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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008


Fogaça quer privatizar iluminação pública

O vereador Guilherme Barbosa (PT) manda denúncia ao blog DG. A administração Fogaça pretende privatizar os serviços de iluminação pública de Porto Alegre. A afirmação foi feita a partir da análise do edital lançado na última terça-feira (26/2). O processo licitatório prevê duas medidas: 1) mais eficiência no sistema de iluminação pública através de financiamento federal, via programa Reluz; 2) repassar o gerenciamento do sistema para a empresa vencedora da licitação, o que caracterizaria privatização do serviço municipal.

O vereador cita o item 11.20, letra b, da minuta do contrato a ser firmado entre a SMOV e a empresa vencedora que diz: "caberá à empresa contratada o gerenciamento permanente de todos os serviços relativos à iluminação pública". O vereador argumenta que caso este contrato se efetive, todos os dados referentes ao sistema de Iluminação Pública sairá do controle público, como ocorre hoje.

Antes e durante a Administração Popular, a iluminação pública de Porto Alegre sempre foi considerada uma das melhores do país, mantendo entre 2% e 3% o índice de lâmpadas apagadas. Atualmente este percentual ultrapassa, com folga, os 10%. O vereador observa que a incompetência da administração Fogaça já é conhecida de longa data pela população, mas, neste caso, acrescenta, juntam-se também outras iniciativas do poder público municipal em privatizar serviços ou espaços públicos, “como é o caso do auditório Araújo Vianna, do Camelódromo e da mega-tentativa frustrada de impor os Portais da Cidade”.

Como se não bastasse, acrescenta o petista, na apresentação pública do programa, o prefeito Fogaça e o Secretário de Obras (foto) expõem uma luminária em que aparece o número 15, estampado na peça. Ninguém desconhece que o partido do prefeito é o PMDB, cujo número eleitoral é 15.

O TRE deve analisar o abuso do prefeito.

Fotografia de Ricardo Giusti/PMPA.

Angeli

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008


A guerra contra Cuba

Os difamadores ideológicos de Cuba insistem em criticar possíveis erros macroeconômicos na ilha, dizer que há atraso e falhas graves no sistema de trocas, etc. Pois esses detratores deveriam saber os motivos reais das dificuldades de um pequeno país que vive há mais de quarenta anos sob um pesado bloqueio comercial, financeiro e diplomático contra si, orientado e conduzido pelos diferentes governos dos EUA.

Os exemplos são inúmeros e graves. Os bancos internacionais quando fazem conversão de moeda para pagamentos de créditos de exportação à Cuba, o fazem com erros grosseiros (a menor, por supuesto), prejudicando o recebedor do crédito, o governo e os produtores cubanos. Em 2006, a União de Bancos Suíços foi multado pelo governo dos EUA em 100 milhões de dólares por ter feito uma simples transferência de moeda para o território cubano. Quando uma empresa japonesa quer vender sua mercadoria aos EUA, os carros da Mitsubishi, por exemplo, precisa ser inspecionada antes por agentes norte-americanos a fim de ficar provado que aqueles veículos não usam o níquel cubano na composição de seus metais em peças automotivas. E assim por diante.

Assista aqui um vídeo, de uma série de sete, sobre o tema da guerra comercial e financeira (e midiática) contra Cuba, e suas graves repercussões internas. Esse vídeo dura 10 minutos. Os outros seis segmentos podem ser pescados e vistos aí no Youtube (estão juntos, na coluna à direita). São depoimentos de dirigentes do governo cubano, como Ricardo Alarcón, Felipe Pérez Roque e outros. Vale a pena assistir.



Sucateamento do Ibama

Servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) protestam hoje em Brasília contra o sucateamento do órgão federal. O protesto será realizado durante o café da manhã, na comemoração oficial dos 19 anos do Ibama.

Os funcionários reclamam que as unidades estão com falta de trabalhadores e de recursos para fiscalização, o que compromete uma gestão ambiental de qualidade e que não tem tido êxito em inibir o desmatamento crescente. Um dos exemplos ocorre no Amazonas, em que há somente 79 servidores, naquela vasta região. A média é de um fiscal para cuidar de quase 20 mil hectares de floresta, o que corresponde a uma área quase quatro vezes maior do que Brasília. Informação da Agência Chasque.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008


Maitena

Milho transgênico só interessa às multis

Um dos principais dirigentes e pensadores do MST, João Pedro Stédile, criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quinta-feira, 21, ao abordar a questão dos transgênicos. "Já avisei ao Lula. Lula, cuidado com o milho transgênico. Só interessa à Monsanto e à Bayer. Lula, você vai entrar para a história como puxa-saco das multinacionais se aprovar os transgênicos", avisou. Stédile não poupou críticas ao presidente Lula, que o MST ajudou a eleger. Disse que a situação piorou no seu governo e que não houve avanços na reforma agrária nos últimos anos. As informações são das agências Estado e Reuters.

No último dia 12, o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) aprovou o plantio e a comercialização de duas variedades de milho transgênico no Brasil. As variedades aprovadas foram da Bayer CropScience e da Monsanto. O milho transgênico é o terceiro produto agrícola alterado geneticamente a receber autorização de plantio no Brasil, depois da soja e do algodão, ambos com patente da Monsanto.

Movimentos, como o MST e a Via Campesina, representados por Stédile, criticam a posição do governo sob o argumento de que não há estudos completos que garantam que as variedades de milho são seguras à saúde e ao meio ambiente.

"Faço parte da geração que se iludiu com o 'Lula lá'", disse Stédile. Ele disse ainda que "nos últimos seis anos, aumentou a concentração da propriedade da terra". E completou: "Está havendo no Brasil uma contra reforma agrária. Com um agravante, parte das grandes propriedades que estão se acumulando são do capital estrangeiro".

Ele afirmou ainda discordar dos que dizem que Lula "abriu as torneiras" para o movimento. Segundo ele, o dinheiro que os assentamentos recebem é usado na alfabetização de adultos no meio rural."Esse papel não é do MST. É do Estado. Mas como o Estado está debilitado e não chega às zonas mais pobres, faz convênio com o MST. Aí chega um deputado e diz que o MST recebe R$ 20 milhões, mas não diz que o movimento recebe para alfabetizar jovens e adultos", justifica. Ele negou que essa formação tenha viés ideológico.



A briga intestina no PIG

Tem uma briga interna no PIG – Partido da Imprensa Golpista - que começa a ficar interessante. Um arranca-rabo de gente bem branquinha, como diziam os negros nas senzalas do Império. A rede Record, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, sentiu-se ofendida por matérias veiculadas pela Folha e Globo, e agora está instruindo suas fiéis ovelhinhas a processarem judicialmente os dois jornais e uma jornalista do grupo Folhas. A combustão está se alastrando por outros sócios-atletas do PIG, inclusive a RBS, que vê seu quintal ameaçado pela recente aquisição por parte da IURD do jornal Correio do Povo e a rádio e tevê Guaíba.

É interessante ler os editoriais e as matérias editorializadas dos que estão contra a Record/Universal. Clamam aos céus - cinicamente - por liberdade de expressão e de imprensa, taxando o recurso ao Judiciário como instrumento antidemocrático e autoritário dos fiéis de Edir Macedo.

Sobre a ação judicial dos editores de Veja – como pessoa física - contra o jornalista Luís Nassif o silêncio é sepulcral.

Ilustração de Jeramy Turner

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


Pajelança no governo Yeda?

Depois de ajudar a afundar mais o Estado durante o governo Britto, César Busatto, volta ao Piratini, agora na condição de religioso convicto, como se pode ver na fotografia acima, em que ele reza de mãos dadas com aliados e colaboradores.

É bom que Sua Excelência vá rezando, o assunto Detran/RS tem levado pânico ao governo Yeda, que teme um processo de impeachment que a defenestraria do “meu palácio” – como ela se referia ao Piratini no início de 2007.


O gesto de Fidel ajudaria Obama

O que está rolando de tolices na mídia – especialmente no PIG – sobre a renúncia de Fidel não está no mapa. Mas o jornalista Jon Lee Anderson, o melhor biógrafo de Che Guevara, tem uma avaliação interessante, que sobressai nesse mar de chutadores: a transição em Cuba será “lenta e orquestrada” e a figura lendária do Comandante irá “pairar no ar” ainda por mais uma geração, no mínimo. Anderson considera que Fidel avaliou como propício esse momento, e que o grande beneficiário seria Barack Obama, que a partir de agora tem “uma boa chance de ser o próximo presidente”.

Neste sentido, cabe indagar se Fidel já não esteja retirando-se estrategicamente para facilitar futuras negociações que envolvam o fim do bloqueio econômico à ilha, mas sem quebrar os princípios do processo revolucionário que deverá passar sim por alterações de rota e admissão de novos interlocutores externos e, sobretudo, internos (com estudantes e sindicatos).


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008


Eleito por Costa-Gavras

Em 12 de outubro último publiquei aqui neste blog de província uma pequena crítica (leia abaixo) ao filme Tropa de Elite, que acaba de ganhar o prêmio maior do Festival de Berlim.

Isso não é pouca coisa, tanto mais se o presidente do júri tenha sido o grande cineasta Constantin Costa-Gavras (foto).

Leio que Costa-Gavras, conhecido por fazer filmes memoráveis com críticas politizadas e duras a regimes ditatoriais (Estado de Sítio, Missing, etc.) e ao stalinismo (A Confissão), foi um mobilizado eleitor para que o filme do brasileiro José Padilha recebesse o “Urso de Ouro” em 2008.

Muito bom! É sinal evidente de que o respeitado cineasta e intelectual grego não fez uma leitura superficial do Tropa, não resvalou no desvão comum de enxergar traços de fascismo no filme do mesmo realizador do ótimo Ônibus 174 (2002). Gavras entendeu bem o filme de Padilha, onde todo mundo é bandido e os heróis ou ainda não chegaram ou já morreram.

“Tropa de Elite” é ilustração de “Vigiar e Punir”

Não é de graça que o personagem Matias estuda a obra “Vigiar e Punir” no curso de terceiro grau que faz junto a coleguinhas branquinhos e portadorezinhos de um cinismo tão atroz quanto infinito. Aliás, o cinismo parece ser uma tatuagem de nascença dos brancos e privilegiados brasucas. O filme do diretor José Padilha apanha e explora muito bem esse “detalhe”.

O longa-metragem ficcional (ou seria documentário?) Tropa de Elite é uma metalinguagem ilustrativa e hiper-realista do clássico foucaultiano “Vigiar e Punir”. Está tudo lá, roteirizado, decupado e gravado: a docilidade dos corpos, a fisionomia do soldado, o corpo como objeto e alvo do poder, o controle minucioso das operações do corpo, a disciplina que aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência), a microfísica do poder, a minúcia dos regulamentos, o olhar esmiuçante das inspeções, o controle das mínimas parcelas da vida e do corpo... está tudo lá no filme estrelado pelo ótimo Wagner Moura, como o implacável Capitão Nascimento.

Parece que o diretor Padilha escolheu o reconhecidíssimo Wagner para subliminarmente querer dizer que “afinal, tudo isso é ficção, gente!, não levem tão a sério, etcetera e tal”. Mas é só na aparência. O filme é um documentário na linha do “é tudo verdade!” Nada que já não se soubesse à náusea. Mas, quando mostrado em linguagem artística e ancorado nas categorias de Foucault, a coisa fica mesmo como um soco no baixo ventre de qualquer um.

Os apressados dirão – depois de uma leitura rasa e plana – que o filme sobre o BOPE do Rio de Janeiro é um elogio à tortura. Mas só os apressados, só os que têm ejaculação mental precoce, só os sem imaginação, ousarão afirmar esse óbvio ululante. É preciso olhar o que vem depois do óbvio, saber enxergar antes e além dos métodos de tortura. Saber quais são os suportes culturais e plataformas operacionais dessa instituição internacional chamada “tortura”.

A rigor, o que é a tortura diante daquele mondo cane com trilha funk que o filme mostra? A tortura é um detalhe, uma decorrência naturalizada do que é “ser soldado que vê o mundo como uma guerra”. Também está lá no Foucault (leia aqui o primeiro capítulo de “Vigiar e Punir”, esse trecho é praticamente o roteiro conceitual do filme de Padilha).

Ou alguém imagina uma polícia sem tortura? Seria como conceber o sol sem os raios abrasadores, ou os oceanos sem água, as geleiras sem frio.

Não justifico a tortura, entendo-a no contexto do Estado burguês, detentor do monopólio da violência simbólica legítima (Bourdieu). Acabar com a tortura não se resume a impulsos de moralidade hipócrita, mas a eliminar mesmo as instituições que a reproduzem como subproduto imanente de suas existências.

O filme não é uma fábula moral, muito ao contrário, ele não aponta nenhum caminho. Apenas nos mostra de forma eloqüente e crua que o que temos não nos serve e que devemos, afinal, saber inventar um outro mundo possível. Como na psicanálise, ninguém precisa denunciar ou apontar, mas o “paciente” dá-se conta sozinho.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008


RBS anuncia que tem o apoio do Ministério Público para o Planeta Atlântida. Tem mesmo?

Quarta-feira passada, dia 13/2, o jornal Zero Hora publicou um “A Pedido” em nome de uma entidade abstrata chamada “A Organização do Planeta Atlântida”. Que entidade será essa, já que o organizador de fato e de direito do evento musical é a conhecida “RBS Eventos”, uma empresa de espetáculos do grupo RBS?

Mas temos outra dúvida: o texto do “A Pedido”, no seu último parágrafo (leia a transcrição abaixo) informa que “o Planeta Atlântida conta com o apoio e fiscalização do Ministério Público...”. Fiscalização é possível, mas “apoio”? Como assim “apoio”? Operacionalmente, como se configura esse alegado “apoio” do MP ao evento musical da RBS e que tem como “patrocinador oficial” uma conhecida marca de cerveja? E as demais instituições públicas (Brigada, Secretaria de Segurança, Polícia Civil e Conselho Tutelar) também dão “apoio”? De que forma o fazem?

Seguinte: a nota pública da RBS, ainda que semi-encoberta por essa entidade abstrata chamada “A Organização do Planeta Atlântida”, é uma escancarada medida preventiva, certamente orientada pelo setor jurídico da empresa, com a finalidade de precaver-se de acontecimentos acidentais e imprevistos negativos, bem como de eventuais processos provocados por pais e responsáveis cujos filhos/filhas menores resultarem feridos ou abalados psicológica e moralmente no mega evento do Litoral. Afinal, o evento é “patrocinado oficialmente” (como se refere toda a divulgação midiática) por uma empresa que comercializa bebida alcoólica junto a um público-alvo formado maciçamente por crianças, pré-adolescentes e adolescentes.

Resta-nos a estranheza de verificar que há um franco e declarado “apoio” (pelo menos unilateralmente) de entidades públicas a um evento privado, sobre o qual recaem tantas suspeitas. O MP apóia mesmo o evento? Em caso positivo, de que forma e com que meios?

A PEDIDO

[...]

O Planeta Atlântida conta com o apoio e fiscalização do Ministério Público, da Secretaria de Segurança do Estado, da Brigada Militar, da Polícia Civil, do Conselho Tutelar, e, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, zela e defende a proibição do consumo de bebidas alcoólicas por menores de 18 anos.

Porto Alegre, fevereiro de 2008.

A Organização do Planeta Atlântida


Nos EUA segue a rotina dos psicopatas atiradores

Um jovem armado com uma escopeta e dois revólveres entrou atirando ontem num auditório da Universidade do Norte de Illinois, em DeKalb (100 km ao norte de Chicago), nos EUA, matando pelo menos cinco pessoas - quatro das vítimas são mulheres - e ferindo 17, antes de se suicidar. O estado de seis dos feridos é grave, segundo diversas agências internacionais de notícias.

Nos últimos sete dias, nos Estados Unidos, aconteceram cinco eventos desta mesma natureza (sem falar que isso quase já virou rotina histórica): indivíduos transtornados de posse de armas de fogo disparam em inocentes, aparentemente sem nenhum motivo, a não ser um acentuado grau de perturbação psicológica.

Imagine se esse fenômeno acontecesse com assiduidade na Venezuela ou em Cuba, o que diria o PIG?


Dom Cappio diz que governo faz propaganda enganosa

O bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, disse ontem que o governo “faz propaganda enganosa” ao informar que a transposição do Rio São Francisco servirá para acabar com a falta de água que atinge as populações por onde os canais vão passar.

“O projeto de transposição tem fins econômicos, para a produção de frutas para exportação e criação de camarão em cativeiro; para incremento do capital. Se esse projeto fosse para dessendentação [saciar a sede] humana e animal eu seria a favor, mas esse não é o objetivo”, disse o bispo.

Sobre a possibilidade de o projeto gerar desenvolvimento econômico e social na região, dom Cappio afirmou que isso deveria estar em segundo plano. “Primeiro é garantir água para quem tem sede e depois o multiuso do rio.”

Para o bispo, que já fez greve de fome contra a transposição, antes de distribuir a água do São Francisco é preciso fazer a revitalização corretamente. “Primeiro, vamos revitalizar o rio, porque anêmico não doa sangue. Vamos garantir a vida dele [do rio] para depois garantir o multiuso.”

Dom Cappio (foto) participou de audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado para discutir o Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional. Também foram convidados para os debates o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), que era ministro da Integração Nacional quando o projeto foi lançado. A informação é da Agência Brasil.


São as contas de campanha, estúpido!

Seguem as manobras tucanas na Assembléia para abafar a CPI do Detran. Ontem, o deputado Troca (PSDB), relator da comissão, acusou o deputado Fabiano Pereira (PT), presidente da mesma, de estar querendo “politizar a CPI” que investiga o desvio de 40 milhões do Detran por cinco longos anos.

Isso me lembra uma história que eu contei aqui, meses atrás. Um deputado do antigo grupo autêntico do velho MDB teve cassado seus direitos políticos por dez anos pela ditadura militar. Tempos depois, após uma briga doméstica com a própria mulher, indignada e portadora de poucas luzes, recebeu desta uma grave ameaça: - Vou denunciar à Polícia Federal que você foi cassado!

O deputado Troca está replicando a estupidez da mulher do emedebista cassado. No afã de arrastar pedras e montanhas para o caminho do bom andamento da CPI, a base yedista não hesita em lançar mão dos expedientes e argumentações as mais desesperadas.

Guardam com zelo e fidelidade canina o reduto proibido, onde as investigações desta CPI jamais poderão entrar: as contas da campanha eleitoral da então candidata Yeda Crusius ao Piratini. Não é por nada que o relator tucano quebra todas as lanças para deixar de fora da CPI dois personagens centrais na arrecadação de recursos em 2006, o guarda-espalda e faz-tudo da candidata Yeda, Lair Ferst (na foto, sério ao lado de Yeda, na campanha eleitoral de 2006), e o sombrio líder do PP, Antonio Dorneu Maciel, que, até a sua prisão em 2007, ocupava uma importante diretoria da estatal CEEE.

O mico, que o deputado Adílson Troca está pagando ao passar atestado de bronco, grita a plenos pulmões:

- São as contas de campanha, estúpido!

......

Em Tempo: a Polícia Federal irá concluir o inquérito que investiga o desvio de 40 milhões do Detran/RS - a chamada Operação Rodin – no próximo dia 3 de março, para desespero do palácio Piratini.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008


Comentário ao filme “Batismo de Sangue”

Culpa, cigarros e pau-de-arara

Ontem, finalmente consegui assistir ao filme “Batismo de Sangue” (2007), do diretor mineiro Helvécio Ratton, roteirizado a partir do livro homônimo de Frei Betto (1983).

Um filme tecnicamente bem realizado, com uma reconstituição de época onde é difícil se encontrar defeitos (talvez na churrascaria cênica de São Leopoldo, duvido que já existisse o tal rodízio de assados por volta de 70) e onde todos fumam cigarros compulsivamente, o tempo todo. A fotografia é boa (ganhou prêmio no Festival de Brasília) mas de textura irregular, em cenas no interior da França, onde o protagonista Frei Tito acaba seus dias (num convento dominicano construído a partir de um projeto de Le Corbusier), ela se modifica de súbito.

Quero dizer que não li o livro do Frei Betto. Por isso mesmo só posso comentar o filme, tão somente. Não sei o motivo, talvez apenas uma cisma, mas eu imaginava que o livro/filme tratasse de forma mais abrangente o tema da luta armada. Não é nada disso, o objeto narrativo gira em torno dos religiosos dominicanos, mais precisamente sobre o jovem frade Tito de Alencar Lima, cuja história acaba numa tragédia pessoal devastadora. A coisa é tão dramática, crua e profunda que eu temo que o filme não tenha podido alcançar o subterrâneo no qual foi se afundando Frei Tito. Precisaríamos, talvez, de um Ingmar Bergman para dar conta dessa empreitada.

São muitas as camadas de material objetivo e subjetivo que encobrem o lento e inexorável resvalar de Tito para a tragédia pessoal – políticos, religiosos e psi. Não sei qual o juízo do inteligente e preparadíssimo Frei Betto sobre o assunto, mas o seu colega Tito convenceu-se (delirantemente) de que havia cometido um animicídio – no qual o indivíduo imagina ter perdido a alma por ter pecado. Tito incorpora a tortura sofrida pela repressão do Estado, através dos agentes Fleury, Raul Careca e Pudim, e esta torna-se autônoma dentro de si, contando com a inestimável contribuição da inefável e onipresente categoria da culpa judaico-cristã – essa quase instituição Ocidental promotora de sofrimento e auto-repressão aos “mansos e humildes de coração”.

Num dos diálogos, em Paris, Tito diz a seu colega que já não acreditava em mais nada: “Nem Cristo, nem Marx, nem Freud”. O “Mal-Estar na Civilização” conciliado com o mistério da Santíssima Trindade, seria isso?

De fato, um coquetel explosivo, tanto mais se estiver turbinado por continuadas sessões de pau-de-arara, onde – para muito além do massacre físico – era visada a destruição da identidade mesmo do sujeito. Na tortura física acontece a desconstituição dos simbolismos e das sublimações intelectuais (e religiosas) e o desmoronamento das representações idealizadas do nosso próprio eu. A tortura não é somente um moedor de carnes, seria uma redução compreendê-la assim, mas sobretudo um moedor de almas.

Quando a irmã de Tito vai visitá-lo, preocupadíssima, na França, este não a recebe. Alega, mal abrindo uma fresta na porta, que o delegado (torturador) Fleury estava vigiando-os. Tito, neste momento, é uma nova persona (Jung), criado por Fleury, Raul Careca e Pudim - em última instância, também pelo impostor general Médici.

É o ponto mais alto da chamada tortura exitosa: a anulação do sujeito e a substituição por uma nova identidade, agora ressignificada por uma brutal e implacável autocrítica, quase que admitindo que a repressão dos agentes públicos tem de fato sentido. E para Tito, tinha mesmo sentido, o que deixa de ter sentido é a sua própria vida. Por isso ele não hesita em abreviá-la. Está autorizado pelos seus novos senhores, os que povoaram a sua alma tripulando a sua própria culpa.

De resto, o filme fica devendo uma reflexão mais politizada sobre o processo da luta armada conduzida por setores importantes da esquerda brasileira no final da década de sessenta e início da década de setenta. É mais uma peça memorialística do nosso conflito social recente que não ousa fazer um balanço sobre o conjunto da sua própria obra.

Mas ainda há tempo, se a Espanha, que viveu a sua sangrenta guerra civil na década de trinta, ainda não esgotou essa fonte narrativa e reflexiva, nós brasileiros temos muitas histórias para contar e janelas para abrir.

“Batismo de Sangue” pode ser visto em Porto Alegre, na sala do Santander Cultural, sempre às 15h, até sábado. O ingresso custa 3 reais. Recomendo.


A escritora Doris Lessing diz que Obama não duraria muito como presidente

Riscos ignorados

Foi mais uma boa terça-feira para Barack Obama, e uma semana muito ruim para Hillary Clinton. O senador Obama venceu com facilidade as primárias nos Estados de Virgínia e Maryland, bem como no Distrito de Colúmbia, e agora passou à frente na disputa pela indicação democrata. Contrariando as chances históricas, um norte-americano negro se tornou um dos principais candidatos à Presidência dos Estados Unidos. O senador Obama baseou toda a sua campanha em uma suposição básica e consistente. Em suas palavras, "acredito que os Estados Unidos estejam prontos". Ou seja, prontos para eleger um presidente negro.

Mas será que estão de fato? Existe uma preocupação quanto a Obama que não vem sendo discutida. Ou pelo menos não vinha sendo discutida até que Doris Lessing, 88, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura do ano passado, a expressasse em voz alta: "Ele provavelmente não duraria muito, um homem negro na posição de presidente. Eles o assassinariam", ela declarou em entrevista a um jornal sueco. Muitos afro-americanos compartilham dessa preocupação.

O que está em questão quanto a isso é menos a história racial dos Estados Unidos do que a história de violência política e a onipresença das armas de fogo no país. Desde 1865, houve nove assassinatos ou tentativas de assassinato contra presidentes norte-americanos.

Quatro delas obtiveram sucesso: contra os presidentes Lincoln, Garfield, McKinley e Kennedy. As cinco tentativas mal-sucedidas tiveram por alvo os presidentes Theodore Roosevelt, Franklin Roosevelt, Truman, Ford e Reagan.

Entre os líderes negros atacados, Martin Luther King e Malcolm X foram assassinados, e Vernon Jordan sobreviveu. Tentativas de assassinato durante campanhas presidenciais causaram a morte de Robert Kennedy e ferimentos graves a George Wallace, que sobreviveu, paraplégico.

O verdadeiro perigo de todos esses casos, porém, nunca foi uma conspiração; não estava na ameaça representada pelo "eles" indefinido, contra os quais Lessing alerta, e sim em um assassino isolado e obsessivo, que é quase impossível identificar com antecedência ou deter no momento em que decide atacar. A triste verdade é que conspirações são mais fáceis de detectar do que a ação de um atirador solitário decidido a conquistar um lugar na história. Os Estados Unidos produziram e continuam a produzir muitos indivíduos perturbados desse tipo. Por isso Doris Lessing tinha razão ao dizer o que disse.
Ninguém que conhece os Estados Unidos deveria subestimar o risco.

Artigo do historiador britânico Kenneth Maxwell, publicado hoje na Folha.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008


Maitena Inés Burundarena


A rede varejista francesa é um dos maiores anunciantes do PIG

Rede Carrefour explora a pecuária do desmatamento

A rede Carrefour acaba de lançar, na imprensa nacional, a campanha e caderno "Eu uso a cuca", contendo "dez mandamentos" para seus clientes. O décimo reza: "Escolha empresas comprometidas com o desenvolvimento sustentável". Mas, pelas informações disponíveis até o momento, parece difícil para o consumidor implementar este mandamento nos supermercados da rede, pelo menos no que diz respeito aos produtos da Amazônia.

O Carrefour possuia até 2007 mais de 100 mil cabeças de gado na Amazônia Legal, cujo abate é realizado em parte pela Friboi e cuja origem parece ser, em sua maioria, ilegal. Quem o sugere é o próprio Carrefour, em seu site. Das várias fazendas que possuia, a empresa menciona apenas aquela supostamente melhor em termos de desempenho ambiental, isto é a São Marcelo, em Juruena, no Noroeste de Mato Grosso. Eis o que consta no site da rede varejista: "Só para se ter uma idéia, da importância que o Carrefour dá ao tema, quase a metade da Fazenda São Marcelo, no Mato Grosso, tem suas matas nativas totalmente intocadas."

Na realidade, as fazendas de gado da rede Carrefour, no Mato Grosso, foram vendidas no segundo semestre de 2007 para a viúva e filhos do fundador da rede, o francês Jacques Defforey. Mas o site da rede varejista continua mencionando a São Marcelo como de propriedade do Carrefour. De qualquer forma, a produção das fazendas continua sendo adquirida pela rede, conforme apurou o site Amazônia.

Se "quase a metade" da fazenda São Marcelo tiver ainda mata nativa - admitindo portanto que ela tenha aproximadamente 40% de cobertura florestal - metade da produção adquirida pelo Carrefour desta fazenda seria ilegal, pois o mínimo que a lei exige nesta região é uma cobertura florestal de 80%.

O Carrefour nem sequer menciona as outras fazendas. Entre elas há a Vale do Sepotuba e a Matovi, que possivelmente devem apresentar indicadores de ilegalidade maiores, pois nem sequer aparecem na lista "Garantia de Origem" do mesmo site. De acordo com informações divulgadas pela Secretaria de Comunicação do Estado de Mato Grosso, a fazenda Vale do Sepotuba teria 4.300 hectares, dos quais seriam preservados apenas um quarto, ou seja 1.104. Já no caso da Matovi, de 1.200 hectares, apenas 160 seriam mantidos como reserva. Ainda de acordo com o site da SECOM/MT, o grupo teria também parceria com outros 15 pecuaristas no Estado, além de arrendar mais fazendas nas regiões de Juína e Juruena.

Dessa forma, na mais otimista das interpretações, a rede teria, por sua própria admissão, a maioria de seu fornecimento bovino da região oriundo de práticas ilegais. Além disso, o Carrefour não divulga ter adotado qualquer sistema de controle da legalidade ambiental de fornecedores terceiros.

Mas o dever de casa que a rede terá de cumprir, caso deseje se enquadrar em seus próprios mandamentos, vai muito além da questão da carne. De acordo com Karina Aharonian, gerente do Grupo de Compradores de Produtos Florestais Certificados, o Carrefour também não faz parte até hoje desta associação empresarial, que reúne as empresas que buscam madeira, carvão, papel, castanhas e outros produtos com certificação de origem pelo FSC. Da mesma forma, no site da empresa não consta qualquer compromisso relacionado com a certificação florestal, ou até mesmo uma priorização de tais produtos perante seus fornecedores. O Grupo de Compradores relata que têm recebido algumas demandas para a compra de produtos certificados pela matriz do Carrefour, na França, mas nada por parte da empresa no Brasil, até o momento.

Pescado totalmente do ótimo portal Amazônia.org


RBS dá a linha política na CPI do Detran

Se algum ingênuo ainda guardava dúvida sobre o caráter político-orgânico militante da jornalista Rosane de Oliveira no jornal Zero Hora (grupo RBS), a partir de hoje pode começar a dissipá-la. A senhora Oliveira está dando a linha política para o procedimento (por ora vacilante) dos deputados governistas na incômoda CPI do Detran.

Imperativa, ela aponta que o inquérito deve buscar “investigação de A a Z” - o título de sua principal nota política hoje, praticamente uma “ordem do dia” de caserna militar.

Mas afinal, no que se baseia a militante da RBS para determinar, de forma perempta e autoritária, que os deputados da CPI do Detran devem investigar também a letra O (de Olívio)? Ora, se fixa numa ação do Ministério Público remetida ao Judiciário, referente a supostas irregularidades no Detran, ainda em 2002.

E quando mesmo o MP entrou com a ação civil pública no Judiciário? Em 26 de dezembro de 2007. Valor monetário do objeto da suposta irregularidade, corrigido (ZH não informa como foi feita essa correção): 637 mil reais.

No texto da matéria, o jornal do bairro Azenha – candidamente – admite que a informação “veio a público agora, na esteira do escândalo que envolve as últimas administrações do Detran”. Que meigo! “Veio a público agora”!

O palácio Piratini e a governadora Yeda não precisam de Secretaria de Comunicação. Poderiam dispensar esse aparato oneroso para o quebrado Tesouro estadual. Para quê sangrar mensalmente o orçamento público com despesas de comunicação social, se o grupo RBS presta serviços da mesma natureza com vantagens comparativas bem mais competitivas?

Nem a própria governadora em carne e osso (a pobre!, com aquele discurso indigente lido na abertura do ano legislativo, dias atrás) faria trabalho tão eficiente: desfocar o maior escândalo de corrupção pública do Estado, que envolveu o desvio comprovado de 40 milhões de reais, durante cinco anos seguidos, em governos de direita, e focar em supostas irregularidades episódicas envolvendo somas quase inexpressivas face aos desvios perpetrados por militantes e dirigentes de inúmeros partidos que apoiam a governadora Yeda Crusius.

Essa manobra insólita e ridícula da coligação RBS/governo Yeda só demonstra o quanto o tema “corrupção no Detran” incomoda o projeto da direita no RS, e o quanto ele deve ser investigado pelos deputados de oposição, a fim de que seus resultados sejam expostos (e politizados) a toda a comunidade do Rio Grande do Sul.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008






As representações narrativas do Maio de 68

Nesta entrevista de 23 minutos a professora de marxismo, a norte-americana, Kristin Ross fala da desfiguração das narrativas sobre os eventos de maio de 68 na França. Ela diz que os acontecimentos revolucionários daquele ano febril são reduzidos e deformados na sua essência pela mídia e o establishment de tal forma que chegam a nós como uma mera mobilização de estudantes por liberdades sexuais, nada mais.

A entrevista foi conduzida (corretamente) pelo jornalista Jorge Pontual, da Globo News. (Este jornalista prova que, mesmo trabalhando na casa do diabo, não se precisa confraternizar e privar com ele todos os dias, e muito menos ser o seu porta-voz.)

Assista aqui (direto no seu player), ou aqui, (via portal da Globo).


Processo contra Nassif é ameaça do PIG

Lauro Jardim e Eurípedes Alcântara, editores de Veja, decidiram processar o jornalista Luis Nassif por conta de uma série de artigos que ele está publicando em seu blog.

A dupla não contesta as matérias de Nassif e nem pede direito de resposta. Só decidiu que vai aos tribunais.

Vejam como são as coisas. Veja é aquela revista que acusa sem provas e fontes a todos os movimentos e pessoas que não convém aos interesses dos investidores da Editora e aos seus estafetas de plantão (perdão, estafetas!).

É aquela revista das caixas de uísques que vieram repletas de dólares de Cuba. Lembram? E da suposta conta do presidente no paraíso fiscal. Vou ficar nisso só para citar duas matérias que ouviram vozes do além. E eram repletas de acusações.

Veja também é publicação que decidiu espicaçar com o biógrafo de Che Guevara, o jornalista estadunidense Jon Lee Anderson. Fez isso tanto no blog da revista, de forma estapafúrdia, como na edição impressa. Tudo porque Anderson negou que seu livro dissesse o que revista disse que o tal livro dizia. Inusitado, né? Mas nada surpreendente quando se trata de Veja.

Como também não é surpreendente que a revista divulgue que não vai processar Nassif. Que quem vai processá-lo são seus jornalistas. Eles ficaram bravinhos com a história revelada no blog do colega e comunicaram à empresa a decisão tomada. [...]

Esse processo não é contra o Nassif. É muito mais do que isso. É uma grave ameaça à liberdade de imprensa na internet. E está sendo movido com algum bom dinheiro para calar a boca daqueles que não fazem o coro do cantadores de uma nota só. É para intimidar.

Outros colunistas já começaram a acusar os sites e os blogues. É um jogo orquestrado. Podem escrever, outros tantos colunistas penas-de-patrão vão gastar muito papel para dizer que a internet virou uma terra sem lei. Um vale tudo. E que nós (os canalhas), a estamos usando contra gente do bem (eles). [...]

Pescado totalmente do blog do Rovai.


A nova aliança interna do PT

A Articulação, o grupo que antes dominava o chamado Campo Majoritário, fez 43% dos votos nas eleições petistas do final do ano passado. Para constituir a nova maioria, tinha como opções de aliança o "pessoal da Marta" (Marta Suplicy, ministra do Turismo), na pessoa do deputado Jilmar Tatto, segundo colocado na eleição, e o grupo do ministro Tarso Genro, que ficou no terceiro lugar, na contagem final dos votos.
Pela lógica tradicional petista, essa aliança se daria com o segundo colocado, Jilmar Tatto, que ficaria com a Secretaria Geral do PT, além de indicar um dos três vices-presidentes. Mas um acordo com Tatto era sinal de que nada iria mudar. Os métodos do "pessoal da Marta" são conhecidos em São Paulo, como o pagamento de transporte para eleitor ou delegado partidário em dia de votação, para ficar num exemplo simples.
Referendaram esse raciocínio o deputado Ricardo Berzoini, que se reelegeu para a presidência do PT, o assessor para assuntos internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia, eleito um dos três vices-presidentes, e também o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, que não interveio nos debates do Diretório Nacional, mas conversou muito nos bastidores.
A opção foi o deputado José Eduardo Cardozo (SP), o candidato que personificou a mensagem da refundação formulada por Tarso Genro. Tatto ficou sem nada, Marta levou uma das vice-presidências e o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, à frente de uma outra tendência, indicou Romênio Pereira para a secretaria de Assuntos Institucionais.
Poucos petistas acreditavam que isso pudesse acontecer, sobretudo porque José Eduardo Cardozo é persona-non-grata no grupo Articulação, que o considera individualista, alguém que costuma fazer nome às custas de críticas ao PT. Sem falar que Lula também não o tem na mais alta conta. Mas ao oferecer-lhe a Secretaria Geral, a Articulação diz que fez uma profissão de fé nas mudanças, um novo pacto no qual o batismo foi a aliança com a Mensagem (como se denominou o grupo de Genro) e o crisma, a eleição de José Eduardo Cardozo.
É reducionismo dizer que Genro se aliou ao grupo de José Dirceu. Segundo todos os testemunhos, "Zé não incidiu nesse assunto" - não foi à reunião do diretório, não se manifestou por telefone e nem seus cabos-eleitorais deram pitacos. Quando a Articulação diz que quer mudar o método, está fazendo uma crítica a Dirceu. Na prática, Genro se tornou o fiador e Cardozo o símbolo da promessa de mudança.
O tempo dirá sobre a firmeza das anunciadas convicções petistas. De imediato, as primeiras providências da nova direção parecem indicar que pouco ou quase nada mudou. Uma delas é a abertura do debate sobre a economia com a equipe econômica, no Diretório Nacional, para discutir a situação econômica. Desde a queda da CPMF até metas fiscais e taxa de juros.
A equipe econômica é acusada de ter custado a negociar a CPMF com o Congresso, e quando acordou, já era tarde demais. Pode sair daí uma proposta para compensar o imposto do cheque. A conta que o PT faz é que o governo perdeu R$ 120 bilhões (R$ 40 bilhões por ano, até a eleição de 2010), que farão falta e levarão fatalmente a cortes nas verbas do PAC.
O texto da segunda decisão foi amenizado para não despertar a curiosidade da imprensa. Na forma definitiva, diz que o PT vai discutir a política de alianças, nas eleições municipais de outubro, em reunião do Diretório Nacional. Ponto. O texto inicial tinha uma vírgula. Depois dela dizia que as alianças atualmente em negociação serão consideradas inexistentes.
A resolução é um recado direto ao prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, que conversa com o governador Aécio Neves sobre a escolha de um candidato comum a PT e PSDB. Pimentel pode conversar com Aécio por sua conta e risco. O que os dirigentes dizem é que as negociações em marcha nada significam até a reunião do Diretório. Nada mais déjà vu.

Artigo do jornalista Raymundo Costa, publicado hoje no jornal Valor.

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Foto: Ex-deputado petista Professor Luizinho (formado em Matemática por uma faculdade do município paulista de Ribeirão Pires), ex-sindicalista e considerado por muitos como a personificação, o physique du rôle, do chamado “homem novo petista”. Com essa “nova” aliança interna, o PT considera certamente que purgou todos os seus erros, deficiências e omissões e poderá, assim, voltar a construir o “homem novo petista”.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008


Fascismozinhos ordinários

Esse curtíssima-metragem (9 minutos) do diretor francês Jean-Gabriel Périot está imperdível. Retrata com imagens de época a França no verão de 1944, quando os nazistas já haviam sido expulsos do território francês e a população se regozijava com o feito. É quando explodem os “fascismozinhos ordinários”, de que falava Michel Foucault, referindo-se ao pequeno repressor que trazemos dentro de nós e que extravasa no cotidiano familiar, no trabalho, no trânsito e nas situações mais corriqueiras, caso não seja reprimido com muita consciência política, mecanismos de sublimação intelectual, educação & cultura.

No filme de Périot as vítimas são mulheres acusadas (pelo senso comum) de terem tido algum tipo de relação com os nazistas durante a ocupação das tropas hitlerianas – não sem o colaboracionismo de parcelas importantes da burguesia e de dirigentes locais. É um vastíssimo tema, mas que neste curta está focado no caso específico de mulheres indefesas e que foram covardemente expostas ao opróbrio e à execração pública, de forma inapelável e simplificadora (foto de Marselha).

Repugnante. Como diz o Mello (de onde eu pesquei a dica do documentário): os nazistas se foram, mas o nazismo ficou.

Veja o filme aqui. São apenas nove minutos.



Carta Capital é a única revista que cresceu em 2007

Uma pesquisa do instituto Marplan mostra que a Carta Capital foi a única revista brasileira a crescer em número de leitores em 2007. No levantamento entre outubro de 2006 e outubro de 2007, o número de leitores da Carta Capital cresceu 15%.

Outras revistas brasileiras, concorrentes da Carta Capital, apresentaram queda no número de leitores, coincidentemente, todas essas revistas que entraram em declínio são integrantes do PIG (Partido da Imprensa Golpista, como diz Paulo Henrique Amorim). Veja caiu 9%, IstoÉ caiu 18% e IstoÉ Dinheiro caiu 34%.

Segundo Paula Kenan, diretora comercial da revista criada pelo jornalista Mino Carta, o crescimento da base de leitores da Carta Capital no Rio de Janeiro foi de 108% e em Salvador foi de 100%. Ela disse que o crescimento do número de leitores representa também um crescimento do faturamento comercial da revista.

"Sem dúvida. No ano passado nós tivemos um crescimento de 18% no faturamento de publicidade e a circulação teve um crescimento (venda de revistas em banca e novas assinaturas) de 35%", disse Paula.

A Carta Capital tem uma tiragem de quase 80 mil exemplares por mês, que são distribuídos da seguinte maneira: 60% - assinaturas e 40% - venda em bancas.

A tiragem da revista Carta Capital é verificada pelo IVC (Instituto Verificador de Circulação). A pesquisa do Instituto Marplan não foi encomendada pela Carta Capital. É um estudo divulgado para o mercado, que compra quem quiser.

Revista

Desempenho (número de leitores)

Carta Capital

+ 15%

Exame

- 7%

Veja

- 9%

Época

- 15%

IstoÉ

- 18%

IstoÉ Dinheiro

- 34%

Pescado daqui.


Agronegócio dita as regras do desmatamento e do trabalho escravo

Travada pela burocracia oficial há mais de dez anos, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determina a expropriação de terras onde for constatada exploração de trabalhadores em condições análogas às de escravidão poderá contribuir para a redução desse tipo de crime no país quando for aprovada. Entretanto, a força dos ruralistas impede que a PEC se transforme em lei. A informação está no Jornal do Brasil, de ontem.

Para Marcelo Campos, coordenador do Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho, a PEC ainda não foi aprovada pois existe um lobby muito forte da bancada ruralista no Congresso. Campos diz que o governo quer aumentar o número de operações para combater a mão-de-obra escrava. No ano passado, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel bateu o recorde de operações desde 1995, com 114 ações e 5.963 trabalhadores libertados.

“A emenda tem valor simbólico, mas deve haver também funcionamento da Justiça” – protesta Xavier Plassat, da CPT. Para o ativista, falta uma política pró-ativa para quebrar de uma vez por todas o ciclo da escravidão no Brasil. Para isso, alerta, é preciso que se dê "outras alternativas e opções para o trabalhador sobreviver. A principal ação é libertar os trabalhadores, já que trabalho escravo não se erradica facilmente no país” - observa Plassat.

Há uma reincidência tanto na prática do trabalho escravo quanto no desmatamento, pois as condições que levaram a ambas condições continuam as mesmas e o ciclo recomeça.

Enquanto o agronegócio dita as regras do desmatamento e do trabalho escravo, a troca de farpas entre os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente aumenta. “Cada ministério joga a culpa em outro, quando deveria haver um acordo. Tem de ser uma questão de política pública com o compromisso ambiental” – completa o militante da CPT.

A omissão e o descaso do governo Lula para com o trabalho escravo e o aumento geométrico do desmatamento indicam uma vitória das oligarquias do agronegócio, em duas questões tão antigas quanto a idade do Brasil.



Especulações petistas em Porto Alegre

O ministro dos Esportes, Orlando Silva (PCdoB), estaria por um fio no cargo, atingido por uma tapioca mal digerida. Com isso, correm soltas e febris as especulações em Porto Alegre. Para o cargo ministerial do ex-presidente da UNE, estaria sendo convidada a deputada federal Manuela D`Ávila, também do PCdoB.

Um arranjo astucioso que facilitaria a vida do PT na sucessão municipal em Porto Alegre. Afastada Manuela, que cairia para cima, como se diz, além de amadurecer melhor o seu verdor executivo, o caminho para a coligação PT/PCdoB estaria asfaltado, diminuindo as dificuldades petistas para a volta ao Paço Municipal através da reconstituição da velha Frente Popular, vitoriosa por 16 longos anos na Capital.

sábado, 9 de fevereiro de 2008


Uma festa de massa

Tenho um amigo mineiro que durante a ditadura viveu na França. Trabalhava na imprensa do PC francês. Todos os anos ele participava da festa de aniversário do PC italiano. Um festaço, segundo relatava esse meu amigo. Durava cerca de uma semana e compareciam milhares de militantes, eleitores e simpatizantes. Uma festa de massa. Havia festivais de música pop, regional, erudita, de dança, etc. Festival gastronômico. Festival de cinema e teatro. Seminários, encontros e festa, muita festa. Funcionava como um congraçamento anual de companheiros de várias regiões do país, da Europa e do mundo. Um momento de recompor o caixa das finanças do partido.

Estamos falando dos anos 70/80. Tudo isso terminou, porque terminou o PCI, hoje subdividido em três outras organizações políticas: Democratici di Sinistra, Partito della Rifondazione Comunista, e Partito dei Comunisti Italiani. Todos pequenos e sem a expressão que teve o velho PCI que por várias vezes arranhou a conquista do poder formal na Itália. O PCI chegou a ter como secretário-geral nada menos do que Antonio Gramsci e depois Palmiro Togliatti. Isso não é para qualquer um.

O stalinismo primeiro, até a década de 50, seguido da guinada social-democrata à direita, chamado de Eurocomunismo, formulado pela estratégia do famoso “Compromisso Histórico” (uma aliança com a forte democracia-cristã) foram minando definitivamente as forças do PCI até o final melancólico na década de 90. O PCI chegou a ter dois milhões de filiados numa Itália de menos de 40 milhões de habitantes, e detinha cerca de um terço do eleitorado da península. Uma potência. Mas, como alguém já disse, tudo que é sólido desmancha no ar, o que foi sagrado é profanado...

Lembrei disso tudo hoje, quando li que o PT festejará seus 28 aninhos (e já está no poder formal da República há cinco) em uma galeteria e casa de massas – cuja capacidade não passa de 80 comensais – no bairro Floresta, em Porto Alegre. O nome do restaurante tipo italiano é "Mamma Mia".

Mamma Mia!



Um Hussein na Casa Branca?

Obama é excelente orador. Parece falar uma língua diferente, tem o idealismo reformista de Martin Luther King e John F. Kennedy e por isso corre sério risco de ser assassinado. A sua campanha tem reminiscências da mobilização a favor da integração racial encabeçada por Luther King e chegou ao coração dos negros, muitos hispânicos, muitos brancos e até mesmo muitos republicanos jovens. Já houve quem comparasse as presidenciais 2008 com as de outros momentos de incerteza econômica e desencanto: 1932, quando Franklin Roosevelt expandiu as suas medidas sociais e 1960, quando John F. Kennedy ergueu a tocha de uma nova esperança e um novo idealismo.

Filho de um africano e uma branca do Kansas, de origem nórdica, Obama passou parte da infância na Indonésia, que abriga a maior comunidade muçulmana do mundo. Freqüentou Harvard, a melhor universidade do mundo, tal como sua mulher, Michelle. É advogado, mas em vez de fazer fortuna trabalhando numa firma de advogados de New York ou Boston, preferiu passar dez anos defendendo os direitos de marginais e indigentes nos bairros pobres de Chicago.

A questão racial é um tema espinhoso que os candidatos tratam com extrema cautela com medo de assustar eleitores dessa raça e daí a cor de Obama ainda não ter vindo à baila nos comícios, mas o mesmo já não se pode dizer da religião. Quando Obama viveu na Indonésia, freqüentou uma madrassa (escola religiosa islâmica), o que deu origem ao boato de que era muçulmano ou teria um passado muçulmano. Ainda por cima, chama-se Barack Hussein Obama Jr., muitos americanos temem nomes muçulmanos e islâmicos e parece impensável um Hussein na Casa Branca. Obama tem tentado corrigir a falsa idéia de que seja muçulmano, mas as suspeitas estão lançadas e não é difícil adivinhar quem espalhou o boato, constando que o senador Ted Kennedy puxou mesmo as orelhas de um tal Bill Clinton.

Se porventura Obama vier a ser o candidato democrata haverá grande rebuliço. É capaz de surgir logo um movimento para defender a candidatura da Oprah Winfrey, que além de ser mais rica do que todos os candidatos democratas e republicanos juntos, resolveria de uma vez por todas a questão da primeira mulher presidente e do primeiro presidente negro.

Trecho de um artigo do jornalista português Eurico Mendes, publicado no "The Portuguese Times" do Massachusetts, EUA.

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