasco comemorativo ao 20 de Setembro, em Brasília, oportunidade em que Sua Excelência se fantasiou uma vez mais de Anita Garibaldi. [Ou seria Maria Bonita?]

Amanhã às 18 horas tem nova sessão da CPI. ZH de hoje informa que a bancada yedista vai forçar a aprovação do que chama de "plano de trabalho", certamente algo que signifique embananamento total da comissão parlamentar de inquérito. Mais: um golpe na presidência da CPI, para o afastamento definitivo da deputada petista Stela Farias.

Foto: Jefferson Bernardes/Divulgação Palácio Piratini

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Incra/RS: "desconhecemos o tal diário"


Recebemos esta mensagem da Assessoria de Comunicação do Incra/RS:

Prezado Feil,

No Incra, desconhecemos tal diário.

As chefias entraram pessoalmente com a PF logo após a desocupação do prédio; nenhum diário foi encontrado.

Não sabemos, portanto, qual a procedência do material.

Gostaríamos também de saber.


A título de esclarecimento, para contribuir com algumas informações em um espaço eminentemente opinativo: a decisão do Instituto de priorizar o desenvolvimento dos assentamentos não é uma retaliação ao MST, como divulgado pela imprensa (que prefiriu enfatizar o lado inverso, a obtenção de áreas).

É uma decisão técnica, baseada no fato de que, nos últimos 4 anos, foram criados 24 novos assentamentos federais no Estado - sendo 10 entre 2008 e 2009.


Esta não é apenas uma preocupação do Incra, mas também dos movimentos sociais (recordemos: o desenvolvimento dos assentamentos foi pauta das ações do MST em São Gabriel).


Atenciosamente,

Marja Pfeifer Coelho

Assessoria de Comunicação - Incra/RS


[Mensagem recebida por esse blog DG às 16h53, de hoje.]

Incra/RS municia o argumento da direita


ZH tem franquias dentro do Incra e do Ministério da Agricultura/RS?

Os senhores Mozar Dietrich, superintendente regional do Incra, e Francisco Signor, delegado regional do Ministério da Agricultura estariam abastecendo a RBS com documentos e informações para fazer a disputa com o MST no Rio Grande do Sul.

Hoje, na edição de ZH, foi publicado parte de um caderno manuscrito que seria de agricultores do MST e teria sido achado nas dependências do Incra, em Porto Alegre.

Como ZH teve acesso a esse material, se ele estava num próprio federal?

Cabe, portanto, a suspeita de que os tais "diários" - de conteúdo quase ingênuo - tenham sido alcançados aos repórteres da RBS pelos dois senhores já citados.

Os caroneiros do mito farroupilha


Oportunistas querem mamar leitinho eleitoral da velha vaca sagrada da ideologia estancieira

Recebo de um leitor atento a cópia digitalizada do boletim eleitoral do único deputado estadual do PC do B alusivo ao 20 de Setembro (acima, fac-símile parcial).

Segundo o nosso gentil leitor, militantes pecedobistas estavam panfleteando o material eleitoral no Acampamento Farroupilha, no Parque da Harmonia, centro de Porto Alegre, ontem, dia 20 de Setembro.

Li parcialmente o panfleto laudatório ao que eles chamam de "Revolução Farroupilha". Uma confusão só. O material tem a nítida intenção de pegar carona no prestígio popularesco da ideologia do gauchismo e da mitologia farroupilha. O texto é uma simplificação grosseira da historiografia dos fatos ocorridos entre 1835 e 1845 no Rio Grande do Sul. A começar que denomina a guerra civil farrapa de "revolução farroupilha".

Já se vê que os nossos comunistas de mentirinha leram pouco e leram mal as obras de Marx. Se é que leram. Em "A ideologia alemã", casualmente escrito entre 1845/46, Marx e Engels definem o que seja um processo revolucionário. Eles falam do chamado "salto cataclísmico" de um modo de produção para o seguinte, provocado pela convergência de conflitos entre as velhas instituições e as novas forças produtivas que lutam para se impor. Ora, nos conflitos do decênio farrapo jamais foi cogitado algo semelhante. A própria ideia de república era uma consigna anêmica e mitigada. Portanto, a institucionalidade era conservadora e o modo de produção continuaria baseado nas vastas estâncias pastoris tocadas a trabalho escravo. Onde se encontram, então, os elementos necessários para a ocorrência de uma revolução autêntica e genuína?

Marx no belo texto que lhe é peculiar, cheio de pequenas anedotas, espírito agudo e fina ironia, ainda observa que em qualquer revolução é preciso "limpar as estrebarias de Áugias que estão transbordando de estrume" - referindo-se aos doze trabalhos do herói mítico Hércules que desviou dois rios para limpar num só dia as cocheiras fétidas de um velho reino grego.

As estrebarias do Rio Grande do Sul, pois, ficaram simbolicamente mais sujas, depois de 1845. Uma velha classe de civis e militares se revezaram vegetativamente no poder provincial, como xerifes vigilantes da imperial família Bragança. Enquanto isso, sua base social de sustentação política - o latifúndio pastoril (de tão atrasados sequer cultivavam a terra) de exportação - se apropriava de tantas terras públicas quanto fosse possível.

Essa farra latifundiária sem limites e com licença para roubar terminou somente em 1891, com a Constituição escrita pelo republicano Julio Prates de Castilhos, dando início, assim, a um novo ciclo político modernizador e revolucionário que vai durar mais de trinta anos no Rio Grande do Sul - onde explodiram dois conflitos sangrentos - 1893/95 e 1923/24 - sempre provocados pela reação maragata (estancieiros ex-monarquistas).

Mas isso não interessa aos oportunistas que só apostam nas leviandades e meias-verdades do senso comum mais obtuso. O negócio é continuar pescando votinhos nas águas turvas do consenso mais rasteiro e ideologizado.

domingo, 20 de setembro de 2009

RS: mais para Bento Gonçalves da Silva do que para Julio Prates de Castilhos


Por que optamos pelo pior

O Rio Grande do Sul porta uma riqueza cultural única no Brasil, que resulta da contribuição de múltiplas nacionalidades e etnias - algumas autóctones, como as diversas nações etnolinguísticas que tivemos e temos, outras, exóticas, como europeus, asiáticos e africanos. Temos comunidades representativas de todos os continentes, que aqui se expressam, se miscigenam, e de alguma maneira contribuem para o nosso vasto painel cultural chamado Rio Grande do Sul.

Todavia, somos conhecidos como gaúchos. Ou melhor, o pensamento político hegemônico achou cômodo e funcional adequar um velho vocábulo marginal e desprestigiado - o gaúcho - para identificar de forma grosseira e imperfeita o tipo humano mais meridional do Brasil. Logo, mesmo a muque, somos gaúchos. Um gentílico reciclado e remodelado para representar o povo sulino, portanto, um locativo arbitrário e insuficiente - reducionista e ficcional.

O significado das palavras é histórico, porque muda conforme as ondulações do tempo e das vontades. Camões dizia que mudam-se os tempos e mudam-se as vontades. Gaúcho já foi o tipo marginal, uma espécie de andarilho em busca de um porto seguro, e que desconhecia as normas sociais estabelecidas. É, inclusive, uma expressão multinacional, comum à região platino-pampeana. "Gauchos" (pronuncia-se gáu-tchos) são os uruguaios e grande parte dos argentinos.

Assim, se a imprecisão avulta, cresce também a necessidade de emprestar mais atributos identitários ao gentílico, a fim de definir os contornos de uma personalidade singular e exclusiva.

Que tal trazer do passado recortes plásticos para dar-lhe espessura e densidade histórica? A guerra civil de 1835-1845 contra o Império da família Bragança pode ser uma boa ideia. Tem muitos ingredientes épicos, tintas republicanas, espírito indômito, traços libertários, uma subjetividade não contaminada pela cultura etnocêntrica, etcetera, que podem formar um nexo neste constructo mítico que se está moldando meio às cegas.

Como em toda mitologia, foram sendo costurados elementos portadores de significado e que representam a realidade. É a bricolage de Claude Lévi-Strauss. Uma vasta colcha de retalhos do real, improvisados de forma a combinar um todo que guarda coerência com o passado, mesmo que parte deles sejam ficções, parte metalinguagem, parte historiografia, parte contingência, parte realidade transfigurada, parte ideologia, parte má consciência, parte fetichismo, parte gabolice e por aí vai. O gaúcho portanto é uma obra em aberto, e por isso, em disputa. Uma obra que flutua, uma "ideia feita" (Flaubert) e refeita constantemente pelos seus sustentadores (ou mesmo adversários, por que não?).

Brincando um pouco, é possível dizer que o gaúcho (à moda de Michel Foucault no prefácio de As palavras e as coisas, onde cita Jorge Luis Borges) está catalogado como “uma certa enciclopédia chinesa onde está escrito que os animais [os gaúchos] se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, l) etcetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas”.

Quer dizer, cabe qualquer disparate para identificar esse "tipo ideal" (Weber) do bloco no poder sul-rio-grandense.

Semanas atrás, uma empresa midiática familial sulina, de grande influência no poder e no senso comum local, achou por bem em consultar os seus leitores/consumidores sobre quais seriam os principais personagens históricos do Estado, como se o senso comum dominasse de forma segura esse universo historiográfico e a partir disso pudesse fazer a classificação do panteão pretendido pela empresa de entretenimento. Por óbvio, havia uma cartela de nomes passíveis de representarem a farsa midiática, quase todos de ficção, alguns de ficção romanesca mesmo, como uma certa namorada do mercenário italiano Giuseppe Garibaldi, que hoje está entronizada como figura fundante da nossa "pequena pátria" (Comte).

Já se vê, pois, que há permissão para que qualquer indivíduo ou grupo incida nessa bricolage mítica que é o constructo do gaúcho. É evidente que o pensamento hegemônico tira vantagem nessa disputa, afinal, detém a quase absoluta totalidade das mídias conhecidas, o Parlamento, o Executivo, o Judiciário, as Universidades, a publicidade, e uma formidável capilaridade no meio social, através da escola formal, clubes, associações, igrejas, entidades patronais, e mesmo sindicatos de empregados, etc.

Mas tem um componente neurótico nessa opção pelo tradicionalismo. Sim, porque entre dois tradicionalismos, escolheu-se o mais rústico e rasteiro. A que tradicionalismo nos referimos? Ora, o tradicionalismo vencedor é aquele filiado à corrente farroupilha de Bento Gonçalves da Silva, a tradição hegemonizada é a de Julio Prates de Castilhos, o responsável por um movimento político burguês que ainda no século 19 projetou o Rio Grande do Sul no século 20.

Hoje, predomina um éthos que corresponde à tradição imposta por um antigo ladrão de equínos e bovinos, Bento Gonçalves da Silva. São esses traços psicossociais que estão no poder no Estado, agora. A tradição representada pelo burguês modernizador, revolucionário (no estrito senso do vocábulo), austero e incorruptível, que foi Castilhos, está subordinada ao pragmatismo mais rebaixado e deletério. Informe-se que Julio de Castilhos preferiu as dificuldades materiais e contingentes do que advogar para sobreviver, depois que foi alijado do poder. Alegava que não poderia sequer peticionar a um magistrado que fora nomeado por ele quando chefe do Executivo estadual.

Esse modelo político-moral está arquivado no Rio Grande, em favor de um padrão inspirado no abigeato e na apropriação indébita do público e do privado.

Se o Rio Grande chegou primeiro ao século 20 (antes mesmo do resto do País), hoje, sai por último do mesmo século. O Brasil, aos trancos e barrancos, e de forma parcial, já chegou ao século 21, mas o RS se arrasta e se enxovalha no pântano a que foi conduzido pela hipertrofia do pragmatismo maragato, cuja matriz político-ideológica foi forjada durante o século 19, depois da guerra civil de 1835, e se estendeu até 1891, no dia 14 de julho quando é proclamada a Constituição castilhista que induz a modernização burguesa e a promoção geral e complexa da província fronteiriça sulina.

O castilhismo-borgismo promoveu uma autêntica revolução burguesa no Estado. Algo que o próprio Brasil experimentaria somente depois de 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder. Se nós tivemos uma revolução burguesa do tipo clássica, cruenta, que modificou radicalmente o poder regional, modernizando-o e aportando valores republicanos, ainda que não-democráticos, o Brasil não a teve. A modernização do País e a institucionalização do Estado, bem como o processo de industrialização, foram conquistas, não da burguesia, mas da iniciativa do próprio Vargas - forjado e projetado no sistema castilhista sul-rio-grandense.

Assim, festejamos o 20 de Setembro, por um capricho rançoso dos perdedores de 1893 (e que estiveram no poder durante toda a segunda metade do século 19 e só souberam se apropriar de terras devolutas do Estado monárquico, especialmente na região da Campanha).

Por que não festejamos o 14 de Julho de 1891? Justo a data da proclamação da Constituição republicana (foto). Esta é o dia fundante da verdadeira república rio-grandense. Por que festejamos a outra, a república farrapa, que admitia o escravagismo e tolerava todas as religiões, desde que fosse a católica romana? Uma falsa república fundada por falsos líderes, os mesmos que assinam o vergonhoso pacto de Ponche Verde com o Império dos Bragança, e de quebra recebem uma polpuda "indenização". É caso único no mundo, o vencido receber indenização do vencedor. A rigor, o Império comprou a "rebeldia" dos farroupilhas, e estes se venderam pelo vil metal.

Estes foram os "revolucionários" e os "republicanos" eleitos pelo establishment guasca para representar o povo façanhudo que somos!

Tudo isso explica muita coisa do nosso momento atual, especialmente, do que se passa nas entranhas mau cheirosas do Palácio Piratini, hoje.

sábado, 19 de setembro de 2009

Os cem mil degolados de 1893


Menos, amigo, menos!

Meu amigo Flavio Tavares está com a mão pesada. Num só artigo (acima) degolou como 85 mil guascas, impiedosamente. Quer suplantar o velho maragato Adão Latorre, o maior degolador do Rio Grande, que passou a lâmina branca na garganta de centenas de cueras entre 1893 e 1895, e seguiu cortando na revolução de 1923, que durou onze meses.

Segundo o acatado historiador Joseph Love, "a guerra [civil de 1893] durou 31 meses e produziu de dez a doze mil baixas numa população de um milhão de pessoas". O que, convenhamos, é um número expressivo de mortos, em tão pouco tempo de conflitos. E nem todos perderam a vida pela degola, mas também em combates e refregas cruentas nas coxilhas e restingas do Pampa.

Wenceslau Escobar afirma na obra "Apontamentos para a história da Revolução Rio-grandense de 1893" (Ed. UnB, 1983) que ocorreram 134 assassinatos no período do governo de Vitorino Monteiro e Fernando Abbott, a maioria destas mortes foram por execução de degola. Segundo os federalistas (maragatos), adversários do castilhismo-republicano, os assassinatos políticos passaram de 250 vítimas.

"Em parte alguma a instabilidade política - assegura Love -, nos anos iniciais da República , foi maior do que no Rio Grande do Sul. Entre a queda do Império e a segunda posse de Castilhos, em janeiro de 1893, o governo estadual mudou de mãos 18 vezes". Foram os "governichos", como os classificou o republicano Julio de Castilhos no jornal do PRR, A Federação.

Em nenhum autor - Walter Spalding, Artur Ferreira Filho, Sergio da Costa Franco, Decio Freitas, Sandra Jatahy Pesavento, Moacyr Flores, Joseph Love, John Chasteen, Mário Maestri, Alfredo Bosi e Luiz Roberto Targa entre outros - nós vamos encontrar tantas vítimas da revolução burguesa de 1893 quanto o nosso Flavio Aristides Tavares.

Isso está parecendo aquela história da avioneta que caiu sobre um cemitério do interior. Ao cabo do segundo dia de buscas, o pessoal chucro da região já tinha contado como quatrocentos mortos.

Fac-símile parcial da página 13 do jornal Zero Hora, edição dominical de 20/set/2009.

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